Miguel Bakun (Marechal Mallet, 28 de outubro de 1909 — Curitiba, 14 de fevereiro de 1963), foi um pintor brasileiro de ascendência ucraniana. Reconhecido por suas paisagens, marinhas e naturezas-mortas com estilo expressionista próprio, caracterizado pelo uso de empastes densos e cores vibrantes, Bakun desenvolveu sua carreira artística principalmente em Curitiba, Paraná. Inicialmente marginalizado no cenário artístico, sua obra foi progressivamente reconhecida e é hoje considerada parte significativa do modernismo brasileiro.

Biografia

Primeiros anos e formação esquerda|miniaturadaimagem|Família Bakun com Pedro e Julia sentados ao centro e Miguel de pé à direita. Os demais irmãos sentados, da esquerda para a direita, são Leonardo e Antônio e, em pé, Nicolau, Marina, Irene, Leni e Valdomiro. Miguel Bakun nasceu em 28 de outubro de 1909, em Marechal Mallet, cidade da região Sul do Paraná, onde terras foram cedidas pelo governo aos imigrantes eslavos. Seus pais, Pedro Bakun e Julia Marcienovicz, ambos oriundos da Ucrânia, tiveram oito filhos.

Devido à profissão de ferroviário do pai, a família mudou-se várias vezes, estabelecendo-se em Ponta Grossa em 1917, onde Bakun frequentou aulas de desenho na escola e aprendeu o ofício de alfaiate.FERNANDES, José Carlos. Miguel Bakun: um doc. post mortem. Revista Helena, Curitiba, n. 11, 6 jul. 2018. Disponível em: https://www.bpp.pr.gov.br/Helena/Noticia/Miguel-Bakun-um-doc-post-mortem. Acesso em: 10 abr. 2025.

Em 1927, aos 17 anos, Bakun alistou-se na Escola de Aprendizes da Marinha em Paranaguá. No ano seguinte, durante um surto de peste bubônica, os aprendizes foram transferidos para a Escola de Grumetes do Rio de Janeiro. Em 1928, durante estágio na Ilha de Villegaignon, conheceu José Pancetti, cabo da marinha e pintor de convés, que posteriormente se tornaria também um importante pintor de paisagens brasileiro. Ambos passaram a registrar em desenhos, estudos e anotações a vida no mar.FERNANDES, José Carlos. Miguel Bakun: um doc. post mortem. Revista Helena, Curitiba, n. 11, 6 jul. 2018. Disponível em: https://www.bpp.pr.gov.br/Helena/Noticia/Miguel-Bakun-um-doc-post-mortem. Acesso em: 10 abr. 2025.EDITORES DA ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. "Miguel Bakun". Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais, São Paulo, 19 mai. 2023. Disponível em: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/2138-miguel-bakun. Acesso em: 9 abr. 2025.GOVERNO DO PARANÁ. MON promove nova exposição, "Miguel Bakun: O Olhar de uma Coleção", a partir do dia 20. Agência Estadual de Notícias, Curitiba, 12 mar. 2025. Disponível em: https://www.aen.pr.gov.br/Noticia/MON-promove-nova-exposicao-Miguel-Bakun-O-Olhar-de-uma-Colecao-partir-do-dia-20. Acesso em: 10 abr. 2025.

Carreira artística Em 30 de janeiro de 1930, sua carreira na marinha foi interrompida devido a uma lesão causada pela queda acidental do mastro do navio, passando a receber pensão vitalícia. Mudou-se para Curitiba em 1931, cidade onde produziria sua obra. Para sobreviver, trabalhou como fotógrafo ambulante e pintor de cartazes de cinema, anúncios de lojas e elementos decorativos diversos inseridos na arquitetura das casas.EDITORES DA ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. "Miguel Bakun". Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais, São Paulo, 19 mai. 2023. Disponível em: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/2138-miguel-bakun. Acesso em: 9 abr. 2025.GOVERNO DO PARANÁ. MON promove nova exposição, "Miguel Bakun: O Olhar de uma Coleção", a partir do dia 20. Agência Estadual de Notícias, Curitiba, 12 mar. 2025. Disponível em: https://www.aen.pr.gov.br/Noticia/MON-promove-nova-exposicao-Miguel-Bakun-O-Olhar-de-uma-Colecao-partir-do-dia-20. Acesso em: 10 abr. 2025. miniaturadaimagem|Bakun e Teresa Veneri, sua esposa. Em 9 de abril de 1938, casou-se com Teresa Veneri, viúva de oficial do exército com três filhos: Francisco, Dalila e Lourdes. Estabeleceu-se na Rua Paraguassu, onde viveu até seu falecimento.

Em 1939, viajou ao Rio de Janeiro buscando reconhecimento e possibilidades profissionais na arte. Nessa ocasião, reencontrou Pancetti, mas logo retornou a Curitiba. Visitou várias vezes o Rio de Janeiro, onde pintou obras como "Sapucaia com o Cristo Redentor" e "Autorretrato" (1944).EDITORES DA ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. "Miguel Bakun". Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais, São Paulo, 19 mai. 2023. Disponível em: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/2138-miguel-bakun. Acesso em: 9 abr. 2025.

Na década de 1940, sua produção ganhou maior visibilidade. Bakun trabalhou intensamente na pesquisa de técnicas e soluções pictóricas entre misturas de tintas e cores. Participou do ateliê coletivo na Praça Tiradentes, na divisa com a atual Praça Generoso Marques. O imóvel precário, cedido pela Prefeitura Municipal antes de sua demolição, transformou-se em ponto de encontro de intelectuais e pintores modernos. Estavam junto a Bakun, Loio Pérsio, Alcy Xavier, Esmeraldo Blasi e Marcel Leite.<ref>FREITAS, Artur. A natureza dispersa: Miguel Bakun. Revista Porto Arte: Porto Alegre, v. 18, n. 31, p. 87-103, nov. 2011. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/PortoArte/article/view/37942/24442. Acesso em: 10 abr. 2025.</ref ; <ref>EDITORES DA ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. "Miguel Bakun". Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais, São Paulo, 19 mai. 2023. Disponível em: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/2138-miguel-bakun. Acesso em: 9 abr. 2025.</ref> esquerda|miniaturadaimagem|Da direita para esquerda- Guilherme Matter, Vasco José Taborda, Nelson Luz e Bakun em uma exposição. Em 1946, participou pela primeira vez no III Salão Paranaense de Belas Artes, em Curitiba. Nesse mesmo ano, foram publicados três textos importantes sobre o artista e sua obra: o primeiro escrito por Andrade Muricy, o segundo por Armando Ribeiro Pinto, e o terceiro por Guido Viaro.

Nos anos 1950, continuou sua produção artística, retratando paisagens cotidianas de seu ateliê e casa, vistas de praças da cidade, a intimidade de fundos de quintal, cercas e muros com vegetação, beiras de estradas. Nessa década, realizou pequenas telas, as quais nomeou "manchinhas" - expressões pictóricas rápidas, anotações dinâmicas sobre cartão ou compensado de madeira. Seus desenhos de grafite ou nanquim aprimoravam estudos, captavam o motivo e davam fluidez à imagem e à forma.EDITORES DA ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. "Miguel Bakun". Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais, São Paulo, 19 mai. 2023. Disponível em: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/2138-miguel-bakun. Acesso em: 9 abr. 2025.

Últimos anos No início dos anos 1960, ocorreu em sua obra um maior uso da cor branca e intensidade de luz, associado a sua tendência mística, religiosa e metafísica, embora continuasse pintando paisagens, presentes em toda a sua trajetória.EDITORES DA ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. "Miguel Bakun". Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais, São Paulo, 19 mai. 2023. Disponível em: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/2138-miguel-bakun. Acesso em: 9 abr. 2025. miniaturadaimagem|O artista, na casa da Av. Silva Jardim com autoretrato ao fundo. Miguel Bakun faleceu em 14 de fevereiro de 1963, aos 53 anos, por suicídio, após passar por problemas de saúde física e mental nos últimos anos de sua vida.<ref>FREITAS, Artur. A natureza dispersa: Miguel Bakun. Revista Porto Arte: Porto Alegre, v. 18, n. 31, p. 97-103, nov. 2011. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/PortoArte/article/view/37942/24442. Acesso em: 10 abr. 2025.</ref ; <ref>EDITORES DA ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. "Miguel Bakun". Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais, São Paulo, 19 mai. 2023. Disponível em: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/2138-miguel-bakun. Acesso em: 9 abr. 2025.</ref>

Obra

Estilo e técnica A obra de Miguel Bakun se caracteriza tecnicamente pelo uso de matéria pictórica densa e pinceladas vigorosas.

Segundo Adolfo Montejo Navas, "Toda sua pintura se apresenta em certo estado de revolta estética, algo que em seus dias o isolou mais que o destacou. Nela há uma matéria informe de massas pictóricas, como uma pintura em combustão, latejante, pulsando as imagens que oferece."

Sua paleta predominante utilizava amarelos, azuis, verdes e brancos, muitas vezes aplicados em empastes densos e com pinceladas enérgicas.

Como observa Artur Freitas, "é o empaste que literalmente constrói os espaços" em suas obras.

O crítico Ronaldo Brito destaca: "A tinta voraz de Miguel Bakun impregna a tela e vem a torná-la veículo do Eu expressivo do artista. Já os traços agitados de seus grafites e carvões, a irradiar pelo papel, mobilizam as cenas e as transformam em autênticos flagrantes existenciais."

A crítica contemporânea reconhece em Bakun características que o aproximam da modernidade pictórica, como a planimetria de suas telas, o uso expressivo da cor e a tensão compositiva de seu espaço visual.

Temas recorrentes miniaturadaimagem|Sem Título (Casebre), sem data, óleo sobre tela, 45 x 55,5 cm. Bakun dedicou-se principalmente à pintura de paisagens paranaenses, especialmente de Curitiba e região metropolitana, além de cenas do litoral, incluindo Paranaguá, Guaraqueçaba, Antonina, Caiobá, Matinhos e Guaratuba. Também produziu naturezas-mortas com flores e alguns retratos. Na representação da paisagem, utilizava enquadramentos não convencionais para a época.

Conforme análise da crítica de arte Eliane Prolik, a obra de Bakun apresenta uma abordagem intimista da natureza, com elementos de melancolia.

O crítico Nelson Luz observou que as paisagens de Bakun apresentam características particulares de composição e uso da cor, além de uma simplicidade marcante em seus retratos.

Obras notáveis

''Na Clareira'' (c. 1957): Pintura onde a vegetação domina o espaço do quadro com figuras humanas quase fantasmagóricas. ''Fragalhotear'' (c. 1960): Uma marinha com características expressionistas. ''Sem Título (Pinheiros)'' (s.d.): Composição com araucárias que apresenta leveza pictórica. ''Sem Título (Hortênsias)'' (s.d.): Natureza-morta com composição de tons próximos. ''Sem Título (Casebre)'' (s.d.): Obra que combina a natureza de uma marinha e a simplicidade de um casebre com o sobrevoo de um avião. ''Árvore Amarela'' (s.d.): Considerada uma de suas obras mais significativas, atualmente no acervo do Museu Oscar Niemeyer. ''Sufismo'' (1944): Uma obra que expressa sua vertente mística, adquirida por Oscar Martins Gomes e posteriormente incorporada à coleção Walter Gonçalves. ''Paisagem com Pinheiro'' (N° 2 ou Pinheiros): Premiada no VIII Salão Paranaense de Belas Artes (1951). ''Retrato de Ladislau Romanoski'': Retrato que gerou controvérsia por sua representação não convencional do modelo.

Exposições

Em vida

1942: Exposição da Primavera, Clube Curitibano 1944-45: Exposição Arte Paranaense, Rio de Janeiro 1946: III Salão Paranaense de Belas Artes, Curitiba 1948: LIII Salão Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro 1949: LIV Salão Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro 1955: Exposição individual em um imóvel na Rua XV de Novembro, Curitiba 1957: Exposição individual na Biblioteca Pública do Paraná

Póstumas

1963: Sala Especial no XX Salão Paranaense (homenagem póstuma) 1984: Tradição e Ruptura - Século XX Modernismo, Fundação Bienal de São Paulo 1985: 18ª Bienal Internacional de São Paulo, mostra "Expressionismo no Brasil: Heranças e Afinidades" 1994: Bienal Brasil Século XX, Fundação Bienal de São Paulo 2000: Mostra do Redescobrimento - Brasil 500 anos, São Paulo 2009: Miguel Bakun - Natureza e Destino, Instituto de Arte Contemporânea, São Paulo (centenário de nascimento) 2010: Miguel Bakun - Na Beira do Mundo, Museu Oscar Niemeyer, Curitiba 2019: Aprendendo com Miguel Bakun: Subtropical, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo 2021: Miguel Bakun Kabinett, Art Basel Miami Beach, Miami 2024: Exposição individual, Galeria Mendes Wood, Bruxelas