thumb|316px|Gravura de Cuenca na obra “Recuerdos y bellezas de España”, publicado em 1853, da autoria de
Cuenca é uma cidade e município da Espanha, capital da província de homónima, na comunidade autónoma de Castela-Mancha. Tem de área e em tinha habitantes (). Situa-se na parte norte da província, a uma altitude média de 948 metros e é um dos municípios mais extensos de Espanha.
Embora nos arredores da cidade haja vestígios de povoamento desde o Paleolítico Superior, a cidade data da época da invasão muçulmana (), quando foi construída a fortaleza de . A praça foi ganhando importância até substituir como capital da cora (província) de . O rei cristão de Castela conquistou-a em 1177 e outorgou-lhe um . A economia de Cuenca centrou-se na indústria têxtil, que teve muita fama durante os séculos XV e XVI, o que originou grande atividade de construção. No entanto, essa indústria colapsou no , levando a que a população decrescesse drasticamente, só começando a recuperar ao longo do século seguinte. Em 1833 tornou-se a capital da nova província de Cuenca, mas as agitações sociais e políticas da época fizeram com que a cidade ficasse num estado precário até meados do . Atualmente a economia baseia-se sobretudo no turismo, muito potenciado desde que, em 1996, o centro histórico foi classificado como Património Mundial.
Cuenca conserva um importante património histórico e arquitetónico, que se distribui por toda a parte antiga, onde se destacam edifícios como a Catedral de Santa Maria e São Julião e as (casas colgadas), as quais se converteram num símbolo da cidade. A cidade tem também vários museus (mais de dez), no reduzido espaço da parte antiga, dos quais se destacam o , o e o . Entre os principais eventos culturais encontram-se a Semana Santa e a Semana de Música Religiosa.
Toponímia O topónimo 'Cuenca' procede da forma latina tardia conca (latim clássico: concha, -ae), com o significado metonímico de "vale profundo entre montes", que tem paralelos noutros topónimos espanhóis. Se bem que a primeira forma documentada do lugar (e também a sua primeira menção histórica) data do na sua forma , esta palavra é inexplicável e morfologicamente impossível da língua árabe, pelo que é claramente a adaptação de um topónimo anterior, o qual não está documentado, mas que provavelmente é o indicado antes. Esse nome foi originalmente aplicado apenas à alcáçova, que se situava onde hoje se encontram as ruínas do castelo, tendo-se posteriormente estendido a toda a cidade.
Títulos e símbolos Títulos Cuenca ostenta a categoria histórica de "cidade", com os títulos de "Muito Nobre, Muito Leal, Fidelíssima e Heroica". O título de cidade foi-lhe atribuído por em 1257 e os de "Muito Nobre e Muito Leal" em 1465 por . Após a Guerra da Sucessão Espanhola , na qual Cuenca lutou a favor de , este outorgou-lhe os títulos de "Fidelíssima e Heroica".
Escudo O escudo de Cuenca é descrito heraldicamente da seguinte forma: num campo de gules (vermelho), um cálice de or encimado por uma estrela de oito pontas de argento (prata). No timbre tem uma coroa real antiga, composto por um círculo de ouro cravejado de pedras preciosas que suporta oito rosetas, cinco visíveis, interpoladas com pérolas.
Tradicionalmente esta composição é explicada supondo que essas foram as armas oferecidas à cidade por Afonso VIII, significando o vermelho o sangue derramado na conquista da cidade, a estrela o cerco ter começado no dia da Epifania e o cálice por o cerco ter terminado no dia de São Mateus. No entanto, a investigação heráldica constatou que, numa primeira etapa, em vez do cálice existia uma tigela (cuenco em castelhano), uma arma falante de Cuenca pelo menos desde Afonso X. Durante o reinado dos Reis Católicos expande-se o costume de modificar os emblemas tradicionais por outros mais ornamentados, pelo que o cuenco foi substituído pelo cálice. A estrela poderá ter origem no emblema do , tendo o número das suas pontas variado entre seis e oito ao longo dos séculos. Há também uma lenda segundo a qual em 6 de janeiro de 1177, quando o rei Afonso VIII assediava a cidade para a conquistar aos muçulmanos, a Virgem Maria apareceu em forma de luminária celeste. As suas frequentes aparições no acampamento de Afonso VIII converteram-na na padroeira da cidade como Nossa Senhora da Luz e no novo escudo de Cuenca figuraria uma estrela flutuando sobre um cálice.
História Pré-historia e Antiguidade Os vestígios humanos mais antigos na província de Cuenca datam do Paleolítico Superior, de há cerca de anos. As principais tribos da zona foram aparentemente os (ou bebrices), que se dedicavam à pastorícia, e os arévacos, que eram agricultores. Depois chegaram os , um povo guerreiro de carácter indómito, que tomaram o controlo da maior parte do que é atualmente a província, e os , pastores e agricultores, que tinham a sua capital em . No início época romana, a serrania conquense esteve envolvida em várias das guerras celtiberas (séculos ). Apesar de que na província terem existido três cidade romanas importantes — Segóbriga, e — nessa época a zona da cidade de Cuenca era muito pouco povoada, apenas existindo vestígios de um pequeno assentamento perto da ponte do Castellar.
Idade Média O esquema populacional romano manteve-se após as invasões bárbaras (séculos IV e V), apesar de ter havido um declínio dos centros urbanos romanos. É durante a posterior invasão muçulmana () que se inicia o povoamento de carácter mais urbano no local da cidade atual. Apesar de não ser clara a data da fundação, em 784 já existia a cidade de ou , integrada na cora (província) de e favorecida pela base estabelecida pelos .. A praça foi ganhando importância e população, até ter-se tornado a capital da cora, substituindo nessa função Ercávica.
Quando o Califado de Córdova colapsou em 1031, a cidade foi integrada na Taifa de Toledo, tendo servido de ponte para a conquista dos reinos de Valência e Córdova. Na sequência da derrota de de Leão na Batalha de Zalaca (1086), o rei sevilhano Almutâmide aproveitou para tomar Cuenca, mas em 1091 os almorávidas atacaram Sevilha e Almutâmide viu-se obrigado a pedir ajuda ao rei leonês. Em 1108 Cuenca passou para as mãos dos almorávidas após a Batalha de Uclés.
O rei de Castela conquistou Cuenca em 1177. Segundo a tradição, o rei castelhano pôs cerco à cidade no dia da Epifania desse ano e entrou triunfalmente em Cuenca no dia 21 de setembro. A população distribui-se dentro da cidade de acordo com a sua religião: os muçulmanos foram relegados à zona da alcáçova (atual Praça Mangana), foi criada uma judiaria em volta do que é hoje a Rua de Zapaterías e o resto da cidade foi dividida em paróquias católicas. Foi constituído um concelho, uma sede episcopal e foi levada a cabo uma campanha de repovoamento, favorecida pelo outorgado por Afonso VIII, o qual serviu de modelo a muitos forais, não só em Castela, mas também em Leão, Aragão e Portugal. concedeu o título de cidade 1257. Durante os séculos XIV e XV a parte baixa da cidade começou a ganhar forma, tendo sido criados os bairros de San Antón e de Tiradores. Durante as disputas entre e D. João Manuel, Cuenca chegou a fazer parte do durante alguns anos, voltando à posse do rei quando este amnistiou o senhor de Villena. A cidade foi também assediada várias vezes sem êxito pelos aragoneses.
Idade Moderna Cuenca tornou-se um centro económico importante sobretudo devido à sua indústria têxtil e à pecuária. Os têxteis de Cuenca eram especialmente famosos nos séculos XV e XVI e o comércio de tecidos e de tapetes potenciou o desenvolvimento da indústria de transformação de lãs, o que contribuiu para um grande crescimento da população, a qual se estima em cerca de habitantes no , e para uma intensa atividade de construção. A cidade passou também a ser a sede do sistema judicial local e foi-lhe concedido voto nas cortes. A epidemia de peste de 1588 foi o prelúdio do declínio que se acentuou ao longo de todo o . À epidemia seguiu-se uma seca prolongada e várias pragas de gafanhotos que provocaram uma diminuição drástica da população, que decresceu até aos habitantes. A par disso, a subida do preço da lã levou à decadência da transumância e da indústria têxtil locais. Pouco a pouco, no houve alguma recuperação económica, mas nesse mesmo século começou uma crise que afetou especialmente a atividade têxtil e levou ao encerramento da Casa da Moeda e dos moinhos de papel. Durante a Guerra da Sucessão Espanhola Cuenca foi apoiante de , que recompensou a cidade juntando os títulos de "Fidelíssima e Heroica" aos títulos de "Muito Nobre e Muito Leal" que já ostentava.
Dos 80 teares que existiam em 1735, 30 anos depois só restavam 22. O então arcediago e depois bispo Antonio Palafox decidiu relançar a indústria têxtil, mas não teve sucesso devido à proibição do rei de abrir oficinas têxteis, para evitar concorrência à .
Idade Contemporânea Ao longo do a cidade foi tomando a configuração que tem atualmente, com a conversão da Rua Afonso VIII na principal via que comunicava com a Plaza Mayor. No entanto, as agitações sociais e políticas da época fizeram com que a cidade ficasse num estado precário até ao início do . Durante a Guerra da Independência Espanhola (Guerra Peninsular; 1807–1808), a cidade foi saqueada mais de nove vezes e a população foi dizimada. Em 1833 tornou-se a capital da nova província de Cuenca, na altura do início da Primeira Guerra Carlista, durante a qual houve várias tentativas de ataque. A Segunda Guerra Carlista não teve qualquer repercussão na cidade, mas na terceira ocorreram dois saques. O segundo ataque, ocorrido em 1874, foi o mais violento de todos: grande parte da cidade ardeu e os combates provocaram 300 mortos, 40 deles civis, e 700 feridos. Em 1833 foi aberta a ligação ferroviária com Aranjuez, o que juntamente com instalação de várias serrações ajudou a recuperação económica. A população da cidade ultrapassou os habitantes em 1900.
Em finais do a parte alta da cidade deixou de ser o centro económico e social, que passou para a Rua Carretería, na cidade nova. A importância desta foi crescendo ao longo do , tendo sido construído o Parque de San Julián nas antigas hortas do Huécar, ao mesmo tempo que o bairro vizinho e os de San Antón e de Tiradores cresceram. O dinamismo económico a que se assistiu no início do século promoveu o surgimento de algumas indústrias modernas e consequentemente de movimentos operários e socialistas. Em 17 de julho de 1931, dias depois da proclamação da Segunda República, foi constituído o novo governo municipal. Durante a Guerra Civil Cuenca ficou no lado republicano. Nos primeiros dias reinou o caos e ocorreram os maiores estragos, entre eles os saques do e da catedral, onde foram queimados os restos mortais de . Apesar disso, não obstante os rigores da guerra e ataques esporádicos, a cidade manteve-se bastante à margem dos combates nos anos subsequentes, tendo sido tomada pelas tropas franquistas e 29 de março de 1939, 3 dias antes do fim da guerra.
Nos anos do pós-guerra assistiu-se a um êxodo rural e com ele à construção da Cuenca moderna, consolidando-se de forma definitiva a cidade nova como centro da cidade, ficando a a cidade velha como um bairro periférico, quase em estado de abandono em algumas partes. Em 1963 a parte antiga de Cuenca e as suas vizinhanças foram declarados "Paisagem Pitoresca", o que, juntamente com a fundação em 1966 do nas , contribui para a recuperação da zona e a sua promoção turística. A 7 de dezembro de 1996 a cidade velha, os seus antigos arrabaldes e os vales estreitos dos dois rios que a banham foram classificados como Património Mundial pela UNESCO.
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