Huia ou uía (nome científico: Heteralocha acutirostris) é uma espécie extinta de ave passeriforme que era endêmica da ilha Norte da Nova Zelândia. O último registro confirmado de uma huia foi feito em 1907, embora haja relatos críveis de avistamentos do pássaro no início da década de 1960. Sua extinção teve duas causas principais. A primeira foi a caça excessiva, tanto para obtenção de peles por colecionadores, como para retirada de penas da cauda que serviam de enfeite de chapéu. A segunda principal causa foi o desmatamento generalizado das terras baixas da Ilha Norte por colonos europeus para pastagens e agricultura. A maioria dessas florestas eram virgens, ecologicamente complexas, e as huias eram incapazes de sobreviver em florestas secundárias.
Era uma ave de plumagem azul escura metálica, com uma iridescência esverdeada na superfície superior, especialmente na cabeça. As penas da cauda tinham uma larga faixa branca nas pontas. Foi notável por ter o dimorfismo sexual mais pronunciado em relação ao formato do bico do que qualquer outra espécie de ave no mundo. O bico da fêmea era comprido, fino e arqueado para baixo, enquanto o do macho era curto e robusto, como o de um corvo. Os machos tinham 45 centímetros de comprimento, enquanto que as fêmeas eram um pouco maiores. Ambos possuíam uma distintiva carúncula arredondada e de cor laranja-brilhante nas bases laterais do bico.
As aves viviam tanto nas florestas de áreas montanhosas como nas de terras baixas, e acredita-se que elas migravam sazonalmente, vivendo em altitudes mais elevadas no verão. Eram onívoras e comiam insetos adultos, larvas e aranhas, assim como os frutos de um pequeno número de plantas nativas. Machos e fêmeas usavam seus bicos para se alimentar de diferentes maneiras: o macho usava seu bico para esquadrinhar madeira podre, enquanto o bico mais longo e flexível da fêmea era capaz de sondar áreas mais profundas. Embora a huia seja frequentemente mencionada nos livros de biologia e ornitologia devido a esse impressionante dimorfismo, pouco se sabe sobre sua biologia: foi pouco estudada antes de ser levada à extinção.
É uma das aves extintas mais conhecidas da Nova Zelândia devido à forma de seu bico e sua beleza, tendo um lugar especial na cultura do povo maori e na tradição oral. O pássaro era considerado sagrado pelos maori, e o uso de sua pele ou penas era reservado para pessoas de elevado status social. O grau com que a huia era conhecida e admirada no país se reflete no grande número de áreas urbanas e acidentes geográficos batizados em sua homenagem.
Taxonomia e etimologia esquerda|miniaturadaimagem|Casal taxidermizado exibido no Museum für Naturkunde, Alemanha. O nome do gênero, Heteralocha, deriva do grego antigo ἕτερος, "diferente", e ἄλοχος, "esposa". Refere-se à diferença marcante no formato do bico do macho e da fêmea. Já o epíteto específico, acutirostris, deriva do latim acutus, que significa "afilado", e rostrum, que significa "bico", uma alusão ao bico da fêmea.
O inglês John Gould descreveu a huia, também conhecida em português como uía, em 1836 como duas espécies diferentes: Neomorpha acutirostris baseado no exemplar de uma fêmea, e N. crassirostris com base num espécime do sexo masculino; o epíteto crassirostris deriva do latim crassus''', que significa "grosso" ou "pesado", e refere-se ao bico curto do macho. Em 1840, George Robert Gray propôs o nome N. gouldii, argumentando que nenhum dos nomes de Gould era aplicável à espécie. Em 1850, o ornitólogo alemão Jean Cabanis substituiu o nome Neomorpha, que já tinha sido usado para batizar um gênero de cucos, por Heteralocha. Em 1888, Walter Buller escreveu: "Eu considerei estar mais de acordo com as normas aceitas de nomenclatura zoológica adotar o primeiro dos dois nomes aplicados à espécie pelo Sr. Gould; e o fato de o nome Neomorpha já ter sido utilizado anteriormente na ornitologia torna necessário adotar o termo Heteralocha, proposto pelo Dr. Cabanis para esta forma".Tradução livre de: "I have deemed it more in accordance with the accepted rules of zoological nomenclature to adopt the first of the two names applied to the species by Mr Gould; and the name Neomorpha having been previously used in ornithology, it becomes necessary to adopt that of Heteralocha, proposed by Dr Cabanis for this form."
A huia parece ser remanescente de uma antiga expansão de passeriformes na Nova Zelândia, e é o maior dos três membros da família Callaeidae, endêmicos do país; os outros são os Philesturnus e os Callaeas (kokakos). O único parente próximo da família é o Notiomystis cincta; suas relações taxonômicas com outras aves continuam a ser estudadas. Um estudo molecular dos genes nucleares RAG-1 e c-mos das três espécies da família não foi conclusivo, os dados fornecem mais apoio para uma divergência baseada no kokako ou na huia.
Descrição miniaturadaimagem|Pintura de J. G. Keulemans de uma fêmea, um macho e uma fêmea branca. A huia tinha uma plumagem negra tendendo ao verde metálico, e uma distintiva carúncula arredondada e de cor laranja-brilhante nas bases laterais do bico. Em ambos os sexos, os olhos eram castanhos; o bico era branco-marfim, acinzentado na base; as pernas e os pés eram longos e de cor cinza-azulado, enquanto as garras eram castanhas-claras. A ave tinha doze longas penas pretas e brilhantes na cauda, cada uma com uma faixa branca na extremidade de 2,5 a 3 cm. Indivíduos imaturos tinham pequenas carúnculas pálidas, uma plumagem sem brilho salpicada de marrom, e uma coloração vermelho-acastanhada em direção às pontas brancas das penas da cauda. O bico da fêmea jovem era apenas ligeiramente curvo. Os nativos maoris chamavam determinadas huias de huia-ariki, que significa "huia-chefe". A huia-ariki tinha uma plumagem acastanhada com listras cinza, e as penas no pescoço e na cabeça eram mais escuras. Esta variante pode ter sido um albino parcial, ou talvez essas aves fossem simplesmente de idade mais avançada. Foram registradas várias huias albinas verdadeiras.
Embora o dimorfismo sexual na forma do bico seja encontrado em outras aves, como nos Ptiloris, Epimachus e outras que escavam a madeira, incluindo algumas espécies de pica-pau, ele era mais pronunciado na huia. O bico do macho era curto, com cerca de 6 cm, ligeiramente arqueado para baixo e robusto, muito semelhante ao do gênero próximo Philesturnus. O bico da fêmea, por sua vez, era mais fino e longo, com cerca de 10,4 cm, e curvado para baixo como o de um beija-flor ou de um melífago. A diferença não estava apenas no osso; a ranfoteca crescia muito além do fim da maxila óssea e da mandíbula para produzir um instrumento maleável capaz de penetrar profundamente nos buracos feitos na madeira por larvas de besouros. Os crânios e mandíbulas da huia e Philesturnus são muito semelhantes, o deste último aparentando ser uma versão menor do primeiro.
Há duas explicações possíveis para a evolução dessa diferença sexual na forma do bico. A mais amplamente aceita é que ela permitiu que aves de sexos diferentes utilizassem diferentes fontes de alimento. Esta divergência pode ter surgido por causa de uma falta de concorrentes nestes nichos de forrageamento nos ecossistemas florestais da ilha Norte. A outra ideia é que o bico cor de marfim, que contrastava fortemente com a plumagem preta da ave, pode ter sido usada para atrair um companheiro. Em animais que utilizam as características físicas do dimorfismo sexual para atrair um parceiro, o recurso dimórfico é muitas vezes colorido ou contrasta com o restante do corpo, como acontece com a huia. Foi sugerido que, como a fêmea era o principal fornecedor de alimento para os filhotes por regurgitação, esse sexo evoluiu com o bico longo para obter a dieta rica em proteínas de invertebrados necessária para os filhotes.
Outra característica menos óbvia no dimorfismo sexual da huia era a diferença de tamanho entre os sexos: os machos tinham 45 cm de comprimento, enquanto as fêmeas eram maiores, com 48 cm. Para além disso, a cauda do sexo masculino tinha cerca de 20 cm de comprimento e a envergadura entre 21 e 22 cm, enquanto que a cauda da fêmea possuía 19,5 a 20 cm de comprimento e a envergadura de 20 a 20,5 cm.
Distribuição e habitat miniaturadaimagem|Esqueleto de huia. A ave tinha pernas longas, adequadas para saltar. Sedimentos subfósseis e resquícios encontrados em sambaquis sugerem que a huia já habitou florestas nativas, tanto de áreas de planícies como montanhosas, em toda a ilha Norte da Nova Zelândia, estendendo-se desde o extremo norte no Cabo Reinga até Wellington e os Montes Aorangi no extremo sul. Apenas algumas huias foram encontradas nas vastas camadas de sedimentos no carste da área das cavernas de Waitomo. A espécie também é rara ou ausente nos depósitos fósseis do centro da ilha Norte e na Baía de Hawke. Aparentemente, preferia habitats que não estão bem amostrados nos sedimentos já conhecidos. A sua área de abrangência parece ter contraído à medida que o povo maori foi se estabelecendo na região em meados do século XII. Na época da colonização europeia, na década de 1840, o pássaro era encontrado apenas nas florestas do sul da ilha Norte, ao sul de uma linha que vai dos Montes Raukumara no leste, atravessa os Montes Kaimanawa e termina no rio Turakina no distrito de Rangitikei a oeste. No sul, a sua área se estendia à região de Wairarapa e aos Montes Rimutaka, a leste de Wellington. Relatos colhidos por Walter Buller e uma waiata (canção maori) sugerem que a huia era encontrada também nos distritos de Marlborough e Nelson, localizados na ilha do Sul; no entanto, a ave nunca foi identificada nos ricos depósitos fósseis ao sul do Estreito de Cook e não há nenhuma outra evidência da presença da espécie por lá.
As huias habitaram os dois principais tipos de florestas da Nova Zelândia. Podiam ser encontradas principalmente nas florestas temperadas úmidas onde havia um sub-bosque denso, mas ocasionalmente também eram vistas em florestas de faias (Nothofagus). A espécie foi observada na vegetação nativa, incluindo árvores como matai (Prumnopitys taxifolia), rimu (Dacrydium cupressinum), kahikatea (Dacrycarpus dacrydioides), rata (Metrosideros robusta), maire (Nestegis), hinau (Elaeocarpus dentatus), totara (Podocarpus totara), rewarewa (Knightia excelsa), mahoe (Melicytus ramiflorus) e taraire (Beilschmiedia tarairi). No nível do mar, sobre a árvore karaka (Corynocarpus laevigatus) no Cabo Turakirae. A ave nunca foi vista em florestas queimadas ou em áreas desmatadas para a agricultura.
Ecologia e comportamento miniaturadaimagem|Exemplar taxidermizado de uma fêmea, com seu bico longo e curvo. Movimentos Os movimentos da huia são pouco conhecidos, mas provavelmente era um pássaro sedentário. Acredita-se que pode ter empreendido migrações sazonais, vivendo em florestas montanhosas no verão e se mudando para regiões mais baixas no inverno, a fim de evitar o clima rigoroso e as temperaturas frias em altitudes elevadas. Assim como o Philesturnus e o kokako, aves neozelandesas que ainda vivem, a huia tinha fraca capacidade de voo e só conseguia voar distâncias curtas, raramente acima da altura das árvores. Utilizava-se com frequência de suas poderosas pernas para ganhar impulso, saltando de galho em galho no dossel ou pelo chão da floresta. Também era capaz de se agarrar verticalmente nos troncos de árvores e escalá-los, usando as penas da cauda para se equilibrar.
Alimentação e ecologia A huia e o Philesturnus são as duas espécies especialistas em esquadrinhar madeira e cascas de árvores na guilda insetívora arbórea da avifauna da Nova Zelândia. Pica-paus não ocorrem a leste da linha de Wallace; seu nicho ecológico é preenchido por outros grupos de aves que se alimentam de larvas de besouros que se desenvolvem na madeira podre. O papel ecológico do pica-pau foi assumido por duas espécies, de duas diferentes famílias, nas florestas úmidas temperadas e nas florestas de faias; uma delas era a huia e a outra o kaka.