A Compagnie Générale Transatlantique, apelidada de Transat e conhecida no exterior como French Line, foi uma empresa francesa de transporte marítimo que operou desde a metade do século XIX até a segunda metade do século XX. Fundada em 1855 pelos irmãos Émile e Isaac Péreire sob o nome de Compagnie Générale Maritime, ela inicialmente ficou responsável pelo transporte de correio para a América do Norte até começar a investir no transporte de passageiros por volta da década de 1880.
A empresa ganhou importância entre as décadas de 1910 e 1930 pelas ações de seus presidentes Jules Charles-Roux e John Dal Piaz, que investiram em navios transatlânticos de prestígio como o SS Paris, o SS Île de France e especialmente o SS Normandie. A Segunda Guerra Mundial fragilizou a empresa, que perdeu muitas embarcações, retomando importância internacional apenas em 1962 com o SS France, porém sofreu com concorrência do transporte aéreo e acabou retirado do serviço em 1974. A companhia se fundiu alguns anos depois com a Compagnie des Messageries Maritimes para poder formar uma nova Compagnie Générale Maritime, que anos depois foi comprada pela Compagnie Maritime d'Affrètement e virou a CMA CGM.
A Transat não se limitava apenas às rotas entre a Europa e a América do Norte, também oferecendo linhas para a América Central. Além disso, empresa passou a oferecer a partir do começo do século XX cruzeiros entre Marselha e Argel, criando da década de 1920 em diante novos circuitos pelo norte da África. A Transat se envolveu brevemente com aviação na década de 1930 com a Air France Transatlantique, porém isto logo acabou em 1945. Além disso, a companhia desenvolveu um serviço de transporte de carga que cresceu continuamente até ocupar uma parte considerável de suas atividades.
Os navios da Transat eram muitas vezes obras simbólicas de seu tempo, destinados a transmitir uma imagem da França para o exterior. Da mesma forma, a qualidade dos serviços de bordo, principalmente das refeições e das bebidas, era feita com ênfase para uma clientela rica, especialmente norte-americanos ricos durante o período da Lei Seca. Mesmo anos depois do fim da empresa, seu legado continua a atrair colecionadores interessados em artefatos de suas embarcações, que são exibidos por meio de exposições e associações que buscam preservar documentos e objetos relacionados à memória da Transat.
História Fundação thumb|Os irmãos Émile e Isaac Péreire, os fundadores da Transat. Os irmãos Émile e Isaac Péreire eram dois empresários que adquiriram várias empresas ferroviárias no século XIX, fazendo parte de uma corrente de industrialistas franceses que embarcaram em grandes negócios sob o reinado do imperador Napoleão III. A necessidade de uma marinha comercial francesa se fez cada vez mais urgente na década de 1850. Os Péreire também estavam à frente da Société Générale de Crédit Mobilier, uma instituição de crédito imobiliário, que se tornaria a principal acionista de sua empresa de navegação.
A Compagnie Générale Maritime foi fundada oficialmente no dia , com o barão Adolphe d'Eichthal tornando-se seu primeiro presidente, posição que ocupou até 1861. A nova companhia baseou suas operações iniciais no negócio de bacalhau da Terra Nova, que fora estabelecido dois anos antes, tendo em sua frota um número de iates alugados. Os estatutos da Générale Maritime permitiam "todas as operações de construção, armamento e fretamento de todos os navios e, em geral, todas as operações de comércio marítimo". O começo da empresa mostrou-se uma grande desorganização: as linhas se multiplicavam de maneira anárquica, aproveitando as circunstâncias políticas e diplomáticas do momento. Dessa forma, uma boa parte de capital foi esgotada.
Essa desorganização levou a empresa próxima da falência, com os Péreire percebendo que, assim como no caso da britânica Cunard Line, eles precisavamse concentrar em um serviço de transporte de passageiros financiado por contratos postais. A ideia foi apresentada a Napoleão III, que foi seduzido pelo conceito e fez uma proposta, porém os irmãos recusaram por acharem que era muito baixa. Assim, a linha para a América do Norte foi entregue ao empresário Louis Victor Marziou, cujas empresas acabaram entrando em crise em 1860. Isaac Péreire escolheu este momento para renegociar um acordo com o Estado, com a Générale Maritime recebendo por vinte anos diversas linhas transatlânticas: Le Havre–Nova Iorque, Saint-Nazaire–Istmo do Panamá e três serviços auxiliares para Guadalupe, México e Caiena; o transporte de correios seria realizado nos mesmo navios. A companhia também se comprometeu a construir metade de sua frota na França. Em troca, o governo passou a pagar um subsídio anual. Em 1861, por decreto imperial, a empresa mudou de nome para Compagnie Générale Transatlantique a fim de melhor refletir suas novas funções.
Primeiros serviços thumb|250px|esquerda|A partida do Louisiane para Veracruz, a inauguração da linha para o México. Para poder atender o imperativo de construção na França, a Transat começou a procurar locais adequados. A construção de seus seis primeiros navios ocorreram no exterior, incluindo o , a primeira embarcação na linha para Nova Iorque em 1864, mesmo com os Péreire sabendo dos altos preços cobrados pelos estaleiros estrangeiros. Entretanto, os valores cobrados pelo estaleiro francês em La Seyne-sur-Mer eram significantemente maiores. Assim, os irmãos compraram terras perto de Saint-Nazaire e fundaram as Chantiers et Ateliers de Saint-Nazaire, depois conhecidas como Chantiers de Penhoët. Estes foram projetados pelo engenheiro escocês John Scott, que foi para a França transmitir seus conhecimentos para os trabalhadores franceses. Inicialmente, esses estaleiros construíam apenas os cascos das embarcações, enquanto seus maquinários eram comprados em Creusot.
O SS Louisiane inaugurou em 1862, dois anos antes do previsto, a linha para o México, sendo o primeiro sucesso da empresa. A criação desta rota foi particularmente aguardada pelo governo francês devido a segunda intervenção francesa no México. O serviço postal para Nova Iorque foi inaugurado dois anos depois pelo Washington, SS France e , dentre outros. Essas embarcações tinham mais de cem metros de comprimento, porém eram arcaicos pois ainda eram impulsionados por rodas de água. No entanto, eles foram modificados em 1867 com hélices de propulsão que reduziam o consumo de carvão. A Transat foi capaz de, nessa época, conquistar novos mercados devido a Guerra Civil Americana e o enfraquecimento da frota dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, os Péreire criaram um serviço especial para imigrantes.
A situação econômica da Transat começou a se deteriorar rapidamente a partir de 1868 devido a uma crise no se tor de crédito imobiliário, que afetou fortemente a empresa pois ela ainda tinha a Société Générale de Crédit Mobilier como sua principal acionista, forçando as saída dos Péreire. Além disso, o fim do envolvimento francês no México diminuiu as receitas das linhas. Os dois irmãos, pouco antes de deixarem a companhia, tentaram compensar ao criarem uma rota entre o Panamá e Valparaíso, porém isto provou-se desastroso. A derrota do país em 1871 na Guerra Franco-Prussiana e as incertezas que se seguiram ao estabelecimento da Terceira República Francesa reduziram ainda mais o tráfego e os benefícios na rota transatlântica, ao mesmo tempo que a competição aumentou. Nessa época, em novembro de 1873, o SS Ville du Havre, um dos principais navios da linha para Nova Iorque, afundou com 226 pessoas a bordo depois de uma colisão. A situação da Transat era quase catastrófica.
Os irmãos Péreire foram chamados de volta para Transat em 1875 com o objetivo de tentarem garantir sua recuperação. Entretanto, Émile morreu no mesmo ano e consequentemente foi Isaac e seu filho Eugène Péreire quem assumiram as operações companhia. Eles expandiram suas atividades e aproveitaram a falta de concorrência para abrir em 1879 um serviço no Mar Mediterrâneo entre Marselha e Argel, na Argélia. A Transat no mesmo ano tornou-se uma sociedade anônima.
Revisão da frota thumb|250px|O La Bretagne, um de quatro navios de passageiros lançados em 1886. A década de 1880 chegou com a necessidade da Transat construir navios novos e atualizados. O primeiro foi o SS La Normandie, que originalmente chamava-se Ville de New York, mas depois teve seu nome alterado para Normandie e em seguida para a versão final. Ele tinha 145 metros de comprimento e pesava toneladas. Esta foi uma embarcação inovadora, a primeira da empresa a ser equipada com iluminação elétrica nas cabines. Ao mesmo tempo foi preciso renovar a concessão postal de 1861, que estava para vencer em 1885. Uma comissão governamental comprometeu-se a renová-la em 1883, sob a condição de que a Transat construísse rapidamente quatro navios a vapor que alcançassem uma velocidade de quinze nós, como já era o caso do La Normandie.
As quatro embarcações foram o , , e , colocados na linha de Nova Iorque em 1886, enquanto grande parte dos navios mais antigos foram transferidos para as rotas centro-americanas. A Transat passou a enfrentar uma concorrência estrangeira cada vez maior, mesmo com o elevado número de passageiros. O quarteto foi um sucesso imediato, quase dobrando as receitas da companhia em quatro anos. A qualidade das acomodações dos navios também foi importante e contribuiu para a promoção geral da Transat. A britânica White Star Line pouco depois colocou em serviço o , enquanto a Inman Line estreou o , forçando a empresa francesa a responder, o que resultou na estreia do de 1891. Ele era ligeiramente maior que seus predecessores, porém especialmente mais rápido, mas mesmo assim ficava abaixo do desempenho de seus concorrentes. Nesse período o La Normandie teve suas caldeiras substituídas por versões mais modernas, especialmente para aproveitar a Exposição Universal de 1893 que seria realizada nos Estados Unidos. O La Touraine, a partir de 1894, também passou a ser usado como cruzeiro de luxo pelo Mediterrâneo, especialmente em Constantinopla.
thumb|esquerda|200px|Eugène Péreire, presidente da Transat entre 1875 e 1904. O final da década de 1890 foi ruim para a empresa. A Guerra Hispano-Americana, uma crise econômica, mudanças na legislação alfandegária e uma epidemia de cólera na França reduziram o tráfego de passageiros, ao mesmo tempo que surgiram navios maiores e melhores em outros países, como o alemão e o britânico . Além disso, houve novos desastres marítimos para a Transat, incluindo o abandono do SS Ville de Saint-Nazaire e o desaparecimento do SS Pauillac, que fora comprado de outra empresa por um preço baixo e estava em más condições. Pior ainda foi o naufrágio do La Bourgogne em 1898, vitimando 568 pessoas. Foi o maior desastre da história da empresa até então, deixando forte impressão no público, que rapidamente determinou que a Transat era a responsável.
Ao mesmo tempo, a Transat estava lutando para poder renovar sua frota. O La Touraine era a capitânia da companhia, porém já estava ultrapassado. Era necessário também uma renovação da concessão postal a fim de adaptar-se às novas exigências do mercado, algo que foi difícil e só foi alcançada na virada de 1897 para 1898. Só depois disso a empresa foi capaz de inaugurar o SS La Lorraine e o SS La Savoie, que entraram em serviço em 1900 e 1901. Embora fossem maiores que o La Touraine, possuindo 170 metros de comprimento e onze mil toneladas, tinham dificuldade de competir em tamanho com navios como o , que ainda assim tinham uma velocidade menor.
Um problema crescente na virada do século era Eugène Péreire, então presidente da Transat, que estava quase cego e surdo e cada vez mais senil. Ele foi finalmente tirado do cargo em 1904 quando o conselho administrativo foi renovado. Isto marcou o fim do período dos Péreire à frente da empresa. Ele foi sucedido por dois homens que marcariam a empresa: Jules Charles-Roux e John Dal Piaz.
Luxo e velocidade