A língua tuvaluana (em tuvaluano: te ggana tuuvalu, AFI: [tɛ 'ŋːa.na ˌtːuː.'va.lu]), também conhecida como eliceano, é uma língua pertencente ao ramo polinésio da família austronésia, utilizada pelo povo nativo das nove ilhas e atóis de Tuvalu, na região da Polinésia, no Oceano Pacífico.
É uma das línguas oficiais de Tuvalu, cuja população é de 10 643 habitantes, de acordo com o censo de 2022. Estima-se que haja cerca de 13 mil falantes da língua ao redor do mundo. Há uma importante comunidade tuvaluana na Nova Zelândia composta por cerca de 4 mil pessoas, das quais mais da metade é capaz de falar o idioma. No entanto, a influência crescente do inglês, particularmente entre as gerações mais jovens, gerou preocupações em relação à preservação da língua, sendo atualmente classificada como "definitivamente ameaçada" pelo Atlas Mundial das Línguas em Perigo de 2010 da UNESCO.
Existem sete dialetos diferentes do tuvaluano, cada um pertencente a um dos atóis em que a língua é nativamente falada, sendo todos mutualmente inteligíveis. Os idiomas que mais a influenciaram ao longo do tempo foram o kiribati, o samoano e o inglês, principalmente durante e após o período colonial. Uma grande ameaça à preservação do tuvaluano atualmente são as mudanças climáticas e a elevação do nível dos mares e oceanos, que comprometem a integridade territorial de Tuvalu.
Desde a extinção do "Tuvaluan Language Board" (TLB), não há um órgão regulador do idioma, que apresenta sistemas ortográficos concorrentes para a representação de consoantes geminadas e vogais alongadas, características que são fonêmicas na língua. Marcadores prepostos aos verbos indicam tempo, aspecto e modo. A ordem da frase mais comum é OVS, ainda que existam indícios de que a ordem padrão originalmente era VSO, e o alinhamento é ergativo-absolutivo.
Etimologia O termo te ggana tuuvalu é um endônimo, significando literalmente "a língua tuvaluana". Tuuvalu, por sua vez, remete a algo como "oito tradições" ou "oito ficam juntos", uma referência às oito das nove ilhas e atóis do país naturalmente habitados. Os nativos também se referem ao idioma mais frequentemente e menos formalmente como te ggana a taatou, traduzido como "a nossa língua".
Menos comumente, o termo "eliceano" pode ser utilizado, um exônimo derivado do nome que os britânicos atribuíram ao arquipélago durante o período colonial, Ilhas Ellice, quando a região fazia parte do protetorado das Ilhas Gilbert e Ellice. O capitão Arent de Peyster avistou as ilhas em 1819 enquanto navegava com o navio Rebecca, e deu ao atol de Funafuti o nome de "Ilha de Ellice", em homenagem ao político e mercador britânico Edward Ellice, dono da carga do navio.
Distribuição O tuvaluano é nativamente falado em sete das ilhas e atóis naturalmente habitados de Tuvalu, na Polinésia, no sul do Pacífico Central. Cada uma delas apresenta um dialeto distinto. Os habitantes de Nui tradicionalmente falam kiribati, o idioma do Kiribati, mas atualmente são em sua maioria fluentes também em tuvaluano e inglês. Existem cerca de 10 mil falantes da língua em Tuvalu.
Existem comunidades importantes de tuvaluanos em diversos outros países, principalmente na Nova Zelândia, com cerca de 4 mil pessoas dessa etnia, sendo que aproximadamente metade delas fala a língua. Outros importantes destinos de emigrantes tuvaluanos são Austrália, Kiribati, Fiji, Ilhas Marshall, Nauru e Estados Unidos.
Dialetos Cada uma das sete ilhas e atóis em que o tuvaluano é falado nativamente possui um dialeto próprio. Os dialetos são todos mutualmente inteligíveis e se diferenciam principalmente na fonologia (particularmente na fonologia suprassegmental) e no léxico e, em menor nível, através de morfemas gramaticais que apresentam uma forma diferente ou estão ausentes em outros dialetos. Todos os dialetos possuem essencialmente a mesma estrutura sintática.
Apesar da ausência, atualmente, de um estudo aprofundado nas variações dialetais do tuvaluano, existe uma divisão clara em duas regiões dialetais: uma agrupando Nanumea, Nanumaga e Niutao, ao norte, e outra reunindo Funafuti, Vaitupu, Nukufetau e Nukulaelae, ao sul. No norte, as falas de Nanumea e Nanumaga compartilham mais características entre si que com a fala de Niutao, enquanto no sul não há evidências de subdivisões. Os estudos das diferenças dialetais são dificultados pelos constantes contatos e interações entre os dialetos ao longo do tempo, um influenciando o outro.
Os dialetos de Funafuti e Vaitupu, muito semelhantes entre si, tornaram-se dominantes desde a primeira metade do século XX, formando juntos uma forma de língua padrão chamada pelos nativos de te ggana maasani ("a língua comum"). Funafuti é a sede do governo nacional e transmite a Radio Tuvalu, ouvida por grande parte da população, enquanto Vaitupu abriga a maior (e por muitos anos a única) escola secundária do país. O maior fluxo de migrações internas no país vai em direção a esses dois atóis e todos os falantes de tuvaluano estão, no mínimo, familiarizados com esses dois dialetos, embora os falantes dos dialetos do norte muitas vezes usem o seu próprio dialeto em contextos públicos fora das respectivas comunidades.
Línguas relacionadas O tuvaluano é uma das aproximadamente trinta línguas polinésias, que são por sua vez um ramo das austronésias oceânicas, fazendo parte do subgrupo das línguas polinésias nucleares, mais especificamente das línguas samoicas.
+Quadro comparativo entre o tuvaluano e outras línguas polinésiasPortuguêsTuvaluanoNiueanoSamoanoSikaianaTakuuHavaianocéumulhercasa
As três línguas que mais influenciaram o tuvaluano foram o kiribati, o samoano e o inglês. O contato entre o tuvaluano e o kiribati remonta ao período pré-colonial, quando muitas técnicas e tecnologias kiribatis foram assimiladas pelos tuvaluanos, e com elas parte de seu vocabulário técnico. Durante o período colonial, a administração do protetorado estava concentrada no Kiribati, fazendo desse arquipélago e de sua cultura importantes para o povo tuvaluano.
A influência do samoano deve-se principalmente à influência dos missionários cristãos que foram de Samoa a Tuvalu.
O inglês foi a última língua a exercer uma influência grande sobre o tuvaluano. Mesmo durante o período colonial, o contato entre as línguas era mínimo, já que grande parte das decisões políticas estavam centradas no Kiribati. Nesse período, formas crioulas eram usadas para se comunicar com os ingleses. A partir da independência de Tuvalu, a influência do inglês sobre o tuvaluano cresceu consideravelmente. Atualmente, existem diversos empréstimos ingleses na língua, e o inglês é ensinado nas escolas como uma segunda língua, sendo falado pela maioria dos tuvaluanos.
Diáspora tuvaluana A partir do século XX, as migrações de tuvaluanos para outras localidades em busca de oportunidades se tornou comum, principalmente para outras regiões do Pacífico. Destacam-se as comunidades tuvaluanas em Kioa e Suva, que ficam em Fiji; em Nauru, onde muitos tuvaluanos foram trabalhar nas minas de fosfato; no Kiribati, devido à aproximação causada pelo colonialismo britânico; em Apia, capital de Samoa; e em diversas localidades da Austrália. No entanto, o destino que recebeu a maior quantidade de tuvaluanos foi a Nova Zelândia, principalmente as cidades de Auckland e Wellington. Como exceção, os Estados Unidos também abrigam uma significativa comunidade tuvaluana, apesar do distanciamento geográfico.
Mudanças climáticas Além dos fatores históricos, outro importante motivo que leva tuvaluanos a migrarem para outros países atualmente são as mudanças climáticas e a elevação do nível dos mares e oceanos. Por sua constituição por atóis, Tuvalu está especialmente vulnerável a essas mudanças (a elevação média do território tuvaluano é de 2 metros acima do nível do mar). Projeções da NASA especulam que em 2050 metade do atol de Funafuti, onde a maior parte dos tuvaluanos vive, estará coberta por água.
Em 2023, o então primeiro-ministro de Tuvalu Kausea Natano e o primeiro-ministro da Austrália Anthony Albanese assinaram o primeiro acordo bilateral a se voltar para questões climáticas na história, o Tratado de Falepili, que determina, entre outras resoluções que 280 tuvaluanos poderiam migrar para a Austrália anualmente como forma de proteção aos refugiados climáticos.
Atualmente, existe um esforço por parte das autoridades e do povo tuvaluanos para que a cultura e a identidade nacionais sejam preservados em outras localidades, mesmo com a ameaça constante à integridade física do território, sendo a preservação do idioma tuvaluano uma de suas prioridades.
História História da língua Como todas as outras línguas polinésias, o tuvaluano descende de uma língua ancestral, que é referida por linguistas históricos como proto-polinésio, falada há aproximadamente 2 mil anos.
Tradições orais indicam que os primeiros habitantes do arquipélago vieram de Samoa ou de regiões próximas, o que é confirmado pela proximidade linguística dos idiomas. Não se sabe ao certo quando esse estabelecimento ocorreu, mas arqueólogos estimam que tenha sido por volta dos séculos III e IV da era cristã.
Até o começo do século XX, Tuvalu permaneceu essencialmente isolado de culturas não polinésias. Ainda que o explorador espanhol Álvaro de Mendaña de Neira tenha avistado Nui e Niulakita no século XVI, poucos navios atracaram nas ilhas do grupo antes do fim do período colonial.
Por estar fora das principais rotas de comércio e por causa de sua falta de recursos exploráveis, por muito tempo Tuvalu deixou de ser alvo do colonialismo europeu vivenciado por outras regiões do Pacífico. A história política e religiosa do grupo também contribuiu para seu isolamento.
Depois de se tornar um protetorado britânico em 1892, o grupo foi reunido junto com as Ilhas Gilbert (atualmente Kiribati) e outros grupos menores na colônia das Ilhas Gilbert e Ellice.
Durante sua história colonial, Tuvalu foi a parte negligenciada de um território por si só marginalizado. Além disso, não recebeu o fluxo de contato associado aos esforços missionários europeus e estadunidenses observados em outras localidades do Pacífico. A missionação das ilhas do grupo foi, em essência, realizada por pastores samoanos treinados pela escola da Sociedade Missionária de Londres em Malua, Samoa.
Esse processo deixou marcas profundas em muitos aspectos da sociedade tuvaluana, incluindo a língua. Até recentemente, toda a população de Tuvalu era fluente em uma variante bem “tuvaluanizada” do samoano, ainda que tivessem pouco contato com os nativos, já que era nessa língua que estavam disponíveis as Escrituras Sagradas Cristãs, base não só religiosa como também para a alfabetização.
Hoje em dia, o conhecimento do samoano está decrescendo de forma acelerada, processo que tende a se intensificar com a recente tradução de materiais religiosos para a língua tuvaluana. Ainda assim, o idioma samoano deixou uma marca perene no vocabulário e na morfologia do tuvaluano.
História da documentação A língua tuvaluana foi mencionada pela primeira vez na literatura em 1846 por Horatio Hale, um filólogo da Expedição de Exploração dos Estados Unidos. Em seu trabalho filológico, Hale apresenta uma lista de 120 palavras do dialeto Vaitupu do tuvaluano, apontando significativas semelhanças entre a língua e o toquelauano. Diversos outros trabalhos publicados no início do século XX apresentaram listas de vocabulário com extensões variadas e outras características gerais do idioma.
Ao longo do século XX, foram produzidos estudos mais detalhados a respeito da morfologia, sintaxe, léxico e variação dialetal da língua, bem como explorando aspectos da linguística antropológica e sociolinguística.