Historicismo ou historismo é uma forma de abordagem dos fenômenos e culturas humanas que se centra na importância da história para a compreensão destes. Constitui a base de uma visão de mundo (Weltanschauung) tipicamente moderna e ocidental fundamentada na noção de que as configurações do mundo humano, num dado momento, sempre são resultado de processos históricos de formação passíveis de serem mentalmente reconstruídos e, portanto, compreendidos. Assim, rechaça a existência de leis gerais para a compreensão dos fenômenos políticos, sociais ou culturais. Ao longo dos séculos, os termos historicismo e historismo foram empregados com múltiplos significados, muitas vezes discordantes.
Possui cinco diferentes características. O historicismo genético afirma a totalidade de sentido da história e compreende que os diversos fenômenos podem ser conhecidos através da investigação de sua história no tempo. O historicismo metafísico, de forma semelhante, procura compreender a ordem e a racionalidade dos processos históricos, porém, detém um olhar providencialista de viés protestante. O historicismo tradicionalista possui um posicionamento exaltador do passado e crítico a tudo que é novo, projetando seu tradicionalismo na apologia às tradições locais. O historicismo metódico desenvolveu-se enquanto prática científica e deu seguimento à racionalidade metódica do Iluminismo ao elencar a especialização disciplinar como fundamental ao pensamento histórico. Por fim, o historicismo ético relativiza os valores humanos a fim de enfatizar a importância do tempo histórico para a análise dos fenômenos.
A perspectiva historicista surgiu na Europa ocidental na segunda metade do , sendo decisiva para a configuração da ciência histórica (Geschichtswissenschaft). Ao longo do e até às primeiras décadas do , o historicismo teve forte impacto social, sobretudo na Alemanha, cujos pensadores iluministas são suas principais influências, embora também se valha das ideias de pensadores britânicos e franceses. Sua origem relaciona-se à formação dos Estados Nacionais, podendo ser entendida como uma reação à crise das sociedades europeias frente aos impactos da Revolução Francesa. A partir do , diferentes contestações sobre a visão de mundo historicista se destacaram e compuseram aquilo que foi denominado como crise do historicismo. As principais críticas opunham-se ao historicismo enquanto um viés relativista e à atribuição do historicismo como alicerce do surgimento da História enquanto disciplina acadêmica. Além disso, o historicismo também foi acusado de acreditar na objetividade do conhecimento histórico livre de interferências de valor ou preconceitos. Para alguns historiadores, a crise do historicismo esteve ligada à impossibilidade de achar significado e progresso na história após o desastre humano da Primeira Guerra Mundial.
Diversos autores advogam que o historicismo clássico ganhou uma nova onda de adeptos na passagem do para o XX, caracterizados como neo-historicistas. Esses pensadores, como Benedetto Croce e Robin George Collingwood, reafirmaram a importância e centralidade do conhecimento histórico historicamente relacionado e, como o filósofo Wilhelm Dilthey, colocam em relevo o primado da razão histórica em oposição à razão científica. Com poucas referências às discussões do historicismo europeu, o novo historicismo estadunidense enfatiza a importância dos contextos sociais na leitura de obras literárias.
Historicismo ou historismo? Não há consenso entre os estudiosos no tema em relação à tradução da palavra alemã Historismus, podendo aparecer como "historicismo" ou "historismo". Autores importantes, como Georg Iggers, defendem ser mais correto chamar a descoberta da historicidade do mundo realizada pelos alemães no de "historismo" por causa da multiplicidade de significados que, com o passar do tempo, foi dada à palavra "historicismo". Outros autores argumentam que as imprecisões do termo já estavam presentes nos usos mais antigos do termo feitos pelos escritores românticos Friedrich Schlegel e Novalis. É importante salientar que a palavra alemã Historismus possui conotação fortemente pejorativa e, muitas vezes, é associada a uma prática histórica ingênua e relativista. Há, ainda, aqueles que preferem restringir o emprego do termo "historismo" às proposições críticas de Karl Popper em relação às teorias sociais evolucionistas, não importando muito se essas tinham como ponto central a busca pela historicidade dos fenômenos. De qualquer forma, a distinção entre historicismo e historismo pode ser considerada frágil, tendo em vista que, na língua alemã, só existe uma palavra para ambos os termos: Historismus. Não obstante o caloroso debate linguístico, o mais comum é Historismus ser traduzido por "historicismo" em diversas línguas, como no contexto brasileiro, apesar do historiador Sérgio Buarque de Holanda ter preferido "historismo" em importantes trabalhos sobre o tema.
Os diversos significados thumb|upright=1.3|O significado de historicismo variou radicalmente ao longo dos séculos, podendo ser entendido como semelhante à metamorfose de uma lagarta em crisálida e mariposa. Em 1797, o termo historicismo (Historismus) foi empregado pela primeira vez por Friedrich Schlegel, em notas fragmentárias sobre filologia, para designar a perspectiva de compreensão estética que enfatizava que as épocas históricas deveriam ser estudadas levando em consideração o seu próprio contexto de produção. Novalis, em 1798, usa o termo historismo (Historism) referindo-se a diferentes métodos, mas sem atribuir-lhe um significado claro. Desde seus primeiros usos em finais do até início do , historicismo é considerado de forma consensual como uma noção polissêmica cercada de interpretações negativas sobre seu significado e conceituação. É preciso deixar claro, portanto, que o entendimento do que era o historicismo variou profundamente, chegando mesmo em certos casos a definir coisas completamente opostas. O historicismo de Johann Gottfried von Herder, Wilhelm Dilthey ou Heinrich John Rickert, para citar alguns autores, não tem nenhuma relação, a não ser morfológica, com a denúncia à miséria do historicismo feita por Karl Popper em relação a Karl Marx, Oswald Spengler, Arnold Toynbee e Auguste Comte.
Século XIX Entre finais do até por volta da década de 1860 o significado de historicismo continuou muito próximo à produção de um conhecimento historicamente orientado proposto por Schlegel. Em 1838, Ludwig Feuerbach em sua Crítica do idealismo de F. Dorguth argumentava que a visão historicista de mundo estava relacionada à valorização da individualidade das épocas passadas. Pouco tempo depois, em 1852, Carl Prantl, almejando uma contraposição à ótica universal do hegelianismo, avaliava o historicismo como um tipo de perspectiva que enfatizava as individualidades históricas. A Escola Histórica do Direito, de Friedrich Carl von Savigny e Karl Friedrich Eichhorn, tinha um entendimento similar ao de Prantl sobre o que seria o historicismo ao defini-lo como uma perspectiva histórica reconhecedora da individualidade em fenômenos temporalmente e espacialmente situados em oposição à filosofia da história especulativa hegeliana. Essa oposição à perspectiva de progresso hegeliana tem como base a ideia de mudança que se caracteriza nos processos históricos. A percepção de que a história é feita pelos seres humanos e que, portanto, tem um sentido a ser descoberto, contribuiu decisivamente para a teoria do conhecimento histórico formulada por pensadores alemães do como Leopold von Ranke que, não obstante não terem utilizado o termo historicismo, forjaram as suas raízes.
Entre finais do e grande parte do historicismo possuiu um significado positivo ou neutro. Contudo, nas últimas décadas do ao mesmo tempo em que o termo passou a ser vastamente utilizado em publicações de língua alemã, seu significado ganhou uma carga negativa, principalmente após a publicação da Segunda Consideração Intempestiva de Friedrich Nietzsche, em 1874, passando a referir-se a uma postura relativista, irresponsável e teoricamente fraca pela sua hiper-valoração do tempo histórico como produtor de mudanças. Vários economistas, nas últimas décadas do , também atacaram a abordagem histórica da Economia adotada por Wilhelm Roscher, Karl Knies e Gustav Schmoller. Historicismo era agora usado em sentido negativo para criticar o abandono da teoria e a confusão entre teoria econômica e história econômica realizada pelos expoentes da chamada Escola historicista alemã de economia.
Século XX
Nas primeiras décadas do , principalmente após a publicação do O historicismo e seus problemas, em 1922, por Ernst Troeltsch, e de Historicismo, em 1924, por Karl Mannheim, houve um resgate da avaliação positiva em relação ao historicismo fundamentada no reconhecimento da importância do pensamento historicista para a compreensão da historicidade da vida humana, que libertava a ciência histórica das concepções matemáticas e naturalistas da época. Troeltsch tratava o historicismo como uma das grandes heranças do , não deixando de expressar a percepção da relatividade dos valores históricos, proposta anteriormente por Nietzsche, como ligada ao olhar historicista. Apesar de Troeltsch ter aceitado o historicismo como uma abordagem válida para o estudo do mundo social e cultural, enxergava no estudo da História o potencial de mostrar a relatividade dos valores e crenças da cultura Ocidental ao invés de, como achavam os pensadores do , aquisição de cultura (Bildung). A percepção do historicismo de que todas as ideias e valores humanos são historicamente condicionados e sujeitos a mudanças tornou-se a atitude dominante dentro do pensamento Ocidental a ponto de Mannheim, em 1970, afirmar que ela era a condição constitui a base de uma visão de mundo (Weltanschauung) tipicamente moderna e ocidental. da existência moderna.
É impossível falar sobre o significado de historicismo sem se referir ao nome de Friedrich Meinecke, que, em 1936, em sua obra A formação do historicismo, afirma que seu cerne está no abandono de concepções generalizantes dos fenômenos em prol de análises que mostrem suas especificidades únicas. Para Meinecke, o historicismo emergiu como uma visão de mundo (Weltanschauung) em resposta ao racionalismo iluminista, caracterizando-se pelo pluralismo de valores e adotando uma percepção histórica a partir das individualidades. Nesse sentido, a investigação histórica deveria destacar o que é individualmente dotado de valor na história, ou seja, as conquistas culturais únicas de cada época específica. Atendo-se às individualidades da cultura histórica, o historiador encontraria uma diversidade de imagens e sistemas de valores.
O significado de historicismo foi remodelado por Benedetto Croce ao afirmar que a filosofia só poderia ser entendida por meio da história. O historicismo absoluto (storicismo assoluto) de Croce via o julgamento histórico como o único válido e a história como a filosofia em sua concretude. Dessa forma, o historicismo absoluto propunha que a realidade é história e que a filosofia está na história e necessita dela para ser compreendida. Contemporâneo de Croce, Giovanni Gentile deu ao historicismo um viés autoritário, próximo ao fascismo, ao enfatizar a centralidade da concepção de Estado de Georg Wilhelm Friedrich Hegel. O filósofo italiano Antonio Gramsci, nas décadas de 1920 e 1930, interpretou o historicismo em termos marxistas como uma filosofia do engajamento político.