thumb|350px|Desaparecimento de geleiras em Svalbard entre 1900 e 2015. As expressões negacionismo climático e ceticismo climático referem-se ao pensamento daqueles que negam a realidade do aquecimento global ou, ao menos, negam que os seres humanos tenham um papel relevante neste fenômeno. Essas alegações são consideradas pseudocientíficas e o atual consenso científico não apoia os negacionistas do aquecimento global.
Os argumentos dos negacionistas foram refutados pelo conhecimento acumulado em uma vasta quantidade de estudos, levados a cabo pelos melhores climatologistas e geocientistas da atualidade, conhecimento hoje sintetizado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, que desde 1990 publica relatórios periódicos revisando a melhor bibliografia científica disponível, empregando um grande número de especialistas nesse trabalho. O principal contraponto negacionista deste painel de alto nível é o Painel Não Governamental Internacional sobre Mudanças Climáticas, composto por um reduzido grupo de ativistas, muitos deles notórios por fraudes acadêmicas.
Grupos como esse, financiados e promovidos por think tanks conservadores, grandes indústrias e poderosos políticos e formadores de opinião, têm conseguido um espaço nos meios de comunicação que é desproporcional ao mérito científico dos seus argumentos pseudocientíficos.
Os negacionistas disseminam dúvidas e incertezas artificiais entre a população leiga e desempenham um papel de primeiro plano no descrédito da ciência e no bloqueio das necessárias medidas de combate ao aquecimento global. O negacionismo climático é considerado uma forma de pseudociência porque recusa o valor de uma massa de observações, cálculos e medições que convergem todos para a mesma direção. Se baseia principalmente em opiniões, em casuísmos, em crenças ou em ideologias políticas, econômicas ou culturais, e por suas importantes repercussões sociais e ambientais negativas é visto como uma grande ameaça ao bem comum.
Características O pequeno grupo que contesta o consenso científico quanto ao aquecimento global tem as seguintes características:
É heterogêneo, defendendo ideias que, com frequência, são conflitantes umas com as outras. Por exemplo, alguns negam o aquecimento em si, afirmando tratar-se de contaminação das medições por ilhas urbanas de calor,Fall, S. et al. "Analysis of the impacts of station exposure on the U.S. Historical Climatology Network temperatures and temperature trends". In: Journal of Geophysical Research, 30/07/2011 enquanto outros autoproclamados “céticos” atribuem o aquecimento observado a um mecanismo de relacionado a de nuvensLindzen, R. et al. "Does the Earth Have an Adaptive Infrared Iris?". In: Bulletin of the American Meteorological Society, 2000 que não foi corroborado por observações subsequentes;Clement, A. & Burgman, R. "Observational and Model Evidence for Positive Low-Level Cloud Feedback". In: Science, 24/07/2009 É francamente minoritário, representando apenas cerca de 1% do conjunto de climatologistas em atividade;Doran, Peter T. & Zimmermann, Maggie K. "Examining the Scientific Consensus on Climate Change". In: Eos - Transactions of the American Geophysical Union, 20/01/2009; 90(03):22-23 Tem menos respaldo do conjunto de evidências empíricas, limitando-se, geralmente, a apresentar hipóteses alternativas de causalidade que se atêm a algum aspecto isolado do sistema climático. Por exemplo, atêm-se ao ao efeito de nuvens, sem explicar a maior retenção de radiação infravermelha nas frequências dos gases do efeito estufa. Ou ainda, ressaltam a influência do sol, sem explicar por que o aquecimento tem sido mais intenso justamente quando o sol age menos: à noite e no inverno; Apresenta alegações pseudocientíficas, em sua maioria oriundas de think tanks conservadores como o The Heartland Institute. Mesmo falsas, tais alegações são desproporcionalmente representadas na mídia, recebendo grande espaço se comparadas à sua relevância marginal no debate científico atual. Uma pesquisa feita com alguns grandes e influentes jornais dos Estados Unidos, analisando 3.543 artigos que trataram do aquecimento no período de 1988 a 2002, encontrou que 52,65% dos artigos dava peso igual a quem negava e a quem afirmava que a atividade humana tem impacto sobre o clima. Discutindo o que deveria ser feito, apenas 10,6% acatavam o consenso científico e enfatizavam a necessidade de ação internacional urgente e compulsória, enquanto 78,2% apresentavam um texto "equilibrado", induzindo a opinião pública a tirar conclusões equivocadas. Analisando cronologicamente o impacto do problema entre o público, a mesma pesquisa mostrou que entre 1988 e 1989, quando o aquecimento global começou a chamar grande atenção internacional, os jornais diziam praticamente o mesmo que os cientistas, mas que desde então vêm sendo impostas ao público dúvidas artificiais e a distância entre a opinião científica e a popular vem se alargando.Boykoff, Maxwell T. & Boykoff, Jules M. "Balance as Bias: global warming and the U.S. prestige press". In: Global Environmental Change, 2004; 14:125–136
Argumentos negacionistas e sua refutação científica
Os negacionistas empregam uma variada série de argumentos para contestar as conclusões da ciência, que foram agrupados hierarquicamente por Michael Mann.Mann, Michael E. The Hockey Stick and the Climate Wars: Dispatches from the Front Lines. Columbia University Press, 2013, p. 23
1. A concentração de gases estufa não está se elevando na atmosfera.
2. Mesmo se estiver, o aumento não tem efeito sobre o clima. Não existe evidência de que o aquecimento está acontecendo.
3. Mesmo se o aquecimento estiver acontecendo, deve-se a causas naturais.
4. Mesmo se as causas não forem naturais, a participação humana é pequena.
5. Mesmo se a participação humana for grande, não vai gerar mudanças importantes no clima.
6. Mesmo se houver mudanças importantes, elas serão em geral benéficas.
7. Mesmo se as mudanças não forem benéficas, a humanidade e o ambiente vão se adaptar.
8. Mesmo se os cientistas estiverem certos, é tarde demais para fazer qualquer coisa.
9. Mesmo se tudo der errado, a humanidade vai encontrar algum remédio tecnológico para o problema sem que seja necessário mudar significativamente o modo de vida atual.
Todos esses pontos contradizem as observações mais confiáveis:
thumb|direita|300px|Temperatura média global 1880-2013. As três últimas décadas foram as mais quentes desde o início dos registros. thumb|300px|Gráfico mostrando a elevação exponencial das emissões globais de carbono entre 1800 e 2007 dos setores do petróleo, gás natural, carvão, produção de cimento e desperdício. A escala é na ordem de bilhões de toneladas anuais. Em 2007 se aproximou dos dez bilhões thumb|300px|Perda de terra firme na costa da Louisiana entre 1932 e 2011 devido à subida do nível do mar. O nível do mar tem subido porque quando suas águas aquecem elas se expandem, ocupando maior volume, e porque o rápido derretimento do gelo terrestre tem adicionado muita água aos oceanos thumb|300px|Este gráfico da NASA mostra a extensão e intensidade da perturbação térmica global no ano de 2015, em relação ao ano de 1880. As zonas mais vermelhas são as que aqueceram mais
1. Concentração dos gases "A concentração de gases estufa não está se elevando na atmosfera". Errado. Os principais gases estufa de origem humana têm se elevado de maneira contínua desde a Revolução Industrial, iniciada em meados do século XVIII: a concentração atmosférica de dióxido de carbono aumentou aproximadamente 35%,National Oceanic and Atmospheric Administration. "Global Climate Change Indicators", 2011 o metano mais que dobrou sua concentração;IPCC. Climate Change 2013: The Physical Science Basis: Technical Summary. Contribution of Working Group I (WGI) to the Fifth Assessment Report (AR5) of the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), 2013 o óxido nitroso variou de 270 ppb (partes por bilhão) pré-industrial para 319 em 2005,IPCC. [Core Writing Team, Pachauri, R.K and Reisinger, A. (eds.)]. Climate Change 2007: Synthesis Report. Contribution of Working Groups I, II and III to the Fourth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change, 2007 e os níveis de ozônio aumentaram de 25 para 34 ppb no mesmo período.Blasing, T. J. "Recent Greenhouse Gas Concentrations". The Carbon Dioxide Information Analysis Center, fev/2013
2. Aquecimento "Mesmo se os gases estufa estiverem aumentado, o aumento não tem efeito sobre o clima. Não existe evidência de que o aquecimento está acontecendo". Errado. O aquecimento existe. A medição da temperatura em múltiplos pontos do planeta tem mostrado uma elevação desde meados do século XIX, e nas últimas décadas o aumento está acelerando. O gelo está em recuo em todo o planeta, o oceano está esquentando, a estação fria está ficando mais curta, espécies migradoras se deslocam antes do que costumavam fazer. Essas e outras evidências concretas provam um aquecimento generalizado da superfície do planeta.IPCC. Climate Change 2013: The Physical Science Basis: Summary for Policymakers. Contribution of Working Group I to the Fifth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Cambridge University Press, 2013
3. Causas naturais "Mesmo se o aquecimento estiver acontecendo, deve-se a causas naturais". Errado. O clima é um sistema sensível à influência de vários fatores. No passado houve fatores naturais que provocaram mudanças. Hoje, o ser humano está diretamente envolvido. Grande parte do carbono lançado na atmosfera tem origem fóssil, que pode ser provada pela sua composição isotópica. Não existe nenhum processo natural atualmente em curso que possa explicar esse acúmulo na quantidade observada, mas é explicado pela queima de combustíveis fósseis.
4. Participação humana "Mesmo se as causas não forem naturais, a participação humana é pequena". Errado. Provavelmente desde o início do século XX, e pelo menos desde a década de 1950 com extrema segurança, a participação humana tem sido parte preponderante no total. A quantidade de gases estufa de origem humana lançada na atmosfera é imensa, sendo a principal causa do sensível desequilíbrio energético no sistema terrestre, onde uma forçante radiativa positiva (de 2,29 para o período 1750-2011) se aproxima da estimativa da sensibilidade climática. Em outras palavras, a energia estocada em excesso coincide com os efeitos de temperatura previstos para tal acúmulo. O desequilíbrio tem piorado rapidamente desde a década de 1970, e entre 2005 e 2011 aumentou em 43%.
5. 6. Mudanças benéficas "Mesmo se a participação humana for grande, não vai gerar mudanças importantes no clima. Mesmo se houver mudanças importantes, elas serão em geral benéficas". Errado. Não há base científica para afirmar que as mudanças não causarão impactos vastos e perigosos em múltiplos níveis. Ao contrário, a mudança de cerca de 1ºC desde o início dos registros de temperatura global já provocou uma série de efeitos prejudiciais ao ambiente, extinguindo espécies, causando a elevação do nível do mar, acidificação das águas, modificação nos padrões de ventos, chuvas, correntes marinhas, redução de todos os gelos terrestres, agravando a intensidade dos desastres naturais, alterando ecossistemas, desencadeando uma onda de invasões por espécies exóticas em todos os continentes, e muitos outros. Esses impactos geram prejuízos diretos e indiretos à sociedade de múltiplas formas e levam à perda de milhões de vidas todos os anos. Não há base científica para alegar que se o aquecimento se agravar seus efeitos não serão também agravados, e podem, além disso, se tornar exponencialmente aumentados devido a reações imprevistas da natureza.Union of Concerned Scientists. Abrupt Climate ChangeAmerican Institute of Physics. The Discovery of Global Warming: Rapid Climate Change, 2016
7. Adaptação