O ataque à Flotilha da Liberdade, chamado pelas Forças Armadas de Israel de Operação "Sea Breeze",Israel Defense Forces: Operation "Sea Breeze" – Legal AspectsWashington Post: Israel gives its account of raid on aid ship headed for Gaza foi uma operação da Marinha israelense, realizada pelos comandos do Shayetet 13 nas águas internacionais do mar Mediterrâneo em 31 de maio de 2010, a aproximadamente 01:30 UTC, contra uma frota das ONGs e . The Independent. A frota, chamada de "Flotilha da Liberdade", transportava 750 pessoas (entre pacifistas ocidentais e de países muçulmanos, ativistas políticos e religiosos, dentre os quais pelo menos três com intenção de martírio) e dez mil toneladas de ajuda humanitária para a Faixa de Gaza em seis embarcações quando foi interceptada pela Marinha de Israel.
O movimento Free Gaza é formado por um conjunto de ONGs e visa à quebra do bloqueio à Faixa de Gaza, imposto por Israel e pelo Egito a partir de 2007, depois de o Hamas, um grupo islâmico radical — vencedor das eleições palestinas de 2006 — ter assumido o governo da Faixa de Gaza. Desde 2008, o Free Gaza realiza incursões na região visando chamar a atenção da comunidade internacional para o bloqueio. Dado que não reconhece a legalidade do bloqueio, a organização não pede permissão a Israel para entrar no território palestino. Também desta vez ignorou os avisos das Forças Armadas israelenses de que o desembarque da flotilha não seria permitido.
Ainda em 2 de junho, após o incidente e depois de Israel ter deportado do país os ativistas presos, o Hamas continuou a recusar a entrega, por Israel, da ajuda humanitária transportada pela flotilha.http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-3898181,00.html
O navio irlandês Rachel Corrie, que atrasou o encontro com a flotilha por razões técnicas, ia rumo à costa mediterrânea de Israel. O jornal israelense Haaretz informou em sua edição da manhã de 3 de junho de 2010 sobre contatos entre as autoridades de Israel e os tripulantes do navio irlandês, e afirmou que o navio atracaria na cidade portuária de Asdode, em Israel, e a carga seria transportada, em cooperação entre ativistas e as autoridades israelenses, para a Faixa de Gaza.http://www.haaretz.com/print-edition/news/new-gaza-bound-aid-ship-may-agree-to-dock-and-unload-in-ashdod-1.293855
Em 7 de junho, foi divulgado um balanço dos donativos que deveriam ser entregues pela Flotilha. Foram encontrados medicamentos com o prazo de validade vencido, itens de segunda mão sem utilidade prática e materiais estragados pelo transporte inadequado. O Hamas se recusou a receber o material apreendido pelo Exército Israelense.http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-3901662,00.html
Em 30 de julho, o Comitê de Direitos Humanos da ONU recomendou que Israel suspenda o bloqueio militar à Faixa de Gaza e convide uma missão independente para investigar o ataque à flotilha. O comitê também recomendou que Israel garanta as liberdades civis e políticas fundamentais aos palestinos dos territórios ocupados. Segundo Christine Chanet, ex-juíza francesa especialista em direitos humanos, integrante do comitê, Israel alega que a Convenção Internacional sobre Direitos Civis e Políticos não se aplica aos territórios ocupados, embora afirme que o tratado se aplica aos colonos judeus que vivem nesses territórios. As recomendações do comitê não são compulsórias, mas intensificam a pressão sobre Israel para explicar o ataque de 31 de maio à flotilha. Com relação a suas políticas em Gaza e na Cisjordânia, Israel mantem que as Nações Unidas tem atuado de forma parcial. O comitê é um organismo composto de 18 especialistas independentes, em geral personalidades de destaque nos campos do direito internacional e dos direitos humanos, e monitora a implementação da Convenção Internacional dos Direitos Humanos pelos 166 países signatários, dentre os quais se inclui Israel. Estadão, 30 de julho de 2010.
Antes do confronto
250px|esquerda|thumb|O Mavi Marmara, em 22 de maio de 2010
No dia 29 de maio 2010, um repórter da rede de televisão árabe Al Jazira transmitiu de um dos navios da flotilha imagens de ativistas muçulmanos cantando versos com as palavras "Caibar, Caibar, ó judeus! O exército de Maomé retornará".http://www.realclearpolitics.com/video/2010/06/01/flotilla_participants_chanted_islamic_battle_cry_invoking_killing_of_jews.html Caibar, de acordo com o Alcorão, foi a última aldeia judaica na península Arábica aniquilada por Maomé no ano de 628. Dias depois do incidente foi revelado que diversos dos participantes na flotilha pretendiam ser mártires pela causa palestina.
Ação Segundo fontes militares israelenses, os ativistas da frota recusaram a ordem de cooperar com a Marinha de Israel. Os avisos emitidos via rádio por um tenente israelense a bordo de um dos navios de guerra informavam que, em caso de cooperação, toda a carga humanitária seria transferida por Israel por terra e que aos ativistas seria permitido observar o seu encaminhamento para a Faixa de Gaza, afirmando ainda que a insistência em furar o bloqueio a Gaza seria respondida com "todos os meios necessários" por parte da Marinha de Israel, por forma a fazer cumprir o bloqueio. Num aviso dirigido particularmente ao capitão do Defne Y, foi afirmado que a recusa em acatar as ordens israelenses colocaria tanto o navio como a tripulação em risco.Minuto 3 da transmissão por rádio publicada pela IDF, em Durante as comunicações por rádio, os militares alegam ter recebido da flotilha mensagens como "Shut up, go back to Auschwitz" e "We are helping the Arabs go against the US. Don't forget 9/11 guys". Depois de algumas horas, por volta das 4 horas da madrugada, várias embarcações israelenses cercaram a frota do Free Gaza - denominada Flotilha da Liberdade. Soldados da unidade de elite Shayetet 13 abordaram o navio Mavi Marmara, de bandeira turca, com lanchas velozes, enquanto ativistas a bordo atiravam objetos de metal e uma granada de atordoamento, agitando correntes e barras de metal. Os manifestantes foram mandados para o andar inferior no convés do navio. Soldados também desceram de rapelde helicópteros. Segundo fontes militares israelenses, os soldados foram atacados por ativistas, logo que pisaram no navio, com barras de ferro e facas. Durante o confronto, pelo menos nove pessoas morreram e outras sessenta pessoas ficaram feridas, incluindo oito soldados israelenses. A autópsia realizada nos nove ativistas mortos revelou que foram atingidos por trinta tiros, cinco deles na cabeça.Autópsia diz que ativistas turcos mortos rumo a Gaza levaram 30 tiros
Segundo os organizadores, antes de zarpar a frota tinha ativistas de sessenta nacionalidades. Havia cidadãos da Turquia, Grécia, Estados Unidos, Espanha, França, Alemanha, Suécia, Dinamarca, Brasil e Catar, entre outros países. Também estavam a bordo Hilarion Capucci, arcebispo melquita emérito, Instituto Humanitas Unisinos. Página visitada em 1-6-2010. Mairead Corrigan Maguire, Prêmio Nobel da Paz de 1976, dois políticos europeus, o escritor sueco Henning Mankell e Hedy Epstein, sobrevivente do Holocausto, de 85 anos de idade. O Globo, 1 de junho de 2010. O Globo, 31 de maio. Página visitada em 31-5-2010.
Após a interceptação, os barcos da Flotilha da Liberdade foram rebocados pela Marinha até o porto de Asdode, no sul de Israel. Sete dos ativistas eram de nacionalidade israelense e seis foram presos - o sétimo é uma deputada, que goza de imunidade parlamentar. Quanto aos militantes estrangeiros que desembarcaram, todos foram levados a instalações penitenciárias de Israel. Segundo o Ministério do Interior de Israel, 50 foram deportados imediatamente e 629 foram presos. "Mais de 500 pessoas passaram por revisão de segurança e foram levadas a dependências penitenciárias", segundo o porta-voz da Polícia israelense, Miki Rosenfeld. No dia 1 de junho, centenas de ativistas continuavam detidos na prisão de Ela, na cidade de Bersebá, no deserto do Negueve. Alguns permaneceram a bordo e outros 46 estiveram em hospitais. Terra, 1 de junho de 2010. Haaretz, 31 de maio de 2010.
As autoridades israelenses condicionaram a libertação dos detidos à assinatura de documento no qual cada um deles confessasse ter entrado ilegalmente em Israel - o que a maioria dos ativistas recusou, considerando que foram presos em águas internacionais e que nem mesmo se dirigiam a território de Israel. Após a reação internacional e o pedido do secretário-geral da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), Anders Fogh Rasmussen, Israel admitiu soltar todos os presos no prazo de 48 horas, incluindo os 20 ativistas que seriam processados por resistir ao ataque militar à flotilha. Estadão, 1 de junho de 2010] Agência Bom Dia, 1 de junho de 2010
O Tzahal confiscou imagens gravadas em vídeo, câmeras fotográficas e os telefones dos ativistas. O governo de Israel divulgou fotos e vídeos dos objetos supostamente utilizados pelos ativistas no enfrentamento (facas de cozinha, chaves inglesas e outras ferramentas, canos metálicos, pedaços de madeira, lenços palestinos, estilingues e bolas de gude), cujo uso teria justificado a ordem de abrir fogo contra os ativistas. Terra, 1 de junho de 2010.
Alegações Videos filmados pelos soldados, e também por ativistas, sustentam que os ativistas atacaram os soldados com facas, cadeiras, barras de ferro, granadas e armas de fogo,http://www.mfa.gov.il/MFA/Government/Communiques/2010/Israel_Navy_warns_flotilla_31-May-2010 chegando a dominar um dos soldados, apossando-se de sua arma e jogando-o ao mar. Ynet News, 31 de maio de 2010. Página visitada em 31-5-2010. Vídeos divulgados pelo Ministério da Defesa de Israel mostram que os ativistas reagiram à invasão.
Já os ativistas afirmam que os soldados começaram a disparar imediatamente depois da abordagem. A cineasta Iara Lee, que estava presente no comboio, afirmou que "os israelenses começaram atacar de forma indiscriminada", atirando "na cabeça dos passageiros". Uma jornalista da rede Al Jazeera que acompanhava a missão humanitária também afirmou que os israelenses começaram a atirar antes de subir nos barcos. Israel nega enfaticamente essa versão e anunciou uma investigação própria sobre o ataque à flotilha. Veja, 7 de junho de 2010.
Reações
250px|right|thumb|Manifestação de protesto contra o ataque, em Belfast.
Diante da repercussão internacional do ataque, o governo israelense mobilizou a rede virtual de seu aparato de hasbará, que opera em inglês, russo, espanhol, árabe e hebraico. Coordenados pelo Ministério das Relações Exteriores – a partir de uma "sala de situação"—, centenas de ativistas e blogueiros, além de mais de cem mil usuários de redes sociais da Internet, entraram em ação para para apoiar e difundir as explicações dadas pelas autoridades israelenses.
A opinião pública de Israel ficou dividida, e grande parte não estava convencido da legitimidade do ataque. O escritor israelense David Grossman afirmou que não há desculpas que expliquem as ações estúpidas do Governo e do Exército, em matéria publicada no jornal britânico Guardian, afirmando, porém, que Israel não enviou os seus soldados para matar civis a sangue frio, isso era a última coisa que queria. Mas uma pequena organização turca, fanática (...) conseguiu levar Israel a cair numa armadilha, porque sabia como Israel iria reagir".