O Vought F-8 Crusader foi um caça de superioridade aérea embarcado, monomotor, supersônico desenhado e produzido pela americana Vought. O F-8 foi a última aeronave de caça americana a ter canhões como armamento principal, ganhando o apelido de "O Último dos Pistoleiros" (inglês: The Last of the Gunfighters).
O desenvolvimento do F-8 iniciou após o requerimento para uma nova aeronave de caça pela Marinha dos Estados Unidos (USN) em setembro de 1952. A equipe de projetistas da Vought, liderada por Joh Rusell Clark, produziu o V-383, um caça relativamente heterodoxo, na qual possuía uma asa alta de incidência variável, fuselagem com regra de área, cauda totalmente móvel, extensão doogtooth na superfície de dobra das asas para melhorar a estabilidade e uso extenso de titânio na célula da aeronave. Em junho de 1953, a Vought recebeu uma encomenda inicial de três protótipos XF8U-1. Em 5 de março de 1955, o protótipo fez seu primeiro voo. A campanha de provas foi relativamente sem incidentes. Em 21 de agosto de 1956, piloto de provas da USN, R.W. Windsor, atingiu em provas a velocidade de 1.633 km/h (1.015 mi/h), sendo o F-8 a primeira aeronave a atingir velocidades acima de 1.600 km/h (1.000 mi/h).
Durante março de 1957, o F-8 foi introduzido em serviço ativo na Marinha dos Estados Unidos. Em adição a USN, o tipo foi posto em serviço no Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, (substituindo o Vought F7U Cutlass), na Aviação Naval Francesa e pela Força Aérea das Filipinas. Em seus primeiros anos, a aeronave teve uma taxa de acidentes acima da média, sendo uma aeronave relativamente difícil de pilotar. Crusaders americanos estiveram em combate na Guerra do Vietnã, engajando em dogfight contra caças MiG-17 vietnamitas e em missões de ataque no teatro de operações. O RF-8 Crusader, variante de reconhecimento tático, teve um papel crucial na Crise dos Mísseis de Cuba, provendo fotografias dos mísseis balísticos de médio alcance (MRBM) soviéticos em Cuba, das quais eram impossíveis na época, com outros métodos. O RF-8 teve vida mias longa no serviço estadunidense, servindo na Reserva Naval dos Estados Unidos até 1987. Vários F-8 modificados foram utilizados pela NASA como aeronave de testes para vários sistemas, incluindo tecnologia fly-by-wire digital e desenhos de asas supercríticas.
Desenvolvimento
Contexto esquerda|miniaturadaimagem|O protótipo do XF8U-1 Crusader no Museu do Voo, em Seattle Durante o mês de setembro de 1952, a Marinha dos Estados Unidos (USN) liberou um requerimento para um novo caça. As especificações desse requerimento incluíam a velocidade máxima de Mach 1.2 a 9.100 m (30.000 ft) de altitude, uma razão de subida de 130 m/s (25.000 ft/min) e uma velocidade de pouso de no máximo 160 km/h (100 mi/h). Experiências da Guerra da Coreia demonstraram que o uso de metralhadoras de 12.7mm (.50) já não eram mais suficientes para o combate aéreo moderno, tendo como resultado no requerimento, o uso obrigatório de canhões de 20mm. A munição de 20x110mm USN já era de uso comum na Marinha antes mesmo do conflito na Coreia, com o F2H Banshee, o F9F Panther, o F3D Skyknight, o F7U Cutlass e o F4D Skyray, dentre outros, utilizando armas com esta munição.
Em resposta a esse requerimento, a fabricante americana de aeronaves Vought optou por produzir um novo desenho de sua engenharia, designado internamento como V-383. A equipe de projetistas da Vought foi liderada por John Russell Clark. O projeto era relativamente heterodoxo para um caça, possuindo uma asa alta, da qual necessitava de um trem de pouso curto e leve, montado na fuselagem. Um importante fator que contribuiu para facilitar o uso de um trem de pouso tão compacto, no entanto, foi o uso da asa de incidência variável, nas quais reduziam a quantidade de pitch up necessário durante a configuração de pouso em baixa velocidade. Esta asa podia ser articulada em 7º para cima durante pousos e decolagens, e devido a isso, proporcionava maior ângulo de ataque sem a necessidade de levantar o nariz da aeronave, auxiliando na visibilidade e diminuindo a velocidade de pouso. Esta asa de incidência variável ajudou a equipe de desenvolvimento do F-8 a vencer o Troféu Collier de 1956.
A competição para este requerimento eram considerável; esta incluía o Grumman F-11 Tiger, o McDonnell F3H-H (uma variante bimotor do F3H Demon, que se tornaria futuramente o F-4 Phantom II) e o North American F-100 Super Sabre modificado para uso embarcado, sendo designado como Super Fury. Em adição a proposta do V-383, a Vought também apresentou uma variante de reconhecimento tático do projeto, o V-392.
Em voo miniaturadaimagem|O F8U-1 Crusader (BuNo 141435), pilotado pelo Cmdt. "Duke" Windsor, taxiando em China Lake para executar uma quebra de recordes em 21 de agosto de 1956. Durante o mês de maio de 1953, o projeto submetido pela Vought foi declarado vencedor; um mês depois, a fabricante recebeu a primeira encomenda inicial por três protótipos XF8U-1. Em 25 de março de 1955, o protótipo fez seu primeiro voo, com o piloto de provas Jonh Konrad aos comandos; a confiança no projeto era tão grande que foi decidido que a aeronave quebraria a barreira do som durante seu primeiro voo. O desenvolvimento foi relativamente livre de problemas, ao ponto que o segundo protótipo e a primeira aeronave de produção (designada F8U-1 e redesignado como F-8A) fizeram seus primeiros voos simultaneamente, no dia 30 de setembro de 1955. No dia 4 de abril de 1956, o F8U-1 fez seu primeiro lançamento por catapulta no convés do navio aeródromo USS Forrestal.
Começando no final de 1956, o protótipo XF8U-1 foi avaliado pelo VX-3, na qual durante a campanha de provas, foram encontrados alguns problemas. O desenvolvimento de armas foi conduzido na Estação Aeronaval de Armas de China Lake, com a aeronave designada para o desenvolvimento estabelecendo o recorde norte americano de velocidade em agosto de 1956. O Comandante (Cmdt.) "Duke" Windsor estabeleceu o recorde de velocidade em voo nivelado, marcando 1.634,173 km/h (1.015,428 mi/h) em 21 de agosto de 1956, batendo o recorde anterior de 1.323 km/h (822 mi/h) estabelecido por um F-100 Super Sabre da USAF, porém, não quebrando o recorde mundial de velocidade, que na época era de 1.822 km/h (1.132 mi/h) , estabelecido pelo Fairey Delta 2 em 10 de março de 1956.
Um dos primeiros F8U-1 foi convertido como aeronave de reconhecimento tático, sendo designado como F8U-1P (e sendo redesignado como RF-8A). Subsequentemente, o RF-8A foi equipado com câmeras a despeito de canhões e mísseis. Em 16 de julho de 1957, o Major (Maj.) John H. Glenn Jr. da USMC, completou o primeiro voo transcontinental supersônico em um F8U-1P, decolando da Estação Aeronaval (NAS) de Los Alamitos, na Califórnia, até Floyd Bennett Field, em Nova Iorque, fazendo todo trajeto em três horas, 23 minutos, 8.3 segundos.
Em paralelo com o F8U-1 e o F8U-2, a equipe de desenvolvimento do Crusader trabalhou em uma variante maior da aeronave, com ainda mais desempenho, na qual foi designada internamente como V-401 e, mais tarde, oficialmente designada como XF8U-3 Crusader III. Esta variante era externamente similar ao Crusader, na qual compartilhou diversos elementos de desenho, como as asas de incidência variável, porém, diferia por ser consideravelmente maior enquanto compartilhava poucos componentes com o Crusader, além de ser capaz de atingir maiores velocidades.
Descrição miniaturadaimagem|267x267px|Insígnia dos pilotos do F-8 O F-8 Crusader era um caça de superioridade aérea, embarcado, monomotor e supersônico. Era tipicamente descrito como um caça "todo tempo", porém, as variantes iniciais eram somente equipadas com um radar estadiamétrico para estimar a distância para o disparo dos canhões, dependendo totalmente de fontes externas para guiamento até os alvos. Do F-8B em diante, um radar de controle de tiro mais capaz foi instalado, com variantes subsequentes sendo equipadas com radares de maior capacidade e mais confiáveis. O treinamento dos pilotos na época não focava muito no uso do radar em combate, tornando o equipamento menos efetivo do que poderia ter sido. A adição de aviônica avançada em modelos subsequentes, particularmente o F-8J, foi criticada por aumentar significativamente o peso da aeronave e ter efetividade questionável. Os pilotos reivindicavam frequentemente que os modelos mais modernos do F-8 não tinham a mesma capacidade de curva dos modelos iniciais e que haviam dificuldades de abortar um pouso, caso necessário; além da falta de confiabilidade do radar em climas tropicais.
Uma característica fundamental do F-8 eram suas asas de incidência variável, na qual possibilitava maior ângulo de ataque e aumentava a sustentação sem comprometer a visibilidade do piloto, sendo articulada em 7º fora da fuselagem durante pousos e decolagens. Simultaneamente, a sustentação era aumentada por flapes de bordo de ataque capazes de cair até 25º e flapes internos capazes de estender até 30º. O F-8 tomou vantagem das inovações aerodinâmicas da época, como uma fuselagem de regra de área, estabilizadores totalmente móveis, extensão doogtooth na superfície de dobra das asas para melhorar a estabilidade e uso extenso de titânio na célula da aeronave. A aeronave era propelida por um turbojato Pratt & Whitney J57, equipado com pós-combustor. Em sua variante original de produção, o F8U-1, o pós-combustor aumentava o empuxo do motor de 10.400 lbf (45.3 kN) para 16.000 lbf (71.7 kN), porém, ao contrário do motores subsequentes, faltava uma configuração intermediária de empuxo.
O armamento do F-8, na qual foi especificado pela Marinha dos Estados Unidos (USN), consistia de quatro canhões de 20mm; a aeronave seria o último caça norte americano a ter canhões como armamento primário. Eles foram suplementados com um casulo retrátil com 32 foguetes Mk.4/Mk.40 FFAR e trilhos laterais para dois mísseis ar-ar AIM-9 Sidewinder. Na prática, os mísseis Sidewinder se tornaram o armamento primário do F-8, com os canhões de 20mm sendo considerados "geralmente não confiáveis"; os F-8 tiveram boa parte de suas vitórias ar-ar marcadas com mísseis ar-ar. Foi sugerido que se a USN tivesse campanhas de provas dos armamentos mais realistas e rígidas, a confiabilidade dos canhões poderia ter aumentado consideravelmente.
Histórico Operacional
Marinha (USN) e Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC) esquerda|miniaturadaimagem|Dois Crusaders na preparação para lançamento no convés do USS Midway. Suas asas de incidencia variável estão na posição "alta" Introdução
O VX-3 foi uma das primeiras unidades a receber o F8U-1 em dezembro de 1956, se tornando uma das primeiras unidades operacionais do modelo em abril de 1957, sendo baseada no USS Franklin D. Roosevelt (CV-42). O VX-3 foi a primeira unidade a se qualificar para uso embarcado do Crusader, porém, perdendo várias aeronaves em acidentes, vários deles sendo fatais para seus pilotos.
O primeiro esquadrão de combate a voar o Crusader foi o VF-32, baseado em NAS Cecil Field, na Flórida, em 1957; sendo enviado para o Mediterrâneo durante aquele ano, a bordo do USS Saratoga (CVA-60). O VF-32 foi renomeado como "Swordsmen" (espadachim), em homenagem a nova aeronave. A Frota do Pacífico recebeu seus primeiros Crusaders na NAS Moffett Field, no norte da Califórnia e o VF-154 "Grandslammers" iniciaram suas operações com o F-8. Mais tarde, em 1957, o VMF-122 da USMC recebeu seus primeiros Crusaders. miniaturadaimagem|Um F-8 do USS Oriksany interceptando um Tu-95 soviético Em 1962, o Departamento de Defesa americano padronizou as designações de aeronaves militares nas forças armadas, deixando-as similares as utilizadas na força aérea. Consequentemente, o F8U foi redesignado como F-8 e o F8U-1 se tornou o F-8A.