Tobias Warchavski (Rio de Janeiro, 18 de abril de 1916 – Rio de Janeiro, 17 de outubro de 1934) foi um estudante, cartunista e militante carioca da Juventude Comunista. As condições da sua morte brutal foram alvo de disputas entre os que acusavam a polícia política de Getúlio Vargas e outros que atribuíam sua execução a membros do movimento comunista. Atualmente, a versão mais amplamente aceita é a de que Warchavski teria sido vítima de um "justiçamento" decidido por elementos da cúpula do Partido Comunista Brasileiro, motivado por suspeitas de traição infundadas.
Biografia
Tobias Warchavski era filho de Nathan Warchavski e Joana Warchavski (nascida Rosenberg) e pertencia a uma família judia de classe média. Seus pais residiram por um período no Rio Grande do Sul, onde nasceram sua mãe e pelo menos dois de seus irmãos,«Termo de declarações de Joana Varchavski», 2 de janeiro de 1942. Disponível em «Termo de declarações de Israel Warchavsky, 2 de janeiro de 1942». Disponível em mas Tobias seria natural do Rio de Janeiro. Em 1915, seu pai foi implicado em um caso de receptação de joias roubadas de uma loja no Rio de Janeiro, que teriam sido revendidas no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Em fevereiro de 1930, a residência da família, localizada na rua Senador Eusébio — tradicional reduto da comunidade judaica carioca —, foi atingida por um incêndio que causou grandes perdas materiais. Poucos meses depois, em maio de 1930, Nathan faleceu, deixando a viúva com cinco filhos: Tobias, Israel, Isaac, Saul e Frima, que morreria em 1933.
Estudante promissor, Tobias Warchavski cursou o Colégio Pedro II e a Escola Nacional de Belas Artes. Segundo o noticiário, teria uma namorada.. Disponível em Atuava como cartunista nos jornais Avante e A Pátria e, entre outubro e novembro de 1933, realizou uma exposição de charges em parceria com seu amigo Raphael Guilherme Moussatché no prestigioso salão Essenfelder do Studio Nicolas, na Cinelândia. Entre suas obras mais divulgadas, destacava-se A dança macabra de Hitler, uma crítica contundente ao nazismo e ao antissemitismo, na qual o corpo do ditador se funde graficamente a uma suástica deformada.
Aos 17 anos, filiou-se ao PCB, abandonando os estudos e o lar materno, na rua da Relação, para se dedicar integralmente à militância. Adotou o codinome Carlos Ferreira e passou a residir, ainda no Centro do Rio de Janeiro, na rua do Senado, com Walter Fernandes da Silva — também militante da Juventude Comunista —, que utilizava a identidade falsa de Euclides Santos ou Rogério Dias.
Jovem entusiasmado, Tobias Warchavski atuava como orador em comícios e reuniões estudantis promovidas pelo partido. Teria frequentado a Biblioteca Scholem Aleichem (Bibsa), centro de eventos culturais judaicos, à época dirigido por figuras identificadas com o PCB. Também seria uma figura de destaque no Comitê Estudantil da Luta Contra a Guerra, a Reação e o Fascismo.. Disponível em Em 23 de agosto de 1934, discursou no Congresso Contra a Guerra, a Reação e o Fascismo, realizado no teatro João Caetano, representando a Federação das Juventudes Comunistas. Dias antes, em uma reunião preparatória no Sindicato dos Caldeireiros de Ferro, em Niterói, teria chamado a atenção ao tentar impedir a fala de um jovem Carlos Lacerda. Justificava-se afirmando que, embora Lacerda viesse de uma família de comunistas, seu pai, Maurício Paiva de Lacerda, não era marxista. Em outra ocasião — um comício realizado em 22 de setembro de 1934, na Praça da Harmonia —, protagonizou um dos discursos mais marcantes, sendo violentamente agredido pela polícia.
Desaparecimento e encontro do corpo
A última vez que Tobias Warchavski foi visto por sua família foi em 14 de outubro. No dia seguinte, teria se encontrado com seu amigo Attila Medeiros Rodrigues Silva. Há ainda registros de sua ida a duas consultas odontológicas: uma em 15 e outra em 17 de outubro, às 16h30 — esta sendo sua última aparição conhecida. Segundo o dentista Edgard William Allan, Tobias deveria retornar ao consultório no dia 19, mas não compareceu.
Em 25 de outubro, o corpo do jovem foi encontrado no chamado "Caminho do Macaco" — também conhecido como "Serra do Macaco" ou "Matas do Macaco" —, na Estrada Dona Castorina, uma via situada na região da Gávea, na Floresta da Tijuca. O cadáver foi localizado por dois funcionários da Repartição de Águas e Esgotos, Francisco Almeida Porto e seu filho José, que trabalhavam na manutenção da área. Estava desfigurado, com a cabeça decepada e em decomposição. Diante dessas condições, a identificação só foi possível em 31 de outubro, quando, segundo a polícia, sua mãe e seus irmãos foram levados ao necrotério por um jornalista do jornal A Noite. O reconhecimento também foi corroborado pela análise da circuncisão, realizada pelo cirurgião Moysés Singer, e da arcada dentária, examinada pelo dentista de Tobias. A posterior perícia do crânio indicaria que se tratou de uma morte por tiro que atravessou a cabeça.«Auto de Exame Cadavérico (Tobias Warchavsky)», 26 de outubro de 1934. Disponível em Foi enterrado no Cemitério Israelita de Vila Rosali, em São João de Meriti.
Repercussão e reação pública Imediatamente após o reconhecimento do corpo, difundiu-se amplamente a tese — hoje considerada equivocada — de que Tobias Warchavski havia sido executado pela polícia política do governo Getúlio Vargas, versão que chegou a ser tratada, em alguns círculos, como “fato público e notório”. Entre os políticos, o deputado comunista Álvaro Ventura, catarinense, destacou-se ao denunciar publicamente o crime, tanto na tribuna da Câmara quanto na imprensa.. Disponível em . Disponível em O próprio irmão de Tobias, Israel Warchavski, também acreditava que o assassinato havia sido cometido pela polícia, como desdobramento da agressão sofrida pelo jovem durante o comício na praça da Harmonia, no mês anterior. De acordo com um relatório policial, essa convicção o teria levado a dificultar as investigações.
A comoção provocada pela brutalidade da sua morte intensificou o clima de indignação contra o caráter repressivo do governo, especialmente entre intelectuais cariocas e paulistas ligados ao jornal A Pátria, que passaram a pressionar por uma apuração independente. Essa mobilização resultou, em 6 de novembro, na criação da Comissão Jurídica de Inquérito Popular (CJIP), coordenada pelo advogado Benigno Fernandes, com a missão de investigar não só a morte de Tobias, mas também outras denúncias de violência policial. A iniciativa deu novo fôlego ao movimento antifascista nascente no Brasil, articulando setores democráticos e da esquerda em torno da denúncia do arbítrio policial. Outro desdobramento da repercussão foi o caso do jornalista Hamilton Barata, que publicou no jornal O Homem Livre uma manchete responsabilizando Filinto Müller, então chefe da polícia do Distrito Federal.. Disponível em Edição digital com transcrição modernizada disponível em acesso online. Consultado em 25 de julho de 2025 Barata foi condenado por calúnia e injúria em um julgamento controverso e passou meses detido em um navio-prisão.
O início da investigação
Os primeiros esforços da investigação policial concentraram-se em Walter Fernandes da Silva, companheiro de partido e colega de quarto de Tobias, mas evitaram associar o crime a motivações políticas. Natural do interior de Minas Gerais, Walter já havia sido detido e fichado pela polícia em São Paulo, em 1933, antes de se mudar para o Rio de Janeiro. Diversas de suas ações foram interpretadas como indícios de envolvimento no assassinato. Entre elas, destacava-se o fato de que, em 7 de outubro de 1934, ele e Warchavski haviam alugado, sem justificativa clara, um segundo apartamento na rua Duque de Caxias, em Vila Isabel — atitude que a polícia considerou suspeita e possivelmente destinada a confundir uma eventual vigilância. Às vésperas do crime, Walter teria procurado Attila Medeiros Rodrigues Silva, amigo próximo de Tobias, aconselhando-o a deixar a cidade com urgência sob a alegação — considerada falsa — de que seria alvo de uma operação policial. Após a morte de Warchavski, Walter desapareceu subitamente e teria enviado terceiros para recolher, no imóvel recém-alugado, não apenas seus próprios pertences, mas também os de Tobias. Convencida de sua participação, a polícia iniciou o que a imprensa descreveu como uma verdadeira "caça" pelo suspeito, mobilizando agentes no interior dos estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais — sem, no entanto, obter êxito.
A insistência nessa linha investigativa, somada à aparente imperícia da polícia, foi alvo de críticas recorrentes da imprensa. Durante o julgamento de seu cliente, o advogado do jornalista Hamilton Barata chegou a afirmar que Walter era, na verdade, a verdadeira vítima de difamação por parte das autoridades. Diante da fragilidade das provas, o Ministério Público solicitou o arquivamento do processo contra o jovem — então foragido —, alegando ausência de evidências concretas e já sugerindo que a motivação do crime poderia estar relacionada a dissensões internas do partido, possivelmente ligadas a suspeitas de traição e desejo de vingança.«As conclusões do Ministério Público», 19 de janeiro de 1935. Disponível em
Em maio de 1940, o investigador Sylvio Terra declarou que Walter teria morrido em circunstâncias misteriosas, afogado na praia do Pina, em Recife, em 12 de setembro de 1935, sob a identidade falsa de Haroldo Santos Selva. Segundo Terra, o corpo apresentava sinais de embriaguez. Na ocasião de sua morte, Walter morava havia três meses na capital pernambucana, hospedado na casa da família de um colega de militância, Pascácio Rio de Souza Fonseca, cujo nome viria a ser envolvido no assassinato de Tobias.«Termo de declarações de Emmanuel Rio de Souza Fonseca», 20 de junho de 1941. Disponível em Embora a imprensa descrevesse Walter como um exímio nadador, familiares de Pascácio afirmaram que ele não nadava bem e teria sido acidentalmente arrastado por uma correnteza. «Termo de declarações de Ilda Fonseca», 22 de abril de 1940. Disponível em A notícia de sua morte veio à tona pouco antes de começar a ganhar difusão a hipótese de que o assassinato de Warchavski teria sido ordenado pelo próprio partido — o que levou alguns a levantar a possibilidade de que Walter também pudesse ter sido vítima de um “justiçamento”. Para outros, no entanto — entre eles, ao que tudo indica, Luiz Carlos Prestes — tratou-se de um suicídio motivado pelo remorso.
A hipótese do justiçamento
As leituras que colocam Warchavski como vítima do próprio PCB ganhariam destaque com a conclusão — tardia — do inquérito, em 1941. O processo foi conduzido em grande parte pelo capitão Felisberto Baptista Teixeira, da Delegacia Especial de Segurança Política e Social, e se baseou, entre outros elementos, na delação de Antônio Maciel Bonfim, o Miranda, antigo secretário-geral do partido. Miranda, no entanto, estava na União Soviética à época do assassinato e só teria tomado conhecimento do caso por meio de terceiros. As declarações mais decisivas vieram de militantes presos e diretamente implicados no caso: Vicente Santos (conhecido como Natal), Honório de Freitas Guimarães e Pascácio Rio de Souza Fonseca. «Termo de declarações de Vicente Santos», 6 de junho de 1941. Disponível em «Termo de declarações de Pascário Rio de Souza Fonseca», 9 de junho de 1941. Disponível em Ainda assim, a identidade exata dos executores permaneceu envolta em controvérsias.