Les uns et les autres (pt: Uns e os Outros; br: Retratos da Vida) é um filme francês, com argumento e realização de Claude Lelouch.

Sinopse thumb|right|250px|Vista da Torre Eiffel desde o Trocadéro, local de cena icônica do filme. Enquanto o mundo batalhava entre si durante a Segunda Guerra Mundial, quatro famílias de distintos países - Estados Unidos, França, Alemanha e Rússia - se cruzaram em circunstâncias históricas e se unem através da dança e do drama. Este clássico decalca o Bolero de Ravel, com uma coreografia marcante de Jorge Donn em pleno Trocadéro parisiense. A música tornou-se uma verdadeira febre na época lançada, sendo quase impossível ouvir a música e não associá-la ao filme. Composto de um elenco de extraordinários atores, sob a direção do renomado diretor Claude Lelouch, destacado pela criação de diversas obras primas do cinema de arte, "Retratos da Vida" é, sem dúvida, um dos filmes mais marcantes de sua época e continua encantando plateias do mundo inteiro.

Enredo Prólogo thumb|right|250px|A franco-argelina Nicole Garcia interpreta a violinista francesa Anne Meyer em todas as fases do filme. O filme começa com citação de Willa Cather, através de letreiros escritos à mão, segundo a qual só há "duas ou três histórias de seres humanos", destinadas a se repetirem "como se nunca houvessem acontecido antes". Em seguida, um número para o Bolero de Ravel é executado por um bailarino (interpretado por Jorge Donn) no Trocadéro, em Paris. Uma narração explicativa esclarece que o filme abordará gente comum e famosos, sendo dedicado "às pessoas cujas vidas" inspiraram as histórias exibidas.

Anos 30

Em 1936, o comitê do Balé Bolshoi avalia com o Bolero de Ravel as duas finalistas para o posto de bailarina principal da casa. Tatiana (Rita Poelvoorde), mesmo derrotada, encanta o avaliador Boris Itovitch (também interpretado por Jorge Donn), que logo a corteja. De repente, estão casados e já é 1937 - ano celebrado pelo cabaré parisiense Folies Bergère com um musical de sapateado estrelado pela dançarina Carole, embalado pela orquestra onde Anne (Nicole Garcia) é violinista.

Em outro canto de Paris, outro número de sapateado, de Gina (Nicole Daresco) e Ginette (Ginette Garcin), anunciadas como veteranas do próprio Folies Bergère, é embalado pela trupe musical liderada pelo pianista Simon Meyer (Robert Hossein) e por um acordeonista cego (interpretado em pontas por Francis Lai, compositor da trilha sonora do filme ). Em uma apresentação seguinte do Folies Bergère, seu próprio pianista desmaia em plena exibição. Não se confirma explicitamente a morte ou incapacidade do músico, mas seu posto fica vago e Simon, dentre diversos candidatos, é aprovado como seu substituto. Ele logo flerta com Anne e, tal como aqueles russos, rapidamente estão casados.

Já em 1938, em Berlim, outro pianista, o introvertido Karl Kremer (Daniel Olbrychski), não contém a euforia à esposa grávida, Magda (Macha Méril), após ser elogiado pessoal e publicamente por Adolf Hitler. Em Nova York, em 1939, o maestro de uma big band, Jack Glenn (James Caan), dedica na transmissão radiofônica de seu show a composição "Sarah" à filhinha de mesmo nome - recém-nascida antes do esperado. Ele também tece diversas brincadeiras afetuosas à esposa Suzanne (Geraldine Chaplin), ainda sob repouso hospitalar, para os risos do público presencial.

O alegre concerto, porém, acaba amargamente interrompido com o anúncio de declaração de guerra da França e do Reino Unido à Alemanha, em retaliação à invasão da Polônia pelos nazistas.

Anos 40 thumb|right|250px|O polonês Daniel Olbrychski interpreta outro personagem de todas as fases, o músico alemão Karl Kremer, supostamente inspirado no maestro austríaco Herbert von Karajan. A França também já está sob ocupação alemã, para a apreensão do casal Anne e Simon Meyer, que já aguardam um bebê. Karl Kremer é destacado para reger os músicos da Wehrmacht, utilizados pelos invasores como força de apaziguamento e boa convivência entre os dois povos - "quanto mais se ouve a música, menos se ouve o canhão", ele narra em carta à esposa, que permanece em Berlim com o filho já nascido. Em um de seus números, Karl é cortejado por Évelyne (Évelyne Bouix), que o convida ao cabaré colaboracionista onde cantará pelo réveillon para 1941, intensificando lá as investidas no pianista. Simon e Anne por sua vez perdem o trabalho no Folies Bergère, assim como Carole e maestro Michel (Georges Rabol), todos indesejáveis sob o nazismo; o casal, como judeus, e estes, como afro-descendentes. Os quatro juntam-se às veteranas Gina e Ginette na busca por trabalhos pontuais. A Operação Barbarossa separa o casal Itovitch, já pai de um menininho: Boris é convocado ao Exército Vermelho junto a todo soviético homem entre 16 e 55 anos.

A história salta para 20 de junho de 1942 na França. A perseguição a judeus inclui fiscalização militar nas escolas buscando garotos circuncidados, fator suficiente para delatar de uma vez a condição judaica de famílias inteiras. Um dos garotos, que declara chamar-se Jean-François Duvivier, reza o Pai Nosso ensinado pela professora Jeanne (Geneviève Mnich) para convencer o oficial da versão dada por esta, a de que precisou ser circuncidado por problemas urinários. Ainda assim, os pais de Jean-François são capturados e o jovem, que pudera ser ocultado dos nazistas com sucesso inicial, desiste do plano e se entrega para juntar-se aos pais no embarque ferroviário a um campo de concentração. Vizinhos dos Duvivier, os Meyer, já com seu bebê nascido, são levados conjuntamente e seus apartamentos, logo ocupados por "puros".

A despeito dos anúncios de que não haverá separação de famílias e que os campos de trabalhos forçados seriam supervisionados pela Cruz Vermelha, Simon, pessimista, força a esposa a deixarem o filho (mencionado com o nome de David) nos trilhos de Igney-Avricourt, notando em uma rápida pausa noturna da viagem que ainda estão em território francês, aproveitando-se de estarem no vagão final. A despeito do protesto desesperado de Anne, Simon prossegue com o plano, munindo o filhinho com joias da mãe e uma carta explicativa que inclui o endereço familiar original.

thumb|right|250px|Casados na vida real, os franceses Candice Patou e Robert Hossein aparecem no filme com outros parceiros: ela, como Candice, namorada do personagem Philippe Rouget na juventude. Ele interpreta o pianista Simon Meyer nas primeiras fases e depois o filho deste, o advogado David Meyer/Robert Prat, todos também franceses.

Um certo moço de nome Julien recolhe o bebê na manhã seguinte, mas prefere percorrer diversos quilômetros em bicicleta, deixando o bebê nas portas do padre Antoine (Jean-Pierre Kalfon); não se deixa claro se Julien apropriou-se das joias, destinadas na carta a quem criasse o menino na ausência dos pais. Sem documentos de identidade, o bebê David Meyer é adotado pelo padre e pela irmã deste, Isabelle Prat (Maïa Simon), e crescerá como Robert Prat. Seus pais biológicos são separados à força assim que chegam em campo de concentração não identificado, onde Simon termina morto na câmara de gás. Anne sobrevive, ainda que precisando fazer o papel mórbido de violinista na recepção a novos prisioneiros.

Em Nova York, a música "Sarah" segue sendo um sucesso radiofônico. Boris Itovitch, há um ano na frente oriental, aguarda ansiosamente pela sua licença e compartilha em cartas com Tatiana o seminal poema Espere por Mim, de Konstantin Simonov, mencionado como colega de batalhão. Tatiana também integra os esforços de guerra soviéticos, como dançarina a animar o descanso das tropas. Mas não se reencontram: Boris termina morto na batalha de Stalingrado. Em paralelo, o Exército dos Estados Unidos entra na Segunda Guerra Mundial. Jack Glenn é convocado para, similarmente a Tatiana, animar com sua arte o descanso das próprias tropas, inicialmente na Inglaterra. Dois jovens vizinhos seus, Donald e Robert Jacobson, gêmeos que vivem às turras, também embarcam para lá, mas para treinamento de combate. Após seis meses de treinamento, são mortos em solo francês já na primeira missão como paraquedistas militares.

Jack Glenn e sua banda animam em Paris uma festa de rua que comemora a libertação da França, chegando a celebrar diretamente com o padre Antoine, que havia levado ao evento um já garoto David Meyer/Robert Prat. Também presente na comemoração, Évelyne é desmascarada como colaboradora nazista, sendo obrigada a trilhar procissão pública com cabelos raspados e cartaz onde se rotula como amante de alemães antes de sê-lo de americanos. Raymond (Raymond Pellegrin), o próprio proprietário do cabaré colaboracionista onde Évelyne cantava, teme ser outro alvo de revanchismo, mas ainda assim se permite comemorar consigo mesmo a libertação.

thumb|right|250px|O estadunidense James Caan também interpreta pai e filho, respectivamente o maestro Jack Glenn, supostamente inspirado em Glenn Miller; e o empresário musical Jason Glenn, todos do mesmo país que o ator.

Anne Meyer volta viúva à Paris enquanto Karl Kremer parte para um caminho inverso na mesma estação ferroviária. Ao voltar a Berlim, ele pôde reencontrar a esposa Magda viva e salva nos destroços da casa, mas não o filho. Também presente na estação em Paris, a professora Jeanne se desconsola (ao lado de seu filhinho, alheio ao que ocorre) ao confirmar que seu marido, mencionado como René Garel, pudera fugir de um campo de concentração em março de 1945 - mas fora recapturado e morto dois meses depois, em 6 de maio, antevéspera do Dia da Vitória na Europa. O retorno de Jack Glenn à casa é o único feliz, embora a grandiosa recepção familiar contraste com a amargura do casal Jacobson, vizinhos da frente, já cientes da morte dos dois filhos e que simultaneamente recebem de um enviado militar a informação do cemitério francês onde os jovens foram enterrados.

A narração explicativa então descreve que, com o fim da guerra, Tatiana Itovitch voltou ao Bolshoi, agora para treinar classes infantis. Nelas, matricula seu filho Sergei e passa a conviver com um amigo chamado Alexis (Féodor Atkine). Anne Meyer volta à estação de Igney-Avricourt em busca do filho, mas só consegue a informação positiva de que que ninguém por lá teve notícias de alguma morte de bebê nos trilhos. Posteriormente, em busca de trabalho, ela vai ao Folies Bergère. Ela consegue ter um reencontro feliz com Gina, Ginette, Carole e o maestro Michel, mas todos eles, veteranos, já estão sob aviso prévio. Todos então formam inicialmente uma trupe itinerante de músicos.

Évelyne deu à luz à filhinha de algum alemão e volta para a cidade dos pais (Paul Préboist e Marthe Villalonga), Dijon, para cria-la - pelo gosto materno por Édith Piaf, a bebê se chamará Édith. O narrador informa rapidamente que, sem contar com a compreensão nem dos pais e da cidade, Évelyne se suicidará dali a uma semana. A narração prossegue indicando que "sangue e lágrimas marcariam uma pausa enquanto a esperança, só depois de vinte anos, reapareceria nos anos 60. Os meninos nascidos na época da guerra haviam crescido, homens e mulheres", com os atores de muitos dos personagens das fases até então retratadas passando a interpretar filhos destes ou mesmo netos nas seguintes.

Anos 60

right|thumb|250px|O argentino Jorge Donn, bailarino na vida real, também interpreta pai e filho, russos membros do Balé Bolshoi: Boris Itovitch e Sergei Itovitch, este supostamente inspirado no russo Rudolf Nureyev. Em triste coincidência, tanto a inspiração como o ator faleceriam de complicações da AIDS.