Os cainucaítas () eram uma das três principais tribos judaicas de Iatrebe, ao lado dos nadiritas e dos curaizaítas. Aliados dos cazerajitas, habitavam uma área fortificada da cidade e dedicavam-se sobretudo ao comércio e ao artesanato, destacando-se pela ourivesaria e pela fabricação de armas. Após a Hégira de Maomé para Medina, as relações entre os cainucaítas e os muçulmanos deterioraram-se, sobretudo depois da Batalha de Badre, em 624. No mesmo ano, Maomé sitiou a tribo, que acabou se rendendo e foi expulsa de Medina após a intervenção de Abedalá ibne Ubai. A maior parte dos cainucaítas dirigiu-se primeiro ao Uádi Alcura e depois à Síria, estabelecendo-se em Adriate, embora alguns tenham permanecido em Medina e se convertido ao islã.
História
Origens
Os cainucaítas constituíam uma das três principais tribos judaicas de Iatrebe, ao lado dos nadiritas e dos curaizaítas. Sua origem e a época em que se estabeleceram na cidade são desconhecidas. Wensinck e Paret observaram que o nome da tribo apresenta uma forma incomum em árabe e não possui significado conhecido em hebraico, mas consideraram não haver razões válidas para duvidar de sua origem judaica. Gottheil e Hirschfeld consideraram-nos aparentemente os primeiros judeus a se estabelecerem em Medina e a mais poderosa das tribos judaicas da Península Arábica antes do advento do islã. Seus membros portavam sobretudo nomes árabes, embora também ocorressem entre eles nomes bíblicos. Falavam árabe e utilizavam caracteres hebraicos na escrita.
Os cainucaítas habitavam o sudoeste de Medina, no , nas proximidades do local destinado às orações e de uma ponte sobre o vale. Segundo Wensinck e Paret, ocupavam dois ou três , construções fortificadas características de Iatrebe. Gottheil e Hirschfeld, por sua vez, mencionam duas fortalezas pertencentes à tribo no norte de Medina. Diferentemente de outros grupos judaicos da região, os cainucaítas não possuíam terras agrícolas e dedicavam-se sobretudo ao comércio e ao artesanato. Eram particularmente conhecidos pela ourivesaria, chegando a ser descritos por Gottheil e Hirschfeld como uma corporação de ourives; também se dedicavam à fabricação de armas, e Albucari menciona especificamente um ourives pertencente à tribo. A tribo possuía ainda um mercado próprio, conhecido como Mercado dos Cainucaítas, que, segundo Gottheil e Hirschfeld, funcionava como o mercado geral de Medina antes de Maomé estabelecer um novo mercado na cidade. Na sociedade de Iatrebe, os cainucaítas estavam ligados aos cazerajitas, dos quais eram aliados. Depois da morte de um antigo chefe cazerajita, passaram à condição de clientes da tribo.
Expulsão de Medina
As relações entre os cainucaítas e Maomé deterioraram-se depois da Batalha de Badre, em Ramadã de 2 A.H. (março de 624). Segundo a tradição muçulmana, Maomé advertiu a tribo a respeito do destino dos coraixitas em Badre e exortou seus membros a aceitar o islã, mas eles recusaram. Relaciona-se tradicionalmente a esse episódio a revelação dos versículos 12–13 da sura Al Imran, que anunciam uma futura derrota dos descrentes. Wensinck e Paret consideraram que a vitória em Badre fortaleceu a posição de Maomé em Medina e que ele passou a procurar afastar seus inimigos, mas julgaram que os relatos preservados sobre uma causa específica para o ataque contra os cainucaítas possuem apenas valor anedótico. Uma dessas narrativas atribui a ruptura imediata a um incidente ocorrido no mercado dos cainucaítas. Segundo o relato, uma mulher muçulmana que ali realizava compras foi molestada por um membro da tribo; um muçulmano matou o responsável, e os cainucaítas mataram o agressor em seguida. A sucessão de mortes teria provocado o rompimento do acordo existente entre as partes. Cerca de vinte meses depois da Hégira, em meados de Xaual de 2 A.H., Maomé sitiou o bairro fortificado dos cainucaítas. A tribo retirou-se para suas fortificações, onde permaneceu sitiada por quinze dias, até se render em Dulcada de 2 A.H. (abril de 624), sem que seus membros tivessem combatido.
Segundo a tradição, os homens em idade militar foram amarrados depois da rendição e Maomé decidiu executá-los. Seu número é apresentado por Avcı como aproximadamente 700, enquanto Wensinck e Paret estimam que a quantidade de homens plenamente equipados para o combate poderia ter variado entre 400 e 750. Abedalá ibne Ubai, chefe dos cazerajitas e antigo aliado dos cainucaítas, intercedeu repetidamente em favor deles. Maomé acabou desistindo da execução e determinou que toda a tribo abandonasse Medina. Os cainucaítas receberam três dias para partir e foram autorizados a cobrar os créditos que possuíam na cidade. Gottheil e Hirschfeld igualmente relatam que a execução foi abandonada sob a condição de que deixassem a cidade e entregassem seus bens aos vencedores. Como se dedicavam ao comércio e ao artesanato e não possuíam propriedades agrícolas, os cainucaítas deixaram em Medina grande quantidade de armas, ferramentas para sua fabricação e instrumentos de ourivesaria. Maomé retirou do butim três espadas, três lanças, duas armaduras e dois arcos, além do quinto destinado ao tesouro, e o restante foi distribuído entre os participantes da campanha. Avcı considera essa distribuição a primeira aplicação do quinto do butim após a revelação do versículo 41 da sura al-Anfāl. Os cainucaítas dirigiram-se inicialmente às colônias judaicas do Uádi Alcura, onde permaneceram por cerca de um mês, e depois seguiram para a Síria, estabelecendo-se em Adriate. Gottheil e Hirschfeld também registram Adriate como seu local de estabelecimento posterior. Nem todos os membros da tribo, contudo, deixaram Medina; alguns permaneceram na cidade e se converteram ao islã.
Bibliografia
Categoria:Cainucaítas