O Museu Nacional de Belas Artes (, MNBA) é um museu de arte localizado na cidade de Havana, em Cuba. Subordinado ao Ministério da Cultura do país, ocupa dois edifícios localizados nos arredores do Paseo del Prado, o Palácio do Centro Asturiano (abrigando as coleções de arte universal) e o Palácio de Belas-Artes (com coleções de arte cubana). Um terceiro edifício é destinado às funções administrativas e logísticas.

Fundado em 23 de fevereiro de 1913 como Museu Nacional da República, funcionou até meados do como um museu enciclopédico, mas consolidou-se como um museu de arte universal com o advento da Revolução Cubana.

Seu patrimônio artístico, composto por mais de 45.000 peças, é considerado um dos mais importantes do Caribe e da América Latina. Ao lado de um extenso núcleo de arte cubana, conserva exemplares das principais escolas europeias, abrangendo o período que vai da Baixa Idade Média ao . Também conserva obras de arte das Américas, peças asiáticas, setor de numismática e coleções arqueológicas, com artefatos egípcios, etruscos e greco-romanos.

O museu mantém um teatro, programa educacional e realiza exposições temporárias e atividades culturais permanentes. Também mantém o Centro de Informação Antonio Rodríguez Morey, um dos principais centros de referência para pesquisas em artes visuais do país, e uma biblioteca especializada com mais de 120 mil volumes.

História Antecedentes

Após a independência da Espanha, em 1898, e a instituição de um regime republicano, em 1902, verifica-se em Cuba o início de um processo lógico de conscientização nacional, em busca de um modelo de nação e da consolidação de uma identidade cultural cubana. Esse entusiasmo gerado por seu novo status político - em que pese sua submissão ao congresso norte-americano por intermédio da emenda PlattGrande Enciclopédia Larousse Cultural, 1998, pp. 1721. - impulsionaria a elite intelectual, financeira e política do país a fomentar iniciativas que ajudassem a materializar tais anseios.

Como frutos desse processo histórico, surgiram, nos primeiros anos pós-independência, instituições como a Academia de História e a Academia Nacional de Artes e Letras, que, baseando-se nos antigos referenciais das metrópoles europeias, tratariam de estabelecer novas perspectivas de avanço para a jovem nação. Via-se como imprescindível, nesse contexto, a criação de uma instituição voltada à conservação da memória do país – um Museu Nacional, de caráter enciclopédico, criado segundo o modelo de museu público estabelecido após a Revolução Francesa -, com o propósito de instruir culturalmente a sociedade.

A fundação e os primeiros anos thumb|left|Inauguração do Museu Nacional (1913)

Sob a denominação de Museu Nacional da República, a instituição foi fundada por meio de decreto presidencial de José Miguel Gómez e de Mario Garcia Kohly, Secretário de Instrução Pública e Belas Artes, em 23 de fevereiro de 1913. Concebido como um museu enciclopédico, confundindo-se em parte com o conceito de “gabinete de curiosidades” e tendo por objetivo a difusão do conhecimento, o Museu Nacional se dedicaria a conservar objetos pertencentes a diversas tipologias, contando com seções como arqueologia, etnologia, lápides, cubanos eminentes, belas artes, história natural, arquivo, biblioteca e mobiliário. O arquiteto Emilio Heredia, primeiro diretor do museu, seria o responsável por recepcionar as doações, estabelecendo os critérios de organização e exposição do acervo.

A seção de belas artes (que também incluía numismática e joalheria antiga) era composta por um núcleo de pinturas e esculturas cubanas, latino-americanas e europeias, parte das quais provenientes da antiga Galería Didáctica de la Academia de San Alejandro. A galeria havia sido criada em meados do , após a aquisição de um lote de quadros europeus efetuada por Pedro de Alcántara Téllez Girón y Pimentel (marquês de Jabalquinto) em 1841, destinados a servir de modelo aos alunos da academia.

Em sua primeira década de existência, o acervo do museu foi ampliado por meio de doações, transferências, depósitos e empréstimos, realizados por colecionadores particulares, instituições religiosas, órgãos públicos e demais instituições da sociedade, sensibilizados quanto à importância de tal empreendimento. As aquisições eram esporádicas, em função do pequeno orçamento que lhe fora designado pelo Estado. Em 1919, o museu participou pela primeira vez de um leilão de obras de arte na Europa, ocasião em que adquiriu um conjunto de sessenta cópias de pinturas célebres do Museu do Prado, além de algumas peças originais de artistas espanhóis contemporâneos.

Até meados do , o Museu Nacional passaria por diversas instalações inadequadas. Sua primeira sede foi um espaço improvisado no edifício Frontón, em frente ao Hospital Hermanos Ameijeiras, na esquina das ruas Concordia e Lucena. Em 1915, ocorreu a primeira transferência e a instituição ficou por curto período sob a guarda do ayuntamiento. Entre 1917 e 1924, ocuparia o edifício da Quinta de Toca, no Paseo de Carlos III.

Especialização e consolidação thumb|O Mercado de Colón em 1928 thumb|Corte de cana (1874), do cubano Víctor Patricio. Acervo do MNBA Em 1918, o artista-plástico e restaurador Antonio Rodríguez Morey assumiu a direção do Museu Nacional. Sua longa gestão (que duraria até 1967, ano de sua morte) foi de fundamental importância para a especialização da instituição como um museu de belas artes e para a obtenção de reconhecimento internacional. Já em 1921, Morey defenderia a transferência da coleção de história natural para outro edifício, objetivando liberar espaço para exposição de peças histórico-artísticas. Em 1924, a edificação que servia de sede ao museu foi vendida aos irmãos Lasalle e a instituição foi novamente transferida, dessa vez para a Casa de Aguiar, onde permaneceria por três décadas até a construção de sua sede definitiva. O primeiro projeto para tal sede, idealizado pelos arquitetos Evelio Govantes e Felix Cabarrocas, data de 1925. O projeto previa a adequação e recuperação do antigo Mercado de Colón (erguido entre 1882 e 1884) e chegaria a ser iniciado mais de duas décadas depois, em 1947, sendo abandonado logo em seguida devido à falta de recursos.

Do ponto de vista museológico, Morey buscou renovar os critérios para aquisição de obras de arte, privilegiando peças originais em detrimento de cópias e reproduções, contribuindo significativamente para a qualidade do acervo artístico. Em 1924, adquiriu, com recursos públicos, algumas pinturas da coleção do marchand italiano Salvador Buffardi. No ano seguinte, também com subvenção do estado, comprou um lote de pinturas cubanas e europeias, do e dos séculos anteriores. O Salão Anual de Belas Artes, por intermédio do prêmio aquisição, tornaria-se outra importante vertente na formação do acervo artístico do museu e responsável por agregar à coleção um lote de obras de grande importância para história da arte cubana.

Morey também ampliou as aquisições de desenhos, gravuras, esculturas e artefatos arqueológicos pré-colombianos. Em 1927, a Academia de San Alejandro concedeu, sob o título de empréstimo, um segundo conjunto de pinturas, que posteriormente seriam integradas ao acervo. A coleção de etnografia foi ampliada graças à transferência de um núcleo de objetos religiosos africanos que estavam sob a guarda do Tribunal de Marianao. Em 1936, criou-se a coleção de peças indígenas cubanas, com obras provenientes de antigas aldeias em Camagüey e Pinar del Río. Também na década de 1930 foram realizadas importantes doações por pintores cubanos que integravam o corpo docente da Escuela Nacional de Bellas Artes San Alejandro.

Nas décadas de 1930 e 1940, Morey conseguiria o apoio de destacados intelectuais cubanos ao seu empenho em elevar o prestígio da instituição e sensibilizar a sociedade e o governo quanto à necessidade de prover o museu de condições adequadas de funcionamento. Os historiadores Emilio Roig de Leuschenring e Luis de Soto y Sagarra e o arquiteto Luis Bay Sevilla publicaram uma série de artigos na imprensa por meio dos quais denunciavam a situação de "abandono" do Museu Nacional, ao mesmo tempo que ressaltavam a importância de seu patrimônio. A realização de exposições com obras do acervo do museu em outras instituições de Havana, em função da exigüidade das instalações, ajudou a evidenciar junto ao público a necessidade de uma nova e ampla sede. Para coordenar a mobilização, organizou-se em novembro de 1946 o Patronato Pró-Museu Nacional, reunindo representantes de diversas instituições culturais cubanas.

O Patronato desenvolveu um intenso programa de atividades de promoção do museu, mobilizando a imprensa escrita e radiofônica, intelectuais, acadêmicos e artistas, e organizando conferências e exposições nas quais eram distribuídos materiais informativos, conclamando a população a reivindicar melhores condições para a realização das atividades museológicas da instituição. Extravasando o âmbito nacional, o Patronato buscou estabelecer acordos com instituições congêneres dos Estados Unidos, França e Espanha. O museu foi incorporado à Sociedade de Museus Americanos e, em seguida, inscrito como membro do Conselho Internacional de Museus (ICOM). Buscando suprir a escassez de técnicos em museologia no país, o Patronato subsidiou bolsas de estudos no exterior.

A nova sede

Diante da pressão dos intelectuais e da classe artística cubana, o governo acabou por ceder à ideia de erguer uma sede própria para o Museu Nacional. Decidiu-se construir o edifício, batizado de Palácio de Belas Artes, no terreno do antigo Mercado de Colón. O mecado - primeiro espaço cogitado para servir de sede definitiva do museu - havia sido demolido em 1951, durante o governo de Carlos Prio, causando protestos de parte da opinião pública.

left|thumb|Fachada do Palácio de Belas Artes

O projeto do edifício, em estilo racionalista, ficou a cargo de Alfonso Rodríguez Pichardo. O desenho previa amplos espaços livres, suscetíveis às adaptações museológicas necessárias às exposições. Seguia os códigos da arquitetura moderna internacional, mesclados com elementos da tradição colonial cubana - evidenciados, sobretudo, na existência de um pátio central e no uso de pedras Jaimanitas na fachada. Diversos artistas foram convidados a executar obras específicas para o edifício, tais como Ernesto Navarro, Rita Longa e Mateo Torriente. A construção se iniciou em 1952 e se encerrou quase dois anos mais tarde. O Palácio de Belas Artes foi inaugurado em 18 de junho de 1954, sediando a II Bienal Hispano-Americana de Arte.

O Patronato seria responsável, em grande medida, por elaborar as pautas museológicas gerais para a reabertura do museu. Um decreto-lei emitido em fevereiro de 1954 havia concedido ao Patronato (então renomeado Patronato de Belas Artes e Museus Nacionais) autoridade legal para dirigir e organizar as instituições museológicas cubanas, gerir as coleções histórico-artísticas, fixar os critérios para aceitação de doações e a organizar exposições e outros eventos culturais. Um Conselho Assessor auxiliaria o Patronato na gestão da instituição.

A reinauguração do Museu Nacional no Palácio de Belas Artes motivou novas doações, depósitos e legados de grande valor na década de 1950. Doaram obras para a instituição a Arquidiocese de Havana, a Casa de Beneficência e diversos colecionadores particulares, como María Ruiz de Olivares (marquesa de Pinar del Río), Julio Lobo, Oscar Cintas, José Gómez Mena e Tomás Felipe Camacho, entre outros. Uma das mais notáveis doações feitas ao museu foi a coleção de antiguidades egípcias, etruscas e greco-romanas de Joaquín Gumá Herrera, o conde de Lagunillas, que constitui até hoje um de seus núcleos mais valiosos.