Jurupari (tupi: Îurupari, "boca torta") é o nome de um deus da mitologia tupi e de um herói divino do Alto Rio Negro entre os povos indígenas da América do Sul.

Na época da chegada dos primeiros europeus ao Brasil (século XVI), Jurupari era o deus de culto mais difundido entre os tupis.CASCUDO, Luís da Câmara. Jurupari. Cultura Política, Rio de Janeiro, ano II, n. 19, p. 160–175, set. 1942. Visando a combatê-lo, os missionários católicos passaram a associar Jurupari ao diabo cristão,CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. RJ, Ediouro, 1972CASCUDO, L. C. Geografia dos mitos brasileiros. 3ª edição. São Paulo. Global. 2002. p. 58. posteriormente renomeando como "Jurupari" os heróis legisladores dos mitos tucanos, aruaques e macus do noroeste amazônico, com o mesmo objetivo.FRESSATO, Soleni Biscouto. Investigação sobre o patriarcado na cultura indígena. In: Outras Palavras. São Paulo, 10 nov. 2017. Disponível em: https://outraspalavras.net/outrasmidias/investigacao-sobre-o-patriarcado-na-cultura-indigena/. Acesso em: 28 maio 2026.

Etimologia Várias teorias procuram explicar o significado do termo "Jurupari": Segundo o tupinólogo Eduardo Navarro, viria do tupi antigo Îurupari, que significa "boca torta" (îuru, "boca" + apar, "torta").NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo. Global. 2013. Segundo o folclorista Luís da Câmara Cascudo, a palavra "jurupari" parece corruptela de "jurupoari", descrita por Couto de Magalhães no curso sobre nheengatu (língua geral) O Selvagem. Na obra, "Jurupari" literalmente é traduzido por "boca, mão sobre; tirar da boca"; che jurupoari - "tirou-me a palavra da boca", ou de iuru (boca) e pari (armadilha de talas para peixes, com que se fecha os igarapés), além de referir aos diversos significados míticos, entre os quais o que corresponde à expressão "ser que vem à nossa rede" (lugar onde dormimos), e "gerado da fruta". Segundo o padre Constant Tastevin (1880-1958), apud Faulhaber,FAULHABER, Priscila. Nos varadouros das representações: Redes etnográficas na Amazônia do início do século XX. Revista de Antropologia, SP, USP, 1997, V. 40 nº2. Projeto Tradução Cultural Dez. 2011 o nome "Jurupari" pode corresponder ao nome próprio de um antigo legislador indígena, de quem conservam ainda os usos, leis e tradições lembradas nas danças mascaradas de Jurupari. O nome, segundo esse autor, parece significar "máscara", pari, "da boca" ou "do rosto": iu-ru-pari: "meter um pari no próprio rosto". thumb|Jurupari também é o nome do peixe Satanoperca jurupari da família Cichlidae O dicionário AurélioFERREIRA. Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (edição eletrônica). SP, Editora Positivo Informática LTDA, 2004 reforça a etimologia tupi e o significado de "demônio", estendendo o seu significado a: um peixe de rio, ciclídeo (jeropari, Satanoperca daemon); ao macaco-de-cheiro; e à planta da família das leguminosas (Eperua grandiflora), que podem ou não ter relações com esse signo mítico, o que é evidente no nome do peixe (Satanoperca daemon ou Satanoperca jurupari).

O Deus Tupi Na religião e na mitologia tupis, Jurupari é um espírito da floresta associado a fenômenos temidos, sonhos ruins e castigos. Embora seja frequentemente chamado de "demônio" devido à adaptação católica feita pelos jesuítas na tentativa de demonizar a pajelança, em verdade ele encarna forças da natureza, é uma entidade poderosa e por vezes punitiva, capaz de trazer pesadelos, asfixia durante o sono, paralisia do sono ou desgraças para quem desrespeita as leis da natureza e/ou da sociedade. Durante o processo de catequese no Brasil colonial, missionários adotaram o nome de Jurupari para traduzir o conceito de Satanás. Eles também elevaram Tupã (o deus da água, do mar, da chuva e do trovão) à posição de Deus supremo, criando um dualismo "Deus vs. Diabo" que não existia na mitologia nativa original.

Os jesuítas estimularam essa versão maligna da lenda, alguns mesmo dizendo que foram eles que a criaram, sendo aceita pelos indígenas convertidos. Para Câmara Cascudo, essa concepção de criatura dos "pesadelos" é um amálgama de lendas europeias e africanas, inventadas pelas amas de leite para o controle do comportamento das crianças, enquanto o mesmo folclorista afirmara que Jurupari é "o deus-máximo, o deus popular, a maior tradição sócio-guerreira do Brasil colonial", determinando a direção religiosa na vida tribal, e, quando os pajés se comunicam com ele, Jurupari aparece em forma de coruja ou de andirá (morcego), criaturas da noite.

O frade franciscano e entomólogo francês Claude d'Abbeville registrou em 1614 que os tupinambás acreditavam que Jeropary (a quem ele se referia como o Diabo e punha em oposição a Tupã, para ele o deus cristão) perseguia os "covardes e efeminados", que com ele iriam residir no pós-vida, pois os nativos consideravam passar uma boa vida quando eram fortes, valentes e habituados a matar seus inimigos, sendo recompensados com a vida eterna "além das montanhas" no Guajupiá (Uaiupia) junto ao Pai Grande ou Avô (Tamoï, Tamũîa, "Avô" em tupi, conhecido como Ñane Ramõi, "Nosso Avô", pelos guaranis; para os tupis, o Pai Grande é o deus criador MonãVAINFAS, Ronaldo. Idolatrias e milenarismos: a resistência indígena nas Américas. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 5, n. 9, p. 29-43, 1992. Disponível em: https://periodicos.fgv.br/reh/article/view/2329. Acesso em: 4 jun. 2026.). Dessa forma, Jurupari seria um deus relacionado às virtudes bélicas, que se expressavam entre os tupis de maneiras que d'Abbeville chamava de "atos de barbaridade e de crueldade". Houve, aliás, um valente guerreiro e poderoso chefe de nome Jurupari-açu ("Jurupari Grande"), filho mestiço de mãe tupi e pai francês da Serra da Ibiapaba no Ceará, que, em meio a conflitos entre portugueses e franceses no Maranhão, como conta d'Abbeville, inspirou com sua bravura outros guerreiros tupinambás, mesmo após terem sido abandonados pelos franceses, de quem eram aliados mas se renderam e se aliaram aos portugueses, a lutar até a morte para não serem escravizados por estes, continuando uma guerra sangrenta pelo espaço de um mês. O religioso francês também atribuía ao deus Jurupari a inspiração recebida pelos antigos caraíbas, os profetas tupis, que lideravam multidões em jornadas extensas em busca do paraíso terrestre, levando à morte de muitos no caminho.d’Abbeville, Claude. (1874). História da missão dos padres capuchinhos na ilha do Maranhão e suas circumvisinhaças. Typ. do Frias. https://www2.senado.leg.br/bdsf/item/id/221724

Assim, ao demonizar Jurupari, procurava-se também combater o espírito tupinambá, o próprio modo de ser tupi, suas virtudes guerreiras, os seus valores e princípios: "Em Anhã e Jurupari o demônio cristão é identificado, e, num golpe admirável, a presença se converte em mais um acesso, em um novo ponto de valor na troca do 'antigo ser indígena' para a adoção de uma nova identidade mediante a adoção do cristianismo."CRUZ, Carlos Henrique Alves. Inquéritos nativos: os pajés frente à Inquisição. 2013. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de História, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2013.

Ainda sobre a relação entre Jurupari e os espíritos dos mortos, o antropólogo suíço-estadunidense Alfred Métraux, citando o frade capuchinho e entomólogo francês Yves d'Évreux (1577–1632), que esteve entre os tupinambás do Maranhão, diz que Jurupari protege as sepulturas e afasta os vivos com gritos e aparições assustadoras, e que ele leva consigo as almas dos maus, chamadas pelos tupis de anhang ou añánga ("espírito errante", "fantasma"). A relação entre Jurupari e os anhang/añánga pode ter sido um dos motivos por que os missionários não raras vezes o confundiam com o deus Anhanga, tratando a ambos como o Diabo. Métraux considera Jurupari uma entidade associada à mata, temida e reverenciada.MÉTRAUX, Alfred. A religião dos Tupinambás e suas relações com a das demais tribus Tupi-Guaranis. Tradução de Estevão Pinto. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1950. 412 p. (Brasiliana, v. 267). Disponível em: https://bdor.sibi.ufrj.br/bitstream/doc/40/1/267%20PDF%20-%20OCR%20-%20RED.pdf. Acesso em: 28 maio 2026.

D'Évreux também menciona que Jurupari (que ele grafa originalmente, em seu texto em francês do século XVII, Giropary, Geropary e Geropari,ÉVREUX, Yves d'. Voyage dans le nord du Brésil: fait durant les années 1613 et 1614. Publicado por Ferdinand Denis. Leipzig: A. Franck; Paris: A. Franck, 1864. 456 p. passando para a tradução do século XIX como Jeropary) e os seus possuem certos animais que nunca são vistos e andam só à noite, soltando gritos horríveis que fazem tremer toda a floresta (e que o próprio d'Évreux afirmou ter ouvido inúmeras vezes). Esses animais convivem com Jurupari e, por isso, são chamados de "Soó Jeropary" ("animais de Jurupari", a exemplo dos Uyrá Jeropary, "pássaros de Jurupari", aves noturnas de canto triste, medonho e insuportável; d'Évreux diz ter ouvido e visto um, e o comparou a uma coruja de penas pardas, que Cascudo diz ser o urutau, a mãe-da-lua do nordeste brasileiro, ave encontrada nas florestas tropicais americanas desde o México até o sul do Brasil). Acredita-se, diz d'Évreux, que esses animais servem sexualmente aos "demônios" (Jurupari e seu séquito, provavelmente anhãs, fantasmas, espíritos desencarnados), ora assumindo a forma de homens ("Abá Jeropary", "homem de Jurupari" ou "o homem do Diabo"), ora a de mulheres ("Kunhã Jeropary", "mulher de Jurupari" ou "a mulher do Diabo"), que os cristãos, continua ele, os chamam de súcubos (demônios sexuais femininos) e íncubos (demônios sexuais masculinos).D'ÉVREUX, Yves. Viagem ao norte do Brasil feita nos annos de 1613 a 1614. Tradução de Cezar Augusto Marques. Maranhão: Typographia do Frias, 1874, p. 248–251. Eduardo Navarro entende, dessa passagem, que o próprio Jurupari se serve dos Abá-Jurupari e das Kunhã-Jurupari como seus parceiros masculinos e femininos em relações sexuais. Esse relato lembra muito o animismo amazônico, em que espíritos frequentemente transitam entre formas humanas e animais, inclusive para fins sexuais, como é o caso dos uiaras. Contudo, deve-se entender que d'Évreux frequentemente filtra os mitos tupis pela óptica cristã, emprestando a origem de Satã e dos anjos caídos a Jurupari e seu séquito ("...que era criado de Deus, e que por suas maldades Deus o dispensou, não querendo mais vê-lo e nem aos seus, pelo que aborrecia os homens e nada valia...") e dando-lhe residência no inferno (o que era desconhecido na espiritualidade dos indígenas brasileiros e foi nomeado pelos missionários Jurupari-tatá-retama, a "região do fogo de Jurupari"), tornando, assim, difícil entender o que é o verdadeiro mito tupi nos relatos dele.

Esse caráter erótico de Jurupari é evocado também no caso de um nativo cristianizado de nome Alberto Monteiro da vila de Monfort (Pará), que fora a Belém em 1766 confessar ao inquisidor que recorrera a Jurupari para conquistar uma mulher indígena, e o do Tibira do Maranhão, executado em 1614 sob acusação de sodomia feita pelos franceses que ocupavam a região, comportamento que o seu executor, o chefe Karuatapiran ("Cardo Vermelho"), que não era cristão, atribuiu à influência de Jurupari.

Couto de Magalhães, em O Selvagem (1876), enumera Jurupari entre as divindades superiores dos tupis ao lado de Tupã, Anhanga, Cahapora ou Cahipora e Curupira (embora em outra parte diga que a trindade suprema são Guaraci, Jaci e Rudá) e discorda que ele seja um deus maléfico ou que possa ser comparado a Satanás, ainda que não lhe atribua, a diferença das demais divindades tupis, a ação benéfica de proteger alguma parte da Criação. Ele também informa que não encontrou a presença de Jurupari nos mitos dos tupis do sul (guaranis), apenas no norte do Império (de São Paulo à Amazônia oriental).