Lapão setentrional, lapão do norte ou sámi do Norte (em sámi do Norte: davvisámegiella, 15px PRONÚNCIA; finlandês: pohjoissaame /ˈpohjoi̯sˌsaːme/, norueguês: nordsamisk, sueco: nordsamiska; exônimo desaconselhado: lapônico ou Lapão setentrional) é a maior das línguas sámi, sendo falada nas regiões setentrionais da Noruega, da Suécia e da Finlândia, na região histórica de Sápmi (ou Lapónia). O lapão setentrional possui entre 20 e 25 mil falantes nativos, dos quais cerca de vivem na Noruega, na Suécia e na Finlândia. A UNESCO classifica o sámi do Norte como “definitivamente em risco”.

Classificação O lapão setentrional, ou sámi do Norte, pertence ao ramo lapão da família linguística urálica. Por isso, apresenta várias características comuns com os outros idiomas dessa família, como: traços de harmonização vocálica; gradação consonantal; muitos casos gramaticais; e aglutinação. Além disso, é possível também encontrar cognatos com as outras línguas urálicas, em especial com os idiomas fino-úgricos. miniaturadaimagem|Mapa das línguas urálicas (em verde o ramo lapão)|331x331px OlhoSeisIrGeloLapão setentrionalčalbmiguhttamannatjiekŋaFinlandêssilmäkuutemenjääEstonianosilmkuutminjääMárišinčakutmijaijCómiśinkvajtmunjiKhantysemkutmənjöŋkHúngaroszemhatmenjégNenetssew-min-Proto-Urálico*silmä*kut(t)e*mene*jäŋe

Lapão setentrional nas línguas lapãs miniaturadaimagem|Mapa da distribuição das Línguas lapãs (1. Meridional; 2. Ume; 3. Pite; 4. Lule; 5. Setentrional; 6. Skolt; 7. Inari; 8. Kildin; 9. Ter)

A família lapã ou sámi possui 9 línguas vivas (os lapões meridional, de Ume, de Pite, de Lule, setentrional, de Inari, escolta, de Quildim e de Ter), além de dois já extintos (os lapões de Acala e de Quemi). O lapão setentrional pertence ao ramo ocidental dessa família, sendo os lapões de Lule e Pite os idiomas mais próximos a ele.

Apesar de pertencerem ao mesmo subgrupo linguístico, as línguas lapãs variam grandemente entre si, sendo a inteligibilidade mútua bastante limitada. Línguas próximas (como o meridional e o de Ume) tendem a ser mais semelhantes entre si. Existe um distanciamento linguistico que coincide com um eixo geográfico Oeste-Este, resultando assim uma ininteligibilidade quase completa entre por exemplo sámi meridional e Ter. PássaroÁguaÁrvoreSeco (Atr.)VirMeridionalledtietjaetsiemoeregejhkiebåetedhUmelåddietjáhtjiemuarragåjkiesbåhtietPitelåddetjáhtsemuorragåjkesbåhtetLulelåddetjáhtjemuorragåjkesboahtetSetentrionalloddičáhcimuorragoikkisboahtitInariloddečääcimuorâkoškespuáttiđSkoltlå’ddčää’ccmuõrrkåå’šǩespue’ttedKildinлоаннѣтчāдцьмӯрркоашькэсьпуэдтӭTerлонньтчадцемырркошькэсьпыэдтэд

História miniaturadaimagem|Capa da edição de 1638 do Svenske och Lappeske ABC Book|esquerda História Antiga O lapão setentrional é falado acima do Círculo Polar Ártico há mais de mil anos. Apesar de se saber pouco sobre os primeiros lapões, deduz-se que eles já haviam chegado ao sudoeste da atual Finlândia por volta do Ano 0. Desde que se separaram das outras tribos urálicas, ainda na região dos Urais, os lapões rumaram ao noroeste, atingindo a Fino-Escandinávia e aí se estabelecendo.

História Escrita Registros escritos em lapão setentrional são relativamente recentes, a começar com a atividade missionária na região durante o século XVII. O primeiro livro em lapão setentrional é uma coleção de orações e confissões publicada em 1638, intitulada Swenske och lappeske ABC-book (O ABC sueco e lapão). Em 1648, o padre sueco Johan Tornaeus (1605-1691) publica o Manuale Lapponicum, contendo textos religiosos escritos numa língua primariamente baseada nas variedades suecas de lapônico setentrional.

A língua lapônica setentrional começou a ganhar importância acadêmica por volta desse período, sendo a primeira gramática lapão setentrional escrita pelo padre e linguista norueguês Knut Leem (1696-1774) e publicada em 1748. Os primeiros dicionários, então, foram lançados em 1756 e 1768. Um contemporâneo de Knut Leem foi Andres Porsanger (1735-1780), o primeiro lapão a receber ensino superior; ele assistiu Leem em suas pesquisas e traduziu partes da bíblia para lapão setentrional. Infelizmente, a maior parte de seu trabalho foi perdida.

Nesse mesmo período, o padre sueco Per Fjellström (1697-1764) tentou criar uma ortografia comum a todas as línguas lapãs faladas na Suécia, baseando-se principalmente no lapão meridional, mas incorporando elementos do lapão setentrional. Essa variedade foi utilizada na Suécia durante os séculos XVIII e XIX.

Na década de 1820, o linguista dinamarquês Rasmus Rask (1787-1842) propôs um sistema ortográfico para o lapão setentrional que incluía, pela primeira vez, o uso de consoantes especiais para os sons particulares da língua. Seu trabalho foi publicado em 1832, influenciado, também, pela gramática de Leem. Rask ainda colaborou com o padre norueguês Nils Vibe Stockfleth (1787-1866), o qual efetivou o uso do sistema de Rask nas publicações em lapão setentrional, incluindo o Catecismo Menor de Lutero em 1837), o Novo Testamento e uma gramática em 1840, um dicionário norueguês-lapão setentrional em 1851 e o postil de Lutero em 1857.

Porém, a primeira tradução completa da bíblia para o lapão setentrional ocorreu somente em 1895. Esse trabalho só foi possível graças ao linguista norueguês Jean Andreas Friis (1821-96), professor de lapão e finlandês na então Universidade de Cristiânia (atual Universidade de Oslo), pioneiro no estudo acadêmico da língua lapã. Friis contribuiu com a publicação de uma gramática lapã em 1856, de um dicionário em 1887, de uma antologia da mitologia lapã em 1871 e de um romance sobre os lapões chamado Lajla em 1881.

Outra figura importante da história literária lapã desse período foi Lars Jacobsen Hætta (1834-96), um criador de renas lapãs que serviu como consultante linguístico de Friis, colaborando na tradução da bíblia de 1895.

Etimologia A etimologia da palavra Sámi é incerta, mas uma etimologia comum com Suomi (‘Finlândia’, em finlandês) e com Häme (província finlandesa) já foi sugerida (do proto-fínico *hämä, antigo *šämä, provavelmente importado ao proto-sámi como *sāmē), cuja fonte pode ser a palavra proto-báltica *źemē, significando ‘planície’, ‘terra baixa’.

Os povos sámi foram desconhecidos pelos grupos indo-europeus até ao final da Idade Antiga, e, por esse motivo, uma terminologia para os sámi tardou para ser definida. Somente no século V, quando os primeiros nórdicos antigos se adentraram pela Escandinávia, ocorreu o primeiro contato entre sámis e germânicos. A partir desse momento, os nórdicos começaram a se referir aos sámi como Lerpp, um vocábulo do nórdico antigo que, literalmente, significa "trapo", "remendo". miniaturadaimagem|300x300px|Povo sámi em Härjedalen, Suécia Com a edificação dos reinos da Noruega, da Suécia e da Dinamarca na Alta Idade Média, iniciou-se a conquista do norte da Escandinávia. Nesse processo, os povos indígenas foram subjugados e inferiorizados. Por isso, Lerpp, e seu posterior derivado Lapp, ganhou nova conotação, dessa vez mais negativa, sendo sinônimo de "incivilizado", "selvagem".

No século XIX, políticas de assimilação cultural foram impostas ao sámi, o que proibia o uso de sua língua nativa e desestimulava todos os aspectos da cultura indígena. "Várias gerações sámis foram levadas a acreditar que sua fala e sua cultura eram algo vergonhoso, algo que não deveria ser mantido vivo", como apontou a primeira-ministra da Noruega, Erna Solberg.

Por conta dessa dominação, os sámis foram apresentados ao restante do mundo pelos países escandinavos; assim, as outras línguas adotaram a raiz Lapp para formar os vocábulos de designação dos povos sámis (como ocorre no português, para os termos lapão e lapônico). Lapônia (pt-PT: Lapónia), por sua vez, refere-se à "terra dos lapões".

Porém, com a ascensão dos movimentos políticos e sociais indígenas nos países nórdicos no início dos anos 1900, o uso do termo lapão foi amplamente questionado e posto em desuso, pois, além de ser um exônimo, carrega em sua semântica os séculos de opressão vividos pelos indígenas escandinavos.

Hoje, o termo Lapp é praticamente inexistente nos países nórdicos, sendo considerado extremamente pejorativo. A adoção dos endônimos sámi, sami ou saami, por sua vez, é reflexo da luta desses povos por reconhecimento e respeito nas sociedades da Escandinávia. Os nativos sámis sugerem o uso de sámi para designar seu povo indígena e de sápmi para se refeir à sua terra nativa.

Distribuição geográfica

Estatuto oficial As línguas lapãs possuem reconhecimento em certas regiões dos países nórdicos. Na Noruega, a Constituição garante o direito de os lapões preservarem e desenvolverem suas línguas; ademais, a Lei da Língua Lapã de 1990 tornou o lapão uma língua oficial em dez municipalidades, localizadas em seis condados.

Na Suécia, o lapão foi reconhecido como língua minoritária em 2000. Além disso, a lei sobre minorias nacionais de 2009 garante aos lapões o direito de receber atendimento a crianças e idosos em lapão e assegura o uso de sua língua no tratamento com autoridades em 19 municipalidades.

Porém, a lei desses países não distingue as línguas lapãs, assumindo a variedade setentrional como prioritária.

Na Finlândia, a Lei da Língua Lapã de 1992, revisada em 2002, garante o direito de as crianças lapãs terem educação em sua língua e assegura o poder de usar a língua lapã na administração de quatro municipalidades. A Constituição finlandesa se refere somente às línguas lapãs Setentrional, Inari e Skolt.

Na Rússia, as línguas lapãs não possuem nenhum tipo de reconhecimento, recebendo pouca ou nenhuma atenção do governo.

Dialetos O lapão setentrional moderno, falado centralmente no condado norueguês de Finnmark, possui aproximadamente 20 mil falantes nativos, em territórios da Noruega (12 a 13 mil falantes), da Suécia (5 a 6 mil falantes) e da Finlândia (2 mil falantes).

A língua lapônica setentrional é dividida em duas áreas dialetais: a Ocidental, centrada na cidade de Kautokeino, em Finnmark, e abrangendo as municipalidades de Alta, Enontekiö, Sodankylä e Inari; e a Oriental, centrada na cidade de Karasjok, em Finnmark, e abrangendo as municipalidades de Porsanger, Tana, Utsjoki, e Inari. Ademais, podem-se distinguir menores grupos dialetais: dentro do Ocidental, há o Torne (centrado em Kiruna, Karesuando, e Jukkasjärvi na Suécia), e ao longo da costa se encontra o lapão marítimo.

O lapão setentrional padrão é baseado principalmente no dialeto Ocidental, ainda que com algumas incorporações do Oriental.

Dialeto de Torne O dialeto de Torne apresenta algumas características, como:

ausência do fonema š (/ʃ/) preferência do c (/ts/) em palavras que, no dialeto padrão, seriam escritas com č (/tʃ/) preferência do z (/dz/) em palavras que, no dialeto padrão, seriam escritas com ž (/dʒ/) uso do sufixo -n em vez de -s para o locativo singular uso do final -o em vez de -u na conjugação da 3a pessoa do singular no presente

Dialeto Marítimo O dialeto Marítimo apresenta algumas características, como:

substituição de encontros consonantais -pm-, -tn-, -kŋ-, e -dg- pelos nasais e semivogais -mm-, -nn-, -ŋŋ- e -jj- uso do sufixo -st em vez de -s para o locativo singular

Dialeto Ocidental O dialeto Ocidental apresenta algumas características, como:

substituição frequente de ŋ (/ŋ/) por nj (/ɲ/) pronúncia de ŧ (/θ/) como s (/s/)

Dialeto Oriental O dialeto Oriental apresenta algumas características, como:

pronúncia de ea (/eæ/), como ie (/ie/) pronúncia de oa (/oɑ/) como uo (/uo/ ou /ua/) pronúncia de uo (/uo/) como ue (/ue/) pronúncia de á (/aː/) como æ (/æ/) omissão do g (/g/) entre vogais pronúncia de b (/p/) como v (/v/) diferença de vocabulário: ‘Segunda-feira’, mánnodat no Ocidental e vuossárga no Oriental; ‘Terça-feira’, disdat no Ocidental e maŋŋebárga no Oriental

diversas diferenças gramaticais

Fonologia