thumb|right|Anunciação, de Guido Reni O nascimento virginal de Jesus é um dogma do cristianismo e do islamismo que sustenta que Maria concebeu Jesus milagrosamente, se mantendo virgem, ou seja, sem relação sexualCarl E. Braaten & Robert W. Jenson Dogmatica Crista Vol.1 529. Seria mais correto falar em "conceição virginal". Esta doutrina foi universalmente adotada na Igreja cristã já no século II "Virgin Birth" britannica.com Retrieved October 22, 2007. e aceita pela Igreja Anglicana, a Igreja do Leste, a Igreja Ortodoxa, Igrejas Protestantes e a Igreja Católica Romana.

O dogma é incluído nos dois credos mais amplamente usados. Um afirma que Jesus "foi a encarnação do Espírito Santo e da Virgem Maria" (o Credo de Niceia, que é sua forma familiarTranslation by the ecumenical , given on page 17 of Praying Together , a literal translation of the original, "σαρκωθέντα ἐκ Πνεύματος Ἁγίου καὶ Μαρίας τῆς Παρθένου") e outro que Ele "nasceu da Virgem Maria" (Credo dos Apóstolos),Translation by the English Language Liturgical Consultation, given on page 22 of Praying Together . Estes dois credos não tinham sido seriamente postos em causa, exceto por alguns setores minoritários, até à teologia do Iluminismo, no século XVIII.

O Evangelho segundo Mateus (Mateus 1) Biblegateway.com e o Evangelho segundo Lucas (Lucas 3) Biblegateway.com dizem que Maria era virgem e que Jesus foi concebido pelo Espírito Santo. Esses evangelhos, a tradição recente e a doutrina atual apresentam a concepção de Jesus como um milagre sem envolvimento de pai naturalFitzmyer Joseph A, Catecismo cristológico: respostas do Novo Testamento‎ 1997 p.159Ryrie, Charles Caldwell Teologia Basica‎ p.277Ferreira, José de Freitas Conceição virginal de Jesus: análise crítica de pesquisa liberal protestante 1980 p.380, sem intercurso sexual e sem fertilização genética, mas em vez disso trazida à cena pelo Espírito Santo.Lateran Council of 649, canon 3, quoted in Denzinger, 256Cathechism of the Catholic Church, 484-486 and 496-498Confused Christology: Is Jesus the Son of the Holy Spirit?John Paul II, 10 July 1996, 3

Na Igreja Católica e na Igreja Ortodoxa, o termo "nascimento virginal" não significa apenas que Maria era virgem quando concebeu e deu à luz, mas também que ela teria permanecido virgem por toda a vida, uma crença atestada desde o século II d.C.Oxford Dictionary of the Christian Church (Oxford University Press 2005 ISBN 978-0-10-280290-3), article Virgin Birth of Christ. (Veja Virgindade perpétua de Maria).

A doutrina geral cristã do nascimento virginal de Jesus não deve ser confundido com a doutrina católica romana da Imaculada Conceição, que trata da conceição imaculada da própria Maria por Santa Ana. A concepção de Maria teria ocorrido da forma tradicional, sem milagre, e o que a doutrina católica prega é que ela veio ao mundo sem a "mancha" () do pecado originalKathleen Coyle, Mary in the Christian Tradition (Twenty-third Publications 1996 ISBN 0-85244-380-3), p. 36.

A virgindade de Maria na concepção de Jesus é também um dogma no islamismoCorão 3:45, 3:47, 3:59, 66:12.. Os muçulmanos se referem a Jesus como "Jesus filho de Maria" (Issa ibne Mariã), um termo repetidamente utilizado no Corão.Corão 2:87, 2:253, 4:157, 4:171, 5:46, 5:72, 5:75, 5:112, 5:114, 5:116, 9:31, 43:57, 61:6, 61:14.

Novo Testamento thumb|180px| Nascimento de Jesus.Por Conrad von Soest (1403), na Stadtkirche St. Nikolaus. Evangelhos O Novo Testamento contém quatro relatos da vida de Jesus, geralmente chamados de Evangelhos. Ainda que eles tenham muito em comum, há também diferenças no período coberto pelo relato e o seu foco. O Evangelho segundo Marcos e o Evangelho segundo João essencialmente começam com o batismo de Jesus por João Batista e, portanto, não contém a narrativa do nascimento. O Evangelho segundo Mateus e o Evangelho segundo Lucas começam com o nascimento de Jesus e a sua genealogia. É através destes dois que temos os dois únicos relatos canônicos do nascimento de Jesus e ambos são inequívocos sobre a concepção ter ocorrido sem a intervenção de um pai humano e .

Mateus thumb|180px| Nascimento de Jesus.Por Lorenzo Lotto (1527), na Pinacoteca Nazionale di Siena, em Siena. O Evangelho segundo Mateus (circa 80 - 85) começa com uma genealogia desde Abraão até José, qualificando-o como . O texto original grego, que tem "ἐξ ἧς" (feminino singular), mostra que o termo "da qual" se refere, sem dúvida, a Maria e não a José ou ambos. Mateus afirma então que, quando se descobriu que Maria estava grávida, ela não tinha ainda coabitado com José, de quem ela era noiva e que ele ainda não manteve relações com ela até que a criança nasceu. Ele declara que , realizando a profecia de , citada por Mateus como "Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, E ele será chamado Emanuel, que quer dizer, Deus conosco.". Sobre o texto de Isaías, veja a seção Antigo Testamento abaixo.

A língua hebraica tem uma palavra específica, betulah, para virgem e uma mais ampla, almah, para donzela. Como almah é a palavra usada no texto hebraico de Isaías, alguns comentaristas bíblicos acreditam que seja ao menos possível que Isaías teria em mente apenas uma concepção natural por uma jovem mãe e que Mateus utilizou este trecho das escrituras ao nascimento daquele que ele acreditava ser o Messias, da mesma forma como João também fez uso de outro trecho das mesmas Escrituras, que falava sobre a cordeiro da Páscoa, no relato sobre a morte de Jesus se refere a e, talvez, também a da tradução latina da Septuaginta. Outros acreditam que Isaías estava de fato profetizando de fato o futuro nascimento virginal do Messias.

Lucas Assim como Mateus, o Evangelho segundo Lucas (circa 85 - 90) inclui uma narrativa da infância de Jesus e a sua genealogia. Em , Maria pergunta como é possível ela conceber e estar grávida sendo uma virgem, e recebe a resposta de que isto acontecerá pelo poder de Deus. apresenta a genealogia, diferente da fornecida por Mateus. Os acadêmicos divergem sobre qual dos dois, Mateus ou Lucas, é a genealogia legal - via José - e qual relata a descendência física, via MariaJohn Gresham Machen Virgin Birth of Christ 1987 Page 218 "Devemos ainda ser capazes de dizer que as diferenças entre as duas genealogias, tomadas num sentido amplo, se dão por conta de que, na maior parte - mesmo em todas as ligações exceto uma - a genealogia de Lucas é a que fornece os ancestrais físicos de fato.".

Quando o anjo Gabriel conta a Maria que ela ter um filho concebido pelo Espírito Santo(veja Anunciação), ela responde com o Magnificat, um cântico de alegria, provavelmente da liturgia do cristianismo primitivo. O Magnificat é um dos diversos trechos coesos que o autor incorpora na narrativa do Evangelho..

Epístolas de Paulo thumb|180px| Maria grávida.Na Catedral de Évora, em Évora, Portugal. As cartas de Paulo, consideradas como sendo os textos mais antigos do Novo Testamento, não afirmam que a mãe de Jesus seria uma virgem. Algumas passagens delas mereceram atenção especial.

Em , Paulo escreveu:

Esta frase fala de Jesus como tendo nascido "de uma mulher" e não de "uma virgem". Alguns vêem nisto uma evidência de que Paulo não conhecia nenhum relato do nascimento virginal de Jesus. Outros vêem a frase como implicando que Jesus não tinha um pai humano, especialmente por conta da ênfase na mãe e a omissão de qualquer menção sobre seus pais é o oposto do que se esperaria numa genealogia hebraica, onde o pai é geralmente o único entre os pais a ser mencionadoBible Studies at the Moorings; Forerunner Commentary. E alguns apontam para a maldição lançada sobre Jeconias () como evidência da obra divina em "linhas tortas"Genealogy of Jesus Christ, afirmando que apenas através de um nascimento virginal poderia Jesus ter José como seu pai legal, herdando assim as promessas de David e, ao mesmo tempo, evitar a maldição de Jeconias de que nenhum de seus descendentes iria prosperar e se sentar no trono de DavidForeunner Commentary. Porém, John P. Meier explica a ênfase na mãe notando que isto acontece no Antigo Testamento sempre que ela é mais famosa que o pai, quando ela é viúva ou quando talvez o pai não é mais lembradoJohn P. Meier. A Marginal Jew: Rethinking the Historical Jesus: The Roots of the Problem and the Person, Vol. 1, Anchor Bible. 1991. p. 226.

thumb|180px| Rei David.Vitral. A Epístola aos Romanos se inicia com as seguintes palavras:

Alguns tomam a frase "que veio da descendência de Davi quanto à carne" como significando que José, um descendente de David, era o pai físico de Jesus, negando assim o seu nascimento virginal. Outros tomam-na como indicando que Maria também seria uma descendente de DavidGeneva Study BibleJohn Gill's Exposition of the BibleMary's Davidic Ancestry e que a referência nesta mesma passagem de Jesus como sendo o "Filho de Deus" mostraria que a alegação de que Paulo nada sabia sobre o nascimento virginal é sem fundamentoCoffman Commentaries on the Old and New Testaments, Luke 1.

Em se lê:

Alguns vêem em "em semelhança de carne de pecado" como significando apenas que Jesus seria externamente como qualquer outro ser humano. Este ponto de vista é provavelmente apoiado por uma afirmação de Paulo em , enquanto que outros vêem aí uma contradição entre a noção de Paulo de ser "em semelhança de carne de pecado" e o conceito de nascimento virginal.

Alguns estudiosos notaram que , onde Paulo clama para as pessoas não "se preocupassem com fábulas e genealogias intermináveis, as quais antes provocam discussões...". Isto pode indicar que Paulo teria uma visão negativa sobre o desenvolvimento das histórias sobre o nascimento virginal e suas genealogias variadas, considerando-as fabulosas e prejudiciais à féBarrett, J. Edward (1988). "Can Scholars Take the Virgin Birth Seriously?" Bible Review, October, pp. 10-15, 29..

Como já foi alertado por diversos estudiosos do Novo TestamentoPor exemplo, Raymond E. Brown, in The Birth of the Messiah, pages 26-28, a ordem na qual os evangelhos foram escritos mostram que as mais antigas pregações cristãs sobre Jesus se focavam em sua morte e ressurreição, , , , e . Elas focavam também nos atos e palavras que tradicionalmente faziam parte do ministério de Jesus, que foram então colecionadas e arrumadas em ordem lógica e não cronológica, a base dos quatro evangelhos canônicos, dos quais o Evangelho segundo Marcos é o mais antigo. nos apresenta uma descrição similar à de Marcos, começando com o batismo de Jesus e terminando com a sua ressurreição, sem mencionar o seu nascimento. Apenas posteriormente, por razões não apenas de curiosidade, mas também apologéticas e teológicas, mais atenção foi dispendida no nascimento e na infância de Jesus, como é o caso dos Evangelhos de Mateus e de Lucas.

Ausência de referências nas obras de Paulo sobre a infância e mesmo sobre o ministério de Jesus pode ser entendida como parte deste mesmo padrão. Deve-se ter em mente, porém, que Paulo não era um dos discípulos originais de Jesus. Seu único encontro com ele ocorreu com o Jesus já ressuscitado. Além disso, suas epístolas se focaram muito mais em assuntos eclesiásticos do que propriamente na vida de Jesus.

Antigo Testamento Isaac thumb|180px| Anúncio da gravidez milagrosa de Sara, que daria à luz Isaac, que profetizou a vinda de Jesus.Por Giovanni Battista Tiepolo (1726-28), no Palazzo Arcivescovile, em Udine, na Itália.