Círculo de Kreisau (em alemão: Kreisauer Kreis) era o nome que a Gestapo deu a um grupo de dissidentes alemães sediados em uma propriedade de Helmuth James Graf von Moltke localizada em uma cidade chamada Kreisau na Silésia (hoje chamada de Krzyżowa, na Polônia). O Kreisauer Kreis é um grupo de rebeldes que lutavam contra a tirania do regime nazista. Eles queriam tomar a Alemanha das mãos dos Nazistas e entregá-la ao povo alemão restaurando assim a democracia no país. É considerado um dos principais centros de oposição alemã ao regime nazista. A dificuldade para todos esses dissidentes era conciliar a lealdade a pátria Alemã com a oposição aos nazistas, uma vez que os nazistas tinham subvertido e manipulado o Estado Alemão de tal forma que os dois estavam quase fundidos.
Membros do Kreisau Circle
Os principais membros desse grupo foram Helmuth James von Moltke, Peter Yorck Graf von Wartenburg e Adam von Trott zu Solz. Os líderes do Kreisauer Kreis eram descendentes de pessoas muito importantes para a História da Alemanha, que lutaram em batalhas importantes. Helmuth von Moltke era sobrinho-neto do famoso Marechal de Campo Helmuth von Moltke (o Velho), que liderou o exército prussiano-alemão na vitória sobre a França, em 1870. Peter Yorck von Wartenburg era um descendente direto do general prussiano da era napoleônica, que tinha sido vital em organizar uma coalizão para lutar contra o exército de Napoleão em 1813. General Yorck foi recompensado com o título de conde, Graf von Yorck, e teve permissão para acrescentar o sobrenome 'Wartenburg' ao seu nome como uma honra militar.
A maioria dos membros do grupo eram homens conservadores da aristocracia alemã e da nobreza. Mas dentro do Círculo também tinha pessoas do povo alemão e de todas as classes sociais, como padres jesuítas, pastores, conservadores, liberais, monárquicos, latifundiários, ex-dirigentes, diplomatas e líderes de sindicatos. Eles estavam unidos na sua aversão ao nazismo e no seu desejo de conceber uma nova Alemanha, mais humana após Hitler.
Estrutura e objetivos O Círculo de Kreisau era constituído por um “círculo interno” com cerca de 20 simpatizantes e coniventes provenientes de diferentes estratos sociais – sendo este um aspeto que destaca o Círculo de Kreisau de outros grupos de resistência anti-nacional-socialistas. Personalidades da burguesia, da nobreza, do movimento dos trabalhadores, do catolicismo e protestantismo trabalhavam juntos neste grupo.
Os planos de Kreisau para uma reorganização da sociedade iam muito mais além do que uma mera restauração da antiga situação, como por exemplo da República de Weimar ou da Monarquia, como era pretendido pelo Grupo de Goerdeler. Com base na perceção de que a tirania nacional-socialista teria um ponto de culminação na evolução histórica que se afastava do universalismo cristão da Idade Média para chegar a um Estado absoluto secularizado, os “Kreisauers” tinham como objetivo levar a cabo uma reforma mental, social e política, que teria como objetivo colocar o ser humano, como indivíduo, no centro das atenções. Partindo do indivíduo, os Kreisauers queriam criar uma estrutura que permitisse a cada um a sua autodeterminação e a assunção de responsabilidade política. A componente sócio-política dos planos de Kreisau foi bastante influenciada pelo socialismo; no que diz respeito à política externa, tinham como objetivo a integração de toda a Europa. Para Hans Mommsen, o programa de Kreisau era um esboço de um projeto abrangente para o futuro, cuja audácia e rigor interior não foram suplantados por outros projetos políticos de reforma elaborados por outros membros da resistência alemã contra Hitler.
Os membros mais importantes do Círculo
O Círculo de Kreisau não era uma organização que se pudesse definir de forma bem clara. Os seus membros encontravam-se em grupos pequenos para discutir cada aspeto da aspirada nova ordem. Devido a questões de segurança, muitas das vezes estas células da resistência não se conheciam entre si; só Moltke e Yorck tinham uma visão geral do que se fazia. Para além disso, os membros do círculo mais restrito à volta de ambas as figuras de liderança tinham especialistas conhecidos que os aconselhavam e que, fora disso, não tinham nada a ver com o Círculo de Kreisau.
A seguir, os Kreisauers mais importantes serão brevemente apresentados para dar a conhecer de onde vinham, a sua socialização e mundividência:
Conde Helmuth James von Moltke A educação de Moltke (1907-1945) foi liberal - os pais eram ambos seguidores da “Christian Science”. Moltke sentiu desde sempre uma forte ligação ao império britânico devido à sua mãe Dorothy, que era filha do antigo juíz supremo da União Sul-Africana, James Rose Innes. Estudou Direito, formando-se em Inglaterra para se tornar advogado. O acentuado interesse por questões sociais fez com que lhe fosse atribuído o apelido de “Conde Vermelho”. Após Hitler tomar o poder, ajudou em Berlim, na sua função de advogado, os perseguidos pelo regime nacional-socialista. Com o início da II Guerra Mundial, foi chamado para o Conselho Administrativo de Guerra, dos serviços de inteligência alemães (Abwehr), onde trabalhou como perito em direito militar e internacional em prol do cumprimento do direito internacional e do tratamento humano dos prisioneiros.
Conde Peter Yorck von Wartenburg Peter Yorck (1904-1944), cuja família, como a de Moltke, tinha no seu seio personagens significativas para o Estado da Prússia, foi educado no espírito cristão e humanista. Estudou Direito, como Moltke, e desenvolveu um forte sentimento de responsabilidade política e civil, com base na sua atitude conservadora. Depois de estar inicialmente aberto ao nacional-socialismo – ao contrário de Moltke nunca se conseguiu identificar com a República de Weimar –, a política de violência e a ilegalidade no Führerstaat (Estado do Führer) tornou-o um inimigo determinado do mesmo. Uma vez que se recusou a aderir à NSDAP, já não foi promovido no Ministério de Economia. Yorck, que participou como Tenente da Reserva no ataque à Polónia, ficou indignado, devido à sua atitude aristocrática, quanto ao comportamento rude das novas classes dirigentes alemãs. Deu uma vez o nome de "Gengiscão alemão” a Hitler.
Carl-Dietrich von Trotha Carl-Dietrich von Trotha (1907-1952) era primo de Moltke e cresceu como ele em Kreisau. Também estudou Direito e adicionalmente Ciências Económicas e trabalhava, como Yorck, no Ministério da Economia. A sua personalidade foi influenciada pelo movimento juvenil e pelo trabalho na área de educação popular juntamente com Eugen Rosenstock-Huessy. No Círculo de Kreisau, trabalhou com Einsiedel no grupo de trabalho relativo à Economia, que se encontrava frequentemente no seu apartamento. Mesmo após o atentado do 20 de julho de 1944, Trotha continuou a não ser descoberto pelas autoridades nacional-socialistas. A partir de 1948, lecionou na Escola Superior Alemã de Ciências Políticas em Berlim, vindo a falecer em 1952 numa estadia nos EUA, devido a um acidente com um barco de recreio, enquanto nadava.
Horst von Einsiedel Horst von Einsidel (1905-1947) era filho de um casal de médicos vindo de Dresden. Estudou Direito e Ciência Política e dedicou-se também intensamente à educação popular com Rosenstock-Huessy. Fez várias viagens de estudo, entre outras à Noruega, à Turquia e aos EUA. Einsiedel rejeitou, devido às suas convicções cristãs e socialistas, o nacional-socialismo (teve como professor o socialista religioso Adolf Löwe e foi membro do SPD (Partido Social-Democrata Alemão) desde 1930 e, por isso, exonerado dos serviços de estatística do Império Alemão (Statistisches Reichsamt). No trabalho que desenvolveu mais tarde no Círculo de Kreisau, Einsiedel, que era a favor de uma economia dirigida pelo Estado, esteve à frente de um grupo de trabalho para questões económicas. Conseguiu escapar da onda de detenções após o 20 de julho de 1944 e faleceu em 1947 no Campo Especial nº7 da NKVD (polícia política da URSS) em Sachsenhausen (ex-campo de concentração nacional-socialista).
Hans Lukaschek Hans Lukaschek (1885-1960) descendia de uma família católica de Breslau, teve uma mundividência cristã-humanista, sendo amigo de van Husen, que foi introduzido por ele mais tarde no Círculo de Kreisau. Estudou Direito, tornou-se membro da Assembleia Municipal na Alta Silésia e, no mesmo ano, chefiou a Propaganda alemã no contexto do referendo realizado nessa região (cfr. A divisão da Alta Silésia após a Primeira Guerra Mundial) sobre se a população pretendia estar afiliada à Polónia ou à Alemanha. Após a divisão, Lukaschek, político do Centro, trabalhou na comissão mista da Alta Silésia. Na sua função de mais alto funcionário da província prussiana da Alta Silésia, centrou a sua atividade política na proteção das minorias desde 1929. Dedicou-se à sua terra silesiana, que se encontrava perante problemas estruturais consideráveis, devido à divisão após a Primeira Guerra Mundial e ao fluxo de refugiados e a uma economia fragilizada daí resultantes. Rejeitou o nacional-socialismo; após uma tentativa de persuasão por parte de Göring, foi exonerado das suas funções em maio do ano de 1933. No Círculo de Kreisau ocupou-se com questões constitucionais e manteve contacto com a Igreja Católica. Após o atentado do 20 de julho, foi preso e torturado. Foi absolvido pelo tribunal político Volksgerichtshof devido aos maus tratos de que foi alvo. Após 1945, Lukaschek pertenceu aos membros fundadores do partido CDU (União Democrata Cristã) da Turíngia e foi ministro federal para os deslocados entre 1949 e 1953.
Adam von Trott zu Solz O diplomata Adam von Trott zu Solz (1909-1944) descendia de uma família que pertencia à nobreza de Hesse. Fez parte dos primeiros inimigos do regime nacional-socialista e comprovadamente apoiou o seu derrube desde 1939. Sintonizando-se estreitamente com Claus Schenk Graf von Stauffenberg, esteve envolvido na tentativa do golpe de estado de 20 de julho. Como funcionário do departamento de informação do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Trott teve a possibilidade de viajar para países neutros. Viajou múltiplas vezes para países como a Suíça, a Suécia e a Turquia a fim de divulgar as atividades da resistência alemã e de obter apoio estrangeiro e, ao mesmo tempo, para por à disposição dos Aliados comunicados elaborados por membros da resistência. Adam von Trott participou em numerosos encontros de membros do Círculo de Kreisau em Berlim, assim como na terceira jornada do Círculo em junho de 1943 em Kreisau. Adam von Trott interessou-se principalmente pelos projetos do Círculo de Kreisau no âmbito da política externa; empenhou-se especialmente na criação de uma ordem de paz na Europa. Já em 1939, nos EUA, tinha elaborado um esboço para uma política europeia de grande alcance, redigindo na Suíça, em 1941 e 1943, dois textos em que precisava este assunto.
Adolf Reichwein