A Universidade Federal Fluminense (UFF) é uma universidade pública federal brasileira, sediada em Niterói, no estado do Rio de Janeiro, e vinculada ao Ministério da Educação. Criada em 18 de dezembro de 1960 como Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFERJ), resultou da reunião de instituições de ensino superior já existentes no antigo estado do Rio de Janeiro. A denominação atual foi estabelecida pela Lei nº 4.831, de 5 de novembro de 1965. A sigla histórica UFERJ não deve ser confundida com UFRJ, instituição distinta, sucessora da antiga Universidade do Brasil e que adotou sua denominação atual também em 1965.
A formação da universidade reuniu escolas e faculdades com trajetórias anteriores nas áreas de Direito, Medicina, Farmácia, Odontologia, Medicina Veterinária, Engenharia, Ciências Econômicas, Filosofia, Enfermagem e Serviço Social. Entre suas instituições precursoras encontram-se a Faculdade de Farmácia e Odontologia do Estado do Rio de Janeiro e a Faculdade de Direito Teixeira de Freitas, ambas criadas em 1912.
A UFF caracteriza-se por sua estrutura territorial descentralizada. Além de seus campi e unidades em Niterói, mantém unidades acadêmicas em oito municípios do interior fluminense e uma unidade avançada em Oriximiná, no oeste do Pará. Sua presença no interior remonta à década de 1960 e foi ampliada sobretudo a partir dos anos 1990 e durante o Reuni.
Em 2025, a instituição possuía 42 unidades de ensino, docentes e técnicos-administrativos. A graduação reunia estudantes, dos quais em cursos presenciais e em cursos semipresenciais ou a distância. A pós-graduação stricto sensu contava com estudantes distribuídos em 90 programas e 144 cursos.
Além das atividades de ensino e pesquisa, fazem parte de sua estrutura o Hospital Universitário Antônio Pedro, bibliotecas, laboratórios, clínicas e hospitais-escola, a Eduff, o Centro de Artes UFF e a Orquestra Sinfônica Nacional.
História
Antecedentes do ensino superior fluminense
A formação da Universidade Federal Fluminense foi precedida por quase meio século de desenvolvimento de escolas superiores isoladas no antigo estado do Rio de Janeiro. Na primeira metade do século XX, Niterói, então capital estadual, concentrou instituições de formação profissional em áreas como saúde, direito, economia e engenharia. Algumas nasceram como estabelecimentos particulares ou estaduais e apenas posteriormente foram federalizadas; outras foram criadas já em estreita relação com o poder público fluminense. Esse conjunto heterogêneo de instituições, com patrimônios, corpos docentes e tradições próprias, formaria a base acadêmica da futura universidade.
Em 24 de fevereiro de 1912 foi fundada em Niterói a Faculdade de Farmácia e Odontologia do Estado do Rio de Janeiro, por iniciativa de médicos, farmacêuticos e dentistas. A instituição é apontada pela memória universitária como uma das primeiras experiências duradouras de ensino superior no antigo estado e surgiu em um período de expansão da formação de profissionais de saúde no país.
esquerda|miniaturadaimagem|Registro da fundação da Faculdade de Direito Teixeira de Freitas, criada no Rio de Janeiro em 1912 e posteriormente transferida para Niterói.
No mesmo ano, em 3 de junho, foi fundada na cidade do Rio de Janeiro a Faculdade de Direito Teixeira de Freitas. Mudanças na regulamentação do ensino superior dificultaram sua permanência na então capital federal, e a faculdade foi transferida para Niterói, onde passou a desempenhar papel relevante na formação da elite jurídica e política fluminense. Em 1920 foi equiparada aos institutos federais e, posteriormente, passou a denominar-se Faculdade de Direito de Niterói. A instituição foi federalizada em 1956 e deu origem à atual Faculdade de Direito da UFF.
A área médica começou a se estruturar com a Faculdade Fluminense de Medicina, fundada em 1925 e cuja aula inaugural ocorreu em 31 de maio de 1926. A faculdade utilizou, em seus primeiros anos, instalações hospitalares e materno-infantis de Niterói e ampliou progressivamente ambulatórios, laboratórios e serviços clínicos. A instituição foi federalizada em 1950, uma década antes da criação da universidade.miniaturadaimagem|264x264px|Prédio histórico da Faculdade Fluminense de Medicina, fundada em 1925 e cuja aula inaugural ocorreu em 1926; a instituição deu origem à atual Faculdade de Medicina da UFF.A Faculdade Fluminense de Medicina Veterinária surgiu em meados da década de 1930, com uma proposta associada à formação de profissionais para a produção agropecuária e o desenvolvimento rural. Em 1939 recebeu terreno desmembrado do Instituto Vital Brazil para sua sede e, em 1950, foi federalizada. A tradição de ensino prático da unidade contribuiria posteriormente para a criação de estruturas experimentais da UFF em Iguaba Grande e Cachoeiras de Macacu.
Durante as décadas de 1940 e 1950, o ensino superior de Niterói tornou-se mais diversificado. Em 1942 foi fundada a Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas de Niterói; em 1944 foi inaugurada a Escola de Enfermagem do Estado do Rio de Janeiro; e, em 1945, surgiu a Escola de Serviço Social de Niterói. Essas escolas acompanharam a expansão administrativa, urbana e sanitária do estado e formaram profissionais para áreas que ganhavam importância crescente no serviço público e na sociedade fluminense.
esquerda|miniaturadaimagem|Registro relacionado à criação da Escola Fluminense de Engenharia, fundada em 1952 e antecessora da atual Escola de Engenharia da UFF.
Em 1946 foi fundada a Faculdade Fluminense de Filosofia, concebida, entre outros objetivos, para ampliar a formação de professores no estado. Nas décadas seguintes, seus cursos de Ciências Sociais, Letras, Pedagogia, História, Geografia, Matemática e outras áreas foram reconhecidos progressivamente e constituíram a origem de vários institutos e faculdades criados após a reforma universitária da UFF.
A Escola Fluminense de Engenharia foi criada em 1952, em um contexto de urbanização e industrialização do estado do Rio de Janeiro. Iniciou atividades com Engenharia Civil e posteriormente ampliou a formação para Engenharia Elétrica, Mecânica e áreas industriais. A aproximação com o polo siderúrgico de Volta Redonda daria origem, ainda no início da década de 1960, a uma das primeiras experiências de interiorização da futura universidade.
Ao final da década de 1950, Niterói reunia, portanto, um conjunto expressivo de instituições de ensino superior, mas ainda sem uma estrutura universitária comum. A federalização de algumas escolas resolveu parte de seus problemas financeiros e administrativos, porém a fragmentação institucional permanecia e alimentava a campanha pela criação de uma universidade federal própria para o antigo estado do Rio de Janeiro.
Niterói e o movimento pela criação de uma universidade federal
miniaturadaimagem|Prédio histórico da Faculdade Fluminense de Filosofia, fundada em 1946 e posteriormente incorporada à universidade.
A campanha pela criação de uma universidade federal fluminense ganhou força durante os anos 1950. Niterói era então a capital do antigo estado do Rio de Janeiro e concentrava órgãos públicos, escolas superiores, equipamentos culturais e uma comunidade estudantil em expansão. Apesar da proximidade geográfica com a cidade do Rio de Janeiro, as duas cidades pertenciam a unidades políticas distintas, situação que se tornou ainda mais evidente com a transferência da capital federal para Brasília e a criação do Estado da Guanabara, em 1960.
Professores, dirigentes das faculdades, estudantes, parlamentares e representantes da sociedade civil participaram da mobilização. A União Fluminense dos Estudantes (UFE) defendia a federalização das escolas isoladas e uma universidade sediada em Niterói; o jornal O Fluminense promoveu debates e mesas-redondas sobre propostas para a nova instituição. Em abril de 1960, a UFE realizou um comício em defesa de uma universidade federal para o estado do Rio de Janeiro.
O movimento não se limitava à criação administrativa de uma nova universidade. Entre as demandas estavam a integração das diferentes faculdades, a ampliação do financiamento público, a construção de instalações próprias, a expansão da assistência estudantil e a criação de condições para pesquisa, pós-graduação e formação profissional em uma instituição capaz de atender tanto Niterói quanto outras regiões do estado.
Criação e primeiros anos da UFERJ
miniaturadaimagem|Durval de Almeida Batista Pereira, primeiro reitor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFERJ), atual UFF.|esquerda
A Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFERJ) foi criada pela Lei nº 3.848, de 18 de dezembro de 1960. A legislação reuniu estabelecimentos federais e agregou escolas estaduais e particulares que atuavam principalmente em Niterói, abrangendo Direito, Medicina, Farmácia, Odontologia, Medicina Veterinária, Engenharia, Ciências Econômicas, Filosofia, Enfermagem e Serviço Social.
A reunião dessas instituições não produziu imediatamente uma universidade administrativamente homogênea. A própria legislação diferenciava unidades incorporadas e agregadas, categorias que possuíam situações jurídicas distintas. Nos primeiros anos, representantes das escolas divergiram sobre temas como direito de voto no Conselho Universitário, composição dos órgãos colegiados, transferência patrimonial, enquadramento funcional e federalização definitiva das unidades estaduais e particulares.
A instalação solene da UFERJ ocorreu em 11 de abril de 1961, no Teatro Municipal de Niterói, com a presença de autoridades federais e estaduais, docentes e estudantes. Dois dias depois foi realizada a primeira reunião ordinária do Conselho Universitário, que elaborou a lista tríplice para a Reitoria. Em 26 de abril, Durval de Almeida Batista Pereira foi nomeado o primeiro reitor da universidade.
Os primeiros meses revelaram a fragilidade da nova estrutura. A Reitoria ainda não possuía sede definitiva e, inicialmente, chegou a funcionar em instalações utilizadas pelo próprio reitor. Durval Pereira buscou recursos federais, a conclusão da federalização das escolas agregadas, a construção de sedes acadêmicas e a definição de uma área para um futuro campus. Disputas sobre a legalidade da participação das unidades agregadas na escolha do reitor, entretanto, levaram à sua exoneração em julho de 1961; embora o ato tenha sido posteriormente revogado, ele não retornou ao cargo.
A instabilidade administrativa prolongou-se pelos anos seguintes. Paulo Gomes da Silva assumiu temporariamente a Reitoria e acompanhou a regularização de serviços, a elaboração do estatuto e a incorporação patrimonial das faculdades. Em 1963 foi publicado o primeiro Estatuto da universidade. Entre 1961 e 1970, seis dirigentes diferentes exerceram a Reitoria, reflexo tanto das disputas internas de uma instituição em formação quanto das mudanças políticas nacionais da década de 1960.
O movimento estudantil participou intensamente dessa fase. Estudantes já possuíam representação nos órgãos universitários e o estatuto do Diretório Central dos Estudantes foi aprovado em 1963. O DCE também esteve envolvido em campanhas pela ampliação da infraestrutura universitária, entre elas a incorporação do Hospital Antônio Pedro e a obtenção de áreas para instalações da universidade.
Em 5 de novembro de 1965, a Lei nº 4.831 alterou a denominação da instituição para Universidade Federal Fluminense (UFF). A antiga sigla UFERJ deve ser distinguida de UFRJ: a Universidade Federal do Rio de Janeiro é outra instituição, sucessora da antiga Universidade do Brasil, sediada na cidade do Rio de Janeiro.
Reforma universitária e reorganização acadêmica