thumb|250px|direita|Tripods: ilustração do brasileiro Henrique Alvim Corrêa, para a edição belga de 1906 de A Guerra dos Mundos de H. G. Wells. A ficção científica do Brasil é um segmento literário que nunca demonstrou a popularidade conquistada por outros segmentos, embora possua um público cativo e fiel de aficionados. Foi praticada por diversos autores influenciados por escritores internacionais do gênero, que tem7 grande popularidade nos Estados Unidos ou Europa. Por outro lado, desde cedo autores brasileiros consagrados se aventuraram a escrever obras que podem ser consideradas ficção científica, como o romance O Doutor Benignus (1875) do português naturalizado brasileiro Augusto Emílio Zaluar, e o conto O Imortal (1882), de Machado de Assis.

História Precursores esquerda|miniaturadaimagem|254x254px|Esfinge (1908), romance de Coelho Neto Os primeiros textos do gênero no país (denominados ainda como proto-FC) datam do século XIX. São eles: o conto apocalíptico O Fim do Mundo (1857), de Joaquim Manuel de Macedo, a história futura Páginas da história do Brasil, escritas no ano 2000 de Joaquim Felício dos Santos, uma sátira política publicada entre 1868 a 1872 no jornal O Jequitinhonha, e O Doutor Benignus, do português Augusto Emílio Zaluar, inspirado em Júlio Verne e Camille Flammarion e classificado como um romance cientifico.

Machado de Assis (1839-1908) irá publicar o conto O Imortal (1882), que apresenta características do gênero; em 1899, é lançado o romance A Rainha do Ignoto de Emília Freitas, narrativa que trata de uma sociedade secreta de mulheres que realizam feitos positivos de cunho social.

Entre janeiro e outubro de 1907, a revista infantil O Tico-Tico publicou a novela Viagens maravilhosas do Dr. Alpha ao mundo dos planetas, escrito e ilustrado por Oswaldo Silva, possivelmente a primeira narrativa de viagem espacial da ficção científica brasileira.

Em 1908, Coelho Neto publica Esfinge, considerado o "Frankenstein brasileiro", o romance apresenta a história de James Marian, um ser artificial criado por meio de uma cirurgia misteriosa, que possui a cabeça de uma mulher e o corpo de um homem.

Muitos autores brasileiros clássicos assinaram eventualmente obras que podem ser classificadas como de ficção científica ou algo próximo disso. Lima Barreto (1881-1922) também enveredou pelo gênero nos contos A Nova Califórnia (1911).Entre o gênero e a literatura e Congresso pamplanetário (1920). esquerda|miniaturadaimagem|O homem que subiu de aeroplano até a Lua Em 1918, Leandro Gomes de Barros publicou ficção científica na forma de literatura de cordel, O homem que subiu de aeroplano até a Lua.

Em 1922, é publicado o romance O Reino de Kiato de Rodolfo Teófilo, publicado pela editora de Monteiro Lobato, o livro fala de um país que eliminou 3 males : álcool, fumo e sífilis, o livro possui inspiração eugenista. miniaturadaimagem|Capa de O Reino de Kiato de Rodolfo Téofilo (1922)

Em 1923, é lançado o romance A Liga dos Planetas, de Albino José Ferreira Coutinho. Nesse mesmo ano, é publicado o cordel O Romance do Pavão Misterioso, atribuído a João Melchíades Ferreira da Silva, mas que teria sido escrito originalmente por José Camelo de Melo Rezende, a história apresenta o Pavão Misterioso do título, um veículo em forma de pavão que antecede o helicóptero, que só seria apresentado em 1937.

Outros autores da primeira metade do século XX também incursionaram no gênero, como Gastão Cruls (A Amazônia misteriosa, inspirado em A Ilha do Dr. Moreau de H. G. Wells), Afonso Schmidt (Zanzalá) e Menotti del Picchia (A República 3000 ou A filha do inca) com narrativas de mundos perdidos, Érico Veríssimo (As aventuras de Tibicuera, Viagem à aurora do mundo), Adalzira Bittencourt (Sua Excia. a Presidente da República no Ano 2500) e Gomes Netto. Monteiro Lobato produziu um romance adulto de FC pura, chamado O choque das raças (ou O Presidente Negro), que, porém, não goza de boa fama por seus aspectos racistas e machistas na visão dos críticos. Nos anos de 1930, Berilo Neves publicou três livros de contos de ficção científica.Neves: referência da FC nacional

Em 1947, Jerônymo Monteiro lançou 3 meses no século 81, romance com inspiração na obra de H. G. Wells, além de A cidade perdida (1948), Fuga para parte alguma (1961), Os viajantes do espaço (1963) e Tangentes da realidade (1969) – o autor era jornalista, publicou romances policiais e também contribuiu para o rádio com as radionovelas do seu personagem Dick Peter, um criminalista americano que também vivia aventuras de ficção científica.

Em 1949, Rubens Francisco Lucchetti publica em formato de folhetim no jornal Diário da Manhã, de Ribeirão Preto, o romance O Criador de Monstros, que apresentava o cientista louco Dr. Anton Zola, que guarda semelhanças com o Dr. Moreau e faz experimentos de material genético de humanos e animais. Rubens Francisco Lucchetti ficou conhecido como Papa do pulp ou Decano dos pulps, por conta de suas histórias de detetive e mistério e roteiros de filmes e quadrinhos de terror, sobretudo os do personagem Zé do Caixão, interpretado pelo ator e cineasta José Mojica Marins. Lucchetti prefere não ser chamado de escritor, mas de ficcionista.

Em 1955, ocorreu o lançamento da revista Fantastic pela editora Edigraf, versão brasileira da norte-americana Fantastic, publicando os autores Jerome Bixby, Fritz Leiber, Ivar Jorgensen, Dean Evans, e Roy Huggins – a revista circulou até 1961.

Primeira Onda thumb|Capa da revista americana Fantastic A periodização em ondas para a ficção científica latino-americana foi proposta pelas críticas Andrea L. Bell e Yolanda Molina-Gavilán, na introdução à antologia Cosmos Latinos: An Anthology of Science Fiction From Latin America and Spain, observada por pesquisas que se seguiram, como as de M. Elizabeth Ginway, Ramiro Giroldo e Roberto de Sousa Causo.

A Primeira Onda é também conhecida como Geração GRD, termo cunhado pelo crítico e escritor Fausto Cunha, no ensaio Ficção científica no Brasil: Um planeta quase desabitado. Faz referência às Edições G.R.D., cujo editor é Gumercindo Rocha Dorea, responsável por apresentar muitos dos nomes da ficção científica brasileira nascente, assim como por publicar, em português, títulos traduzidos de grande relevância escritos por C. S. Lewis, Robert A. Heinlein, James Blish, Walter M. Miller Jr., John Wyndham, Kurt Vonnegut, Chad Oliver e outro. Como sugere Ramiro Giroldo sobre esse período, A despeito da comum tentativa de contestar os paradigmas da ficção científica norte-americana e lidar com o contexto brasileiro, como quer Ginway, a Primeira Onda não procurou fixar fórmulas ou convenções: trata-se de um grupo de autores heterogêneo que fez uso de distintas poéticas para alcançar um objetivo símile.

O marco inicial do período é o ano de 1957. A Livraria Martins publicou O homem que viu o disco-voador (1958) de Rubens Teixeira Scavone (assinado com o pseudônimo Senbur T. Enovacs). A editora Cultrix lançou a antologia Maravilhas da ficção científica (1958), organizada por Fernando Correia da Silva e Wilma Pupo Nogueira Brito, com introdução de Mário da Silva Brito, trazendo apenas autores estrangeiros. Foi a primeira antologia de FC montada no Brasil. miniaturadaimagem|Livros da Colecção Argonauta

Na década de 1950, chegam ao mercado brasileiro, as edições de bolso da Colecção Argonauta da editora portuguesa Livros do Brasil, especializada em ficção científica da chamada Era de Ouro.

Em 1960, Dinah Silveira de Queiroz publicou o livro de contos Eles herdarão a Terra (1960). A escritora já era muito publicada no período e com êxito na literatura insólita com o romance Margarida de La Rocque (1948). Depois publicou o livro de contos Comba Malina (1969).

No mesmo ano de 1960, o escritor Fausto Cunha publicou seu livro de estreia, o volume de contos As noites marcianas. Sua contribuição será relevante, inclusive pelo papel que desempenha na crítica.

Em 1961, as Edições G.R.D. publicaram a pioneira Antologia brasileira de ficção científica, organizada por Gumercindo Rocha Dorea e a primeira a trazer apenas autores nacionais: André Carneiro, Antônio Olinto, Clóvis Garcia, Dinah Silveira de Queiroz, Fausto Cunha, Jeronymo Monteiro, Lúcia Benedetti, Rubens Teixeira Scavone e Zora Seljan. O livro trouxe como introdução um importante ensaio de João Camilo de Oliveira Torres. No mesmo ano, Dorea lançou outra antologia relevante ao período: Histórias do acontecerá – o título foi uma sugestão de Rachel de Queiroz ao editor Dorea. Na antologia, a autora assina seu único conto de ficção científica, Ma-Hôre, bastante citado pela crítica. O volume trouxe contos de Álvaro Malheiros, André Carneiro, Antônio Olinto, Clóvis Garcia, Dinah Silveira de Queiroz, Fausto Cunha, Leon Eliachar, Jerônymo Monteiro, Rachel de Queiroz, Ruy Jungman e Zora Seljan.

Em 1962, Guimarães Rosa publica o conto Um moço muito branco, sobre um visitante alienígena.

Em 1963, André Carneiro publicou o livro de contos Diário da nave perdida.

Jerônymo Monteiro segue sendo, nesse período, um autor fundamental: em 1964, irá fundar a Sociedade Brasileira de Ficção Científica, tornando-se editor do Magazine de ficção científica, edição brasileira do The Magazine of Fantasy & Science Fiction estadunidense.

Entre 12 e 18 de Setembro de 1965 foi realizada a 1.ª Convenção Brasileira de Ficção Científica, nesse evento foi lançado o primeiro fanzine brasileiro de ficção científica, O Cobra (órgão Interno da 1.ª Convenção Brasileira de Ficção Científica), editado pela recém-fundada Associação Brasileira de Ficção Científica (que também publicaria o fanzine Dr. Robô).

Em 1968, surge a revista Galáxia 2000 da Edições O Cruzeiro, versão brasileira da revista americana The Magazine of Fantasy & Science Fiction, mas a revista brasileira dura apenas seis edições, publicando não só histórias da matriz americana, como as das versões francesa, italiana e argentina, trazendo autores como Graham Greene, Isaac Asimov, Brian W. Aldiss, Valentina Zhuravleva, Jorge Luis Borges e Rachel de Queiroz. Também com o título de Galáxia 2000, a editora publicou uma coleção de livros de ficção científica, que durou dezesseis edições, em sua décima quarta edição publicou em um só volume os primeiros dois episódios a série de space opera alemã Perry Rhodan, com o título Operação Astral. Em 1970, a Livraria do Globo, de Porto Alegre lançou uma nova versão chamada Magazine de Ficção Científica, editada pelo veterano Jerônymo Monteiro, com consultoria da Associação Brasileira de Ficção Científica, contudo, Monteiro viria a falecer no mesmo ano, Monteiro publicou histórias da revista americana e de autores brasileiros, como as dele próprio, Nilson D. Martello, Dirceu Borges, Walter Martins, Clóvis Garcia, Walmes Nogueira Galvão, Rubens Teixeira Scavone, entre outros, com a morte de Monteiro, a nona edição, publicada em dezembro do mesmo ano, passou a ser editada por sua filha, Therezinha, a revista teve vinte edições e foi encerrada em 1972, de acordo com Therezinha, ela apenas deu continuidade ao material selecionado pelo pai. No mesmo ano, a editora publicou três números da Antologia da Ficção Científica, trazendo material traduzido publicado anteriormente na revista.

Na década de 1970, a ficção científica brasileira tende a fazer uma crítica, mesmo que indireta, ao regime militar instalado em 1964 – movimento denominado Onda de Utopias e Distopias (1972-1982), transição da Primeira para a Segunda Onda. Segundo Roberto de Sousa Causo, exemplos de narrativas dessa tendência seriam: O Copo de Cristal, de Jerônymo Monteiro; Sociedade Secreta, de Domingos Carvalho da Silva; O Ôlho Mágico, de Wladyr Nader; e Diário da Nave Perdida e O Casamento Perfeito, de André Carneiro.