300px|thumb|Agesandro, Atenodoro e Polidoro: Grupo de Laocoonte,
A escultura helenística representa uma das mais importantes expressões da cultura helenística, e o estágio final da evolução da tradição grega de escultura na Antiguidade. A definição de sua vigência cronológica, bem como de suas características e significado, têm sido objeto de muita discussão entre os historiadores da arte, e parece que um consenso está longe de ser alcançado.RIDGWAY, Brunilde (2001). Hellenistic sculpture I. University of Wisconsin Press. pp. 3-6 Usualmente se considera o período helenístico compreendendo o intervalo entre a morte de Alexandre, o Grande, em , e a conquista do Egito pelos romanos em .Hellenistic Age. Encyclopaedia Britannica online. Consulta em 11 abril de 2009 Suas características genéricas se definem pelo ecletismo, secularismo e historicismo, tomando como base a herança da escultura grega clássica e assimilando influências orientais.Western sculpture: Hellenistic period. Encyclopaedia Britannica online. Consulta em 11 abril de 2009
Entre suas contribuições originais à tradição grega de escultura estão o desenvolvimento de novas técnicas, o aperfeiçoamento da representação da anatomia e da expressão emocional humanas, e uma mudança nos objetivos e abordagens da arte, abandonando-se o genérico pelo específico. Isso se traduziu no abandono do idealismo clássico de caráter ético e pedagógico em troca da enfatização dos aspectos humanos cotidianos e do direcionamento da produção para fins puramente estéticos e, ocasionalmente, propagandísticos. A atenção dada ao homem e em sua vida interior, suas emoções, seus problemas e anseios comuns, resultou num estilo realista que tendia a reforçar o drama, o prosaico e o movimento, e com isso aparecendo os primeiros retratos individualizados e verossimilhantes da arte ocidental. Ao mesmo tempo, ocorre uma grande ampliação da temática, com a inclusão de representações da velhice e da infância, de deidades menores não-olímpicas e personagens secundários da mitologia grega, e de figuras do povo em suas atividades diárias.Hellenistic Greek Sculpture. Encyclopedia of Irish and World Art.RIDGWAY, Brunilde (2001). p. 10
O gosto pelo historicismo e a erudição que caracterizou o período helenístico se refletiu na escultura de forma a incentivar a produção de obras novas de índole deliberadamente retrospectiva, e também de cópias literais de obras antigas, especialmente em função da ávida procura por composições célebres classicistas de parte do grande mercado consumidor romano. Como consequência, a escultura helenística se tornou uma influência central em toda a história da escultura da Roma Antiga. Através da Roma helenizada se preservou para a posteridade um inestimável acervo de modelos formais e de cópias de peças importantes de autores gregos consagrados, cujos originais acabaram desaparecendo em épocas posteriores, e sem as quais nosso conhecimento da escultura da Grécia Antiga seria muitíssimo mais pobre.Western sculpture: Hellenistic period. Encyclopaedia Britannica online, 22 Apr. 2009 Por outro lado, o imperialismo de Alexandre em direção ao Oriente levou a arte grega até regiões distantes da Ásia, influenciando as produções artísticas de diversas culturas orientais, originando uma série de derivações estilísticas híbridas e a formulação de tipologias escultóricas novas, entre as quais talvez a mais seminal no Oriente tenha sido a fundação da iconografia do Buda, até então vedada pela tradição budista.BANERJEE, Gauranga Nath. Hellenism in Ancient India. Read Books, 2007. pp. 74-76
Para o Ocidente moderno, a escultura helenística foi importante como forte influência sobre a produção Renascentista, Barroca e Neoclássica.WAYWELL, Geoffrey. Art. In JENKYNS, Richard (ed.). The Legacy of Rome. Oxford University Press, 1992. pp. 295-326 No a escultura helenística caiu em desprestígio e passou a ser vista como mera degeneração do ideal clássico, um preconceito que penetrou no e só recentemente começou a ser posto de lado, através da multiplicação de pesquisas atuais mais compreensivas sobre este tema, e apesar de seu valor ser ainda questionado por núcleos resistentes da crítica e seu estudo dificultado por uma série de razões técnicas, ao que parece a plena reabilitação da escultura helenística junto aos estudiosos é apenas uma questão de tempo, pois para o grande público ela já se revelou de grande interesse, garantindo o sucesso das exposições onde é mostrada.RIDGWAY, Brunilde (2001). pp. 3-ssCHAMOUX, François. Hellenistic civilization. Wiley-Blackwell, 1981-2002. p. 353GREEN, Peter. Alexander to Actium. University of California Press, 1993. p. 338RIDGWAY, Brunilde (2000). Hellenistic Sculpture: The styles of ca. 200-100 B.C.. University of Wisconsin Press, p. 4
Antecedentes
A escultura do Classicismo, o período imediatamente anterior ao período helenístico, se construiu a partir de um poderoso arcabouço ético que tinha suas bases na tradição arcaica da sociedade grega, onde a aristocracia governante havia formulado para si mesma o ideal de aretê, um conjunto de virtudes que deveriam ser cultivadas para a formação de uma moralidade forte e de um caráter socialmente apto, versátil e eficiente. Paralelamente, formulou-se o conceito de kalokagathia, que afirmava a identidade entre Virtude e Beleza. Expressando esses conceitos sob formas plásticas, nasceu um novo cânone formal, desenvolvido por Policleto e pelo grupo de Fídias, que buscava a criação de formas humanas ao mesmo tempo naturalistas e ideais, através de cuja beleza perfeita e equilibrada se pudessem perceber as virtudes do espírito.BOARDMAN, John. In BOARDMAN, GRIFFIN & MURRAY. p. 332LESSA, Fábio de Souza. Corpo e Cidadania em Atenas Clássica. In THEML, Neyde; BUSTAMANTE, Regina Maria da Cunha & LESSA, Fábio de Souza (orgs). Olhares do corpo. Mauad Editora Ltda, 2003. pp. 48-49 STEINER, Deborah. Images in mind: Statues in Archaic and Classical Greek Literature and Thought. Princeton University Press, 2001. pp. 26-33; 35
Essas ideias haviam sido reforçadas pela contribuição de filósofos como Pitágoras, que diziam ser a arte um poder efetivo, capaz de influenciar as pessoas para o bem ou para o mal, conforme se obedecia ou violava certos princípios de equilíbrio e forma. Dizia também que a arte deveria imitar a ordem divina, que se baseava em relações numéricas definidas, e se expressava na harmonia, coerência e simetria dos objetos naturais. Ele trabalhara suas ideias a partir de suas pesquisas com a matemática e a música, mas não tardou para que elas fossem aplicadas às outras artes, incentivando um uso eminentemente ético para a criação artística e fomentando valores coletivos antes do que individuais, o que a filosofia idealista de Platão corroborou com eloquência.BEARDSLEY, Monroe. Aesthetics from classical Greece to the present. University of Alabama Press, 1966. pp. 27-28
Contexto e características
O espírito da cultura helenística começou a se formar com a conquista da Grécia pelos macedônios e com as expedições militares de Alexandre para o Oriente, que levaram a cultura grega clássica até as margens do rio Indo e deram origem ao estabelecimento de diversos reinos greco-orientais. A cultura da Grécia clássica, da qual a Macedônia era dependente, era definida dentro de uma visão de mundo relativamente limitada, circunscrita à cidade-estado, a pólis. Mesmo que os gregos tenham fundado uma quantidade de colônias em torno do Mediterrâneo e do Mar Negro, e mantivessem contatos com vários outros países, sua referência cultural permanecia sendo a metrópole, cuja sociedade se pautava pela experiência de grupos definidos vivendo nas cidades mais importantes. Segundo Jerome Pollitt, "um grego clássico poderia viajar voluntariamente para buscar aventuras, mas uma vez encerrada a aventura sua intenção era retornar para a sociedade pequena, segura e familiar onde sua identidade se havia estabelecido".POLLITT, Jerome (1986). Art in the Hellenistic age. Cambridge University Press. p. 1
Com a presença macedônia em pleno solo grego, e com o espírito imperialista de Alexandre, esse mundo mais ou menos estático sofre um profundo abalo e começa a experimentar uma transformação que tornaria aquela vida tradicional e comunitária uma coisa do passado. Alexandre fundou várias cidades em suas campanhas, incentivando migrações importantes de populações gregas, incluindo milhares de artistas,TRITLE, Lawrence. Alexander and the Greeks: Artists and Soldiers, Friends and Enemies. In HECKEL, Waldemar & TRITLE, Lawrence (eds). Alexander the Great. Wiley-Blackwell, 2009. p. 129 que iam tentar a sorte em um ambiente étnico e cultural todo estranho, construindo sociedades novas cuja nota dominante era a insegurança e mobilidade, em todos os níveis. Depois de sua morte seus sucessores se engajaram em uma série de disputas de poder, provocando o colapso do império em meio a uma agitação intensa e uma perda generalizada dos antigos referenciais e expectativas da sociedade greco-macedônia. thumb|150px|A velha bêbada, , cópia romana. Museus Capitolinos.
Na direção oposta Roma iniciava sua belicosa e predatória expansão, e declinam a autoconfiança, o idealismo e os antigos valores coletivos sociais e religiosos, gerando um retraimento e desencanto nos indivíduos diante da penúria moral, do cinismo político e da violência dos tempos, aspectos que eram mascarados pela busca do mero prazer e formalizados artisticamente através de um realismo por vezes carregado de drama. A diversidade de origens dos colonos e a notória xenofobia greco-macedônia dificultavam as alianças sociais duradouras e confiáveis nas terras conquistadas, e para os artistas o mecenato estava sujeito a caprichos pessoais e frequentes oscilações no gosto da elite governante, conforme mudavam as inclinações da política. Não admira então que Plínio, um classicista, dissesse que o foi uma fase em que as artes desapareceram. Para alguns esses tempos podem ter tido um apelo excitante, mas os filósofos da época assinalam uma aguda consciência de que a fase era de grande instabilidade,GREEN, Peter. pp. 337-338POLLITT, Jerome (1986). p. 1 nascendo inclusive um sentimento velado de culpa pela derrocada dos antigos valores morais diante do novo panorama urbano mundano e corrupto, que seria a fonte de uma longuíssima tradição de busca ao retorno à vida simples, primitiva e autêntica dos camponeses, mesmo que esse retorno jamais pudesse se realizar de fato senão simbolicamente, nos periódicos revivalismos classicistas - o primeiro dos quais aconteceria já no fim do período helenístico - e dentro dos sonhos do bucolismo poético que povoam a história da arte desde aqueles tempos até os dias de hoje.GREEN, Peter. pp. 340-341