Abedalá ibne Ubai ibne Salul (; m. ) foi um chefe dos cazerajitas de Medina e um dos mais influentes líderes árabes da cidade no período imediatamente anterior à Hégira. Segundo a tradição islâmica, encontrava-se prestes a assumir a liderança política de Medina quando a chegada de Maomé alterou profundamente o equilíbrio de poder local. Embora tenha aderido formalmente ao islã após a Batalha de Badre, tornou-se conhecido nas fontes muçulmanas como o principal líder dos hipócritas (munāfiqūn), grupo acusado de se opor internamente a Maomé e à comunidade muçulmana. Ao longo da vida de Maomé, participou de diversos episódios decisivos da história da primeira comunidade islâmica. Intercedeu em favor dos cainucaítas, retirou-se com parte de seus seguidores antes da Batalha de Uude, procurou incentivar a resistência dos nadiritas, explorou as tensões entre emigrantes e auxiliares durante a Expedição de Almuraici e foi apontado pelas fontes tradicionais como o principal responsável pela divulgação da Calúnia, a acusação de adultério contra Aixa. Esses episódios consolidaram sua reputação como o mais destacado adversário interno de Maomé. Apesar da oposição que lhe é atribuída, Maomé adotou uma atitude de contenção em seu relacionamento com Abedalá, recusando-se repetidamente a puni-lo para evitar conflitos entre os habitantes de Medina. Após sua morte, em 9 A.H. (631), Maomé chegou a fornecer sua própria túnica para servir de mortalha e presidiu sua oração fúnebre, atitude posteriormente relacionada pelas fontes à revelação de versículos que proibiram a oração pelos hipócritas.

Vida

Abedalá ibne Ubai ibne Salul era chefe de um ramo do clã dos aufitas, pertencente à tribo dos cazerajitas, e uma das principais lideranças de Iatrebe antes da Hégira. Participou do primeiro dia das Guerras Sacrílegas de Iatrebe, mas deixou de combater nos confrontos seguintes, incluindo a Batalha de Buate, após romper com devido ao assassinato de reféns judeus ordenado por este. Segundo a tradição islâmica, encontrava-se prestes a ser reconhecido como líder de Iatrebe quando a chegada de Maomé à cidade frustrou esse projeto, circunstância que teria marcado sua posterior relação com Maomé. Após a Batalha de Badre, quando a vitória dos muçulmanos tornou inviável a permanência da oposição pagã em Medina, aderiu formalmente ao islã. As fontes, contudo, afirmam que sua conversão nunca foi sincera e o apresentam como o principal líder dos chamados hipócritas (munāfiqūn), grupo que se opunha internamente a Maomé. Antes disso, diversos episódios já haviam evidenciado sua hostilidade a Maomé. Em certa ocasião, quando Maomé se dirigia à casa de Sade ibne Ubada, encontrou um grupo composto por muçulmanos, pagãos e judeus entre os quais estava Abedalá. Ao aproximar-se a montaria de Maomé, este cobriu o nariz com a roupa e pediu que não levantassem poeira. Após ouvir a recitação do Alcorão e o convite ao islã, respondeu que Maomé deveria limitar sua pregação aos que espontaneamente o procurassem. Segundo as tradições, pouco depois da Hégira os líderes coraixitas chegaram a escrever-lhe, instando-o a expulsar ou matar Maomé sob ameaça de guerra. Embora tenha discutido a proposta com seus partidários, desistiu da iniciativa após ser advertido pelo próprio Maomé de que tal decisão prejudicaria antes os habitantes de Medina do que os muçulmanos.

Sua primeira grande divergência política com Maomé ocorreu durante o cerco aos cainucaítas. Como esse grupo judaico mantinha antiga aliança com os cazerajitas, Abedalá intercedeu energicamente em seu favor, insistindo na importância militar de seus aliados e obtendo que fossem expulsos da cidade, em vez de executados. O episódio é relacionado pelas fontes tradicionais aos versículos 51 e 52 da sura Almaida. Às vésperas da Batalha de Uude, apoiou a proposta inicial de Maomé de defender Medina a partir de suas fortificações. Quando Maomé decidiu sair ao encontro dos coraixitas, Abedalá desaprovou a mudança de estratégia e retirou-se do exército com cerca de trezentos seguidores, alegando que sua opinião fora ignorada. A tradição islâmica relaciona essa retirada aos versículos 166 a 168 da sura al-i-Imran, interpretando-a como demonstração de covardia e falta de fé. Nos dois anos seguintes, sua oposição tornou-se mais ativa. Procurou convencer os nadiritas a desobedecer à ordem de abandonar Medina, prometendo-lhes auxílio militar que jamais se concretizou, episódio mencionado na sura al-Hashr. Durante a Expedição de Almuraici, explorou uma disputa entre emigrantes e auxiliares para enfraquecer a posição de Maomé, chegando a defender a expulsão dos emigrantes de Medina.

Logo em seguida, desempenhou papel central na divulgação da Calúnia, a calúnia contra Aixa, sendo identificado pelas fontes tradicionais como seu principal instigador. Embora Maomé tenha reunido seus seguidores para discutir a possibilidade de puni-lo, a reação revelou que Abedalá já havia perdido grande parte de sua influência política, e nenhuma medida foi tomada contra ele. Depois desses acontecimentos, deixou de desempenhar papel relevante na oposição a Maomé. Participou da Expedição de Hudaibia, mas não acompanhou a Expedição de Tabuque, provavelmente em razão da enfermidade que o levaria à morte pouco depois. Faleceu após cerca de vinte dias de doença, em 9 A.H. (631). A pedido de seu filho, Abedalá ibne Abedalá ibne Ubai, Maomé forneceu a própria túnica para servir de mortalha e dirigiu sua oração fúnebre, apesar das objeções de Omar ibne Alcatabe. Pouco depois, a revelação do versículo 84 da sura at-Tawba passou a proibir que se realizassem orações fúnebres ou súplicas em favor dos hipócritas. Apesar da reputação de seu pai, seu filho e várias de suas filhas tornaram-se muçulmanos respeitados.

Bibliografia

Categoria:Árabes do século VI Categoria:Árabes do século VII Categoria:Aufitas Categoria:Oponentes de Maomé Categoria:Ançares Categoria:Hipócritas Categoria:Pessoas envolvidas nas Guerras Sacrílegas