Temas LGBT na mitologia refere-se às diversas mitologias e narrativas religiosas que incluem histórias de afeição romântica ou sexual entre figuras do mesmo sexo ou ações divinas que resultam em mudanças de gênero. Esses mitos têm sido interpretados como formas antigas de expressão LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) e várias concepções de sexualidade e gênero têm sido aplicadas a eles. Muitas mitologias atribuem a homossexualidade ou aos gêneros sexuais nos seres humanos uma ação dos deuses ou outras intervenções sobrenaturais. Exemplo disso são os mitos em que os deuses ensinam as pessoas sobre práticas sexuais do mesmo sexo, ou estórias que explicam a causa da homossexualidade ou transgênero.
A presença de temáticas LGBT nas mitologias se tornou uma temática de estudo intenso. Os estudos de estudos de gênero e teoria queer nas tradições não-ocidentais são menos desenvolvidos, mas a quantidade de estudo está crescendo desde o fim do século vinte. Mitos frequentemente incluem ser gay, bissexual ou transgênero como símbolos para experiências místicas ou sagradas. Davdutt Pattakaik argumenta que mitos "capturam o inconsciente coletivo das pessoas", e que isso reflete as crenças fortemente embasadas sobre as variantes sexuais que podem estar de acordo com morais sociais repressivas.
Perspectiva crítica
O estatuto da mitologia varia de acordo com a cultura. Geralmente os mitos atuais são e os antigos eram literalmente acreditados como verdadeiros no seio da sociedade que os criou e considerados errados ou fictícios em outros lugares. Algumas culturas podem considerar os mitos como transmissores de verdades psicológicas ou arquetípicas. Os mitos têm sido usados para explicar e validar as instituições sociais de uma determinada cultura,Pequigney (2002), p. 1 bem como educar os membros dessa cultura. Esse papel social tem sido postulado em estórias que incluem amor entre pessoas do mesmo sexo, cujos objetivos eram educar os indivíduos quanto à atitude correta a adotar para o atividade sexual de pessoas do mesmo sexo e construções de gênero.Zimmerman & Haggerty, p.527, "Mythology, Nonclassical" esquerda|150px|thumb|Tlazoteotl, a deusa do nascimento. Desde o início da história escrita, centenas de culturas, mitos, folclores e textos sagrados têm incorporado temas homoeróticos e de identidade de gênero.Conner Sparks (2002), p. ix, "Introduction" Assim, desde esses tempos mais remotos, muitos mitos narravam estórias envolvendo homossexualidade, bissexualidade ou transgeneridade como símbolo de experiências míticas e/ou sagradas. Hoje em dia, o homoerotismo e a variância de gênero nesses mitos antigos têm sido analisados e estudados através das concepções LGBT modernas acerca de identidades e comportamentos, e muitas vezes criam-se termos novos para classificá-los; por exemplo, em divindades que se disfarçam do sexo oposto, ou adotam comportamentos tradicionais, ou certas figuras do sexo oposto podem ser chamadas de transsexuais em outras culturas, e os seres mitológicos sem órgãos reprodutivos ou com ambos os órgãos masculino e feminino em suas estruturas são hoje em dia chamados de andróginos ou intersexo.Pattanaik, 2001, p. 3 Alguns mitos individuais tem sido denominados queer numa tentativa dos críticos de rejeitarem a "heteronormatividade" ou o gênero binário em seus estudos. As interpretações queer podem ser baseadas apenas em evidências indiretas, tais como amizades do mesmo sexo invulgarmente estreitas ou a dedicação à castidade. Estas têm sido criticadas por ignorar o contexto cultural ou pela aplicação incorreta de preconceitos modernos ou ocidentais,Pattanaik (2001), p. 16 assumindo, por exemplo, que o celibato significa apenas evitar a penetração ou o sexo reprodutivo (permitindo assim o sexo homoerótico), enquanto ignora a opinião generalizada acerca da potência espiritual contida no sêmen que abrange uma vacância de todos os sexos.
Os acadêmicos reconhecem a presença de temas LGBT nas mitologias ocidentais e elas são objetos de intensos estudos. A aplicação de estudos de gênero e teoria queer em tradições míticas não ocidentais é menos desenvolvida, no entanto tem vindo a crescer consideravelmente desde o final do século XX.Cabezón, p. vii, "Introduction". Geralmente as narrativas mitológicas consideram a homossexualidade, a bissexualidade e o transgênero como um símbolo de experiências sagradas ou míticas.Conner Sparks (2002), p. ix, "Introduction" Também é comum, principalmente nas mitologias pagãs e politeístas, encontrarmos seres que mudam de gênero, ou que possuem aspectos de ambos os sexos ao mesmo tempo. Não deixa de ser comum também, em tais panteões, a atividade sexual com ambos os sexos, e hoje em dia eles são comparados a bissexualidade ou pansexualidade.Conner & Sparks (2004), "Introduction" Os mitos da criação, ou gênese, de muitas tradições, envolvem seres assexuados ou hermafroditas que criam o mundo através da relação sexual entre seres do sexo oposto ou do mesmo sexo.Penczak (2003), p. 34, "In the beginning-Creation Myths"
Mitologias europeias Greco-romana
A mitologia greco-romana possui diversas narrativas de histórias de amores entre seres do mesmo sexo. Esses mitos têm sido considerados fundamentalmente influentes na literatura ocidental LGBT, sendo constantemente adaptados, republicados e reescritos e, de fato, suas figuras são muitas vezes vistas como ícones. O lesbianismo, no entanto, quase não é encontrado nos mitos greco-romanos,Compton, p. 97, "Rome and Greece: Lesbianism" embora destaca-se o de Zeus (Artemis) e Calisto.Downing, p.198 thumb|A Morte de Jacinto (1801) por Jean Broc.
Aquiles e Antíloco Aquiles e PátrocloPequigney (2002), p.5 Agamemnon e ArgynnusAs elegias de Propércio por Harold Edgeworth Butler, Eric Arthur Barbe; p277 Ameinias e Narciso Apolo e JacintoPequigney (2002), p.2 Apolo e Himeneu Crisipo e Laio
O deus patrono das travestis é Dionísio, deus gerado na coxa de Zeus, seu pai, depois de sua mãe morrer esmagada pela forma verdadeira de Zeus. Também há deuses considerados patronos do amor entre homens gays, como o amor da deusa Afrodite e os deuses em sua comitiva, tais como Eros, Himeros e Pothos.Conner & Sparks (1998), p. 64, "Aphrodite"Conner & Sparks (1998), p. 133, "Erotes" Eros também faz parte de uma trindade de deuses que desempenharam papéis nas relações aquileanas, junto com Hércules e Hermes, que concedeu qualidades de beleza (e fidelidade), a força e a eloqüência, respectivamente, para os amantes do sexo masculino.Conner & Sparks (1998), p. 132, "Eros" Na poesia de Safo, Afrodite é identificada como patrona das lésbicas.
Dionísio e AmpelosPequigney (2002), p.3 Hércules e Abderus Hércules e Hilas Hércules e IolausPequigney (2002), p.4 Hermes e Crocus
Temos também a história de Tirésias, adivinho cego da Aeona, que conhecia "os dois lados do amor/de Vênus" (tendo mudado de sexo duas vezes e vivido sete anos como mulher);Met. III, 323. numa história retomada e preservada pelo poeta romano Ovídio em sua Metamorfoses, Júpiter e Juno discutem quem tem mais prazer sexual, o homem ou a mulher, ao que o deus diz que as mulheres sentem maior prazer e Juno discorda, concordando, ambos, em pedir a opinião do adivinho que, dando razão à Júpiter ao afirmar que realmente as mulheres sentem maior prazer sexual que os homens, provoca a ira de Juno, que o cega.Met. III, 335. thumb|Jean-Baptist Roman, Eríalo e Niso (1827), Museu do Louvre. Poseidon e Pélope Orfeu e Calais Zeus (Artemis) e Calisto Zeus e Ganímedes Hermafrodito
Hermafrodito, por sua vez, era filho de Afrodite e Hermes e, por representar a fusão dos dois sexos, é considerado intersexo. Preservado na mitologia romana, cujos pais eram Mercúrio e Vênus, seu relato mais famoso é o da Metamorfoses de Ovídio,Met. IV 288, 368, 383. em que a náiade Salmacis se apaixona por ele e roga aos deuses que nunca se separem, provocando a fusão dos dois corpos. Alguns autores referem-se que tinha cabelos longos e seios.
Nórdica
thumb|upright|"Freyr" (1901) por Johannes Gehrts Nas sagas escritas na língua nórdica antiga não existe nenhuma estória de relacionamentos gay ou lésbico, tampouco referências diretas à personagens LGBT, mas elas contêm vários trechos de vinganças decretadas por homens acusados de serem passivos em relações sexuais—o que os fariam ser considerados "afeminados" e, portanto, uma ameaça à reputação de um homem que precisava agir como líder ou guerreiro.
Apesar disso, existe a hipótese de que Freir, o deus nórdico da fertilidade, tenha sido adorado muitas vezes por um grupo de sacerdotes homossexuais ou afeminados, como sugerido por Saxão Gramático em sua Feitos dos Danos.Dumézil, Georges. From Myth to Fiction: the Saga of Hadingus. Chicago: University of Chicago Press. 1970, p.115. Odin, por sua vez, é mencionado como um praticante de seid, forma de magia considerada vergonhosa se praticada por homens, sendo reservada às mulheres. É possível que a prática de seid envolvia também ritos sexuais com passivos e ativos e Odin foi insultado por conta disso.Viking Answer Lady Webpage – Homosexuality in Viking Scandinavia. Acesso: 6 de dezembro, 2010.
Além disso, alguns dos deuses nórdicos eram capazes de mudar de sexo à vontade, como Loki, deus trapaceiro (Ver Trickster), frequentemente se disfarçava de mulher e até chegou a dar à luz um potro enquanto estava na forma de uma égua branca, depois de um encontro sexual com o garanhão Svadilfari. Comparações de um homem a uma mulher fértil e grávida eram insultos comuns na Escandinávia, e as implicações que podem garantir que Loki tenha sido bissexual podem ter sido consideradas um insulto.
Celta e escocesa
Não existe nenhuma representação gay ou lésbica na mitologia celta.Cherici, pp. 21 & 121 Comentadores da Grécia Antiga e da Roma antiga atribuíam a atividade sexual entre homens, incluindo a pederastia, em tribos celtas pré-cristãs.Boswell (1980), p. 183, Percy (1996), p. 18. Contudo, autores modernos escrevem que a homossexualidade era punida em certas tribos celtas por conta da influência cristã,Cherici, pp. 75 & 146 e que provavelmente qualquer experiência sexual não procriativa que tenha existido foi posteriormente expurgada dos contos míticos celtas.Cherici, p. 21 thumb|upright|Cú Chulainn leva seu irmão adotivo Ferdiah pelo rio.|left Contudo, certas leituras modernas tem sugerido temáticas LGBT por exemplo, entre os heróis e irmãos adotivos Cúchulainn e Ferdiah, e hoje em dia interpretam que tiveram uma relação bissexual. Quando forçados a lutarem entre si, Ferdiadh menciona as camas que compartilhavam, e diz-se que eles encontraram um ao outro depois do primeiro dia do conflito e se beijaram. Depois de três dias, Cú Chulainn derrota Ferdiah furando seu ânus com uma "arma misteriosa" chamada Gáe Bulg.Cecile O'Rahilly, Táin Bó Cúailnge Recension 1, Dublin Institute for Advanced Studies, 1976, pp. 195–208 Cecile O'Rahilly, Táin Bó Cúalnge from the Book of Leinster, Dublin Institute for Advanced Studies, 1967, pp. 211–234 O conto tem levado a comparações com o tema grego "guerreiros amantes" e a reação de Cú Chulainn após a morte de Ferdiah tem sido comparada com o lamento de Aquiles diante da morte de Patrócles.Conner & Sparks (1998), p. 116 "Cú chulainn and Ferdiadh"
No quarto ramo do Mabinogion da mitologia galesa, Gwydion ajuda seu irmão Gilfaethwy a estuprar Goewin, titular do pé de Math fab Mathonwy. Gwydion e Gilfaethwy voltam à corte de Math, onde Gilfaethwy estupra Goewin. Quando Math sabe disso, ele transforma seus sobrinhos e um monte de pares de animais acasalados; Gwydion torna-se um cervo durante um ano e, em seguida, uma porca e, finalmente, um lobo. Gilfaethwy torna-se um cervo, javali e uma loba. A cada ano eles são obrigados a acasalar e produzirem uma prole que é enviada a Math: Hyddwn, Hychddwn e Bleiddwn. Após três anos Math libera seus sobrinhos de sua punição.Conner & Sparks (1998), p. 159, "Gilfaethwy and Gwydion"
Mitologias asiáticas Chinesa