Syagrus glaucescens Glaz. ex Becc. é uma espécie de palmeira de pequeno a moderado porte pertencente à família Arecaceae e ao gênero Syagrus. É uma espécie nativa e endêmica do estado de Minas Gerais, Brasil, caracterizada por sua folhagem marcadamente azul-esverdeada. Regionalmente, a palmeira recebe os nomes populares de coco-de-pedra e palmeirinha-azul.

Histórico e taxonomia A espécie foi inicialmente coletada e nomeada em manuscritos pelo botânico francês Auguste François Marie Glaziou, sendo formalmente descrita e validada pelo botânico italiano Odoardo Beccari na publicação Agricoltura Coloniale em 1916 (v. 10, p. 470). O material do espécime-tipo original foi obtido sob o código de coleta Glaziou 20024, possuindo exsicatas distribuídas em herbários históricos internacionais e nacionais, tais como o de Paris (P), Kew (K), Jardim Botânico do Rio de Janeiro (RB), Universidade de Brasília (UB) e Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (CEN).

Afinidades morfológicas A espécie apresenta fortes semelhanças e pode ser facilmente confundida ou diferenciada de táxons correlatos através dos seguintes critérios diagnósticos: Syagrus duartei: Muitos autores consideram a S. duartei um sinônimo de S. glaucescens devido a barreiras diferenciais muito sutis e frágeis. No entanto, S. glaucescens separa-se por possuir flores pistiladas menores (10–17 × 6–7,5 mm contra 17–25 × 6–10 mm em S. duartei), frutos menores (2–3 × 1,6–2,5 cm contra 3–3,8 × 2,5–3,2 cm em S. duartei) e um endocarpo ovoide ou fusiforme (quase globoso em S. duartei). Syagrus gouveiana: Embora possuam aparências foliares próximas, S. glaucescens diferencia-se pelo seu estipe aéreo desenvolvido e tamanho superior de folhas e inflorescências, enquanto S. gouveiana possui caule estritamente subterrâneo. Syagrus evansiana: S. glaucescens possui um porte consideravelmente maior, inflorescências paniculadas (ramificadas) e frutos ovoides ou elipsoides. Por sua vez, S. evansiana é uma planta anã com estipe subterrâneo ou muito curto, inflorescências predominantemente espiciformes (simples) e frutos menores e globosos.

Descrição botânica A palmeira apresenta porte pequeno ou moderado, variando de 1 a 6 metros de altura total. Seu estipe (tronco) é do tipo solitário e de crescimento aéreo, medindo entre 0,5 e 5 metros de extensão por 10 a 12 centímetros de diâmetro. A superfície do caule é recoberta de forma persistente pelos remanescentes das bainhas foliares secas e caídas, embora indivíduos mais velhos ocasionalmente percam esse revestimento, deixando expostas cicatrizes circulares conspícuas organizadas em uma disposição espiralada perfeita.

Folhas A coroa abriga de 6 a 17 folhas contemporâneas, dispostas de forma helicoidal ao redor do tronco, formando fileiras espirais bem demarcadas. As folhas são pinadas, pouco arqueadas e medem de 55 a 120 centímetros de comprimento na raque. A bainha possui de 40 a 55 cm de comprimento por 6 a 8 cm de largura, com margens foliares inermes e marcadamente fibrosas. O pecíolo mede entre 10 e 50 cm de comprimento, possuindo margens lisas e livres de espinhos (inermes). Cada leaf carrega de 38 a 80 folíolos (pinas) rígidos e coriáceos de cada lado, organizados de forma agrupada em conjuntos de 3 a 5 pinas inseridas em vários planos ao longo da raque (divergentes). Os folíolos centrais medem de 16 a 35 cm de comprimento por 1,5 a 3,0 cm de largura, possuindo ápice agudo, arredondado ou emarginado assimétrico. As superfícies são discoloras e glaucas, desprovidas de ramentos ou indumentos na zona de inserção, apresentando uma espessa camada protetora de cera esbranquiçada concentrada especialmente na face abaxial (inferior).

Inflorescência e flores A inflorescência é interfoliar, andrógina e possui formato paniculado, sustentada por um pedúnculo de 22 a 67 cm de comprimento por 0,7 a 1,0 cm de largura que exibe indumento esparso e acastanhado logo após a antese. O prófilo mede de 16–20 × 2,5–3,0 cm, protegido por uma bráctea peduncular (espádice) sulcada e pruinosa de 35 a 90 cm de comprimento total (com porção expandida de 25–40 × 4–9 cm), revestida por um tomento ferrugíneo denso na extremidade terminal. A raque da inflorescência mede de 5 a 18 cm, dividindo-se em 5 a 17 ráculas dispostas de maneira helicoidal, as quais possuem de 7 a 18 cm de comprimento. As flores estaminadas (masculinas) medem de 8 a 12 mm de comprimento e as pistiladas (femininas) medem de 10 a 17 mm de comprimento por 6 a 7,5 mm de largura.

Frutos e sementes As infrutescências desenvolvem-se expostas entre a folhagem. Os frutos são ovoides ou elipsoides, medindo de 2 a 3 centímetros de comprimento por 1,6 a 2,5 centímetros de largura. O epicarpo possui coloração verde-amarelada a amarelada na maturação, sendo inteiramente recoberto por um tomento áspero de cor ferrugínea. O mesocarpo é fibroso e suculento. O endocarpo possui formato ovoide a fusiforme, consistência óssea, espessura de 2 a 2,8 cm por 1,7 a 2,1 cm e superfície externa quase lisa. O endosperma é regular, homogêneo e sólido.

Distribuição geográfica e habitat Syagrus glaucescens é endêmica do estado de Minas Gerais, ocorrendo exclusivamente na porção meridional e central da Cadeia do Espinhaço. Sua presença é confirmada e registrada em uma ampla lista de municípios mineiros, incluindo: Belo Horizonte, Conceição do Mato Dentro, Congonhas, Couto de Magalhães de Minas, Datas, Diamantina, Felício dos Santos, Itambé do Mato Dentro, Jaboticatubas, Joaquim Felício, Ouro Preto, Presidente Kubitschek, Riacho dos Machados, Rio Vermelho, Santana de Pirapama, Santana do Riacho, São Gonçalo do Rio Preto, Senador Modestino Gonçalves e Serro.

A espécie possui hábitos de vida rupícola e terrícola, vegetando sobre solos arenosos expostos, fendas e afloramentos rochosos de altitude. Seus habitats principais compreendem os Campos de Altitude, os Campos Rupestres, formações de Cerrado lato sensu e zonas de floresta ciliar ou de galeria de montanha. O tamanho dos frutos apresenta variação clinal de acordo com as características do solo: os espécimes que habitam ambientes de solos mais profundos e férteis (estendendo-se do Serro até Diamantina) tendem a reduzir o tamanho dos frutos, ao passo que as plantas que crescem em condições rochosas severas nas proximidades da Serra do Cipó e na região mais setentrional de sua ocorrência, em Mendanha, produzem frutos maiores.

Ecologia e conservação A palmeira é uma planta perene e xerofítica, altamente adaptada à radiação solar intensa, estresse hídrico e ventos fortes das altitudes de Minas Gerais. Sua multiplicação ocorre estritamente por sementes e sua síndrome de dispersão de frutos é do tipo zoocórica (efetuada por animais da fauna local). A floração e a frutificação (fenologia) da espécie concentram-se ativamente ao longo das estações da primavera e do verão. Em termos de densidade demográfica, estudos de campo registraram uma amostragem de até 491 indivíduos por hectare em diferentes fitofisionomias da Serra do Espinhaço.

A espécie é endêmica do cerrado e campos rupestres da Chapada Diamantina de Minas Gerais.

A população decresce em velocidade alarmante, restam poucos indivíduos adultos em algumas áreas, e há evidências de que indivíduos adultos foram coletados e transportados para áreas de cultivo.

Status de conservação No ano de 2012, devido à perda de qualidade de habitat e uma estimativa de área de extensão de ocorrência reduzida, a espécie chegou a ser incluída como Vulnerável (VU) na Lista Nacional Oficial de Espécies da Flora Ameaçadas de Extinção (Portaria MMA nº 443/2014) e na Lista Vermelha da IUCN. Contudo, uma reavaliação abrangente conduzida pelo CNCFlora em 2021 alterou o seu status para **Pouco Preocupante (LC)**.

Embora possua uma área de ocupação (AOO) restrita de 236 km², a sua extensão de ocorrência (EOO) calculada em mais de 32 000 km² demonstra uma distribuição geográfica ampla e não severamente fragmentada. O principal fator para a estabilização e proteção demográfica da palmeira é o fato de que considerável parte de suas populações naturais encontra-se abrigada dentro de Unidades de Conservação de Proteção Integral e Uso Sustentável, tais como: Parque Nacional da Serra do Cipó Parque Estadual do Rio Preto Parque Estadual de Biribiri Parque Estadual da Serra do Intendente Área de Proteção Ambiental Águas Vertentes Área de Proteção Ambiental do Itacuru Área de Proteção Ambiental Morro da Pedreira Monumento Natural Estadual Várzea do Lageado e Serra do Raio Monumento Natural Municipal Serra da Ferrugem

Apesar de estar sob proteção legal e inserida no Plano de Ação Nacional (PAN) da Flora da Serra do Espinhaço Meridional, as populações remanescentes que crescem fora das reservas protegidas em áreas de solo arável sofrem ameaças constantes provocadas por incêndios antrópicos recorrentes e desmatamentos locais.

Usos Não há valor econômico conhecido para a espécie. É cultivada ocasionalmente com fins ornamentais, como nos jardins temáticos do Instituto Inhotim, em Brumadinho, onde integra o território temático "Ser do Cerrado".

Ligações externas Syagrus glaucescens no CNCFlora Syagrus glaucescens na Flora e Funga do Brasil (JBRJ) Syagrus glaucescens no Instituto Inhotim Syagrus glaucescens no GBIF

Categoria:Syagrus Categoria:Arecáceas Categoria:Flora do Cerrado Categoria:Flora de Minas Gerais Categoria:Flora do Brasil Categoria:Belo Horizonte Categoria:Conceição do Mato Dentro Categoria:Diamantina Categoria:Ouro Preto Categoria:Serro Categoria:Joaquim Felício Categoria:Plantas descritas em 1916