O Museu Regional de São João del-Rei é um museu histórico e artístico localizado no município de São João del-Rei, no estado de Minas Gerais. Instalado em um casarão urbano do século XIX, o acervo do museu é constituído por objetos do cotidiano da região dos séculos XVIII, XIX e início do XX.

O edifício que abriga o museu, inicialmente, pertenceu ao comendador João Antônio da Silva Mourão (1806–1866), importante comerciante local no século XIX.

Edifício O edifício do Museu Regional de São João del-Rei foi construído em 1859, no então Largo do Tamandaré, localizado no atual centro histórico da cidade. O casarão possui três pavimentos corridos e seu estilo arquitetônico recebeu influência da Corte Imperial, recorrente em casarões das famílias sanjoanenses mais abastadas daquela época. Isso se deu, possivelmente pela proximidade de São João Del-Rei com a cidade do Rio de Janeiro, sede da Corte. Por isso, muitos a denominam como Arquitetura Imperial, sendo integrante da casa corrente luso-brasileira cuja variação formal é a de sobrado oitocentista, apresentando sobrados de grande volumetria, largas fachadas, pés-direitos altos (20 palmos no térreo; 19, no primeiro pavimento e 18 no segundo), presença de 3 pavimentos corridos, ou de 2 pavimentos com um terceiro andar em forma de torreão, incorporação em sua fachada de ornamentos neoclássicos ou ecléticos, como: o arco pleno, pilastras com embasamento e capitel, frisos, cilhas de perfil recortado ou beiras-seveiras, os estuques ornamentais, sobrevergas de várias camadas, balcões em ferro batido ou fundidos com brasões e armas de família, entre outras característicasMARTINS, Régis. A casa Corrente luso-brasileira em Minas Gerais: Releitura sobre a casa urbana das regiões de Vila Rica e do Rio das Mortes (Séculos XVII e XIX). 2021.Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) - Escola de Arquitetura, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2021. .

Sua fachada apresenta elementos do barroco tardio, do rococó e do neoclassicismo, configurando um exemplar representativo da arquitetura civil mineira. A fachada frontal tem grande destaque na edificação, não apenas por causa da grande volumetria da edificação, mas também por se encontrar voltada para a Praça Severiano Resende, se estendendo pelas duas esquinas laterais. Além disso, em relação às outras fachadas, ela apresenta mais ornamentos em estuque como: motivos fitomórficos, cunhais apainelados, frisos decorados, capitel coríntio, guarda-corpos com ornamentos de ferro e o nome do comendador. No passado, também havia a data de construção da edificação, mas esta foi removida na reconstrução de 1946/1947.

Como era comum nos sobrados da época, a construção foi concebida para abrigar simultaneamente a residência da família Mourão, nos andares superiores, e o comércio do proprietário, no andar térreo. Na divisão funcional da casa, o térreo frontal era destinado ao comércio e no centro ficavam os escritórios; nos fundos eram acomodados os escravos, no pátio externo ficavam os animais e o acesso era feito por meio de um salão; a lateral direita térrea era utilizada para o abastecimento da casa e usada como área de serviço, constituindo-se de casinha da latrina, um cômodo com um poço e uma escada que conduzia à cozinha; a porta principal da residência dava para a antiga Rua do Comércio, sendo possível o acesso ao primeiro andar por uma escada. Os dois pavimentos superiores se tratavam da residência do Comendador, sendo que o segundo pavimento (1º andar) se dividia em setor social e íntimo familiar. O setor social se constituía de: um vestíbulo, uma sala de visitas aberta para a praça, saleta para oratório, sala de jantar, saleta para louças e porcelanas, cozinha e despensa. A cozinha ficava fora do retângulo da casa, mas mantinha uma comunicação fácil com a sala de jantar. O setor íntimo se constituía de: quartos e alcovas. No último pavimento (2º andar), encontravam-se a parte mais íntima da casa com aposentos de dimensões maiores, um vestíbulo, uma saleta e um salão para convivência das mulheres e crianças. Possivelmente era neste andar onde se encontravam os aposentos do Comendador. Por causa do inventário do Comendador, presume-se que deveria haver alguma sala para entretenimento por causa da presença de um piano, estante de música e uma mesa de jogos. Percebe-se que o prédio era organizado verticalmente em torno da escadaMUSEU REGIONAL DE SÃO JOÃO DEL-REI. Museu Regional de São João Del-Rei. São João Del-Rei, 2021 .

O edifício foi tombado pelo IPHAN em 1946, como parte do conjunto urbano histórico de São João del-Rei.

História Em 1866, O Comendador João Mourão falece e após a sua morte, seus herdeiros continuaram a residir no sobrado. Entretanto, ao longo dos anos, com os casamentos e saídas dos filhos, os herdeiros decidem alugá-la até que em 1926, Galdino Mourão de Araújo, neto do comendador, vende a casa para o Coronel Felisbino de Rezende.

Em 1943, a herdeira do Coronel Felisbino de Rezende, Maria Resende Mafra,  consultou a Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DPHAN) para saber se poderia demolir o casarão para construir um empreendimento no local. O DPHAN negou o pedido de demolição, mas se dispôs a ajudá-la em obras de reforma interna da edificação para aproveitamento econômico. Contrariada com a decisão, em 1944, os proprietários solicitaram à Presidência da República o cancelamento do processo de tombamento o que também foi recusado. Com isso, Maria Rezende Mafra enviou ao DPHAN um estudo realizado por um engenheiro propondo alterações internas a fim de que a edificação fosse destinada a se tornar um hotel. Nos dois anos que se seguiram, tanto os proprietários quanto a Prefeitura somaram forças para dificultar o processo de tombamento. A sra. Maria Rezende chegou a transformar o local em um abrigo para leprosos e tuberculosos e a Prefeitura por sua vez, omitia informações sobre a venda da edificação e sua progressiva degradação.

Assim, em março de 1946, os proprietários se cansaram das batalhas judiciais e decidiram vender a edificação para a Companhia Interestadual de Melhoramentos e Obras S.A. (CIMOSA). Em entendimento com a Prefeitura de São João Del-Rei, a Companhia pretendia demolir o prédio, construir no local um edifício de 12 andares e um terminal rodoviário na Praça do Tamandaré. O diretor do DPHAN da época, Rodrigo de Mello Franco de Andrade interveio pessoalmente para evitar a demolição do casarão, o que afetaria não apenas a edificação do século XIX, mas também a paisagem da cidade. Simultaneamente, a CIMOSA prosseguia com a demolição gradual do sobrado e a imprensa local intensificava a ideia de que o casarão não tinha valor arquitetônico, artístico ou histórico e que a existência dele em um local tão central na cidade, atrapalhava o desenvolvimento de São João Del-Rei.

Em junho de 1946, a bancada UDENISTA mineira encaminhou à Assembleia Nacional Constituinte um requerimento para a criação de um museu em São João Del-Rei, com o DPHAN executando a proposta e tendo o sobrado como o local que sediaria esse museu.  A população da cidade aceitava a ideia de haver um museu, mas não na antiga casa do Comendador, que já se encontrava em processo de demolição. Mesmo surgindo a contraproposta de que o museu fosse sediado na casa onde viveu Bárbara Heliodora e, também, o avançado processo gradual de demolição do casarão realizado pela CIMOSA, o DPHAN deu início ao processo de tombamento individual da edificação. A CIMOSA para não perder o investimento que havia feito ofereceu a edificação ao DPHAN por um valor alto que não foi aceito e o DPHAN concedeu o tombamento do Casarão do Comendador em 1º de agosto de 1946. A atitude da CIMOSA foi recorrer ao Supremo Tribunal Federal para reverter a situação. Entretanto, os juízes entenderam que não deveriam entrar no julgamento de mérito de um assunto considerado muito técnico, por eles. Quem coube o papel de julgar e avaliar o conflito foi Afonso Arinos que esteve na cidade de São João Del-Rei a fim de estudar o caso. No final, o jurista deu o seu veredito a favor do DPHAN, afirmando que os opositores ao tombamento tentaram contrariar e fraudar as leis vigentes, assim, se pôs favorável ao tombamento da edificação.

A controvérsia em torno de sua preservação chegou ao então presidente da República, Eurico Gaspar Dutra, que desapropriou o Casarão do Comendador e o manteve para fins de utilidade pública. Assim, o DPHAN pôde dar início à recuperação da edificação em 1946. As obras foram concluídas em 1954, mas durante esse tempo, o DPHAN ainda travava batalhas com a CIMOSA, que não aceitava o tombamento, com consequente perda de seus investimentos. Mesmo se beneficiando de apoio de alguns políticos, o tombamento não foi revogado e a reconstrução das partes danificadas da edificação prosseguiu.  

Entre os anos de 1952 e 1958, o DPHAN buscou adquirir peças do acervo para o futuro museu. A inauguração oficial do Museu Regional de São João Del-Rei aconteceu em 1963, mas ele já tinha sido parcialmente aberto à visitação em 1958. Atualmente, o seu acervo é composto de 484 peças organizadas em coleções que retratam o cotidiano dos mineiros nos séculos XVIII e XIX. Além de visitas para conhecer o acervo, o museu também é usado como espaço para eventos culturais e educativos. Desde então, o prédio passou por diferentes intervenções de conservação e restauração, incluindo projetos recentes de requalificação de seus espaços internos.

Acervo O acervo do Museu Regional de São João del-Rei foi constituído principalmente entre 1956 e 1963 e reúne objetos representativos da vida cotidiana, cultural e religiosa da cidade entre os séculos XVII e XX.

Entre os itens preservados encontram-se mobiliário doméstico, documentos, instrumentos musicais, pinturas, imagens sacras, utensílios de uso cotidiano e objetos relacionados às práticas comerciais e aos meios de transporte. A disposição do acervo respeita, em parte, a organização original do edifício: nos pavimentos inferiores, são apresentados objetos ligados ao comércio da antiga loja de secos e molhados; nos pavimentos superiores, predominam peças relacionadas à vida privada e doméstica dos antigos proprietários.

Importância cultural O Museu Regional de São João del-Rei desempenha papel central na preservação da memória histórica da cidade, articulando patrimônio edificado e cultura material. Sua atuação contribui para a compreensão dos processos de transformação urbana, econômica e social ocorridos em São João del-Rei ao longo do século XIX e início do século XX.

Como unidade vinculada ao Instituto Brasileiro de Museus, o museu integra as políticas públicas federais de preservação e difusão do patrimônio cultural brasileiro.

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