thumb|Estudantes do Instituto Politécnico de Setúbal vestidos com o traje A capa e batina (assim tradicionalmente designado na gíria académica/estudantil) ou traje académico é o uniforme que identifica inequivocamente o estudante de Portugal.

Origem O traje escolar foi sempre marcado pela indumentária religiosa dos clérigos que, nos primeiros séculos da universidade, tinham o exclusivo de cursar os Estudos Geraishttps://notasemelodias.blogspot.com/. A verdadeira origem e evolução está detalhadamente explicada no blogue Notas&Melodias, considerado a fonte mais fiável e credível no que toca à investigação e promoção das genuínas tradições académicas e da verdadeira Praxe, lutando contra os mitos e invenções que têm delapidado e descaracterizado a tradição, e fazendo apologia do conhecimento e rigor...

Os clérigos, esses, vestem segundo a regra da sua ordem e, também, da sua hierarquia;

As cores mais usuais eram o castanho, o pardo (que originará a figura do “pardillo” em Espanha) e o preto, não por imposição, mas proibição de cores mais garridas. A evolução do vestuário nota-se, paulatinamente, com a abertura da frequência universitária a outras classes, tornando-se mais permeável a modas (rendas, berloques, sedas, frisados, diversos tipos de chapéus/barretes, calções…), embora fortemente balizado por critérios de sobriedade e austeridade. Contrariamente ao que acontece nos códigos da praxe dos Séc. XX e XXI, os regulamentos de antanho dedicam-se muito mais a dizer o que não pode ser usado do que aquilo que o deve ser; e fazem-no sempre no sentido de evitar os excessos, a pompa e o gasto de despesas pelos estudantes que cursavam a universidade.

Nos século XVII, a tónica eclesiástica do traje foi-se acentuando, sendo de realçar a utilização da "loba", espécie de batina ou sotaina eclesiástica sem mangas, guarnecida na frente com duas filas de botões desde o pescoço até abaixo do joelho, junto com calção, capa e barrete redondo ou de cantos (o gorro só em finais do séc. XVIII).

LOBA: Vestidura eclesiástica, clerical e honorífica, que chega até o chão, cortada de maneira que nela entram os braços; dela usam também os bedéis (responsáveis pela disciplina) da universidade.

Os que não eram eclesiásticos sentiam-se impelidos a não destoar, vestindo à maneira dos clérigos, e também pela necessidade de identificar o foro académico e quem por ele estava abrangido. Os trajes assumem, pois, figura/função de uniforme, para distinguir só estudantes de outros mesteres e profissões. Desta forma, no seu início, o objetivo principal do Traje Académico, não era, como muitas vezes se diz, igualizar os estudantes, mas antes fazer distinguir os académicos na sociedade. A igualização entre estudantes acontecia (até certo ponto), porque vindo estes de estratos sociais diversificados, deviam contudo, tanto quanto possível, convergir na posição académica (o que não significa que vestissem exatamente da mesma forma, pois não vestiam).

Batina thumb|upright|Um estudante da Universidade de Coimbra, em ilustração do Em inícios do séc. XVIII, a loba vai dar lugar progressivamente à “abatina”, sendo também a partir dessa época que os trajes estudantis começam a convergir para uma mesma forma de traje académico - embora essa forma estivesse dependente de flutuações de moda.

ABATINA: conjunto de capa e túnica (talar) dos abades seculares de França ou de Itália, com vestido de seda negra, capa curta, volta singela e cabeleira pequena.

É um traje perfeitamente datado na Europa (remonta à década de 1660) que foi um dos trajes corporativos dos estudantes do Real Colégio dos Nobres. A abatina é mais curta e barata que a loba e de cor negra, significando essa cor o desapego ao mundo material e os seus votos eclesiásticos.

A “abatina” estudantil, modelo talar, (que os estudantes passam a designar apenas por “batina”) não seria tão comprida como a dos lentes (até aos calcanhares = ”talons”), e seria até bem mais curta que a capa, pelo que o uso de calções, por exemplo, mesmo quase não se vendo debaixo da “batina” (viam-se apenas as meias), se mantivesse. Paulatinamente o traje de abatina passa a ser usado com capa comprida, como no Colégio dos Nobres, e como o vinham a fazer alguns estudantes da Universidade de Coimbra desde 1718.

Durante muito tempo o uso da capa e batina foi obrigatório para o estudante, tal como, aliás, para o lente, ainda que este usasse uma batina comprida até aos pés. Entre 1718 e 1834, esta obrigatoriedade estendia-se a toda a cidade. De 1834 até à implantação da República, em 1910, a capa e batina era apenas obrigatória dentro do perímetro da Universidade, estendendo-se o seu uso, a partir de segunda metade do séc. XIX a todos os liceus do país (que pediam licença ao governo para poderem usar o traje).

A Capa e Batina atual A atual Capa e Batina é resultante da imposição de uma nova configuração nas roupagens estudantis, motivadas por um forte anticlericalismo. Esse antagonismo para com a Igreja tem raízes já no Marquês de Pombal que quis acabar com o traje, porventura demasiado “Jesuístico” para o seu gosto, aquando da reforma que fez da Universidade, em 1772.

Na segunda metade do século XIX, empurrado pelo vento do Liberalismo e ideais republicanos (anticlericais) o hábito talar tradicional dá lugar a um traje burguês citadino, singelo em tecido e figurino, figura de progressismo Europeu. A capa só fica porque os estudantes nunca dela se quiseram desfazer (o romantismo estético reservou-lhe lugar especial no imaginário masculino das vivências anónimas e do heroísmo individualizado, o ideário das gestas de capa e espada), pois estava prevista a sua abolição.

Expoente máximo dessa luta contra a afinidade eclesiástica do traje foi o odiado reitor Basílio que, em 1859, ordenou aos estudantes que usassem a batina aberta por detrás, abotoada pelas costas e cosida adiante com uma ordem de pequenos botões de cima abaixo e determinou que os archeiros metessem na prisão os estudantes que andassem com a batina aberta e indecente.

Em 1888, um profundo especialista da cultura e dos trajes populares, José Ramalho Ortigão, duvidou da pertinência do discurso. A partir do momento em que o traje académico se transformava num produto esteticamente inferior à maior parte das peças usadas pelos camponeses portugueses, como traje domingueiro, para se nivelar com o chamado traje ou fato de trabalho, tornara-se difícil descortinar-lhe traços de progressismo.

É tardiamente, em 1889(?), que os alunos do 3ºano da Escola Médico-Cirúrgica do Porto, se lançam no uso capa e batina, que já era envergado pelos escolares do Liceu. A formação da Tuna Académica do Porto, por 1888-90, com alunos do liceu, da Politécnica e da Médico-Cirúrgica, o nacionalismo gerado pelo Ultimatum, e requentado pelo 31 de Janeiro de 1891, e o debutar de festividades carnavalescas e de fim de ano (Enterro da Farpa, Festa da Pasta), terão ajudado a sedimentar a capa e batina na cidade do Porto.

Em Lisboa, a capa e batina está em uso nas escolas superiores desde pelo menos 1890 inequívocos que são os relatos sobre a digressão a Espanha da Estudantina da Escola Médico-Cirúrgica (1890) e formação da Tuna Académica de Lisboa (1895), seguindo-se as Tunas do Liceu e Escola Polotécnica (escolas onde já se usaria capa e batina de forma menso expressiva).

Em 15 de Outubro de 1898, o periódico "O Conimbricense" informava que “a calça nem sempre é preta. A gravata, umas vezes encarnada outras branca, e, só por esquecimento, é que ela é preta… A capa é usada com frequência dobrada e deitada sobre um dos ombros, trazendo-a muitas vezes na mão. E aqueles que querem usar bengala fazem-no…”.

O traje estudantil é mal-amado pelos estudantes da época que olham para o mesmo como símbolo retrógrado numa sociedade progressista e moderna. Há um relaxar dos costumes, também movidos por ímpetos irreverentes de contestação.

É costume verem-se alguns estudantes de cartola, embora a irreverência seja, até, andar em cabelo, e os coletes, por exemplo, ostentam vários feitios e cores.

Em Março de 1907, em pleno eclodir da greve académica que viria a alastrar a todo o país, um lente propôs, no Conselho de Decanos, "que se tratasse de obter, no mais curto prazo possível, a abolição da capa e batina, visto ser esse trajo uma das causas das irregularidades dos estudantes, havendo tanto mais razão para a abolir, quanto já não é usada a rigor."

Cronologia no século XX 1910: a 24 de outubro, decorridos apenas 19 dias sobre a sua implantação, a República tornou a capa e batina de uso facultativo (Decreto de 23.10.1910) e por pouco não decretava a sua proibição. Os alunos da UC, da TAUC e do Orfeon Académico manifestaram vontade de continuar a envergar o traje, e o mesmo fez, entre 1911-1912, Universidade do Porto, Tuna e Orfeão. A maior parte dos liceus manteve a capa e batina que já era usada desde a segunda metade do século XIX, ou a ela aderiu. 1915/16: O traje feminino é “inventado” nos liceus de Lisboa e Porto, sendo o mesmo à base de tailleur saia-casaco e capa, o qual só muito tardiamente entrou nas universidades, mas que foi largamente popularizado noutros liceus do país e algumas escolas superiores. 1916: Em Março, sem prévia consulta à Academia de Coimbra , os estudantes universitários do Porto resolveram, por maioria, usar capa e batina e uma fita na lapela (o comum era no braço), da cor da respectiva faculdade. 1924: Em Outubro, por ter sido proibido, pelo Reitor de um Liceu de Lisboa, que uma aluna usasse capa e batina, os seus colegas decretaram uma greve em sinal de protesto. Em Novembro, visto o uso do traje se manter como traço cultural identitário, o governo decretou a permissão do uso de capa e batina aos estudantes de ambos os sexos das Universidades, Liceus e Escolas Superiores. A promulgação do Decreto nº 10.290, de 12.11.1924, procedeu à nacionalização da capa e batina nos liceus e ensino superior como Traje Nacional do Estudante Português. 1933: O filme “A Canção de Lisboa” deixa antever um realidade que, contudo, não era generalizada. Em Lisboa, salvo um ou outro liceu e a Faculdade de Direito (então no Campo de Santana), o uso da a capa e batina era rarefeito. 1946: É adoptado o traje feminino no Porto, pela mão das alunas sócias do Orfeão. 1951: É adoptado o traje feminino em Coimbra, devido à acção das sócias do Teatro dos Estudantes (TEUC), seguindo-se generalização não pacífica decretada em 1954 pelo Conselho de Veteranos.

Ao final dos estudos está geralmente associado o "rasganço" de toda a indumentária académica, com excepção da capa. Aos rapazes rasga-se a roupa toda com excepção dos colarinhos, punhos, capa e gravata. Às moças rasga-se apenas e só o que se não rasgou aos rapazes, isto é, os colarinhos, punhos, laço ou gravata e meias, a capa também não se lhes rasga.

Pasta da praxe

Fixando um ponto de referência, podemos dizer que na segunda metade do séc. XIX apenas os estudantes Quintanistas, usavam Pasta – Pasta de Luxo. Já utilizadas em 1850, estas eram de qualquer cor (mas normalmente da faculdade), em tudo similares às pastas vendidas nas livrarias da especialidade: duas talas de cartão dobradas, fechando com o auxílio de 3 ordens de pequenas fitinhas de cada lado, ou seja, cada Pasta tinha 6 pequenas fitas que serviam para atar a mesma com nós e laçarotes.

Mais tarde, com a magnificência das Récitas dos Quintanistas é que se definiram as famosas Pastas de Luxo nas Faculdades de Direito e Teologia, já de Fitas Largas, caídas para fora, presas às telas forradas de rico cetim bordado, veludos com embutidos de prata, ouro e mármore.