O uso do hífen conforme o Acordo Ortográfico de 1990 refere-se ao emprego desse sinal de pontuação na língua portuguesa de acordo com a ortografia estabelecida do Acordo Ortográfico de 1990. Esse tratado internacional, assinado pelos países com essa língua como idioma oficial, implicou várias alterações em relação aos regulamentos ortográficos anteriores: o Acordo Ortográfico de 1945 (válido em Portugal, nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, em Timor-Leste, etc.) e o Formulário Ortográfico de 1943 (válido somente no Brasil).
Alguns aspetos não explicitados no texto do Acordo foram interpretados em textos como a nota explicativa da Comissão de Lexicologia e Lexicografia da Academia Brasileira de Letras sobre os procedimentos metodológicos seguidos na elaboração da quinta edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, como os Critérios de aplicação das normas ortográficas ao Vocabulário Ortográfico do Português do Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC) e como os Critérios da Priberam relativamente ao Acordo Ortográfico de 1990 (português europeu) adotados para corretor ortográfico FLiP 7.
Tabela esquemática
+Uso do hífen quanto à letra inicial do ségundo vocábulo Prefixos Vogal igual à final do prefixo Vogal H R S B M N Outros Exemplosaero, agro, alvi, ante, anti, arqui, auto, ciclo, contra, des, eletro, entre, extra, foto, geo, hidro, in, infra, intra, macro, maxi, mega, micro, mini, moto, multi, nano, neo, pluri, poli, proto, pseudo, retro, semi, sobre, socio, supra, tele, tri, ultra, vaso, video Sim Simanti-inflamatório, antissocial, arqui-inimigo, autoestima, autorretrato, autossuficiente, ciclo-hexano, contrarregra, contra-ataque, extrasseco, infraestrutura, infravermelho, maxidesvalorização, mega-amiga, micro-organismo, microssistema, mini-instrumento, minissaia, motosserra, multirracial, neoneonatal, proto-história, pseudociência, semiárido, semi-integral, semirrígido, sobre-erguer, sobre-humano, sobressaia, socioeconômico, suprassumo, tele-homenagem, ultra-apressado, ultrainterino, ultrassom, vasodilatadorcircum, pan Sim Sim Sim Simcircum-ambiente, circum-navegar, pancelesteciber, hiper, inter, super Sim Simcibercafé, ciberespaço, interdisciplinar, super-homem, superamigosob, sub Sim Sim Simsubalugar, sub-reitor, sub-humanomal Sim Simmalsucedido, mal-estar, mal-humorado, malnascidoco, re Simcoautor, cooperar, corresponsável, co-herdeiro, reavaliar, reescreveralém, aquém, bem, ex, pós, pré, pró, recém, sem, vice Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Simalém-mar, bem-educado, pré-natal, pró-reitor, recém-nascido, sem-terra, vice-campeão
Quando a pronúncia exigir, dobra-se o R ou S do segundo vocábulo.
Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares Palavras compostas ou formadas por justaposição O hífen é mantido nas palavras compostas nas quais os termos mantêm significado próprio, mantendo inclusive o acento: ano-luz, arcebispo-bispo, arco-íris, decreto-lei, és-sueste, médico-cirurgião, rainha-cláudia, tenente-coronel, tio-avô, turma-piloto; alcaide-mor, amor-perfeito, guarda-noturno, mato-grossense, norte-americano, porto-alegrense, sul-africano; afro-asiático, afro-luso-brasileiro, azul-escuro, luso-brasileiro, euro-africano, primeiro-ministro, primeiro-sargento, primo-infeção, segunda-feira; conta-gotas, finca-pé, guarda-chuva.
Exceção: certos compostos nos quais foi perdida a noção de composição ficam sem hífen: girassol, madressilva, mandachuva, pontapé, paraquedas, paraquedista, etc. Observação: utiliza-se o hífen em palavras como: euro-mediterrânico, ibero-americano (e também ibero-americanismo), luso-asiático, sino-japonês; não se emprega hífen em palavras como: eurocético, iberofilismo, lusofalante, sinologia.
Nos topônimos O hífen é utilizado nos topônimos começados por Grã e Grão, cujo primeiro termo seja uma flexão verbal ou cujos termos estejam ligados por artigo: Grã-Bretanha, Grão-Pará; Abre-Campo; Passa-Quatro, Quebra-Costas, Quebra-Dentes, Traga-Mouros, Trinca-Fortes; Albergaria-a-Velha, Baía de Todos-os-Santos, Entre-os-Rios, Montemor-o-Novo, Trás-os-Montes.
Observação: Outros topônimos compostos escrevem-se com os elementos separados, sem hífen: A dos Francos, América do Sul, Belo Horizonte, Cabo Verde, Castelo Branco, Freixo de Espada à Cinta, etc. Exceção: Guiné-Bissau e Timor-Leste mantêm o hífen, mesmo não estando no caso acima por configurarem exceções consagradas pelo uso.
Nas palavras compostas que designam espécies animais ou vegetais Palavras que designam espécies estudadas pela zoologia ou pela botânica mantêm o hífen, tendo ou não ligação por artigo ou começo por forma verbal: abóbora-menina, couve-flor, erva-doce, feijão-verde; bênção-de-deus, erva-do-chá, ervilha-de-cheiro, fava-de-santo-Inácio; bem-me-quer (nome de planta que também se dá à margarida e ao malmequer); andorinha-grande, cobra-capelo, formiga-branca; andorinha-do-mar, cobra-d'água, lesma-de-conchinha; bem-te-vi.
Nos compostos com os advérbios bem e mal Sendo o primeiro termo o advérbio "bem" ou "mal" e a palavra seguinte começada por vogal, h, ou l (no caso de "mal"), o hífen será usado. Entretanto, o advérbio bem nem sempre se aglutinará ao segundo termo, como acontece com mal: bem-aventurado, bem-estar, bem-humorado; mal-afortunado, mal-estar, mal-humorado; mal-limpo; bem-criado (mas: malcriado), bem-ditoso (mas: malditoso), bem-falante (mas: malfalante), bem-mandado (mas: malmandado), bem-nascido (mas: malnascido), bem-soante (mas: malsoante), bem-visto (mas: malvisto).
Observação: há casos no qual o advérbio aparecerá aglutinado ao termo seguinte, tendo ou não unidade de significado - benfazejo, benfeito, benfeitor, benquerença, etc.
Nos compostos com os elementos além, aquém, recém e sem O hífen sempre será usado quando o termo for começado pelos prefixos além, aquém, recém e sem: além-Atlântico, além-mar, além-fronteiras; aquém-mar, aquém-Pirenéus; recém-casado, recém-nascido; sem-cerimônia, sem-número, sem-vergonha.
Nos compostos com os elementos não e quase O hífen não será usado quando as palavras não e quase são utilizadas como prefixo, mantendo-se os elementos separados: não agressão, não elástico, quase delito, quase elástico, etc.
Nas locuções Nas locuções em geral não se usa o hífen. O Acordo fornece vários exemplos:
a) substantivas: cão de guarda, fim de semana, sala de jantar; b) adjetivas: cor de açafrão, cor de café com leite, cor de vinho; c) pronominais: cada um, ele próprio, nós mesmos, quem quer que seja; d) adverbiais: à parte, à vontade, de mais, depois de amanhã, em cima, por isso; e) prepositivas: abaixo de, acerca de, acima de, a fim de, a par de, à parte de, apesar de, aquando de, debaixo de, enquanto a, por baixo de, por cima de, quanto a; f) conjuncionais: a fim de que, ao passo que, contanto que, logo que, por conseguinte, visto que. Exceção: nos casos consagrados pelo uso o hífen é mantido - água-de-colônia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa.
Nos encadeamentos vocabulares Emprega-se o hífen (e não mais o travessão, conforme prescrevia o Formulário Ortográfico de 1943Formulário Ortográfico de 1943, Base XVII, 52) em justaposições de palavras que só ocasionalmente se combinam, assim como nas ligações entre dois ou mais topônimos: a divisa Liberdade-Igualdade-Fraternidade, a ponte Rio-Niterói, o percurso Lisboa-Coimbra-Porto, a ligação Angola-Moçambique, Áustria-Hungria, Alsácia-Lorena, Angola-Brasil, Tóquio-Rio de Janeiro, etc..
Do hífen nas formações por prefixação, recomposição e sufixação Nas formações com prefixos ou falsos prefixos Nas formações com prefixos (ante-, anti-, circum-, co-, contra-, entre-, extra-, hiper-, infra-, intra-, pós-, pré-, pró-, sobre-, sub-, super-, supra-, ultra-, etc.) ou falsos prefixos (aero-, agro-, arqui-, auto-, bio-, eletro-, geo-, hidro-, inter-, macro-, maxi-, micro-, mini-, multi-, neo-, pan-, pluri-, proto-, pseudo-, retro-, semi-, tele-, etc.) de origem grega ou latina, o hífen deve ou não ser usado.
Uso do hífen a) Quando o segundo termo começar por h: anti-higiénico/anti-higiênico, circum-hospitalar, co-herdeiro, contra-harmónico/contra-harmônico, extra-humano, pré-história, sub-hepático, super-homem, ultra-hiperbólico; arqui-hipérbole, eletro-higrómetro, geo-história, neo-helénico/neo-helênico, pan-helenismo, semi-hospitalar. Exceção: quando o prefixo for des- ou in- e pelo uso tiver acontecido a aglutinação: desumano, desumidificar, inábil, inumano, etc..
b) os prefixos circum- e pan- são separados por hífen do segundo elemento se este começar por vogal, h, m ou n: circum-escolar, circum-murado, circum-navegação; pan-africano, pan-histórico, pan-mágico, pan-negritude, etc.. Exceção: quando o prefixo for pan- e o segundo elemento começar por b: pan-brasileiro, pan-babilonismo (mas também pambabilonismo ou pambiotismo).Vocabulário ortográfico da língua portuguesa. 5.ª edição, ISBN 978-85-260-1363-6
c) nas formações com os prefixos hiper-, inter- e super- e o segundo termo for começado por r, o hífen será mantido, por questão de pronúncia: hiper-requintado, inter-resistente, super-revista, etc.. d) nas formações com os prefixos ex-, sota-, soto-, vice- e vizo-: ex-almirante, ex-diretor, ex-hospedeira, ex-presidente, ex-primeiro-ministro, ex-rei; sota-piloto, soto-mestre, vice-presidente, vice-reitor, vizo-rei; e) nas formações com os prefixos tónicos acentuados graficamente pós-, pré- e pró-, quando o segundo elemento tem vida à parte (mas as correspondentes formas átonas que se aglutinam com o elemento seguinte): pós-graduação, pós-tónico/pós-tônico (mas: pospor); pré-escolar, pré-natal (mas: prever); pró-africano, pró-europeu (mas: promover). f) nas formações com os prefixos ab-, ad-, ob-, sob- e sub-, quando o segundo elemento tem vida à parte e começa por r, fazendo prevalecer o princípio da adaptação da ortografia à pronúncia: ab-rogar, ad-renal, ob-reptício, sob-roda, sub-raça, etc.
Não uso do hífen a) quando o prefixo ou falso prefixo for começado por vogal e o termo seguinte for começado por r ou s: antirreligioso, antissemita, contrarregra, contrassenha, cosseno, extrarregular, infrassom, minissaia, biorritmo, biossatélite, eletrossiderurgia, microssistema, microrradiografia, ultrassom, etc.. b) quando o prefixo ou pseudoprefixo for terminado em vogal e o segundo elemento começar por uma vogal diferente, prática esta em geral já adotada também para os termos técnicos e científicos: antiaéreo, coeducação, extraescolar, aeroespacial, autoajuda, autoescola, autoestrada, autoaprendizagem, agroindustrial, hidroelétrico, plurianual, etc..
Uso do hífen nas formações com prefixos ou pseudoprefixos terminados com a mesma vogal que inicia a palavra seguinte O hífen passa a ser utilizado quando o prefixo/pseudoprefixo se encerrar com a mesma letra que inicia a segunda palavra: anti-ibérico, anti-inflamatório, contra-almirante, infra-axilar, supra-auricular; arqui-irmandade, auto-observação, eletro-óptica/eletro-ótica, micro-ondas, semi-interno.
Exceção 1: o prefixo co- sempre se aglutina, mesmo se a palavra seguinte for começada por o: coobrigação, coocupante, coordenar, cooperação, cooperar, etc.. Exceção 2: o prefixo re- (não mencionado expressamente no Acordo), de acordo com o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, lançado pela Academia Brasileira de Letras em março de 2009, também se aglutina: reeleição, reescrever. De acordo com Evanildo Bechara, isto se deveu à tradição linguística já estabelecida:
Do hífen na ênclise, na tmese e com o verbo haver Nas colocações pronominais O hífen continua a ser usado nas colocações enclíticas e mesoclíticas: amá-lo, dá-se, deixa-o, partir-lhe; amá-lo-ei, enviar-lhe-emos, dar-se-vos-áNão há hífen na próclise, a união é maior na ênclise. A mesóclise é uma colocação exclusiva da língua culta e modalidade literária, não ocorre em uma fala espontânea.