Demência vascular (DV) refere-se a qualquer demência na qual a principal causa foi uma doença vascular encefálica. É o segundo tipo mais comum no Brasil, estando atrás do Alzheimer, e afeta cerca de 30% dos idosos com mais de 85 anos, com maior frequência em indivíduos do sexo masculino.
Geralmente resulta de grandes lesões causadas por um coágulo, impedindo a circulação normal do fluxo sanguíneo no cérebro (acidente vascular cerebral isquêmico). Se caso o coágulo resulte de uma arritmia cardíaca a demência será classificada como demência por infartos múltiplos neste caso.Jerusa Smid, Ricardo Nitrini, Valéria S. Bahia e Paulo Caramelli.(2001)CARACTERIZAÇÃO CLÍNICA DA DEMÊNCIA VASCULAR - Avaliação retrospectiva de uma amostra de pacientes ambulatoriais |journal=Arq Neuropsiquiatr |volume=59 |issue=2B|pages=390-393|year=2001 |url = http://www.scielo.br/pdf/anp/v59n2B/a15v592b.pdf}}
Prevalência thumb|A prevalência média de demência, acima dos 65 anos de idade, variou entre 2,2% na África, 5,5% na Ásia, 6,4% na América do Norte, 7,1% na América do Sul e 9,4% na Europa.Marcos A. Lopes, Cássio M.C. Bottino. PREVALÊNCIA DE DEMÊNCIA EM DIVERSAS REGIÕES DO MUNDO. Análise dos estudos epidemiológicos de 1994 a 2000. Arq Neuropsiquiatr 2002;60(1):61-69
Esta é a principal causa de demência em alguns países orientais. No Brasil é sub-diagnosticada quando se comparada com outros países em desenvolvimento. No caso de países desenvolvidos e com alta expectativa de vida, o risco de desenvolver este tipo de demência é de 29,8% em homens e de 25,1% em mulheres.Hagnell O, Ojesjo L, Rorsman B. Incidence of dementia in the Lundby study. Neuroepidemiology 1992;11(Suppl 1):61-66. Como é provável que em 2025, o Brasil se torne o 6º país com mais idosos no mundo é importante começar o trabalho preventivo o mais cedo possível.
O número de vítimas aumenta exponencialmente com a idade, afetando apenas 1,1% dos idosos entre os 65 aos 70 anos e mais de 65% dos idosos com 100 anos.
A média da população brasileira acima dos 65 anos era de 7,1% em 1998.Herrera E Jr, Caramelli P, Nitrini R. Estudo epidemiológico populacional de demência na cidade de Catanduva - Estado de São Paulo - Brasil. Rev Psiquiatria Clin 1998;25:70-73.
Causas
Dentre as principais causas estão:Charles André. Demência vascular: dificuldades diagnósticas e tratamento. Arq. Neuro-Psiquiatr. [online]. 1998, vol.56, n.3A [cited 2011-03-02], pp. 498-510 . Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-282X1998000300025&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0004-282X. doi: 10.1590/S0004-282X1998000300025. Múltiplas lesões por embolia cerebral (AVC isquêmico) Única lesão em territórios estratégicos (como tálamo ou giro angular esquerdo) Síndrome lacunar Alterações crônicas da circulação cerebral Lesões extensas da substância branca (como por doença de Binswanger ou Leucoaraiose) Angiopatia amiloide cerebral (AAC) AVC hemorrágico
São considerados fatores de risco a hipertensão arterial sistêmica (HAS), diabetes mellitus (DM), tabagismo, alcoolismo, doença cardíaca, aterosclerose, dislipidemia e obesidade. A DV é mais comum no sexo masculino, de raça negra ou mulata e com baixa escolaridade.Nyenhuis DL, Gorelick PB. Vascular dementia: a contemporary review of epidemiology, diagnosis, prevention, and treatment. J Am Geriatr Soc 1998;46:1437-1448.
Diagnóstico
O diagnóstico de DV é feito com base no quadro clínico e em exames complementares de neuroimagem, podendo ser auxiliado pelo emprego de escalas específicas (como a escala de Hachinski e a escala Rose por exemplo). Seus principais diagnósticos diferenciais são outras demências porém existem evidências que indicam a possibilidade dela ocorrer simultaneamente ao Alzheimer.Erkinjuntti T. Differential diagnosis between Alzheimer’s disease and vascular dementia: evaluation of common clinical methods. Acta Neurol Scand 1987;76:433-442.
Para o diagnóstico DSM-IV os critérios são: Evidências de lesão cerebrovascular; Prejuízos sociais e ocupacionais significativos; Prejuízos na memória; Afasia (distúrbio de linguagem); Apraxia (dificuldade em executar tarefas); Agnosia (dificuldade em reconhecer objetos) e Dificuldade de planejamento, organização, sequênciamente e/ou abstração. E esses sintomas não podem ocorrer exclusivamente durante delírios
Tratamento
O tratamento eficaz da DV deve incluir: Prevenção de novas lesões cerebrovasculares por exemplo usando anti-hipertensivos e antitrobóticos quando necessário; Intervenções farmacológicas para neuroproteção, ativação cerebral, tratar as manifestações psiquiátricas e retirar medicamentos que causem efeitos mais prejudiciais que benéficos. (especialmente os hipotensores e os que causem declínio cognitivo); Adequação do ambiente para as dificuldades do idoso e Mobilização da família e dos cuidadores.
Os tratamentos medicamentosos podem diminuir e estabilizar o processo de deterioração cognitiva dos pacientes com DV. Em um acompanhamento de 5 anos, 6% dos pacientes tiveram seus déficits cognitivos e alterações do humor revertidos e 40% se mantiveram independentes.Lechner H, Schmidt R, Goetz B. Long-term experience of a trial in multi-infarct dementia. Neuroepidemiology 1990;9:228-232.
Como existe alta frequência de depressão, perturbações comportamentais e transtornos de ansiedade associados as demências o acompanhamento psicoterapêutico para pacientes e familiares pode ajudar muito a melhorar a qualidade de vida da família. Esse acompanhamento geralmente inclui exercícios cognitivos, grupos de apoio, instrução para as principais dificuldades e acompanhamento regular do comprometimento cognitivo através de testes psicológicos.
Categoria:Neurologia Categoria:Psiquiatria V