thumb|250px| Campo de Manzanar, Califórnia. Durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos realocaram à força e encarceraram cerca de 120 000 pessoas de ascendência japonesa em dez campos de concentração operados pela Autoridade de Realocação de Guerra (WRA), principalmente no interior do oeste do país. Cerca de dois terços eram cidadãos americanos. Essas ações foram iniciadas pela Ordem Executiva 9066, emitida pelo presidente Franklin D. Roosevelt em 19 de fevereiro de 1942, após o ataque do Japão Imperial a Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941. Cerca de 127 000 nipo-americanos viviam então nos Estados Unidos continental, dos quais aproximadamente 112 000 viviam na Costa Oeste. Cerca de 80 000 eram Niseis ("segunda geração"; japoneses nascidos nos Estados Unidos com cidadania americana) e Sanseis ("terceira geração", filhos de Niseis). O restante eram imigrantes Isseis ("primeira geração") nascidos no Japão, que eram inelegíveis para a cidadania. No Havaí, onde mais de 150 000 nipo-americanos compunham mais de um terço da população do território, apenas 1 200 a 1 800 foram encarcerados.
O internamento teve a intenção de mitigar um risco à segurança que se acreditava que os nipo-americanos representassem. A escala do encarceramento, em proporção ao tamanho da população nipo-americana, superou em muito as medidas semelhantes tomadas contra americanos de origem alemã e italiana, que somavam milhões e dos quais alguns milhares foram internados, a maioria destes não cidadãos. Após a ordem executiva, toda a Costa Oeste foi designada uma área de exclusão militar, e todos os nipo-americanos que viviam lá foram levados para centros de triagem antes de serem enviados para campos de concentração na Califórnia, Arizona, Wyoming, Colorado, Utah, Idaho e Arkansas. Ações semelhantes foram tomadas contra indivíduos de ascendência japonesa no Canadá. Aos prisioneiros (chamados de internos) foi proibido levar para os campos mais do que podiam carregar e muitos foram forçados a vender alguns ou todos os seus bens, incluindo suas casas e negócios. Nos campos, que eram cercados por arame farpado e patrulhados por guardas armados, os internos frequentemente viviam em alojamentos superlotados com mobília mínima.
Em sua decisão de 1944 no caso Korematsu v. United States, a Suprema Corte dos Estados Unidos manteve a constitucionalidade das remoções com base na Cláusula do Devido Processo da Quinta Emenda da Constituição. O Tribunal limitou sua decisão à validade das ordens de exclusão, evitando a questão do encarceramento de cidadãos americanos sem o devido processo legal, mas decidiu no mesmo dia, em Ex parte Endo, que um cidadão leal não poderia ser detido, o que iniciou a libertação deles. Em 17 de dezembro de 1944, as ordens de exclusão foram revogadas e nove dos dez campos foram fechados até o final de 1945. Inicialmente, os nipo-americanos foram proibidos de servir nas forças armadas dos Estados Unidos, mas, em 1943, foi-lhes permitido alistar-se, com 20 000 servindo durante a guerra. Mais de 4 000 estudantes puderam sair dos campos para frequentar a universidade. Hospitais nos campos registraram 5 981 nascimentos e 1 862 mortes durante o encarceramento.
Na década de 1970, sob pressão crescente da Liga de Cidadãos Nipo-Americanos (JACL) e de organizações de reparação, o presidente Jimmy Carter nomeou a Comissão sobre a Realocação e Internamento de Civis em Tempo de Guerra (CWRIC) para investigar se o internamento tinha sido justificado. Em 1983, o relatório da comissão, chamado de Personal Justice Denied, encontrou poucas evidências de deslealdade japonesa e concluiu que o internamento tinha sido produto do racismo. Ela recomendou que o governo pagasse reparações aos detidos. Em 1988, o presidente Ronald Reagan assinou a Lei das Liberdades Civis de 1988, que pediu desculpas oficialmente e autorizou um pagamento de US$ 20.000 (equivalente a US$ 53,000 em 2024) a cada ex-detido que ainda estava vivo quando a lei foi aprovada. A legislação admitiu que as ações do governo foram baseadas em "preconceito racial, histeria de guerra e uma falha de liderança política". Até 1992, o governo dos EUA acabou desembolsando mais de US$ 1,6 bilhão (equivalente a US$ 4,25 bilhões em 2024) em reparações para 82.219 nipo-americanos que haviam sido encarcerados.
Origens miniaturadaimagem|O centro de realocação de Granada, no Colorado. A ação foi tomada em resposta ao ataque a Pearl Harbor durante a Segunda Guerra Mundial, pelo que os Estados Unidos se incorporaram às Forças Aliadas contra o Eixo Roma-Berlim-Tóquio, mas foram maioritariamente as pessoas de etnia japonesa que viviam na costa do Pacífico as submetidas a este internamento.
O Tenente-general John L. DeWitt, comandante da Defesa Oeste dos Estados Unidos, foi encarregue de internar os norte americanos de etnia japonesa. Embora DeWitt comandasse a evacuação forçosa, inicialmente expressou a um superior a sua moléstia por esta ordem, alegando que: De Witt também assegurou que era possível diferenciar os estrangeiros leais aos Estados Unidos dos não leais.
O Secretário de Guerra Henry Stimson era de acordo com DeWitt, mas a histeria contra os cidadãos de origem japonesa pronto alcançou os níveis militares e governamentais.
A 10 de dezembro de 1941, espalhou-se o rumor de que 20 000 nisseiNisei é o nome que os norte-americanos davam a todos os japoneses étnicos que viviam na América, embora originalmente englobasse somente a primeira geração de japoneses nascidos no país estavam preparando-se para iniciar um levantamento armado em São Francisco. DeWitt pensava arrestar de imediato todos os japoneses étnicos, mas o chefe local do FBI conseguiu convencê-lo de que a informação era falsa.
Algumas organizações norte-americanas clamaram pelo encarceramento de todos os nissei, entre as quais se destacam a Legião Norte-americana e os Filhos Nativos do Dorado Oeste. O Secretário da Armada Frank Knox acrescentou mais pólvora à histeria antijaponesa ao declarar que se levara a cabo um efetivo trabalho de quinta-coluna em Hawai, e ao recomendar a evacuação de todas as pessoas com sangue japonês de Oahu. Porém, a declaração de Knox foi desmentida, confidencialmente, por pessoas próximas ao Presidente Roosevelt. miniaturadaimagem|Civis num dos campos em 1943. O Congressista Leland Ford escreveu em meados de janeiro uma carta recomendando que todos os japoneses "sejam colocados em campos de concentração no interior", assegurando que os japoneses étnicos naturalizados que realmente quisessem demonstrar o seu patriotismo deveriam estar dispostos a aceitar este sacrifício. O Governador de Oregon Charles A. Sprague demandou mais proteção contra atividades estrangeiras, fazendo ênfase nos japoneses residentes na costa. Pela sua vez, o Prefeito de Seattle, Earl Millikin, assegurou que embora a grande maioria dos japoneses étnicos não fossem uma ameaça, outros eram capazes de "queimar a povoação" e facilitar um ataque aéreo japonês. O Governador da Califórnia, Culbert Olson, também participou na histeria assegurando que alguns residentes japoneses estavam comunicando-se com o inimigo ou se estavam preparando para formar uma quinta-coluna.
A princípios de fevereiro, Los Angeles Times participou em acrescentar a histeria contra os japoneses:
Depois DeWitt ordenou realizar registos nas casas de japoneses étnicos, com o objetivo de apoderar-se de câmaras e armas "subversivas". Quando o Fiscal Geral Francis Biddle alegou que era preciso apresentar uma possível causa de arresto, DeWitt assegurou que ser descendente de japonês era uma. Porém, após realizar várias procuras sem ordens de registro, até mesmo nas casas de cidadãos norte-americanos, o FBI reportou que não se encontraram armas que pudessem ser utilizadas para ajudar o inimigo, nem câmaras que estivessem sendo usadas em trabalhos de espionagem.
A 25 de janeiro de 1942, Biddle foi convencido por Stimson, que pela sua vez foi convencido por DeWitt, de estabelecer zonas proibidas para os estrangeiros de países inimigos, e zonas restringidas, onde os estrangeiros poderiam estar mas sob vigilância. Posteriormente, Biddle explicou que aceitara porque cria que somente os estrangeiros se veriam afetados, não os estrangeiros naturalizados ou os cidadãos descendentes de estrangeiros.
A 9 de fevereiro, DeWitt solicitou a Biddle incluir a Portland, Seattle e Tacoma na lista de zonas proibidas, o que significava a evacuação de milhares de pessoas. Biddle recusou, alegando que não recebera uma justificação para aceder. Contudo, Biddle agregou que se esta evacuação era uma "necessidade militar", a decisão devia ser tomada pelo Departamento de Guerra, não pelo Departamento de Justiça.
Quase de imediato, o Presidente Franklin D. Roosevelt foi pressionado por Stimson para que acedesse ao plano de DeWitt. Depois, uma delegação do Congresso enviou uma resolução a Roosevelt solicitando a evacuação imediata dos japoneses étnicos, sem distinguir entre estrangeiros ou cidadãos.
A 14 de fevereiro, DeWitt recomendou formalmente a "evacuação de japoneses e outras pessoas subversivas da costa do Pacífico. DeWitt assegurou: miniaturadaimagem|Juramento a bandeira sendo feita por crianças americanas de origem japonesa na Escola Pública Raphael Weill, Ruas Geary e Buchanan, São Francisco, 20 de abril de 1942 A 17 de fevereiro, Biddle insistiu frente do Presidente de que não tomasse esta medida pela última vez, argumentando que não havia evidência de um ataque iminente e que o FBI não tinha evidências de possíveis sabotagens. O Diretor do FBI, J. Edgar Hoover, também recomendou a Roosevelt que não evacuasse os japoneses, mas foi em vão.
A 19 de fevereiro, Roosevelt assinou a Ordem executiva 9066, autorizando o Departamento de Guerra para delimitar áreas militares onde a permanência das pessoas seria decidida pelo Secretário da Guerra Henry Stimson. Este último aclarou a DeWitt que os descendentes de italianos não deveriam ser molestados, e que somente alguns refugiados alemães deviam ser considerados.
Uma apelação apresentada por organismos de defesa dos direitos humanos tentou impugnar o direito do governo a encerrar pessoas por razões étnicas, mas a Corte Suprema dos Estados Unidos recusou a petição.
A 23 de fevereiro, um submarino japonês I-17 disparou contra um armazém de combustível em Santa Bárbara, incendiando uns barris sem provocar baixas. Ao dia seguinte, unidades do Exército norte-americano em Los Angeles viram-se afetadas pela histeria e atiraram as suas armas antiaéreas ao céu. O ruído sobressaltou a algumas unidades de artilharia que também atiraram os seus canhões, cerca de 1430 cargas. Embora posteriormente esse episódio fosse chamado burlosamente a “Batalha de Los Angeles”, nesses dias somente contribuiu para incrementar a histeria populacional.
A 2 de março, DeWitt estabeleceu a Área de Exclusão Militar 1, que ocupava o oeste de Washington, Oregon, Califórnia e a metade sul da Arizona. A Área de Exclusão militar 2 ocupava o restante dos estados mencionados. DeWitt não pôde iniciar de imediato a evacuação porque se apercebeu que não era considerado um crime que um civil recusasse cumprir uma ordem militar. Stimson solucionou o problema criando uma lei que condenava tudo civil que desobedecesse um militar numa área militar a um ano de prisão e a uma multa de 5000 dólares. A 9 de março, a lei foi apresentada no Congresso, somente um senador republicano se opôs, e ninguém votou contra da lei. A 21 de março a lei foi assinada por Roosevelt e DeWitt finalmente obteve o sinal verde para iniciar a evacuação forçosa dos Nisei.