thumb|260px|Retrato de D. Manuel de Moura Corte-Real.|alt=Retrato Manuel de Moura Corte-Real (Madrid, 17 de agosto de 1590 — Madrid, 28 de janeiro de 1651), 1.º conde de Lumiares e depois 2.º marquês de Castelo Rodrigo, foi um aristocrata que ao serviço de Filipe IV de Espanha desempenhou importantes funções diplomáticas e governamentais. Foi embaixador junto da Santa Sé e na corte imperial de Viena, governador dos Países Baixos Espanhóis (1644-1647) e plenipotenciário à Paz de Münster concluída no ano de 1648.«Corte-Real, Manuel de Moura (D.)» na Enciclopédia Açoriana.«Doação das capitanias de Angra, Praia e S. Jorge e Faial e Pico» in Archivo dos Açores, vol. IV, pp. 175, 229, 408; vol. VI, p. 339. 2.ª edição, Universidade dos Açores, Ponta Delgada, 1982.A Nobreza de Portugal, vol. II, pp. 513, 705. Enciclopédia Ed., Lisboa, 1961. Distinguiu-se, ainda, como genealogista.Escritores Lusófonos: D. Manuel de Moura Corte Real. Biografia Nasceu em Madrid, filho de D. Cristóvão de Moura, o 1.º marquês de Castelo Rodrigo, e de sua esposa, D. Margarida Corte Real, membro da rica família Corte Real e herdeira das capitanias de Angra e de São Jorge. Foi o 1.º conde de Lumiares, título criado por carta régia de 2 de novembro de 1607 para agraciar o primogénito dos marqueses de Castelo Rodrigo. Pelo falecimento de seu pai em 1613, foi o 2.º marquês de Castelo Rodrigo.Santiago Martínez Hernández, «Os marqueses de Castelo Rodrigo e a Nobreza portuguesa na monarquia hispânica: estratégias de legitimação, redes familiares e interesses políticos entre a agregação e a restauração (1581-1651)» in Ler História, 57 (2009).

Educado em Madrid, em cuja corte seu pai exercia altas funções palatinas, foi preparado para seguir o percurso típico da alta aristocracia cortesã, com funções essencialmente voltadas para o serviço pessoal do rei e para o exercício de altos cargos políticos. Com a morte de Filipe II de Espanha em 13 de setembro de 1598, de quem seu pai fora um dos mais próximos servidores, os condes de Castelo Rodrigo perderam parte da sua influência palaciana, sendo nos anos imediatos a família de D. Cristóvão de Moura enviado para Lisboa, onde exerceu dois mandatos trienais como vice-rei de Portugal.

Ainda em vida do seu pai, no mês de novembro de 1613, Manuel de Moura Corte Real casou com D. Leonor de Melo, filha de D. Nuno Álvares Pereira de Melo, 3.º conde de Tentúgal e marquês de Ferreira, e de D. Mariana de Castro Osório Moscoso. Ficou assim aparentado com os condes de Tentúgal e depois marqueses de Cadaval, alargando substancialmente a rede de ligações familiares iniciada nas gerações anteriores por seus pais.

Em Lisboa a família possuía uma grande palácio situado ao Corpo Santo, na margem do Tejo, que rivalizava em magnificência com o paço real. Falecida a mãe em 1610 e o pai em 1613, Manuel de Moura Corte-Real herdou a imensa riqueza da família, incluindo os seus diversos senhorios e capitanias, e a grande rede de influência que seu pai construíra em Portugal e Espanha. Por herança de seu pai foi senhor da vila do Lamegal, do concelho de Cabeceiras de Basto, e das honras de Paços de Ferreira e Baltar, capitão-do-donatário nas capitania de Angra e Praia, na ilha Terceira, da ilha de São Jorge e das ilhas do Faial e do Pico. Foi comendador-mor da Ordem de Alcântara e comendador-mor da Ordem de Cristo. Como Grande de Espanha, exerceu diversos cargos palatinos, entre os quais os gentil-homem da câmara de Filipe IV de Espanha e seu mordomo-mor, vedor da Fazenda de Portugal e membro do Conselho de Portugal. Usava o título de «Dom Emmanuel de Moura e Côrte-Real, marquês de Castelo Rodrigo, conde de Lumiares (en Portugal), senhor das capitanías de Angra e São Jorge, comendador mayor de la Orden de Alcántara, comendador mayor de la Orden de los Cabaleros de Nuestro Señor Jesu Cristo, gentilhombre de cámara del Rey y Mayordomo mayor del rey Felipe IV».

Após o falecimento do pai, Manuel de Moura Corte-Real fixou-se em Madrid, onde em 1615 foi nomeado gentil-homem da câmara do príncipe Filipe de Áustria, o príncipe herdeiro e futuro Filipe IV de Espanha. Entretanto, a partir de 1616 começou a transferir toda a sua fazenda para Madrid, depois de vários anos de estadia permanente em Lisboa, optando claramente por fazer da capital da monarquia hispânica a sua residência principal.

Em 1619 envolveu-se profundamente na preparação e na condução da visita do rei Filipe III de Espanha a Lisboa, a única que faria no seu reinado. Esta jornada real a Lisboa foi uma importante oportunidade para os Castelo Rodrigo demonstrarem o seu poder de influência em Lisboa e a sua opulência, pois até a Câmara de Lisboa recorreu ao marquês para a preparação e financiamento das festas. Uma rima elaborada para uma das festas então realizadas mostra o peso dos Castelo Rodrigo: «O Conde de Lumiares. Não me deu meu pay amigos/ mas deume muitos milhões/ com que ganhar corações».Pedro Cardim, «La Jornada de Portugal y las Cortes de 1619», in José Martínez Millán e Mª. Antonietta Visceglia (dir.), La monarquía de Felipe III: Los Reinos, vol. IV, pp. 900-946. Fundación Mapfre Tavera, Madrid, 2008. Simbolicamente, foi durante a visita a Lisboa que Filipe III de Espanha confirmou Manuel de Moura Corte-Real na perpetuidade dos títulos de que gozara o seu pai.

Bem situado na corte de Madrid como gentil-homem da câmara do príncipe, de cujo favor parecia gozar e cuja confiança conquistara, a sua posição ameaçava as aspirações do conde-duque de Olivares, seu antigo aliado na desagregação do valimento de Francisco Gómez de Sandoval y Rojas, o duque de Lerma.John H. Elliott, El conde-duque de Olivares. El político en una época de decadencia, pp. 59-60. Crítica, Barcelona, 1991. Quando, a 31 de março de 1621, Filipe IV de Espanha subiu ao trono, manteve-se ao seu serviço como gentil-homem da câmara real. Logo a 15 de julho de 1621, escassos três meses após ter chegado ao trono, Filipe IV concedia a Manuel de Moura Corte-Real a Grandeza de Espanha, abrindo potencialmente caminho a um maior valimento.Gerónimo Gascón de Torquemada,Gaçeta y nuevas de la Corte de España desde el año 1600 en adelante, p. 104. Madrid, RAMHG, 1991. Nesse mesmo ano foi feito membro do Conselho de Portugal.

A subida ao trono de Filipe IV desencadeou um conjunto de complexas rivalidades na reorganização da casa real, das quais saiu vencedor Gaspar de Guzmán y Pimentel Ribera y Velasco de Tovar, o conde-duque de Olivares, que ainda inseguro na sua posição de valido do novo monarca, tratou de afastar os potenciais rivais, entre os quais Manuel de Moura Corte-Real, considerado anti-olivarista. Considerando Manuel de Moura Corte-Real um perigoso intriguista, Olivares receava a sua presença, pelo que não o queria perto de si, e muito menos do rei e dos seus irmãos. Em consequência, apesar da sua vasta e poderosa rede clientelar, Manuel de Moura Corte-Real não conseguiu manter na corte a posição de privilégio que tivera seu pai. Marca desse declínio de influência foi a perda da comenda-mor da Ordem de Alcântara, que herdara de seu pai, entregue a Olivares por carta régia de 23 de agosto de 1624, recebendo Manuel de Moura Corte-Real, em troca, a comenda-mor da Ordem de Cristo, de inferior quantia e qualidade.Gerónimo Gascón de Torquemada, Gaçeta y nuevas de la Corte de España desde el año 1600 en adelante, p. 200. Madrid, RAMHG, 1991.

Considerado pelos seus detratores como dado a acreditar no juízo de «matemáticos y astrólogos y de supersticiosos», entre eles o cosmógrafo português João Baptista Lavanha, junto de quem procurava adivinhar o seu futuro, Manuel de Moura Corte-Real era considerado um perigoso adversário de Olivares. Apesar da oposição deste, após o falecimento de Baltasar de Zúñiga y Velasco, ocorrido em outubro de 1622, conseguiu melhorar a sua posição na corte ao conquistar a confiança do infante D. Carlos, irmão do rei e seu presuntivo sucessor em caso de falecimento deste, já que ao tempo Filipe IV não tinha filhos vivos e no decurso de 1627 sofrera uma grave doença, que fizera perigar a sua vida. Esta relação de Manuel de Moura Corte-Real com o infante D. Carlos era factor de instabilidade para o valimento de Olivares, pelo que este conseguiu uma nomeação para Lisboa, permitindo assim afastá-lo da corte madrilena.

Com efeito, Manuel de Moura Corte-Real partiu a 27 de maio de 1629 para Lisboa, onde estava incumbido de negociar com o reino de Portugal os meios necessários para aprestar duas armadas, uma destinada a socorrer Pernambuco, que fora já atacado em anos anteriores e que estava novamente ameaçado pelos neerlandeses, e proteger a navegação portuguesa para o Brasil, outra a socorrer a Índia e região circundante, fortemente pressionada por ingleses e neerlandeses. Permaneceu em Lisboa até meados de 1630, regressando então a Madrid.

Ao chegar a Madrid foi apontado por Olivares para regressar a Lisboa como vice-rei de Portugal, mas escusou-se. Como a sua presença em Madrid continuasse a ser inaceitável para o todo poderoso conde-duque de Olivares, em 1632 foi nomeado para uma embaixada extraordinária em Roma como representante de Filipe IV junto do papa Urbano VIII, dando início a uma ausência de Madrid que duraria 16 anos, de 1632 a 1648.

Apesar de ter aceitado o cargo a contragosto, depois de instalado em Roma revelou-se um grande mecenas das artes, dotado de excelente gosto e de grande conhecimento do panorama artístico do seu tempo. Recorrendo à sua fortuna pessoal, financiou a construção do claustro do convento franciscano de Santo Isidoro al Monte Pincio, instituição que anteriores embaixadores espanhóis já tinham financiado, e teve intervenção de relevo na construção da Igreja de Santo António dos Portugueses.Gaetano Sabatini, «La comunità Portoghese a Roma nell´età dell´unione delle Corone (1580-1640)», in Carlos José Hernando (coord.), Roma y España. Un crisol de la cultura europea en la Edad Moderna, vol. II, pp. 847-874. Madrid, Sociedad Estatal para la Acción Cultural Exterior, 2007. Entre os artistas que patrocinou destacam-se o arquitecto Francesco Borromini, que terá concebido os planos para a renovação da Quinta de QueluzPaulo Varela Gomes, «Damnatio Memoriae. A arquitectura dos marqueses de Castelo Rodrigo”, in José Luis Colomer (dir.), Arte y diplomacia de la Monarquía Hispánica en el siglo XVII. Fernando Villaverde Ediciones & Casa de Velázquez, Madrid, 2003. e para a cripta que os marqueses de Castelo Rodrigo estavam a construir no Convento de São Bento (hoje o Palácio de São Bento),Cripta dos Marqueses de Castelo Rodrigo. e o escultor François Duquesnoy, a quem encomendou oito obras em mármore destinados a integrar o panteão que estava a ser erigido na capela-mor do mosteiro de São Bento de Lisboa. Em resultado da Restauração de 1640, a capela ficou inacabadaCosme de Médicis, Viaje de Cosme de Médicis por España y Portugal (1668-1669). Edicion y notas por Angel Sánchez Rivero y Angela Mariutti de Sánchez Rivero. Madrid, Sucesores de Rivadeneyra, . e o destino das esculturas de François Duquesnoy é incerto, pois em 1651 algumas ainda se encontravam embaladas no porto de Livorno. Francesco Borromini dedicou a Manuel de Moura Corte-Real a sua obra Opus Architectonicum.Opus architectonicum Equitis Francisci Boromini : ex ejusdem exemplaribus petitum; oratatorium nempè, ædesque Romanæ RR. PP. Congregationis Oratorii S. Philippi Nerii : additis scenographia, geometricis, proportionibus, ichnographia, prospectibus integris, obliquis, interioribus, ac extremis partibus lineamentis : accedit totius ædificii descriptio ac ratio. Romæ : Sebastianus Gianninus edidit., 1725.Rudolf Wittkower, «Il Marchese di Castel Rodrigo ed il Borromini», in Studi sul Borromini. Atti del Convegno promosso dall´Accademia Nazionale di San Luca, vol. I, pp. 40-43. Roma, 1967.