Mari, (atualmente Tel Hariri), foi uma antiga cidade-estado semítica da Síria e um dos sítios arqueológicos mais importantes na Mesopotâmia. Suas ruínas constituem um tel (colina artificial) situada a 11 km a noroeste de Abu Camal na margem ocidental do rio Eufrates, aproximadamente 120 km a sudeste de Deir Zor e cerca de 30 km da fronteira com o Iraque. Floresceu como um centro de comércio e Estado hegemônico entre e Como uma cidade propositalmente construída, a existência de Mari esteve vinculada à sua posição sobre as rotas comerciais do médio Eufrates; essa posição fê-la um posto intermediário entre a Suméria no sul e o Levante no oeste.

Mari foi abandonada pela primeira vez em meados do , mas foi reconstruída e tornar-se-ia capital dum Estado semítico oriental hegemônico antes de Esta segunda Mari envolveu-se numa longa guerra com sua rival Ebla, e é conhecida por sua forte afinidade com a cultura suméria. Foi destruída no pelos acadianos que permitiram que fosse reconstruída e nomearam um governador militar portando o título de xacanacu (shakkanakku). Os governadores mais tarde tornar-se-iam independentes com a rápida desintegração do Império Acádio e reconstruída a cidade como centro regional no vale do médio Eufrates. Os xacanacus governaram Mari até a segunda metade do , quando a dinastia colapsou por razões desconhecidas. Pouco tempo após o colapso dos xacanacus, Mari tornou-se capital da dinastia Lim dos amoritas. A Mari amorita foi de curta duração, pois seria anexada pela Babilônia Ela sobreviveu como um pequeno assentamento sob o governo de babilônios e assírios antes de ser abandonada e esquecida durante o período helenístico.

Os mariotas cultuavam divindades semíticas e sumérias e estabeleceram sua cidade como centro de comércio. Contudo, embora os períodos pré-amoritas tenham sido caracterizados pela pesada influência da cultura suméria, Mari não era uma cidade de imigrantes sumérios, mas uma nação falante do semítico que utilizou um dialeto similar ao eblaíta. Os amoritas eram semitas ocidentais que começaram a se estabelecer na área antes do ; pelo tempo da dinastia Lim (), eles começaram a dominar a população no Crescente Fértil.

A descoberta de Mari em 1933 forneceu uma importante luz sobre o mapa geopolítico das antigas Mesopotâmia e Síria devido à descoberta de mais de tabletes que contêm importante informação sobre a administração do Estado durante o e a natureza das relações diplomáticas entre as entidades políticas na região. Eles também revelaram as amplas redes de comércio do , que conectavam áreas como o longínquo Afeganistão no sul da Ásia e Creta no Mediterrâneo.

História

thumb|upright=1.15|Pontos de referência em Mari

O nome da cidade pode ser associado a Mer, uma antiga divindade dos trovões do norte da Mesopotâmia e Síria que foi considerada patrona da cidade. Georges Dossin notou que o nome da cidade foi escrito do mesmo modo que o deus do trovão e concluiu que Mari foi nomeada em sua homenagem.

Primeiro reino

Mari não é considerada um pequeno assentamento que mais tarde cresceria, mas sim uma pequena cidade propositalmente fundada durante o ca.  para controlar as rotas comerciais do Eufrates que conectavam o Levante no norte com a Suméria no sul. Foi construída cerca de 1 a 2 quilômetros de distância do Eufrates para protegê-la de enchentes, e esteve conectada ao rio por um canal artificial que media entre 7 e 10 quilômetros de comprimento dependendo de qual meandro antigo fosse utilizado para a conexão, o que é difícil de identificar atualmente. A cidade foi abandonada no fim do (ca. ) por razões desconhecidas.

Esta cidade é difícil de ser escavada, uma vez que está enterrada fundo abaixo das camadas de habitação posteriores. Um sistema defensivo contra enchentes, composto de um aterro foi desenterrado, em conjunto com um baluarte circular interno de 6,7 metros de espessura para protegê-la de inimigos. Uma área de 300 metros de comprimento foi preenchida com jardins e bairros de artesãos separou o aterro externo do baluarte interno que tinha uma altura de 8 a 10 metros, e foi fortalecido por torres defensivas. Outros achados incluem um dos portões da cidade, uma rua que iniciou no centro e terminou no portão e edifícios residenciais. Mari possuía uma colina central, contudo nenhum templo ou palácios foram desenterrados, embora um grande edifício que parece ter sido um centro administrativo foi descoberto; este edifício tinha fundações de pedra e dimensões de 32 metros por 25 metros, com salas de 12 metros de largura e 6 metros de comprimento.

Segundo reino

Por volta do começo do (antes de ) Mari foi reconstruída e povoada. A nova cidade manteve boa parte dos padrões exteriores da primeira cidade, incluindo o portão e baluarte internos. Também manteve o aterro circular exterior medindo 1,9 quilômetros de diâmetro, que foi encimado por uma muralha de dois metros de espessura, adequada para a proteção de arqueiros. Contudo, a estrutura interna foi completamente alterada, com a cidade sendo cuidadosamente planejada; a primeira coisa a ser construída foram as ruas que declinaram do centro elevado em direção aos portões, assegurando a drenagem da água da chuva.

No coração da cidade, um palácio real, que também serviria como templo, foi edificado. Quatro níveis arquitetônico sucessivos do palácio do segundo reino foram desenterrados (o mais velho é designado P3, enquanto o último é P0), e os últimos dois níveis são datados do período acadiano. Os primeiros dois níveis foram escavados, e os achados incluem um templo chamado "Recinto Sagrado" (), que era o maior da cidade, porém é desconhecido a quem foi dedicado. Também foi escavado uma sala do trono com pilares e um salão que continha três pilares duplos de madeira que levam ao templo.

Seis outros templos foram descobertos na cidade, incluindo o templo chamado de "Maciço Vermelho" (), a quem sua dedicação é desconhecida, e templos dedicados a , Istarate, Istar, Ninursague e Samas. Todos os templos estavam localizados no centro da cidade, exceto o Templo de Istar, e a área entre o Recinto Sagrado e o Maciço Vermelho é considerada como centro administrativo do sumo sacerdote.

O segundo reino parece ter sido um poderoso e próspero centro político. Seus reis utilizavam o título de lugal. Muitos são atestados na cidade, mas a mais importante fonte é a carta do rei de , que foi enviada a Ircabe-Damu de Ebla e nela o rei mariota menciona seus predecessores e suas realizações militares. Outrossim, a leitura desta carta é ainda problemática e muitas interpretações foram apresentadas pelos estudiosos.

thumb|upright=1.15|Selo cilíndrico do Segundo Reino Mariota retratando uma batalha entre heróis e animais thumb|upright=1.15|Inscrição do rei Icunsamas

Guerra eblaíta-mariota

O rei mais antigo atestado na carta de Enadagã é , que é mencionado atacando Ebla, o tradicional rival de Mari com quem teve uma longa guerra, e conquistou muitas das cidades de Ebla, incluindo a terra de (atualmente localizada a 26 quilômetros de Raca). O próximo rei mencionado na carta é Sa'umu, que conquistou as terras de e Nirum (situadas no Eufrates médio próximo de ), mas Mari foi derrotada pelo rei de Ebla em meados do . A guerra continuou com Istupe-Isar, que conquistou Emar durante um período de debilidade de Ebla em meados do O rei Igris-Halam teve que pagar tributo a Iblul-Il de Mari, que é mencionado na carta conquistando muitas das cidades de Ebla e realizando campanha na região de .

Enadagã também recebeu tributo, e seu reinado coincidiu inteiramente com o reinado de Ircabe-Damu de Ebla, que conseguiu derrotar Mari e deixar de pagar tributo. Mari derrotou Nagar, um aliado de Ebla, no sétimo ano do mandato do vizir eblaíta Ibrium, causando o bloqueio das rotas comerciais entre Ebla e o sul da Mesopotâmia via Jazira (Alta Mesopotâmia). A guerra alcançou seu clímax quando o vizir eblaíta fez uma aliança com Nagar e Quis para derrotar Mari numa batalha próximo de cerca de , durante o reinado do rei mariota Hidar.

Segundo Alfonso Archi, Hidar foi sucedido por Isqui-Mari, cujo selo real foi descoberto e descreve cenas de batalha, levando Archi a sugerir que foi responsável pela destruição de Ebla enquanto ainda era general. Uma década após a destruição de Ebla ( pela cronologia média), Mari foi destruída e incendiada por Sargão da Acádia; Michael Astour, segundo a cronologia curta, fornece a data de

Terceiro reino

Mari permaneceu deserta por duas gerações antes de ser restaurada pelos rei acadiano Manistusu. Um governador militar com o título de "xacanacu" (shakkanakku) foi nomeado para comandar a cidade. A Acádia deteve controle direto sobre a cidade, o que é evidente pela nomeação de Narã-Sim de duas de suas filhas para ofícios sacerdotais na cidade.

Dinastia xacanacu

thumb|upright=1.15|Leão de Mari ()

O primeiro membro da dinastia xacanacu nas listas reais é que foi nomeado em Ele governou por 60 anos e foi sucedido por seu filho, o que tornou a posição hereditária.

A terceira Mari sucedeu em termos gerais a estrutura segunda cidade, com a fase P0 do antigo palácio sendo substituída pelo novo palácio de xacanacu. Outro palácio menor foi construído na porção oriental da cidade, e continha sepultamentos reais que datam de períodos anteriores. Os baluartes foram reconstruídos e fortificados enquanto o aterro tornar-se-ia uma muralha defensiva que alcançou 10 metros de largura. O antigo recinto sagrado foi mantido, assim como o Templo de Ninursague. Contudo, o Templo de Nina-Zaza e Istarate desapareceram, enquanto um novo templo chamado "Templo dos Leões" (dedicado a Dagom), foi construído pelo xacanacu e anexado a ele estava um terraço sacrificial retangular (zigurate) que mediu 40 por 20 metros.

A Acádia se desintegrou após o reinado de Sarcalisarri, e Mari ganhou sua independência, com o uso do título xacanacu continuou durante o subsequente período da Terceira Dinastia de Ur. Uma princesa de Mari casou com o filho do rei Ur-Namu de Ur, e Mari estava nominalmente sob hegemonia de Ur. Todavia, a vassalagem não impediu a independência de Mari, e alguns xacanacus utilizaram o título real lugal em suas inscrições votivas, enquanto utilizaram o título de xacanacu em sua correspondência com a corte de Ur. A dinastia terminou por razões desconhecidas não muito antes do estabelecimento da dinastia seguinte, o que ocorreu na segunda metade do .

Dinastia Lim

O no Crescente Fértil foi caracterizado pela expansão dos amoritas, que culminou com a dominação e governo deles de boa parte da região, incluindo Mari que em , tornar-se-ia sede da dinastia Lim dos amoritas sob o rei . Todavia, as evidências epigráficas e arqueológicas mostraram um elevado grau de continuidade entre os períodos xacanacu e amorita, o que enfraqueceu a teoria anterior de que houve um abandono de Mari durante o período transicional.

Iaguide-Lim foi o governante de Suprum (12 quilômetros rio acima de Mari, talvez identificável com a moderna Tel Abu Haçane ). Ainda há duvidas entre os estudiosos se ele se estabeleceu com sua família em Mari, porém tradicionalmente se admite que foi o primeiro rei de sua dinastia. Iaguide-Lim entrou em aliança com de , mas as relações entre eles deteriorou até a eclosão duma guerra aberta que foi concluída com a captura de , o herdeiro de Iaguide-Lim. Segundo um tablete encontrada em Mari, conquanto de credibilidade duvidosa por ter sido escrito por , neto de Ila-cabcabu, Iaguide-Lim foi assassinado por seus servos.