Trecho de poesiamedieval portuguesaDas que vejonom desejooutra senhor se vós nom,tan sobejo,mataria um leom,senhor do meu coraçom:fin roseta,bela sobre toda fror,fin roseta,nom me metaen tal coita voss'amor!João de Lobeira(1270?–1330?) A história da língua portuguesa é a história da evolução da língua portuguesa desde a sua origem no noroeste da Península Ibérica até ao presente, como língua oficial falada em Portugal e em vários países de expressão portuguesa.
Em todos os aspectos — fonética, morfologia, léxico e sintaxe — a língua portuguesa é essencialmente o resultado de uma evolução orgânica do latim vulgar trazido por colonos romanos no Século III a.C., com influências menores de outros idiomas e com um marcado substrato céltico. O português arcaico desenvolveu-se no Século V d.C., após a queda do Império Romano e as invasões germânicas, ditas bárbaras, como um dialecto românico, o chamado galego português, que se diferenciou de outras línguas românicas ibéricas. Usado em documentos escritos desde o século IX, o galego-português tornou-se uma linguagem madura no século XIII, com uma rica literatura. Em 1290 foi decretado língua oficial do reino de Portugal pelo rei D.Dinis I. O salto para o português moderno deu-se no renascimento, sendo o Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (1516) considerado o marco. A normatização da língua foi iniciada em 1536, com a criação das primeiras gramáticas, por Fernão de Oliveira e João de Barros.
A partir do século XVI, com a expansão da era dos descobrimentos, a história da língua portuguesa deixa de decorrer exclusivamente em Portugal, abrangendo o português europeu e o português internacional. Em 1990 foi firmado um tratado internacional com o objetivo de criar uma ortografia unificada, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, assinado por representantes de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe.
Proto-história (séc. III a.C.- séc. XII) Ao longo dos séculos, diversas têm sido as teorias sobre o substrato pré-latino da língua portuguesa. Na maior parte dos casos, os estudos apontam para raiz(es) céltica(s) ou de outro ramo da mesma família indo-europeia, porventura mais arcaico, dizendo respeito a migrações oriundas das estepes euroasiáticas que terão chegado à Península Ibérica ainda antes de quaisquer tribos célticas, o que parece fortalecido por estudos genéticos recentes a indicar que a população masculina desta parte da Europa foi substituída por migrantes dessa proveniência indo-europeia por volta de 2500 a.c.. Uma tese que ainda se coloca como pertinente é a da pertença dos Lusitano ao ramo indo-europeu itálico, denominado Italiota, dada a aparente semelhança do Lusitano com um dos idiomas indo-europeus de Itália, o Úmbrio, como diz Blanca María Prósper em estudo de 1999. Entretanto, um projecto do Conselho de Pesquisa em Ciências Sociais e Humanas do Canadá, dirigido pelo professor Leonard A. Curchin de Estudos Clássicos da Universidade de Waterloo, concluiu que os topónimos da província lusitana do Império Romano encontrados até à data são classificados da seguinte forma: Celta (30%), outros Indo-Europeus (33,5%), Pré-indo-europeu (2%), Ibero (2%), Latim (18%) e 15,5% de topónimos de origem indefinida. Ainda no contexto dos Indo-Europeus não celtas, é curioso verificar que a tese do arqueólogo Francisco Martins Sarmento (1880), a saber, de que os Lusitanos eram Lígures, indo-europeus que, no dizer de Sarmento, teriam chegado à Ibéria antes dos Celtas, pois esta possibilidade foi mais recentemente defendida por Francisco Villar e Pedrero (2001). Mais recente é o estudo de Luján (2019), segundo o qual o Lusitano seria um idioma indo-europeu mais arcaico que o Celta e que o Italiota.
Outras teorias surgiram, como a de que a região que é hoje Portugal fora em tempos povoada por Gregos e que certas expressões populares portuguesas eram pois de origem helénica, como por exemplo «Zé dos anzóis», que seria uma versão popular da antiga passagem, narrada na Ilíada de Homero, em que Zeus declara ser capaz de segurar todos os demais Deuses na ponta de um fio. Nesta esteira das alternativas mais ousadas, houve até quem dissesse ter encontrado traços do grupo ocidental das línguas semitas no ocidente peninsular, e que continue a afirmar que recentes estudos sugerem que o substrato linguístico dominante no ocidente peninsular possui forte relação com as línguas antigas do Próximo Oriente, como o ugarítico, o acádio, o hebraico antigo ou o assírio, e que é possível que essa língua tenha acompanhado os povos que migraram ao longo do Mediterrâneo ao longo de milhares de anos desde o Neolítico, e que tanto a toponímia, como a própria língua Portuguesa (bem como a castelhana, a catalã, e provençal) parecem mostrar essa relação, fazendo notar que já no século XIX o Cardeal D. Francisco de S. Luiz Saraiva, conhecido popularmente por "Cardeal Saraiva", tinha publicado um trabalho intitulado Glossário de Vocábulos Portuguezes Derivados de Línguas Orientaes e Africanas Excepto a Árabe, em que se alegadamente demonstrava que muitas palavras do português encontram paralelo no hebraico antigo, no caldaico e mesmo no persa, esta última de origem indo-europeia, e que este conhecimento fora ignorado, tendo--se retomado a tese da impossibilidade de encontrar a língua do povo que foi colonizado pelos romanos, e que também no final do século XX, Moisés Espírito Santo publicou vários e assinaláveis estudos sobre o tema, mas que o meio universitário português tem sido reticente à mudança de paradigma, o que na verdade não surpreende, uma vez que, no estudo das populações pré-romanas na região que é hoje Portugal, mormente a norte do Tejo, mas não só, não há qualquer espaço visível para a presença significativa de populações de origem não indo-europeia. Note-se que, para sustentar a sua perspectiva, Moisés Espírito Santo acusava a generalidade da Arqueologia portuguesa de anti-semitismo e ignorava ou dava como simplesmente falsos todos os estudos linguísticos académicos sobre as línguas indo-europeias na Lusitânia. A visão tradicional, geralmente reproduzida no mundo académico, é por isso fortemente latinista, uma vez que, até hoje, não surgiu nenhuma alternativa que permitisse rejeitar todos os estudos linguísticos que se fizeram séculos antes de Moisés Espírito Santo e que se continuam a fazer até hoje, daí que os defensores da perspectiva deste autor acabem por se limitar a dizer que a academia quase ignora totalmente a língua falada pelo povo que foi conquistado por Roma e que os textos a seguir seguem essa linha de pensamento, estando portanto em desacordo com as ideias alegadamente mais recentes (embora inventadas no século XIX, como acima se lê), sem todavia apresentar qualquer refutação destas teorias que dominam o mundo académico e que continuam pois, sem obstáculo, a dar o substrato do Português como sendo arcaicamente indo-europeu. thumb|left|Mapa das línguas pré-romanas da Península Ibérica
Assim, até prova em contrário, tem-se geralmente confirmado que o Português se baseia num substrato céltico/lusitano,. originado nas línguas faladas pelos povos pré-romanos que habitavam a parte ocidental da Península. Várias escritas testemunham a existência de línguas paleo-hispânicas. Em Portugal destaca-se a escrita do sudoeste dos séculos VII e V a.C. no Baixo Alentejo e Algarve. Não há acordo entre os especialistas sobre a origem destes sistemas de escrita, que poderá estar no alfabeto fenício ou no alfabeto grego, provavelmente relacionados com os contactos comerciais destes povos.
Da língua lusitana, uma língua indo-europeia céltica.. ou relacionada falada entre o Douro e o Tejo, apenas se conhecem cinco inscrições tardias em alfabeto latino, incluindo as de Cabeço das Fráguas,. a inscrição do Penedo de Lamas. e de Arronches.. Da língua galaica, também uma língua céltica(do tipo Q)VILLAR F., B. M. Prósper. (2005). Váscos, Celtas e Indoeuropeos: genes y lenguas. Ediciones Universidad de Salamanca. 333-350. ISBN 84-7800-530-7. ou um grupo de línguas e dialetos aparentados com o celtibero, conhecem-se numerosas palavras e frases curtas registadas em inscrições latinas de Oviedo e Mérida, ou glosadas por autores clássicos, que permanecem até hoje para nomear locais, rios ou montanhas. Após séculos de contacto com o latim estas línguas foram absorvidas,LUJÁN MARTÍNEZ, Eugenio The Language(s) of the Callaeci mas deixaram a sua marca num dialecto determinante na evolução das línguas portuguesa e galega.
A influência celta na língua portuguesaFREIRE, José. A Toponímia Céltica e os vestígios de cultura material da Proto-História de Portugal. Revista de Guimarães, Volume Especial, I, Guimarães, 1999, pp. 265-275 pode ser detectada em várias centenas de palavras como abrunho, barra, bico, vidoeiro, bilha, borba, braga, brio, cais, caminho, camisa, canga, canto, carro, cerveja, choco, colmeia, crica, curro, embaixada, gorar, légua, lousa, menino, minhoca, peça, rego, tojo, tranca, vassalo,WARD A. (1996), s.v. manteiga e tona (galaico-português: pele, odre);Palavras celtas na língua portuguesa em www.ciberduvidas.com os topónimos de origem céltica em Portugal destacam-se pelo elemento "briga", que significa “fortaleza”, com em Conímbriga, Arcóbriga (antigo nome de Arcos de Valdevez), Lacóbriga (antigo nome da cidade algarvia de Lagos) e Brigantia (Bragança); o elemento "dunum", que significa “cidade” e surge no topónimo Caladunum (cidade antiga em Trás-os-Montes); frequentemente é também considerada de origem celta a etimologia do nome Portugal, de Portus Cale, sendo Cale um desenvolvimento de "Gall-", com a qual os Celtas se referiam a si próprios (como em "Galiza", "Gália", "Galway") e o do rio Douro (Durus em latim), do celta "dwr", que significa água.JONES, Rowland, The origin of language and nations
O latim: base linguística (III a.C - V d.C)
245x245px|thumb|Inscrição em latim num marco miliário da Via Nova, que ligava Braga a Astorga, Terras de Bouro, Portugal Em 218 a.C, os romanos iniciaram a invasão da Península Ibérica, onde viriam a fundar a província romana da Lusitânia, atual centro e sul de Portugal. Quase 200 anos depois, terminadas as guerras Cantábricas, foi constituída a Galécia, atual norte de Portugal e Galiza.
A romanização afetou muitas áreas da vida, incluindo a língua. O latim, língua oficial do Império Romano, passou a ser usado na administração. A sua versão coloquial, o latim vulgar falado em todo o império,CLARK, Victor Selden (1900). Studies in the Latin of the Middle Ages and the Renaissance. Lancaster: The New Era Printing Company, pp. 1–3 foi difundido por soldados, colonos e mercadores vindos de várias províncias e colónias romanas. Estes estabeleceram-se em cidades perto de povoações nativas, mantendo frequentemente os mesmos nomes.
Falar latim era mais um privilégio do que um dever, e começou pelas camadas mais altas da sociedade, que tinham de lidar com a administração romana. A evolução do latim no território correspondente a Portugal ocorreu a dois ritmos: no centro e sul, na Lusitânia, foi adaptado cedo, acompanhando a rápida romanização e maior cosmopolitismo. A norte, na região da Galécia, a tardia romanização, o carácter rural e o isolamento resultaram numa menor assimilação cultural e linguística, que levou ao desenvolvimento de uma variedade de latim com influências da língua galaica.The Language(s) of the Callaeci. Luján Martínez, Eugenio A adesão ao cristianismo, introduzido nas cidades da Hispânia a partir do século I e tornado religião oficial do império em 380 pelo imperador hispano Teodósio I, contribuiu para popularizar o latim.