Peridéxion, ou Perindens, árvore mitológica da Idade Média, originária da Índia, é uma representação da Árvore da Vida. Tudo leva a crer que se trata da figueira sagrada, ficus religiosa. Esta Árvore da Vida é composta por uma árvore simétrica com frutos, aves e um ou dois dragões na base. No entanto, é possível encontrar representações em que as aves não estão presentes, e, ou, o animal ou animais ferozes não são dragões. Como acontece no estampado de seda islâmico do Museu Nacional do Irão em Teerão, em que a árvore simétrica é ladeada por dois leões com asas de águia. Mas estas costumam ser consideradas deturpações do Peridéxion.

Filologia Peridéxion (περιδἑξιον) é um termo do Grego Antigo, que resulta da junção de dois termos: peri (περι), que significa em torno de, sobretudo, grandemente, em respeito a; e dexiós (δεξιός), que significa dextro, auspicioso, hábil, industrioso. A tradição medieval traduziu peridéxion para o Latim como: Circa dexteram ou Perindens. O seu significado em português é: ambidextro, muito hábil ou oportuno.Franco Montanari, Vocabolario della lingua greca, Torino, Loescher, 2006.António Gomes Ferreira, Dicionário de Latim Português, Porto, Porto Editora, 1976. A utilização deste termo é muito antiga e podem encontrar-se aplicações na literatura grega clássica, como é o caso das Nuvens de Aristófanes (século V a.C.), em que o termo surge numa alocução do Coro para qualificar os discursos da Causa Justa e da Causa Injusta.Texto original: Aristófanes, Nuvens, Perseus. Tradução inglesa: Aristophanes, Clouds, ed. F.W. Hall and W.M. Geldart, Perseus. Na Idade Média o sentido do Peridéxion equivalia ao movimento de oscilação do mundo em torno de um centro perfeito e circular, descrito no Timeu de Platão Tal como se pode ler no texto de Platão sob a tradução de Desmond Lee: Plato, Timaeus, Penguin, London, 1977. Ou sob a tradução de R. G. Bury: Plato, Timaeus, Loeb, Cambridge/London, 1989.Mediavalista Online - Maria Manuela Braga, Alguns dados para o entendimento da iconografia do portal da igreja matriz do Alvor.IEM FCSH-UNL FCT, e a árvore mítica da Índia foi associada a passagens bíblicas, em que o dragão (o demónio) aguardava que as pombas (os fiéis) se afastassem dos frutos (as ordens divinas) para as desencaminhar. Outro termo medieval para a árvore, Peridixion, deriva de uma adulteração do termo Paradision, que significa paraíso.

Fisiólogo

O Fisiólogo, ou Physiologus em Latim, é um manuscrito grego antigo que resulta da compilação de uma série de lendas com origem nas tradições indiana, egípcia e judaica, a que se acrescem as contribuições gregas dos textos clássicos sobre o mundo natural de Aristóteles, Heródoto, Plínio e outros naturalistas.The Origin of the Text in The Aberdeen Bestiary Não se conhece a autoria do texto, mas, pelo que nos diz a tradição e Richard Gottheil Richard Gottheil, The Greek Physiologus and Its Oriental Translations, The University of Chicago Press, 1899. JSTOR, tem-se especulado sobre a possível autoria de Clemente de Alexandria, ou Taciano, ou Epifânio, ou Basílio de Cesareia ou, ainda, São João Crisóstomo. Durante a década de noventa considerava-se que o Fisiólogo teria sido escrito em Alexandria no (século II), até Alan ScottAlan Scott, The Date of the Physiologus, Vigiliae Christianae, Leiden, Brill, 1998. JSTOR defender que a sua composição pertencia ao fim do século seguinte ou início do ainda posterior, por ser notável a influência de Orígenes. Scott também questiona Alexandria como lugar da composição do manuscrito, afirmando que as provas só indicam que tenha sido escrito no Egipto, todavia, a noção de que se trata desta cidade tem sido aceite pela academia. Segundo estudos conduzidos na Universidade de Aberdeen, terão sido os textos de São Paulo e Orígenes a revestir estas histórias antigas com o tecido cristão, onde se procurava mostrar que o mundo de Deus estava espelhado no mundo natural.

O Peridéxion é a única árvore que está representada no manuscrito antigo do Fisiólogo, que consistia na descrição de animais, pássaros, criaturas fantásticas e pedras, acompanhados de conteúdo moral didáctico, sob a forma de metáforas para facilitar a aprendizagem e integração do cristianismo. Até ao advento da ciência, quando se universalizou um conhecimento mais rigoroso do mundo natural, acreditava-se que as histórias e animais catalogados no Fisiólogo eram reais, pelo que durante muito tempo na Idade Média, este era o texto que se tinha mais próximo de uma zoologia. Tal como o podemos conhecer agora, deriva duma zoologia popular em cerca de cinquenta secções que acabou por ser transformada num conjunto de alegorias cristãs.

Bestiário

O bestiário é uma forma de texto descritivo de criaturas naturais e fantásticas, com interpretação moralizadora, que deriva directamente do Fisiólogo. Embora o manuscrito antigo originário deste género pertença ao séc. III, é só no séc. XII, muito mais tarde, que a classe monástica ilustrada vai estabelecer este tipo de composição. No período intermédio a tradição monástica fez cópias do Fisiólogo, traduzido para o Latim, de que o Fisiólogo de Berna Codex Bongarsianus 318, manuscrito ilustrado que data de seis séculos a seguir ao original, é a cópia mais famosa. Ainda neste período, o Fisiólogo foi traduzido para muitos idiomas do médio oriente, como o etiópico, o siríaco, o arménio e o árabe. Na Europa foi traduzido para o Latim, e como bestiário conseguiu estabelecer-se nas antigas literaturas germânica, francesa, espanhola, anglo-saxónica, islandesa e valdense. Tornando-se assim amplamente divulgado e conhecido.

Os bestiários eram livros alegóricos, por vezes claramente humorísticos e fantasiosos, em cuja informação, tal como acontece com o Fisiólogo, não derivava de conhecimento científico ou experimental, ou de observação no terreno das criaturas que eram descritas. E isto de tal modo que algumas das representações dos animais que não pertencem ao mundo da fantasia, como acontece com o abutre, não correspondiam à realidade da natureza. É o caso da iluminura com dois abutres opostos num círculo, no Abutre do Bestiário de Aberdeen, em que estes mais se parecem com duas águias, porque os iluminadores provavelmente não conheciam a ave que desenhavam. Muitos destes manuscritos eram iluminados e tinham como objectivo estimular e conduzir a imaginação, de modo a estabelecer paralelos identificáveis entre os supostos mundo natural e mundo supra natural. O unicórnio dá bom exemplo disto no Bestiário de Rochester, cuja representação da sua caça se afigurava como um meio prodigioso para demonstrar o poder ilimitado de uma virgem. Dizia-se do unicórnio que não conseguia dominar-se de modo nenhum, tal era a sua desconfiança em relação ao homem, e que só perante a pureza de uma virgem era possível acalmá-lo para trazê-lo à proximidade da lança, e assim se conseguir caçá-lo.

Tomando o Fisiólogo como exemplo e modelo, Santo Ambrósio de Milão e Santo Isidoro de Sevilha, este último conhecido por ser o primeiro compilador medieval, aumentaram o conteúdo religioso com referências a passagens da Bíblia e da Septuaginta. Estes dois santos, assim como muitos outros autores que se seguiram, foram aumentando e modificando modelos anteriores a si, refinando assim o conteúdo moral sem se preocuparem com os factos da realidade natural. No entanto, estas descrições fantásticas sem paralelo na natureza eram lidas por muitos e consideradas verdadeiras, e foram sendo incluídas nos bestiários, de que o Bestiário de Aberdeen é um dos melhores exemplos.

Bestiário de Aberdeen

O Bestiário de Aberdeen é um manuscrito iluminado que está preservado na Biblioteca da Universidade de Aberdeen com o código MS 24, onde se procede ao seu estudo. Esta obra foi composta em latim na Inglaterra de inícios do séc. XIII e trata-se de um dos mais importantes exemplares do seu género.

História O manuscrito tornou-se conhecido em 1542 por pertencer ao conjunto de obras que foram resgatadas ao clero católico, quando Henrique VIII declarou a dissolução dos seus mosteiros. Ano em que surge no inventário da Old Royal Library (Antiga Biblioteca Real) do Palácio de Westminster, com a entrada No.518 Liber de bestiarum natura. Biblioteca cujo espólio resultava na sua maior parte deste resgate, em que Henrique VIII foi assistido pelo antiquário John Leland, para acomodar o grande conjunto de obras reunidas. Ao longo dos anos, parte do espólio foi saindo da biblioteca real e, no séc. XVII, o manuscrito foi provavelmente dado a Thomas Reid por Patrick Young, que era na altura o bibliotecário da corte. Reid era o reitor do Marischal College (Colégio Marischal) e, consequentemente, deu-o ao colégio, numa oferta com cerca de 1350 livros e manuscritos, entre 1624 e 1625. Quando a doação de Reid foi catalogada em 1670 por Thomas Gray, o manuscrito tinha a marcação 2.B.XV Sc e era conhecido por Isidori phisiologia. Na década de 1720 a colecção de manuscritos do Colégio Marischal foi reorganizada em encadernações, e em 1726 criou-se o catálogo de armazenamento MS M 72. É neste catálogo que as excisões sofridas pelo Bestiário são pela primeira vez registadas, estabelecendo-se assim a data final das mutilações. Quando o Colégio Marischal, que se chamava Marischal College and University of Aberdeen (Colégio Marischal e Universidade de Aberdeen) se fundiu com o King's College (Colégio King's ou, literalmente, Colégio do Rei) para dar origem à Universidade de Aberdeen, o Bestiário passou a chamar-se Aberdeen Bestiary (Bestiário de Aberdeen).The History of the Manuscript, press marks and binding in The Aberdeen Bestiary

Peridéxion A Universidade de Aberdeen, para além de divulgar o manuscrito latino em imagens, do qual temos aqui o Abutre e o Peridéxion, divulga a transcrição do texto latino e uma tradução para o inglês. Tal como pode ser lido no Bestiário de Aberdeen, seguindo a tradução inglesa da instituição que o preserva, a qual se pode confrontar com a transcrição do texto latino no manuscrito que é inteiramente apresentado.

Tradução «Sobre a árvore Perindéxion. O Peridéxion é uma árvore na Índia. O seu fruto, todo ele é doce e muito agradável; as pombas deleitam-se nele e vivem na árvore, alimentando-se dele. O dragão é o inimigo das pombas; tem medo da árvore e da sua sombra, na qual as pombas moram; e não consegue aproximar-se da árvore ou da sua sombra. Se a sombra vai para ocidente o dragão foge para oriente, e se a sombra vai para oriente, ele foge para ocidente. Se acontecer que uma pomba saia da árvore ou da sua sombra, o dragão mata-a.

Toma a árvore como sendo Deus, e a sombra como sendo o seu filho; tal como diz Gabriel a Maria: "O Espírito Santo virá até à árvore e o poder do Superior irá ensombrardes" . Toma o fruto pela sabedoria divina, isto é, o Espírito Santo. Portanto vê, ó homem, que depois de teres recebido o Espírito Santo, isto é, a espiritual e apreensiva pomba a descer e a ficar sobre ti, não és apanhado fora da eternidade, posto à parte do Pai, do Filho e do Espírito Santo; e o dragão, isto é, o Diabo, não te mata. Porque se tiveres o Espírito Santo, o dragão não pode aproximar-se de ti. Toma atenção, ó homem, e permanece fiel à fé católica, vive dentro dela e mantêm-te nela, numa igreja católica. Sê tão cuidadoso quanto puderes para não seres apanhado fora das portas desta casa, que o dragão, e a serpente antiga, não te apanhem e devorem, como Judas foi uma vez devorado pelo Diabo e pereceu, tão cedo quanto ele se afastou do Senhor e dos seus irmãos apóstolos.»

Resumo da interpretação cristã