A Ordem Militar Imperial de São Jorge, o Grande Mártir e Vitorioso () é uma condecoração russa de altíssimo prestígio, destinada exclusivamente a reconhecer méritos militares. Foi instituída pela imperatriz Catarina II em 7 de dezembro (26 de novembro no calendário juliano) de 1769 em homenagem a São Jorge, com o objetivo de distinguir oficiais por bravura em combate e tempo de serviço. Suprimida após a Revolução de Outubro de 1917 por Lenin, a ordem foi restaurada como honraria da Federação da Rússia em 2000, após ter sido brevemente revivida entre 1918 e 1920 por unidades do Exército Branco durante a Guerra Civil Russa.

O sistema da ordem compreende quatro classes, sendo a Primeira Classe a mais elevada distinção. Ela podia ser acompanhada da Cruz de São Jorge, outorgada a praças e suboficiais. Ao longo de sua história, mais de 10 mil pessoas foram agraciadas com a ordem; dessas, apenas 23 receberam a Primeira Classe, e só quatro foram condecoradas com todas as quatro classes. Em ocasiões especiais, a insígnia da Primeira Classe foi usada simbolicamente: pela própria Catarina II, ao instituir a ordem, e por Alexandre II no centenário da criação da honraria. A Segunda Classe foi concedida a 125 pessoas.

O primeiro condecorado oficialmente, excetuando-se Catarina II, foi o tenente-coronel Fiódor Ivanovich Fabrician, que recebeu diretamente a Terceira Classe em dezembro de 1769. Já o primeiro agraciado com a Quarta Classe foi o major Reinhold Ludwig von Patkul, em fevereiro de 1770. A partir de 24 de junho de 1917, soldados e marinheiros que exercessem funções de oficiais em combate passaram a ser elegíveis para a Quarta Classe, nesse caso, a fita da condecoração era adornada com um ramo de louro de prata.

As insígnias da ordem não eram numeradas, mas registros de condecorados eram mantidos. A ordem se destacava entre as demais honrarias russas por premiar exclusivamente a coragem pessoal no campo de batalha, sendo os critérios de concessão rigidamente definidos pelo estatuto de 1769:

História miniaturadaimagem|Na pintura de Stefano Torelli intitulada Alegoria da vitória de Catarina II sobre os turcos e tártaros (1772, Galeria Tretyakov), é apresentado um retrato coletivo dos primeiros cavaleiros da Ordem de São Jorge. Estão retratados: Piotr Rumyantsev, Aleksei Orlov, Piotr Panin, Vassili Dolgorukov, Nikolai Repnin e Fiódor Orlov. A Ordem de São Jorge foi instituída pela imperatriz Catarina II em 7 de novembro (26 de novembro no Calendário Juliano) de 1769, dia de São Jorge, um ano após o início da guerra russo-turca de 1768–1774. Pela primeira vez na Rússia, uma ordem foi dividida em quatro classes e destinada exclusivamente a condecorações por feitos militares notáveis. Também estava prevista a concessão por tempo de serviço: como "nem sempre se apresentam a todo fiel filho da pátria ocasiões em que seu zelo e bravura possam brilhar", podiam aspirar à 4.ª classe aqueles "que serviram como oficiais 25 anos na tropa de campanha terrestre, ou participaram de 18 campanhas navais como oficiais". Nesses casos, as cruzes se diferenciavam visualmente das concedidas por feitos de combate.

Em 1807 foi criado o "Distintivo de Mérito da Ordem Militar" para as praças (soldados e suboficiais), vinculado à Ordem de São Jorge. Esse distintivo (uma cruz de prata) mais tarde passou a ser conhecido informalmente como o “Georgievski Soldatski” ou “Cruz de Soldado de São Jorge”. Não havia limite de vezes que uma mesma pessoa podia ser agraciada com esse distintivo. Oficiais não podiam ser premiados com ele, mas tinham permissão de usá-lo se o tivessem recebido antes de sua promoção ao oficialato.

A premiação com arma branca dourada com a inscrição "Pela bravura" e alça com a fita de São Jorge era oficialmente equiparada à concessão da ordem, e os agraciados com essa arma eram incluídos na lista geral da Ordem de São Jorge.

Em 1833, o estatuto da Ordem foi reformulado e passou a ter uma descrição detalhada dos atos de bravura militar específicos para cada tipo de tropa, os quais concediam direito à condecoração. O tempo de serviço exigido para a premiação por anos de serviço também foi descrito com mais precisão, incluindo agora a exigência de participação em pelo menos um combate para que se pudesse receber a 4.ª classe da Ordem de São Jorge por tempo de serviço. miniaturadaimagem|Insígnia da Ordem de São Jorge de 4.ª classe (para não cristãos) esquerda|miniaturadaimagem|216x216px|Insígnia da Ordem de 3.ª classe para oficiais de fé não cristã, a partir de 1844 Foi estabelecida uma ordem rigorosa de concessão das classes, da 4.ª para a 3.ª, e assim por diante. No entanto, posteriormente foram feitas exceções a essa regra. Por exemplo, o general Mikhail Grigorievich Chernyaev recebeu diretamente a 3.ª classe da ordem por suas campanhas na Ásia Central, sem passar pela 4.ª. Já o almirante Pavel Stepanovich Nakhimov foi condecorado com a 2.ª classe após a vitória na Batalha de Sinope, mesmo já tendo a 4.ª classe, mas sem ter recebido a 3.ª.

O estatuto também passou a incluir artigos referentes ao “Distintivo de Mérito da Ordem Militar” concedido aos soldados. Como São Jorge é um santo cristão, foi criada uma versão alternativa da ordem para não cristãos, onde, no lugar de São Jorge, aparecia o brasão da Rússia com a águia bicéfala. Esse modelo com a águia foi aprovado por Nicolau I em 29 de agosto de 1844, durante a Guerra do Cáucaso, e o primeiro a recebê-lo foi o major Djamov-bek Kaitagsky. Por causa disso, em memórias e na literatura, há relatos de oficiais do Cáucaso que se questionavam: “por que me deram uma cruz com um pássaro e não com um guerreiro a cavalo?”

A partir de 1845, os agraciados com quaisquer classes das ordens de São Vladimir ou de São Jorge passavam a ter direito à nobreza hereditária, enquanto para as demais ordens isso só ocorria se o condecorado recebesse a 1.ª classe. Antes disso, qualquer ordem (com exceção da polaco-russa Virtuti Militari) garantia automaticamente esse direito.

De 1849 a 1885, os nomes dos cavaleiros da Ordem de São Jorge eram gravados em letras douradas em placas de mármore no Salão de São Jorge do Grande Palácio do Kremlin, em Moscou.

Em fevereiro de 1855, foi emitido um decreto estabelecendo que os cavaleiros da 4.ª classe da ordem, condecorados por tempo de serviço, mas que também tivessem se distinguido em combate e fossem dignos da mesma classe por bravura, tinham o direito de acrescentar à insígnia já recebida uma fita de São Jorge com laço. Isso indicaria que o portador havia sido reconhecido duas vezes: por tempo de serviço e por feito militar. Esses condecorados deveriam ser oficialmente denominados “Cavaleiros da Ordem Militar de São Jorge da 4.ª classe por 25 anos (ou 18 e 20 campanhas navais), com laço”. No entanto, essa distinção não se firmou no sistema de condecorações russo, sendo conhecidos apenas cinco casos de cavaleiros da Ordem de São Jorge com laço.

Em 15 de maio de 1855, por novo decreto, foi cancelada a concessão da 4.ª classe da Ordem de São Jorge por tempo de serviço, sendo substituída pela Ordem de São Vladimir da 4.ª classe, com inscrição específica. A partir de então, a Ordem de São Jorge passou a ser concedida exclusivamente por feitos militares.

Em 1856, foram estabelecidas quatro classes para o “Distintivo de Mérito da Ordem Militar” (o “Georgievski” dos soldados). miniaturadaimagem Em 1913, o estatuto da ordem foi novamente alterado, com a inclusão de artigos adicionais e a ampliação da descrição dos feitos militares por tipo de tropa. O “Distintivo de Mérito da Ordem Militar” passou a ter oficialmente o nome de Cruz de São Jorge.

Para os cavaleiros da 4.ª classe da ordem, o tempo exigido para promoção ao próximo posto foi reduzido ao mínimo, variando de um ano nos postos inferiores até quatro anos para a promoção de general de divisão a tenente-general. Os benefícios concedidos aos cavaleiros da Ordem de São Jorge foram ampliados, incluindo desconto em transporte ferroviário, licença anual de dois meses com salário integral, entre outros.

A partir de 29 de junho de 1917, a Ordem de São Jorge de 4.ª classe tornou-se a única ordem da Rússia que podia ser concedida a soldados, desde que tivessem exercido funções de oficial em combate. A fita dessa condecoração era adornada com um ramo de louro em prata. Há registro de dois condecorados com esse tipo de ordem, sendo um deles o bombeiro-sênior Iosif Firsov.

Estatuto miniaturadaimagem|200x200px|Primeira edição do estatuto da Ordem de São Jorge, 1769 esquerda|miniaturadaimagem|Catarina II com a Ordem de São Jorge de 1.ª classe. Pintura de 1770 por Fiódor Rokotov.|310x310px O estatuto da Ordem de São Jorge, instituído por Catarina II, não previa uma concessão estritamente sequencial do grau mais baixo ao mais alto. Frequentemente, por méritos excepcionais, oficiais eram condecorados com graus superiores, sem passar pelos inferiores. A ordem era concedida apenas por distinções especiais em combate, bem como por tempo de serviço em postos de oficial, 25 anos em serviço de campanha terrestre ou 18 campanhas no serviço naval (a partir de 1833, com a condição de participação em pelo menos uma batalha).

Para a concessão das 3.ª e 4.ª classes, o Colégio Militar precisava descrever detalhadamente o feito e reunir provas antes de submetê-las à aprovação do monarca. Já as classes superiores, 1.ª e 2.ª , eram concedidas pessoalmente pelo monarca, a seu critério. No século XIX, a prática de premiações estabeleceu critérios aproximados: para receber a 1.ª classe da Ordem de São Jorge, era necessário vencer uma guerra; para a 2.ª classe, vencer uma batalha de grande importância.

Segundo o estatuto, o número de cavaleiros da ordem não era limitado, podendo ser condecorado qualquer oficial a partir do posto de praporshchik (subtenente, equivalente à 14.ª classe na Tabela de Patentes durante o reinado de Catarina II). Após a reforma de 1884, o posto de oficial mais baixo passou a ser o de podporuchik (segundo tenente, 12.ª classe). O posto de praporshchik foi mantido apenas para tempos de guerra, sendo geralmente conferido a sargentos (unter-ofitsery, унтер-офицеры) em caso de falta de oficiais. Caso um praporshchik fosse condecorado com a 4.ª classe da Ordem de São Jorge, ele era automaticamente promovido a podporuchik, conforme estabelecido no Estatuto de 1913.

O estatuto de Catarina II não determinava quais patentes podiam receber os graus superiores da ordem, isso era definido pela prática. Durante seu reinado, por exemplo, o capitão de artilharia Ivan Bishev foi agraciado com a 3.ª classe da ordem (nº 22). Já sob seus sucessores, normalmente apenas majores-generais (general-mayor, генерал-майор), tenentes-generais (general-leytenant, генерал-лейтенант) e, mais raramente, coronéis (polkovnik, полковник) recebiam as classes superiores. O estatuto de 1833 estabeleceu que a 3.ª classe seria destinada a oficiais do Estado-Maior e ao generalato; formalmente, ela podia ser concedida a partir do posto de major (mayor, майор), mas, desde então, não houve mais premiações a oficiais abaixo do posto de polkovnik. Apenas em 1916 a 3.ª classe foi concedida postumamente ao capitão Stepan Georgievitch Leontiev, que foi também promovido postumamente a tenente-coronel (podpolkovnik, подполковник).

Catarina II deu uma orientação breve e exemplificativa sobre os critérios para a concessão da Ordem de São Jorge:

O número de pensões concedidas era limitado por um fundo fixo; ao longo da vida, apenas os primeiros agraciados continuavam a recebê-las. Inicialmente, o fundo pagava pensões a 12 cavaleiros da 1.ª classe (700 rublos), 25 da 2.ª classe (400 rublos), 50 da 3.ª classe (200 rublos) e 100 da 4.ª classe (100 rublos).