Psicanálise (do grego antigo ψυχή, transl. psychḗ: 'respiração, sopro, alma', e ἀνάλυσις, transl.: análysis: 'dissecção', no sentido de 'exame da alma') é uma abordagem clínica da psicologia voltada para a investigação teórica da psique humana, desenvolvida por Sigmund Freud, médico neurologista, que se formou em 1881, trabalhou no Hospital Geral de Viena e teve contato com o neurologista francês Jean-Martin Charcot, que lhe apresentou o uso da hipnose.
thumb|200px|Sigmund Freud, o pai da psicanálise
Freud, médico neurologista austríaco, propôs este método para a compreensão e análise da psique humana, compreendido enquanto sujeito do inconsciente, abrangendo três áreas. Primeiro, como um método de investigação do psiquismo e seu funcionamento. Segundo, como um sistema teórico sobre a vivência e o comportamento humano. E, por fim, como um método de tratamento caracterizado pela aplicação da técnica da livre associação.
Essencialmente é uma teoria da personalidade e um procedimento de psicoterapia; a psicanálise influenciou muitas outras correntes de pensamento e disciplinas das ciências humanas, gerando uma base teórica para uma forma de compreensão da ética, da moralidade e da cultura humana.Mezan, Renato. Freud, Pensador da Cultura. Companhia das Letras, 2006. Em linguagem comum, o termo "psicanálise" é muitas vezes usado como sinônimo de "psicoterapia" ou mesmo de "psicologia". Em linguagem mais própria, no entanto, psicologia refere-se à ciência que estuda o comportamento e os processos mentais, psicoterapia ao uso clínico do conhecimento obtido por ela, ou seja, ao trabalho terapêutico baseado no corpo teórico da psicologia como um todo, e psicanálise refere-se à forma de psicoterapia baseada nas teorias oriundas do trabalho de Sigmund Freud. "Psicanálise" é, assim, um termo mais específico, sendo uma entre muitas outras abordagens de psicoterapia.
Desde os seus primórdios, nos primeiros anos do século XX, o status epistemológico da psicanálise tem sido objeto de infindáveis discussões, que frequentemente giram em torno do seu enquadramento (ou não) como ciência.Barrucho, Luís. La psychanalyse est-elle une pseudoscience ? La polémique qui divise l'opinion depuis un siècle BBC News, 12 de agosto de 2023 Ao contrário do que Freud intencionava a princípio,Mezan, Renato. Que tipo de ciência é, afinal, a Psicanálise? Natureza humana v.9 n.2 São Paulo, dezembro de 2007 ISSN 1517-2430 Prudente, Regina Coeli Aguiar Castelo; Ribeiro Maria Anita Carneiro. Psicanálise e ciência. Psicologia: ciência e profissão v.25 n.1 Brasília março de 2005 ISSN 1414-9893 a psicanálise não é geralmente considerada como uma ciência da natureza. Alguns críticos, notadamente Karl Popper, a consideram mesmo como pseudociência, por não ser falseável.Popper, Karl R. "Science: Conjectures and Refutations". In Grim, Patrick (ed.) Philosophy of Science and the Occult. Albany : State University of New York Press, 1982, pp. 87-93.Webster, Richard (1995). [https://archive.org/details/whyfreudwaswrong0000webs Why Freud was wrong. Sin, science and psychoanalysis]. London: Harper Collins.Cioffi, Frank (2005). "Was Freud a Pseudoscientist?" Butterflies & Wheels. Extrato do ensaio "Are Freud’s Critics Scurrilous?", originalmente publicado em Meyer, C. (ed.),Le livre noir de la psychoanalyse. Paris: Les Arènes, 2005.Zepf, Siegfried. Psychoanalysis Today—A Pseudoscience? A Critique of the Arbitrary Nature of Psychoanalytic Theories and Practice. Guilford Press, 2018. Paralelamente, há autores que a consideram dotada de características de ciência,Palombini, A. (1996) Fundamentos para uma crítica da epistemologia da psicanálise. Porto Alegre: UFRGS, 1996. enquanto outros a afirmam como filosofiaSimanke, Richard Theisen; García Menéndez, Ada Jimena; Caropreso, Fátima ; Barbelli, Izabel; Bocchi, Josiane Cristina. Filosofia da psicanálise: autores, diálogos, problemas. SciELO /EdUFSCar, 2010. ou como um saber.BASTOS, Liana Albernaz de Melo. Psicanálise baseada em evidências?. Physis: Revista de Saúde Coletiva, volume: 12, nº 2, 2002. Acesso em 14 de agosto de 2019 Por fim, há quem considere a classificação da psicanálise - seja como "uma hermenêutica, uma ética ou apenas uma técnica" - como uma questão irrelevante.MEDEIROS, Roberto Henrique Amorim de. A psicanálise não é uma ciência. Mas, quem se importa? Psicol. cienc. prof. 1998, vol.18, n.3, pp.22-27. ISSN 1414-9893 http://dx.doi.org/10.1590/S1414-98931998000300004.
Freud distinguiu entre os domínios consciente e inconsciente da psique e sustentou a visão de que os conteúdos do inconsciente determinam em grande parte a cognição e o comportamento. Constatou que muitas das pulsões – visto que seu modelo estrutural está localizado no “id” – são reprimidas no inconsciente devido a experiências traumáticas durante a infância, e que a tentativa de integrá-las à percepção consciente do ego desencadeia a resistência. Este e outros mecanismos de defesa buscam manter a repressão; isso é acompanhado por conflitos entre as partes pulsionais inconscientes e o material consciente, podendo levar a distúrbios mentais. Freud também descobriu que os desejos das pulsões reprimidos no inconsciente se revelam particularmente nos símbolos da interpretação dos sonhos, bem como nos sintomas da neurose e no lapso freudiano. A psicanálise, ou simplesmente terapia analítica, foi desenvolvida com o intuito de esclarecer as causas dos distúrbios diagnosticamente e de restaurar a saúde mental com base nesses insights. Isso é possível ao permitir que o consciente tome conhecimento das necessidades do id, reprimidas no inconsciente, e ao encontrar uma solução realista para resolver os conflitos. Freud resumiu esse objetivo terapêutico em sua demanda “Onde havia o id, o ego se tornará”. Ele atribuiu grande importância à consistência de seu modelo estrutural e à sua compatibilidade com os achados da biologia, incluindo uma teoria bem fundamentada do desenvolvimento humano saudável, que se completa naturalmente em três fases sucessivas: a fase oral, anal e genital. Os psicanalistas atribuem grande ênfase às experiências da primeira infância e a abolir a amnésia infantil.
No ambiente tradicional freudiano, o paciente deita-se em um divã e o analista senta-se logo atrás ou de alguma forma fora de vista. O paciente deve expressar todos os seus pensamentos, segredos e sonhos, incluindo as associações livres e as fantasias. Além de sua tarefa de fortalecer o ego com sua capacidade de pensar logicamente – a “primazia do intelecto” – a terapia também tem como objetivo induzir a transferência. Assim, o paciente projeta seus educadores, internalizados em seu superego desde a primeira infância, sobre o analista. Assim como fazia quando bebê e criança pequena, ele experimenta sentimentos de dependência indefesa, o anseio fútil por amor e a raiva, mas agora com a possibilidade de processar esses conteúdos que moldaram sua personalidade.Chessick, Richard D. 2007. The Future of Psychoanalysis. Albany: State University of New York Press. p. 125.Fromm, Erich. 1992. The Revision of Psychoanalysis. New York: Open Road. pp. 12–13. (points 1 to 6).
A partir do conjunto do que é comunicado, o analista deduz conflitos inconscientes com traumas impostos que estão causando os sintomas e problemas de caráter do paciente, e elabora um diagnóstico. Essa explicação acerca da origem da perda da saúde mental e dos processos analíticos como um todo confronta o ego do paciente com os mecanismos de defesa patológicos, fazendo-o tomar consciência deles, bem como dos conteúdos do id que foram reprimidos, auxiliando-o a compreender melhor o mundo em que vive e no qual foi educado. (Todas as pessoas ‘projetam’ conteúdo irracional em tudo. O termo contratransferência significa que o próprio analista projeta algo sobre seu paciente; daí, ele tem um problema pessoal em aberto e precisa procurar seu próprio analista, caso ainda não consiga ajudar a si mesmo devido à inexperiência.)Stefana, Alberto. 2017. History of Countertransference: From Freud to the British Object Relations School. London: Routledge. . Isso inclui, não menos importante, o fato de que a vertente neurológica da psicanálise forneceu recentemente evidências de que o cérebro armazena experiências em redes neuronais especializadas (função de memória do superego) e que o ego concentra as formas mais elevadas de seu pensamento consciente no lobo frontal.
A psicanálise tem sido uma disciplina controversa desde o início e sua eficácia como tratamento continua sendo contestada, embora sua influência na psicologia e na psiquiatria seja indiscutível."A psicanálise existia antes da virada do século XX e, nesse intervalo de anos, consolidou-se como uma das disciplinas fundamentais dentro da psiquiatria. A ciência da psicanálise é a base do entendimento psicodinâmico e forma o referencial teórico fundamental para uma variedade de formas de intervenção terapêutica, abrangendo não apenas a própria psicanálise, mas também diversas formas de psicoterapia orientadas psicanaliticamente e formas relacionadas de terapia que utilizam conceitos psicodinâmicos." Sadock, Benjamin J., e Virginia A. Sadock. 2007. Kaplan and Sadock's Synopsis of Psychiatry (10ª ed.). Lippincott Williams & Wilkins. p. 190."A psicanálise continua sendo um paradigma importante que organiza a forma como muitos psiquiatras pensam sobre os pacientes e o tratamento. Contudo, suas limitações são mais amplamente reconhecidas e pressupõe-se que muitos avanços importantes no futuro virão de outras áreas, particularmente da psiquiatria biológica. Ainda não se definiu o papel adequado do pensamento psicanalítico na organização do tratamento dos pacientes e na formação dos psiquiatras após essa revolução biológica ter produzido frutos. Os tratamentos voltados para defeitos ou anomalias biológicas se tornarão passos técnicos em um programa organizado sob uma estrutura psicanalítica? A psicanálise servirá para explicar e orientar a intervenção de apoio para indivíduos cujas vidas são deformadas por defeitos biológicos e intervenções terapêuticas, assim como agora faz para pacientes com doenças físicas crônicas, com o psicanalista no programa de diálise psiquiátrica? Ou olharemos para trás sobre o papel da psicanálise no tratamento dos seriamente enfermos mentais como a última e mais cientificamente esclarecida fase da tradição humanística na psiquiatria, uma tradição que se extinguiu quando os avanços na biologia nos permitiram curar aqueles que por tanto tempo apenas consolávamos?" Michels, Robert. 1999. "Psicanálise e Psiquiatria: Uma Relação em Mudança." O Desafio da Psicanálise e da Psicoterapia: Soluções para o Futuro. Nova York: American Mental Health Foundation. Arquivado em 6 de junho de 2009. Críticos da teoria a caracterizaram como pseudocientífica, pois conceitos centrais da teoria, como os do id, ego e superego, são infalsificáveis. Os conceitos psicanalíticos também são amplamente utilizados fora do campo terapêutico, por exemplo, no cinema e na crítica literária, na análise de contos de fadas, em perspectivas filosóficas como o Freudo-Marxismo e em outros fenômenos culturais.
Definição De acordo com Sigmund Freud, psicanálise é o nome de:Freud, Sigmund. "Dois verbetes de enciclopédia" (1923 ) in: Freud Sigmund. Psicologia de Grupo e a Análise do Ego; in Obras completas de Sigmund Freud (23 v.), V.18. RJ, Imago, 1996 Um procedimento para a investigação de processos mentais que são quase inacessíveis por qualquer outro modo; Um método (baseado nessa investigação) para o tratamento de distúrbios neuróticos; Uma coleção de informações psicológicas obtidas ao longo dessas linhas, e que gradualmente se acumulou numa "nova" disciplina científica.
A essa definição elaborada pelo próprio Freud pode ser acrescentada um tratamento possível da psicose e perversão,