Guedê ou Guedé (Gede em crioulo haitiano) é uma família de loás do vodu haitiano associada aos poderes da morte e da fertilidade. Esses espíritos são frequentemente associados a locais de sepultamento, onde conduzem os falecidos ao pós-vida. Entre os espíritos Guedê estão Guedê Doub, Guedê-Linto, Guedê L'Orage, Guedê Oussou, Guedê Nibo, Guedê Masaka e Guedê Ti Malice. Seus ritos são acompanhados pelo ritmo de percussão e pela dança conhecidos como banda (pronuncia-se "bandá"). Durante estados de possessão, seus devotos bebem ou passam pelo corpo uma mistura de rum artesanal (kleren) com pimentas. A possessão pelos Guedê é frequentemente associada à vagabondaj, ou conduta desordeira, bagunça.
O festival anual em homenagem aos Guedê, o Fèt Gede, é celebrado em 1 e 2 de novembro, correspondendo com o feriado cristão do Dia de Finados.
Origem Ao contrário de outros loás, os Guedê não derivam diretamente de nenhum espírito venerado no continente africano, e não tem nenhum similar em outras religiões da diáspora africana. Os relatos mais antigos sobre o vodu haitiano não fazem menção dos Guedê, que só começam a aparecer em relatos de meados do século XX.
A palavra "Guedê" provavelmente deriva do povo Gedevi, habitante das planícies de Abomei, onde hoje fica o Benin. Pesquisadores como Katherine Marie Smith e Donald Cosentino apontam que Guedê surgiu por meio da recombinação criativa de diferentes tradições religiosas da África Ocidental e não pela simples sobrevivência de uma única divindade africana. Seu principal antecedente seria Eshu Elegbara, uma divindade iorubá que é representada na África com uma ereção permanente, e é associada à sexualidade e à mediação entre os mundos humano e divino. Apesar de no vodu haitiano Eshu Elegbara ser representado como Papa Legba, um loá idoso e impotente, entende-se que algumas de suas características mais poderosas e transgressoras foram redistribuídas entre outros loás, particularmente Kafou e os espíritos Guedê. Os Guedê seriam assim o produto de um processo de bricolagem religiosa, no qual tradições iorubás, fons e outras tradições herdadas foram recombinadas sob as condições da diáspora haitiana, gerando um complexo religioso distintamente haitiano em vez de simplesmente reproduzir um original africano.
O Guedê Barão Samedi é citado por Eugène Aubin em seu relato de viagem "En Häiti", de 1910. Em 1930, o folclorista e etnógrafo Harold Courlander nota que o culto aos Guedê se concentrava em Porto Príncipe. Esses e outros relatos do início do século XX indicam que os Guedê surgiram como espíritos locais na região de Porto Príncipe.
Membros da família Guedê
Papa Guedê Papa Guedê foi o primeiro homem a morrer. Ele é reconhecido como um homem baixo e de pele escura, que usa uma cartola e gosta de fumar charutos e comer maçãs. Papa Guedê é um psicopompo que aguarda nas encruzilhadas para conduzir as almas ao além-túmulo. Ele é considerado a contraparte benevolente do Barão Samedi. Recorre-se a Papa Guedê em oração quando uma criança está à beira da morte; acredita-se que ele não ceifará uma vida antes da hora e que protegerá os pequeninos. Papa Guedê possui um senso de humor bastante grosseiro, a capacidade divina de ler a mente das pessoas e o dom de saber tudo o que acontece nos mundos dos vivos e dos mortos.
Guedê Nibo Guede Nibo é um loá da nação radá que é considerado um grande curandeiro. Guede Nibo era um belo jovem que foi morto violentamente. Após a morte, ele foi adotado como um loá pelo casal Barão Samedi e Mãe Brigitte. Nibo é representado como um dândi afeminado de fala anasalada. Nibo veste um casaco de montaria preto ou com roupas femininas. Quando possui humanos, os inspira a uma sexualidade lasciva de todos os tipos. Ele é visto carregando uma garrafa de rum branco com infusão de ervas medicinais, e frequentemente carrega um cajado e fuma um charuto. Nibo é o padroeiro especial daqueles que morrem jovens e dos mortos por causas não naturais, e como tal, é frequentemente associado ao santo católico Gerardo Majella, que é representado com uma caveira. Nibo é o guardião dos túmulos daqueles que morreram prematuramente, particularmente daqueles cujo local de descanso final é desconhecido. Ele é um psicopompo, um intermediário entre os vivos e os mortos. Ele dá voz aos espíritos dos mortos que não saíram de "debaixo das águas", estando em uma condição semelhante a de uma alma penada, e seus chwals ("cavalos", devotos possuídos) também podem dar voz aos espíritos dos mortos cujos corpos não foram encontrados.
Barão Kriminel O "Barão dos Criminosos" é o executor das vontades dos Guedê. Ele foi a primeira pessoa a matar outra (provavelmente Nibo). Como o primeiro assassino, ele é o senhor daqueles que cometem homicídios ou usam a violência para ferir o próximo. Famílias de vítimas de assassinato e de pessoas que sofreram abusos recorrem a ele em oração para se vingar daqueles que lhes fizeram mal. Seus devotos possuídos possuem um apetite insaciável e atacam as pessoas até que lhes ofereçam comida. Se a oferta não os agrada ou demora demais, eles podem morder a quem esteja por perto ou até a si mesmos. Ele é sincretizado com São Martinho de Porres, talvez porque o dia de sua festa seja 3 de novembro, logo após o Fèt Gede. Sacrificam-se para ele galos pretos que são amarrados, banhados em bebida alcoólica forte e, em seguida, incendiados.
Voodoo: Search for the Spirit. Laennec Hurbon. Harry N. Abrams, Inc. 1995. "Ghede" A Dictionary of World Mythology. Arthur Cotterell. Oxford University Press, 1997.
Bibliografia
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