A crise política em Madagáscar em 2009 envolveu uma série de manifestações antigovernamentais em Madagáscar no início de 2009, culminando no envolvimento militar e na posse do líder oposicionista Andry Rajoelina para a presidência do país. Os protestos começaram em janeiro de 2009, e foram orientadas para agir contra ao governo do Presidente de Madagascar, Marc Ravalomanana. Os protestos, que se tornaram violentos, foram organizados e liderados por Rajoelina, que era o prefeito da capital do país, Antananarivo, e um proeminente opositor do presidente Ravalomanana. Pelo menos 130 pessoas foram mortas em Madagascar desde o início dos protestos antigovernamentais.
Os protestos foram vistos como os mais sérios desafios enfrentados pelo governo de Ravalomanana desde que ele chegou ao cargo em 2002. O presidente Ravalomanana jurou restaurar a ordem "custe o que custar", de acordo com uma declaração governamental, enquanto que o líder oposicionista Rajoelina exigiu a dissolução do governo e a formação de um governo de transição sob sua liderança.
Em 16 de março de 2009, um dos palácios do presidente Ravalomanana, o Palácio Ambohitsorohitra, foi invadido e tomado pelos soldados do Exército Malgaxe. O presidente não estava no palácio invadido no momento. A União Africana condenou a ação, chamando-o como uma "tentativa de golpe de Estado". Rajoelina insistiu em que o cerco ao palácio não foi um golpe, embora ele instalasse a si mesmo imediatamente nos escritórios presidenciais do palácio capturado.
Ravalomanana já tinha saído do palácio Iavoloha para uma localização mais reservada. A junta militar, composta por militares de altas patentes, teria sido acusada de organizar eleições no prazo de 24 meses e voltar a escrever a Constituição para a "Quarta República". No entanto, o vice-almirante Ramaroson anunciou em 18 de março que iria transferir o poder diretamente para Rajoelina, tornando-o presidente da Alta Autoridade Transitória, dominada pela oposição, que Rajoelina tinha estabelecido semanas antes. A Corte Constitucional de Madagascar considerou a transferência de poder de Ravalomanana para a junta militar e, em seguida, para Rajoelina, como constitucional.
De acordo com Roindefo, a transferência de poder não foi um golpe de Estado, mas sim "a expressão direta da democracia, quando a democracia representativa não se manifesta através das instituições". Rajoelina foi oficialmente empossado em 21 de março perante uma multidão de 40.000 apoiadores."Madagascar's Rajoelina sworn in", AFP, 21 March 2009.
No mesmo dia, tropas da Marinha de Madagascar exigiram a renúncia de Rajoelina para 25 de Março de 2009, ameaçando usar a força para proteger a Constituição de Madagascar."Madagascan navy troops order Rajoelina to leave power in 7 days", Xinhua (People's Daily Online), 25 March 2009.
Eventos anteriores Andry Rajoelina tem sido um adversário ativo do governo de Ravalomanana desde que foi eleito como prefeito de Antananarivo, em Dezembro de 2007.
A relação entre Rajoelina e o governo malgaxe piorou ainda mais em 13 de dezembro de 2008, depois de o governo ter desligado uma estação de televisão pertencente a Rajoelina. A estação de televisão de Rajoelina foi desligada devido à exibição de uma entrevista com o ex-presidente exilado Didier Ratsiraka.
Protestos thumb|left|160px|Os protestos estão acontecendo em Antananarivo, a capital e a maior cidade da Madagascar. Rajoelina pediu uma greve geral durante o fim de semana de 24-25 de janeiro de 2009, na capital, Antananarivo, contra Ravalomanana, a quem ele tem chamado como ditador. Ravalomanana, que estava na África do Sul, abreviou sua viagem a uma reunião de cúpula regional em Pretória, e voou de volta para Madagascar. Numa declaração, Ravalomanana acusou o prefeito de uma tentativa de golpe, que dizia: "O pedido à revolta e à desobediência civil… corresponde a um golpe de Estado… espezinha os valores da Constituição e as instituições da república."
Na segunda-feira, 26 de janeiro de 2009, os protestos ficaram cada vez mais violentos. Manifestantes incendiaram o prédio da rádio estatal malgaxe, atacaram uma estação de televisão privada de propriedade de Ravalomanana, e saquearam lojas e empresas em toda a cidade.
Às 03:00 (horário local) de 26 de janeiro de 2009, agentes de segurança armados do governo declaradamente desligaram o transmissor do "Viva Radio", uma estação de rádio privada pertencente a Rajoelina.
Manifestantes saquearam duas estações de televisão pró-governo em Antananarivo. Milhares de manifestantes invadiram e saquearam as sedes da "Radio Nationale Malgache" (Rádio Nacional Malgaxe) e da "Télévision Nationale Malgache" (Televisão Nacional Malgaxe) por volta das 13:00 (horário local) de 26 de janeiro de 2009. Cerca de uma hora mais tarde, manifestantes incendiaram a sede do "Malagasy Broadcasting System" (Sistema Malgaxe de Difusão), uma estação privada pertencente ao presidente Ravalomanana. Um policial e um manifestante de 14 anos foram alegadamente mortos nos confrontos nos ataques ao Malagasy Broadcasting System.
Pelo menos 44 pessoas foram encontradas mortas nas ruínas de uma loja incendiada e saqueada no centro de Antananarivo. Especulou-se que os corpos eram de saqueadores que ficaram presos no incêndio da loja quando o telhado desabou.
Numa demonstração de desconfiança contra o governo, Rajoelina pediu para que todos os residentes de Antananarivo ficassem em casa em 29 de janeiro de 2009. Este protesto "cidade fantasma" basicamente fechou todas as lojas e empresas na capital.
O Cardeal Católico Emérito de Antananarivo, Armand Razafindratandra, pediu a calma assim que os protestos difundiam-se para fora da capital. Todas as estações públicas e privadas de rádio no país cessaram declaradamente a radiodifusão, com exceção da "Radio Dom Bosco", que é gerido pela ordem religiosa Salesiana.
Rajoelina disse em 31 de janeiro que estava tomando o controle do país, devido ao fracasso de Ravalomanana e do governo de cumprir suas responsabilidades. Ele disse que um pedido para a "renúncia imediata" de Ravalomanana seria apresentado ao Parlamento ", a fim de cumprir o procedimento legal". Além disso, ele pediu para que o Banco Central de Madagáscar retivesse o dinheiro do governo, para que todos os ministérios governamentais fechassem, e para que as forças de segurança aderissem a ele. Rajoelina disse que queria que a Constituição fosse respeitada, e que foi Ravalomanana quem violou a Constituição. Segundo Rajoelina, um novo governo transitório em breve será nomeado sob a sua liderança, e uma nova eleição presidencial será realizada dentro de dois anos. Falando no mesmo dia, Ravalomanana afirmou que "ele ainda era o presidente deste país" e que "faria o que for necessário para o desenvolvimento desta nação".
A União Africana (UA) imediatamente avisou Rajoelina que não iria aceitar um poder conseguido inconstitucionalmente em Madagascar: "É totalmente proibido tomar o poder por meios não-constitucionais".
Líderes de oposição aliados a Rajoelina encaminharam uma petição junto à Suprema Corte Constitucional em 2 de fevereiro, solicitando a remoção de Ravalomanana do cargo. Neste momento, a participação popular em comícios de Rajoelina tinha diminuído alegadamente. Em 3 de Fevereiro, Rajoelina disse num comício que iria anunciar seu novo governo em 7 de fevereiro. No mesmo dia, a Suprema Corte Constitucional considerou que não tinha poder para retirar o presidente do cargo, e que esse poder pertencia ao Parlamento. Também em 3 de Fevereiro, o prefeito Rajoelina foi afastado de seu cargo, e uma delegação especial, liderada por Guy Randrianarisoa, foi empossada em seu lugar. Rajoelina condenou a decisão, dizendo que não havia "nenhuma razão válida" para isso, e que ele estava preparado para enfrentar a prisão se for necessário; ele advertiu que a cidade "não aceitaria esta decisão".
Rajoelina realizou outro comício em 4 de fevereiro, com cerca de 1.500 pessoas. Nessa ocasião, ele descreveu a nomeação de Randrianarisoa como "um insulto ao povo de Madagascar"; ao invés disso, ele designou Michele Ratsivalaka para sucedê-lo como prefeito e deu-lhe a faixa de prefeito.
Tiroteio no comício de oposição Em 7 de Fevereiro, foi realizada um comício de oposição com vinte mil pessoas, e os manifestantes começaram a marchar para o Palácio Ambohitsorohitra quando a polícia abriu fogo. 28 pessoas foram inicialmente declaradas como mortas e 83 feridos foram relatados. Alguns saques foram relatados após o evento. No dia seguinte, foi comunicado que o número de mortos tinha aumentado para pelo menos 50, com os médicos estimando que 180 pessoas haviam chegado ao Hospital Ravoahangy Andrianavalona, principal hospital da cidade. O jornalista de Antananarivo, Fanja Saholiarisoa, disse: "A casa mortuária está cheia, e os hospitais estão cheios. Na TV, há um anúncio especial pedindo para as pessoas que têm carros a virem e a pegarem as pessoas feridas dos hospitais". Isto elevou o número de pessoas mortas desde o início da violência política para 130, com 80 pessoas mortas antes dos tiros ao manifestantes, incluindo os 44 que morreram no desabamento da loja.
Além disso, em 7 de fevereiro, Rajoelina disse que Monja Roindefo seria o seu primeiro-ministro sob sua autoridade transitória. Segundo Rajoelina, cada uma das regiões de Madagascar teria representações na autoridade de transição. Referindo-se ao Palácio de Ambohitsorohitra, Rajoelina aludiu à sua história como chefe de família antes de 2002, e disse que ele "pertence ao povo e à cidade", enquanto declarava que ele tinha decidido dar o palácio para Monja para a sua utilização como primeiro-ministro. No mesmo dia, Ravalomanana pediu "calma e ordem", acusando Rajoelina de "cruzar todos os limites", enquanto o primeiro-ministro, Charles Rabemananjara, anunciava a extensão de uma semana do toque de recolher.
Enquanto visitava vítimas hospitalizadas do tiroteio, em 8 de fevereiro, Rajoelina jurou continuar a sua luta, e argumentou que a resposta de Ravalomanana para ao pedido popular para a mudança foi tiros. Ele exigiu um dia de luto nacional, em 9 de Fevereiro.
Em 9 de Fevereiro, o Ministro da Defesa, Cécile Manorohanta, anunciou a sua renúncia, dizendo: "Depois de tudo o que aconteceu, eu decido que, a partir de agora, já não faço parte deste governo". O Chefe das Forças Armadas de Madagascar, Mamy Ranaivoniarivo, foi nomeado como substituto de Manorohanta no mesmo dia.
Especulou-se que o tiroteio de 7 de fevereiro tivesse revertido a tendência de declínio do apoio à oposição. Jornais publicados em 9 de Fevereiro condenaram veementemente o tiroteio. Em 10 de Fevereiro, falando diante de um comício com cerca de 5000 pessoas, Rajoelina pediu para que povo entrasse em greve geral no dia seguinte; ele pediu para que todas as pessoas em suas residências não fossem para o trabalho ou à escola. Roindefo anunciou a nomeação de quatro ministros para servirem em seu governo transitório, e disse que o restante deles seria nomeado até o final da semana. Entretanto, tanto Ravalomanana quanto Rajoelina aceitaram em princípio o diálogo; Rajoelina disse que o diálogo seria condicionado à realização de uma nova eleição presidencial ou a formação de um governo de transição.
Num comício com 35.000 pessoas em Antananarivo, em 14 de fevereiro, Ravalomanana disse que iria ter o seu pleno mandato como Presidente, que estava a ouvir o povo, e que lamentou as mortes que ocorreram durante os protestos. No mesmo dia, Rajoelina realizou um comício nas proximidades, com cerca de 10.000 pessoas.