direita|thumb|293px|Vista de parte da fronteira e de uma torre de vigilância no Checkpoint Alpha, entre Rasdorf e Geisa. A fronteira interna alemã () foi um extenso sistema de fortificações que percorria os 1382 km de comprimento da fronteira entre a Alemanha Oriental (República Democrática Alemã, ou RDA) e a Alemanha Ocidental (República Federal da Alemanha, ou RFA), estendendo-se do Mar Báltico até à Checoslováquia. A fronteira foi estabelecida formalmente em 1 de julho de 1945 separando a Alemanha controlada pelos Aliados e a Zona de ocupação soviética. Junto a ela, mais de um milhão de militares da OTAN e do Pacto de Varsóvia esperaram durante vários anos a ocorrência de um conflito.

Entre 1952 a 1990, durante a Guerra Fria, o sistema de fronteiras foi usado pelo governo da Alemanha Oriental para evitar que os seus habitantes escapassem, fugindo da ditadura comunista que lhes fora imposta, cujo regime suprimia a propriedade privada, a possibilidade de discordar e de eleger os representantes com eleições livres pluripartidárias. Era formada por cercas, muros, vedações, arame farpado, campos minados, valas e outros obstáculos, sendo patrulhada por aproximadamente militares da Alemanha Oriental com ordens de atirar para matar (a célebre Schießbefehl ou "Ordem 101"), auxiliados por cães de guarda, cercas elétricas, torres de vigilância e sistemas de armamento automático, face a dezenas de milhares de militares da Alemanha Ocidental, Estados Unidos da América e Reino Unido.Faringdon (1986), pp. 282–84. Por volta de mil pessoas morreram ao tentar atravessar a fronteira durante os seus 45 anos de existência.McDougall (2004), p. 40. A fronteira causou enormes alterações na economia e sociedade alemãs, em ambos os lados. Os leste-alemães sofreram em especial restrições draconianas diversas.Czuczka (2000-01-13).

O Muro de Berlim, que separou entre 1961 e 1989 Berlim Oriental de Berlim Ocidental, era a parte mais famosa do sistema, embora nem chegasse a constituir 10% da área total da fronteira. Esta fronteira tornou-se a mais militarizada de toda a Europa e uma das mais militarizadas do mundo. Foi uma literal manifestação da famosa metáfora de Winston Churchill em 1946: «Uma cortina de ferro que fechou o continente». Assim, a fronteira era muito mais que uma simples linha de defesa: as suas fortificações evitavam acima de tudo que os civis da RDA escapassem para a parte ocidental. Era algo mais que uma simples fronteira, porque claramente dividia a Europa em dois campos rivais, tanto politicamente (de um lado estavam democracias liberais capitalistas, e do outro vários estados comunistas), como no lado económico (a CEE contra o Comecon), e militarmente (a OTAN contra o Pacto de Varsóvia). Assim esta fronteira tornou-se definitivamente em um dos principais símbolos da Guerra Fria.

Em 9 de novembro de 1989 o governo da Alemanha Oriental anunciou a abertura do Muro de Berlim e da fronteira interna alemã. Nos dias que se seguiram, milhões de alemães orientais começaram a visitar o lado ocidental. Da mesma forma, houve centenas de milhares que decidiram mudar para o Ocidente no início da década de 1990, à medida que cada vez menos restrições eram impostas, e que os laços quebrados com as comunidades do lado ocidental foram reatados. As formalidades do controlo fronteiriço tornar-se-iam um pouco mais que uma curiosidade histórica. A fronteira interna alemã só foi completamente abandonada em 1 de julho de 1990,The Record (1990-07-02). precisamente 45 anos depois da sua fundação, e apenas três meses antes da reunificação alemã terminar a divisão entre estados. Ainda restam alguns resquícios dessa fronteira. A área que ela ocupava foi declarada parte do "Cinturão Verde Europeu" que liga parques nacionais e reservas naturais ao longo da antiga "Cortina de Ferro", desde o Círculo Polar Ártico ao Mar Negro. Museus e monumentos comemorativos ao longo da fronteira lembram a época de divisão da Alemanha e, em alguns locais, ainda são preservados elementos das fortificações.Cramer (2008), pp. 8–9.

Origens da fronteira direita|thumb|300px|As zonas de ocupação pelos Aliados na Alemanha do pós-guerra, com a zona soviética (vermelho), a fronteira interna alemã (linha negra espessa) e a zona a partir da qual os britânicos e norte-americanos se retiraram em julho de 1945 (púrpura). As fronteiras provinciais são as da Alemanha de Weimar, anteriores às dos Länder (estados federados) de hoje terem sido estabelecidas.

A fronteira interna alemã teve origem nos planos dos Aliados de dividir a derrotada Alemanha em zonas de ocupação.Buchholz (1994), p. 56. As fronteiras entre as zonas foram desenhadas ao longo dos antigos limites territoriais dos estados e províncias alemães do século XIX que tinham entretanto desaparecido com a unificação da Alemanha em 1871.Faringdon (1986), p. 282. Então após um acordo o país foi dividido em três zonas, cada uma cobrindo cerca de um terço do território alemão: uma zona de ocupação britânica a noroeste, uma zona de ocupação americana no sul e uma zona de ocupação soviética no leste. Mais tarde, foi concedida à França uma zona (segundo o plano Monnet) no extremo ocidental da Alemanha, retirada das zonas britânica e americana.Weinberg (1995), p. 804.

Até 1945 as fronteiras dos estados foram apenas administrativas e sem formalidades para a travessia civil entre as duas Alemanhas. As alterações ocorreram após a ocupação ter sido estabelecida, embora houvesse permissão de viagens para os alemães para viagens de uma zona para outra, quando as fronteiras das zonas de ocupação não estavam claramente definidas.

A divisão da Alemanha entrou em vigor em 1 de julho de 1945. Por causa do inesperado e rápido avanço dos Aliados na parte central da Alemanha nas últimas semanas da Guerra, as tropas britânicas e americanas ocuparam grande parte do território que tinha sido atribuído à então zona de ocupação soviética. A redistribuição das tropas das nações ocidentais obrigou a fuga dos alemães da parte leste para a parte oeste. A parte leste ficou sob comando soviético.Shears (1970), p. 29.

Os Aliados trabalharam inicialmente juntos sob os cuidados do chamado Conselho de Controlo Aliado (CCA).Osmańczyk; Mango (2004), p. 77. O plano original dos Aliados consistia em governar a Alemanha como um só país, mas esta proposta não foi adiante. Como nos dois anos posteriores as tensões da Guerra Fria se acirraram com tensão entre o mundo ocidental e a União Soviética, esta proposta de governo de coligação nunca foi completamente implementada. A cooperação entre os Aliados ocidentais e os soviéticos acabou por se desfazer, por causa de desentendimentos em relação ao futuro geopolítico e económico da Alemanha. Como resultado desse conflito, a parte ocidental e as zonas de ocupação soviéticas seguiram caminhos diferentes. Em maio de 1949 as três zonas de ocupação no ocidente foram fundidas para formar a então República Federal da Alemanha (RFA) ou Alemanha Ocidental, que era uma democracia parlamentar capitalista. A zona sob a ocupação soviética se transformou na então República Democrática Alemã (RDA) ou Alemanha Oriental, sob governo comunista.Shears (1970), p. 36.

thumb|esquerda|250px|Zonas ocupadas pelos Aliados na Alemanha em 1947, com os territórios a leste da linha Oder-Neisse sob administração da Polónia ou anexação soviética, além do protetorado de Sarre e a Berlim dividida. A Alemanha Oriental era formada pela Zona Soviética, enquanto a Alemanha Ocidental era formada pelas zonas norte-americana, britânica e francesa em 1949 e posteriormente o Sarre se unificou em 1957.

Desde o início a Alemanha Ocidental e os Aliados não reconheciam a Alemanha Oriental como um país.Declaração conjunta das potências aliadas de 3 de outubro de 1954, citada em Kindermann (1994), pp. 220–21. A criação da Alemanha Oriental foi considerada como um facto consumado pelos soviéticos, sem governo eleito de forma justa e livre. A Alemanha Ocidental viu a cidadania alemã sendo aplicada da mesma forma para os cidadãos de Oeste e Leste. Os cidadãos das "duas Alemanhas" tinham os mesmos direitos porque as duas constituições eram consideradas válidas dos dois lados. Assim, os alemães orientais tinham vários incentivos para se mudarem para a Alemanha Ocidental, aonde tinham liberdade e melhores condições de vida do que eram estavam disponíveis na Alemanha Oriental.Gress (1985), pp. 15–16.

O governo oriental procurou definir o país como estado legítimo de direito próprioLoth (2004), p. 274. e declarou que a Alemanha Ocidental era um território inimigo (feindliches Ausland) – um estado capitalista, semi-fascista que explorava os seus cidadãos, querendo reconquistar os territórios perdidos pelo Terceiro Reich, que se opunha ferozmente ao socialismo pacífico da RDA.Schweitzer (1995), p. 50.

1945–52: a "Fronteira Verde" No início da ocupação, os Aliados controlaram o tráfego entre as zonas de ocupação para gerir o fluxo de refugiados e prevenir a fuga dos ex-oficiais nazis e os agentes dos serviços secretos.Stacy (1984), p. 6. Estas zonas de controlo foram sendo gradualmente levantadas nas zonas ocidentais, mas foram espremidos entre as zonas "ocidentais" e a zona de ocupação soviética em 1946, para conter o fluxo de refugiados políticos e económicos da zona ocupada pela União Soviética.Stacy (1984), p. 9. Entre outubro de 1945 e junho de 1946, 1,6 milhão de alemães fugiram da zona da ocupação soviética e se mudaram para a zona oeste.Stacy (1984), p. 8.

A zona da fronteira interzonal se tornou tensa à medida que as relações entre os Aliados ocidentais e os soviéticos pioravam.Stacy (1984), p. 31–32 A partir de setembro de 1947, um regime cada vez mais rigoroso foi imposto na fronteira da zona leste. O número de soldados soviéticos na fronteira aumentou drasticamente e foi reforçado com guardas de fronteira da recém-estabelecida Volkspolizei ("Polícia do Povo"). Muitas passagens informais foram bloqueadas com valas e barricadas.Stacy (1984), p. 40. Os alemães ocidentais também aumentariam posteriormente o nível de segurança com o estabelecimento, em 1952, da força de proteção da fronteira federal, com cerca de homens  – a Bundesgrenzschutz, ou BGS – porém, as tropas aliadas (britânicos a norte, americanos a sul) mantinham a responsabilidade pela segurança militar da fronteira.Stacy (1984), pp. 67, 69. direita|thumb|200px|A fronteira antes da fortificação: a zona interzonal perto de Asbach-Sickenberg, na Turíngia, em 1950 direita|thumb|200px|A fronteira recém-reforçada em 1962, com arame farpado, torres de vigia e campos minados.

A linha da fronteira era, apesar de tudo, muito fácil de se atravessar. Para os habitantes locais havia permissões para manutenção de terrenos agrícolas de um lado e do outro, ou então a quem morava num lado e trabalhava no outro. Os refugiados puderam atravessar a fronteira de uma forma disfarçada ou então subornando os guardas, e o contrabando de bens em ambas as direções era comum.Berdahl (1999), p. 144. O fluxo de imigrantes permaneceu grande apesar do reforço das medidas de segurança por parte das autoridades orientais : pessoas fugiram para a Alemanha Ocidental entre 1949 e 1952.Cramer (2008), p. 15.

1952–67: o "Regime Especial" A relativa permeabilidade da fronteira terminou de forma abrupta em 26 de maio de 1952 quando a Alemanha Oriental colocou em prática um "regime especial da linha de demarcação", este regime foi justificado como uma medida para manter fora do país "espiões, divergentes, terroristas e contrabandistas".Stacy (1984), p. 50. Esta tomada de decisão foi feita para terminar o êxodo contínuo dos seus cidadãos, o que ameaçava a viabilidade da economia da RDA.Shears (1970), p. 37.