A língua maltesa (Lingwa Maltija; Malti) é uma das línguas semíticas e única dessa família de línguas que usa o alfabeto latino. É falada na ilhas de Malta, Gozo e Comino. São 387 mil os falantes como língua materna.

O maltês é a língua oficial e nacional de Malta, onde também o inglês goza de status oficial. Constitution of Malta, I.5.(1), É também uma das línguas oficiais da União Europeia, a única das línguas semíticas com essa consideração. O maltês tem origem no sículo-árabe, dialeto árabe que se desenvolveu na Sicília, sul da Itália e Malta. Cerca de metade do vocabulário vem do italiano e do siciliano, cerca de 20% vem do inglês. É a única língua semítica escrita na sua forma padrão com o alfabeto latino.

História 240px|thumb|right|Manuscrito da Cantilena de Pietro Caxaro.

No fim do século XI, Malta começou a ser ocupada por falantes de sículo-árabe da Sicília, que fora conquistada pelo Califado Fatímida no fim do século IX. A conquista normanda em 1090, seguida pela expulsão dos muçulmanos, isolou permanentemente a língua da ilha do árabe padrão, criando condições para que se tornasse uma língua à parte, enquanto na própria Sicília o árabe foi extinto em favor do siciliano.

A mais antiga referência ao maltês vem dos monges Beneditinos da Catânia, que em 1364 não puderam abrir um mosteiro em Malta por não entender a língua local. Em 1436, por ordem de um homem chamado Pawlu Peregrino, a língua foi pela primeira vez identificada como lingua maltensi. O mais antigo documento conhecido em língua maltesa é uma Cantilena (em Maltês: Xidew il-Qada), poema do século XV, de autoria de Pietro Caxaro. O primeiro dicionário maltês foi escrito pela corte do cavalheiro francês François de Vion Thezan em 1640. Inclui notas sobre a gramática da língua e uma seção informando frases em italiano e em maltês para dar ordem a soldados. Ainda são disponíveis Facsimiles dessa obra.

Giacomo Bosio escreveu entre 1594 e 1602 o livro Dell'Istoria della Sacra Religione et Illustrissima Militia di San Giovanni Gierosolimitano (História da Sagrada Religião e Ilustre Milícia de São João de Jerusalém). Nessa obra, Bosio endossa a ideia de que a língua maltesa originava-se da língua púnica ou cartaginesa. O próprio Bosio informa que quando da colocação da pedra fundamental de La Valletta, um grupo de anciãos malteses disse: Iegi zimen en fel wardia col sceber raba iesue uquie(em maltês atual Jiġi żmien li fil-Wardija [l-Għolja Sciberras] kull xiber raba’ jiswa uqija, em português Virá o tempo em que cada pedaço de terra na "Colina Sciberras" valerá seu peso em ouro. Esse é mais antigo documento impresso em maltês.

Pasquale Vassallo, um frade dominicano escreveu várias canções em italiano e em maltês em 1584, as quais foram queimadas pela Inquisição em 1585 por seu conteúdo dito como obsceno.

O maltês passou a ser língua oficial de Malta em 1934, junto com o inglês, quando o italiano perdeu esse status.

Falantes Em 1975, estimavam-se 387 mil falantes de maltês, dos quais 300 mil residindo em Malta. Há milhares de imigrantes malteses na Austrália, no Canadá, Gibraltar, Itália, Reino Unido e Estados Unidos que ainda falam a língua. Em 2007, foi verificado que a língua ainda é falada por imigrantes malteses que vivem na Tunísia.Times of Malta, 11 February 2007

Classificação O maltês é uma língua semítica derivada do sículo-árabe,C.F. & F.M. Voegelin. 1977. Classification and Index of the World's Languages. Elsevier.Merritt Ruhlen. 1991. A Guide to the World's Languages, Volume 1: Classification. Stanford.David Dalby. 2000. The Linguasphere Register of the World's Languages and Speech Communities. Linguasphere Observatory.Gordon, Raymond G., Jr., ed. 2005. Ethnologue: Languages of the World. 15th ed. Summer Institute of Linguistics.Alan S. Kaye & Judith Rosenhouse. 1997. "Arabic Dialects and Maltese," The Semitic Languages. Ed. Robert Hetzron. Routledge. Pages 263-311. a qual no curso da história de Malta foi influenciada pelo italiano e pelo siciliano. Numa menor extensão foi influenciada pelo Francês e mais recentemente pelo inglês. Hoje, o vocabulário base e as "palavras gramaticais" (artigos, pronomes, conjunções, interjeições, verbos auxiliares, demonstrativos, etc) são semíticas, com muitas palavras de origem externa. Devido também à influência siciliana no Sículo-Árabe, o maltês tem muitas características de contato com muitas línguas, sendo classificado como língua com muitas influências externas.Alexander Borg. 1997. "Maltese Phonology," Phonologies of Asia and Africa, Vol. 1. Ed. Alan S. Kaye. Winona Lake: Eisenbrauns. Pp. 245-285.

O maltês foi historicamente classificado de várias maneiras, em geral contraditórias entre si na opinião dos linguistas de hoje: Alguns consideram ser originária da língua púnica, da antiga Cartago, não do sículo-árabe. Outros veem origens na língua berbere do norte da África. Ao tempo da Itália Fascista, era considerada pelos italianos como mais um dialeto do italiano. Outros ainda defendem a ideia do maltês ser derivado de dialetos da língua árabe falada na Tunísia.

Dialetos As variantes urbanas do maltês ficam mais próximas do "maltês padrão" do que as formas rurais.Isserlin. Studies in Islamic History and Civilization. BRILL 1986, ISBN 965-264-014-X cujas características as distinguem bastante do padrão principal. As formas rurais são mais arcaicas tais como as pronúncias de kh e gh, também o uso do "Imāla" árabe (vogal longa com ponto mais alto) ā para ē (ou ī no dialeto "Gozo"), que era usado no século XV, registrado em transcrições. Outro arcaísmo do maltês rural fica na pronúncia do ā como ō. Há também a tendência tornar as vogais simples em ditongos: ū se torna eo ou eu. Além disso, esse dialeto rural usa mais palavras semíticas, mais plurais partidos e fica mais distante do árabe mediterrâneo ocidental do que o maltês padrão.

Fonologia Consoantes + Consoantes do maltês   Bilabial Labiodental Dental Pós-alveolar Velar Faríngea Glotal Nasalm   n         Plosiva Cons. surda P   T   K   oclusiva glotal Cons. sonora B   D   G     Africativa Cons. surda     fricativa alveolar surda - t͡s fricativa pós-alveolar surda - t͡ʃ       Cons. sonora     fricativa alveolar sonora - d͡z fricativa pós-alveolar sonora - d͡ʒ       Fricativa Cons. surda   F S fricativa pós-alveolar surda - ʃ   fricativa faríngea surda - ħ   Cons. sonora   V Z         Consoante trilada     trilo alveolar - R         Aproximante     L        

Vogais O maltês apresenta:Maltese. Albert J. Borg, Marie Azzopardi-Alexander, Azzopardi-Alexa. Routledge, 1997. cinco vogais curtas, escritas a e i o u; seis vogais longas, escritas a, e, ie, i, o, u, sete ditongos, escritos aj ou għi, aw ou għu, ej ou għi, ew, iw, oj, e ow ou għu.

Alfabeto Além das letras do alfabeto latino base (sem o Y), a língua maltesa usa diacríticos para adaptar algumas letras à sua fonética: Ċ,ċ Ġ,ġ GĦ,għ Ħ,ħ IE,ie Ż,ż

Vogais: a, e, i, ie, o, u

Ditongos: aj, aw, ej, ew, iw, għi, għu

Consoantes (além das com diacríticos apresentadas acima): b, d, f, g, h, j, k, l, m, n, p, q, r, s, t, v, w, x, z

Ortografia atual A ortografia do maltês moderno foi apresentada em 1924. A seguir se apresenta o alfabeto maltês, símbolos IPA e com pronúncia aproximada.

Letra Nome exemplo Maltês IPA Pronúncia aprox. em Português A aa anġlu (anjo)o a em cara B b be ballun (bola)bola, mas ao fim da frase é suavizado para . Ċ ċ ċe ċavetta (chave)tchau (nota: o 'c' sem ponto superior foi substituído por 'k', assim, quando 'c' aparecer, será pronunciado como 'ċ'. D d de dar (lar, casa)dia, mas ao fim da frase é suavizado para . E e e envelopp (envelope)pé F f effe fjura (flor)Faro Ġ ġ ġe ġelat (sorvete)adjetivo, mas ao fim da frase é suavizado para . G g ge gallettina (biscoito)gato, mas ao fim da frase é suavizado para . GĦ għ ajn għasfur (ave, pássaro), tem o efeito de tornar mais longa e mais faringeazada a vogal associada (għi e għu são e ). Ao final de uma palavra ou logo antes de um 'h' tem som de um duplo 'ħ' (ver a seguir). H h akka hu (ele) mudo, exceto quando ao fim de uma palavra, quando soa como 'ħ'. Ħ ħ ħe ħanut (loja)sem equivalente em português, parece um , porém, articulado com laringe inferior. I i i ikel (comida)inglês bit IE ie ie ieqaf (parada), sem equivalente em português; parece um , como no inglês yield, porém, levemente "aberto" para J j je jum (dia)miar K k ke kelb (cão)cão L l elle libsa (vestido)linha M m emme mara (mulher) marchar N n enne nanna (avó)novo O o o ors (urso)pó P p pe paġna (página, folha)parte Q q qe qattus (gato)a plosiva glotal, sem correspondente em português. R r erre re (rei)como no inglês road S s esse sliem (paz)ser T t te tieqa (janela)tirar U u u uviera (porta ovos)fato V v ve vjola (violeta)vera, mas ao final da palavras é suavizado para . W w we widna (ouvido)qual X x exxe xadina (macaco)"Xícara", as vezes como João Z z ze zalza (tempero)como no italiano pizza Ż ż że żraben (sapatos)zebra, mas ao final da palavras é suavizado para .

As vogais finais com acentos graves (à, è, ì, ò, ù) são também encontradas em algumas palavras maltesas de origem italiana, tais como libertà ("liberdade"), sigurtà (italiano antigo: sicurtà, "segurança"), ou soċjetà (Italiano: "società; "sociedade").

As regras oficiais que regem a estrutura da língua maltesa se encontram no guia oficial da Akkademja tal-Malti, a "Academia da Língua Maltesa", que é denominado Tagħrif fuq il-Kitba Maltija ("Conhecimento da Escrita Maltesa"). A primeira edição desse livro é de 1924 pela imprensa oficial do governo de Malta. As regras foram ampliadas em 1984 no livro iż-Żieda mat-Tagħrif, cujo foco é a crescente influência de palavras das línguas latinas e do inglês. Em 1992, a Academia (Aġġornament tat-Tagħrif fuq il-Kitba Maltija) atualizou os trabalhos anteriores. Todos esses trabalhos foram incluídos numa edição revisada e expandida em 1996.

Hoje, o "Conselho Nacional da Língua Maltesa" (KNM) é o regulador principal da língua maltesa pelo "Ato da Língua Maltesa", não a Akkademja tal-Malti. As regras de ortografia são ainda válidas e oficiais.

Escrita Desde que o maltês teve um primeiro crescimento depois que os Ítalo-Normandos expulsaram os árabes de Malta no século XI, não se desenvolveu uma língua maltesa padrão escrita por muito tempo depois dessa saída dos árabes. Durante esse período, a língua maltesa teve seu uso desencorajado muitas vezes.

Durante o domínio da Ordem Soberana e Militar de Malta (até o século XIX) o francês e o italiano eram usados para correspondências e documentos oficiais. Durante o domínio colonial britânico sobre Malta, o uso do inglês foi encorajado na educação, ficando o italiano como a segunda língua.

O reconhecimento do maltês como língua oficial foi em 1934. Desde o século XIX, filólogos e acadêmicos, como Mikiel Anton Vassalli, haviam feito esforços para transcrever o maltês falado numa forma escrita compreensível. Há muitos documentos desse período, com o maltês já escrito em alfabeto latino.

Amostras de texto Il-bnedmin kollha jitwieldu ħielsa u ugwali fid-dinjità u d-drittijiet. Huma mogħnija bir-raġuni u bil-kuxjenza u għandhom igibu ruħhom ma' xulxin bi spirtu ta' aħwa. Tradução: Todos seres humanos nascem livre e iguais em dignidade e direitos. São providos de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros num espírito de fraternidade. (Artigo 1 - Declaração Universal dos Direitos Humanos);

Fil-bidu, Alla maħluqa-sema u l-earth. Il earth li kien mingħajr forma u skariki;-dlam kienet tkopri l-abyss u impetuous riħ kien blowing għall-ilmijiet. Tradução: No princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra estava sem forma e vazia; as trevas cobriam o abismo e um vento impetuoso soprava pelas águas. (Gênesis, capítulo 1, versículos 1 e 2)

Amostra extraída do Tratado estabelecendo uma Constituição para a Europa: