A Guerra do Açu, em referência à região do Açu, no Rio Grande do Norte, foi um conflito armado ocorrido entre os anos de 1650 e 1720, no contexto da colonização do Brasil. Genericamente denominado também como Guerra aos Bárbaros, Guerra do Recôncavo (em referência ao recôncavo baiano, onde aconteceram as primeiras lutas armadas), e Confederação dos Cariris (por terem sido esses grupos indígenas um dos mais combatentes), envolveu majoritariamente portugueses e povos nativos denominados Tapuia, tendo como palco uma área que correspondia em termos atuais a um território que inclui os sertões nordestinos, desde o norte da Bahia até o Ceará e Rio grande do Norte.

Fontes documentais Embora figure entre os mais longos da história colonial do Brasil — contemporâneo do Quilombo dos Palmares (1644–1695) — sendo um dos mais importantes conflitos da expansão colonial, a “Guerra dos Bárbaros” carece de registro documental. Não havendo qualquer escrito produzido por nativos, um estudo dos documentos administrativos disponíveis só pode fornecer uma reconstrução dos eventos sob o ponto de vista dos conquistadores. Considerando esta situação, se pode apenas descrever como o poder colonial se organizou para combater a resistência oferecida pelos indígenas.

Um destes documentos administrativos são as correspondências do Conselho Ultramarino. Criado em 1642, atuou como o principal órgão de Portugal nas políticas de gestão colonial, dando incentivos, suporte e cobrando explicações sobre as sucessivas campanhas de expansão territorial na América portuguesa. Foi para o Conselho que militares, pastores e missionários enviaram a maior parte de suas petições e queixas, narrando comportamentos e as relações desenvolvidas com grupos indígenas a quem se aliavam ou contra quem combatiam. Esses documentos, entretanto, apresentam lacunas e são de difícil compreensão. Não obstante, povos nativos apareciam ali frequentemente descritos a partir de valores etnocêntricos mas, ao mesmo tempo, eram também identificados como potenciais aliados nas conquistas territoriais. É verdade que certos grupos indígenas também recorreram ao Conselho Ultramarino para a resolução de conflitos com os colonos ou para solicitar recompensas pelos serviços militares prestados à Coroa, mas sempre por meio de seus procuradores.

Diante das limitações impostas pela documentação disponível, alguns historiadores têm buscado alternativas metodológicas. Se trabalha com a possibilidade de compreensão das estratégias dos indígenas por meio da ideia de agência, uma noção empregada para caracterizar um conjunto de ações e comportamentos ativos em oposição à ideia historicamente construída e relativamente ultrapassada da passividade em relação à dominação. Preocupados em entender a resistência indígena em seu interior, pesquisas recentes passaram a estudar outros contextos que envolvem não o fenômeno da guerra em si, mas a integração dos indígenas ao processo de colonização em suas dinâmicas cotidianas.

Antecedentes A Guerra do Açu pode ser analisada num contexto mais amplo da interação entre portugueses e indígenas que já ocorria ao menos desde o ano 1500. Sua principal motivação, por parte dos indígenas, foi conter o avanço português nos sertões. Mas nem sempre foi assim. Esse avanço deveu-se à necessidade de expansão da pecuária e no contexto de transformação da atividade econômica de Portugal no Brasil: a passagem da extração do pau-brasil para o engenho de açúcar. Assim, a relação relativamente pacífica antes dos engenhos “(...) foi possibilitada pelo fato de que a extração do pau-brasil poderia ser enquadrada, pelo menos no início, nos padrões sócio-culturais das comunidades indígenas”. miniaturadaimagem|Recens Elaborata Mapa Geographica Regni Brasiliae In América Meridionali Maxime Celebris Accurate Delineata de Georg Mattheus Seutter, 1750. Essa mudança impactou também a relação de trabalho. Na extração do pau-brasil, predominava o escambo e não havia um controle propriamente dito sobre os indígenas. Nesse tempo, Portugal ainda não havia efetivamente colonizado o Brasil e não dispunha de tantos mecanismos de coerção. Por um lado, a relação de escambo era benéfica para ambas as partes: os portugueses obtinham uma matéria prima valiosa e os indígenas tinham acesso a tecnologias (como o machado de metal) que reduziram o tempo necessário para realizar as atividades de subsistência. Porém, “Na montagem da manufatura do açúcar, o escambo vai ser substituído pela escravidão, no sentido de assegurar a mão-de-obra para o plantio e o beneficiamento da cana”.

Expansão da pecuária Durante o período colonial brasileiro, segundo o dicionário português do século XVIII, “sertão” designava uma região afastada do mar e cercada por terra em todos os lados. Tratava-se de um conceito indefinido geograficamente, composto por paisagens “selvagens” e “não civilizadas”, potencialmente produtivas e amovíveis à medida que avançavam em sua direção as fronteiras pastoris, as fazendas e as aldeias missionárias. Assim como seus habitantes nativos - “índios selvagens”, praticantes de canibalismo, feitiçaria e outras violências - o sertão constituía um desafio à colonização.

Uma das sub-regiões notáveis do sertão brasileiro era a do Açu, que abrangia as terras à margem do rio Açu, na fronteira entre as capitanias do Rio Grande e do Ceará, até encontrar os fluxos provenientes da Bahia, adentrando seu interior, especialmente ao longo da bacia do rio Jaguaribe. A área era reputada pela vastidão de seus campos, e caracterizava-se por um fluxo migratório que inicialmente acompanhava a costa em terras semiáridas impróprias para o cultivo da cana-de-açúcar. Sua colonização intensificou-se no final da década de 1670 e início da de 1680, gerando muitas tensões e conflitos na região.

Compreender os conflitos na região do Açu passa por analisar a expansão da pecuária na região do sertão nordestino. Até a invasão holandesa, as áreas ocupadas pelos portugueses no nordeste eram sobretudo as regiões litorâneas e a atividade econômica principal constituía-se na produção de açúcar. Assim, a pecuária cumpria o papel de subsidiária do setor açucareiro, servindo sobretudo ao abastecimento interno.

O cenário muda a partir das invasões holandesa e francesa, que estimularam a expansão rumo ao interior. Ao menos dois fatores contribuíram para tal movimento: a queda do preço do açúcar após a invasão holandesa (maior oferta no mercado) e os danos ao solo causados pela atividade pecuária. O aumento da atividade açucareira, que viu seu auge em fins do século XVI  e meados do século XVII, obrigava o aumento da criação de animais, atividade que causava muitos danos ao solo, o que obrigava os pecuaristas a buscar novas terras para sua atividade. Assim, os interesses do Estado e da elite se convergiram em torno de quatro elementos: o fato de o sertão ser afastado das áreas de produção de açúcar; oportunidade aos que não possuíam capital para investir em engenhos; ocupação como forma de segurança da colônia; e valorização do gado com vistas à exportação.

A historiografia se preocupa não apenas em relatar a visão do colonizador, mas atentar para os vários grupos indígenas que já habitavam a região do sertão e suas práticas. Nesse sentido, pode-se ressaltar que a ocupação desse território não se deu de forma pacífica: ao contrário, foi marcado por duros conflitos entre colonizadores e indígenas. Os grupos originários que habitavam a região eram genericamente chamados de tapuias pelos portugueses e eram vistos como bárbaros e não civilizados. A existência de diversos grupos indígenas também foi fator decisivo para a dominação do território pelos europeus, visto que as divergências existentes entre os indígenas foram utilizadas pelos portugueses a fim de obter êxito em sua campanha de ocupação.

Tapuias Tapuia é uma designação histórica atribuída, desde o período colonial brasileiro, a diversos grupos indígenas que habitavam o interior do território brasileiro, ou “sertão”, em contraste com os grupos denominados Tupi, que ocupavam majoritariamente o litoral e falavam a chamada língua geral. O termo foi inicialmente empregado pelos próprios Tupi para classificar grupos adversários, falantes de línguas consideradas intricadas e ásperas. Posteriormente, o termo foi incorporado pelos cronistas portugueses e eternizado na historiografia tradicional, servindo como categoria genérica para aglutinar povos indígenas de grande diversidade linguística e cultural.

Do ponto de vista dos colonizadores — tanto holandeses quanto portugueses — o universo tapuia foi percebido em oposição ao tupi: eram vistos como grupos aguerridos, temidos pelos habitantes do litoral, selvagens inimigos e contrários à civilização cristã. A divisão linguística permaneceu como importante referência de identificação e segregação devido à popularidade da língua geral, que os jesuítas usavam para a catequese. No entanto, a noção de Tapuia não pode ser compreendida de maneira objetiva, como uma descrição propriamente dita, mas como uma construção histórica: Tapuia era simplesmente um indígena que não fosse Tupi, isto é, qualquer um que não fosse um potencial aliado. Se vinculando à noção de barbárie, os Tapuia eram aqueles que não podiam ser mais prontamente integrados à sociedade cristã. miniaturadaimagem|278x278px|“Homem Tapuia”, 272×161, 1641, do pintor Holandês Albert Eckhout. Com o avanço das fronteiras pastoris após a expulsão dos holandeses em 1654, se intensificaram as guerras e “descimentos” de indígenas para as missões religiosas. A categoria “Tapuia” foi então evocada para estabelecer uma alteridade que justificasse a dominação daqueles contrários à expansão. Assim, diferentes grupos foram genericamente classificados como inimigos dos portugueses, com o agravante de que alguns destes haviam forjado alianças com os holandeses e se convertido ao protestantismo. Mas embora os tapuias estivessem envolvidos em conflitos com as frentes de expansão da pecuária pelo menos desde a década de 1680, também haviam assumido acordos com os portugueses em determinadas situações.

Na realidade, os chamados tapuias não constituíam um grupo homogêneo. Estudos recentes indicam que pertenciam a diferentes troncos culturais: os Jê, os Tarairiu, os Cariri e grupos isolados sem classificação. Entre as diversas etnias referidas nos documentos coloniais estão Sucurú, Bultrim, Ariu, Pega, Panati, Corema, Paiacu, Janduí, Tremembé, Icó, Carateú, Carati, Pajok, Aponorijon e Gurgueia.

Os Cariri, de maneira geral, pareceram se adaptar melhor aos portugueses, auxiliando-os em conflitos e aceitando os aldeamentos missionários. Já os Tarairiú teriam se entendido mais com os holandeses. Em relação à língua falada pelos Cariri, há registros gramaticais e catecismos elaborados pelos padres Luís Vincêncio Mamiani e Bernardo de Nantes; sobre as línguas tarairiú, entretanto, as referências são escassas, havendo indícios de que alguns dominassem o idioma Cariri ou a língua geral.

Os cronistas da época registraram também diferenças físicas, sendo os Tarairiú descritos como mais altos, robustos e de pele avermelhada, exímios corredores, nadadores, caçadores e guerreiros. Andavam armados com clavas, arcos e espingardas obtidas junto aos holandeses. Eram semi-nômades, caçadores-coletores, sendo que alguns grupos praticavam agricultura sazonal e há relatos do consumo de carne humana, especificamente seus próprios parentes falecidos. Realizavam também cerimônias religiosas comandadas por “feiticeiros” adornados com penas de ema, que faziam uso de tabaco e bebidas estimulantes, induzindo estados de possessão e fazendo profecias. Embora tenham incorporado o comércio e a criação de cavalos e gado, muitos grupos tapuias mantiveram formas de predação: praticavam a pilhagem e o saque contra outras comunidades indígenas ou contra arraiais, fazendas e aldeamentos, associando a violência á seus circuitos econômicos.