thumb|350px| Circuncisão de Jesus. Por Giovanni Bellini, atualmente na National Gallery
A Controvérsia da circuncisão foi uma disputa ocorrida nos primeiros anos do Cristianismo e que tratava da adoção das leis judaicas pelo crescente número de novos cristãos que eram incorporados à nascente Igreja. O primeiro concílio cristão realizado em Jerusalém,Uma descrição pode ser encontrada nos Atos dos Apóstolos, e seguintes. realizado aproximadamente em , decretou que a circuncisão não era um requisito para os gentios convertidos. Isto ficou conhecido como Decreto Apostólico: "Para acalmar o clamor dos convertidos do Farisaísmo que exigiam que os convertido 'deveriam ser circuncisados e ordenados a observarem a Lei de Moisés"', o assunto foi discutido numa reunião pública... Por decreto dos apóstolos, a causa cristã venceu contra os obtusos judaizantes e se abriu o caminho para a conversão das nações. A vitória foi enfatizada pela recusa de Paulo de autorizar a circuncisão de Tito, mesmo que fosse como uma pura concessão aos extremistas ()</ref> e pode ter sido o primeiro ato de divisão entre o Cristianismo primitivo e o Judaísmo.: "De acordo com os ensinamentos rabínicos, que dominaram mesmo durante a existência do Templo (Pes. viii. 8), Batismo, seguido de circuncisão e sacrifício, era uma condição absolutamente necessária para que se completasse a conversão para o Judaísmo (Yeb. 46b, 47b; Ker. 9a; 'Ab. Zarah 57a; Shab. 135a; Yer. Kid. iii. 14, 64d). Circuncisão, porém, era muito mais importante e, como o batismo, era chamada de "selo" (Schlatter, "Die Kirche Jerusalems," 1898, p. 70). Mas como a circuncisão era descartada pelos cristãos e os sacrifícios tinham cessado, o batismo permaneceu como a única condição de iniciação na vida religiosa. A próxima cerimônia, adotada logo depois das outras, foi a imposição das mãos, que, sabe-se, era o costume dos judeus na ordenação de um rabino. Unção com óleo, que primeiro era acompanhada pelo batismo, e era análoga à unção dos padres entre os judeus, não era uma condição necessária." Mais ou menos na mesma época, o Judaísmo rabínico tornou o requerimento da circuncisão para os garotos ainda mais rígido."peri'ah", (Shab. xxx. 6)
De acordo com a Enciclopédia Colúmbia, "a decisão de que os cristãos não deveriam praticar a circuncisão está relatada em Atos 15, mas nunca houve, porém, uma proibição do ato e ele é ainda hoje praticado pelos cristãos coptas".
Cenário judaico Há inúmeras referências na Bíblia judaica à obrigação da circuncisão entre os judeus. Por exemplo, Levítico diz:
E os não-circuncidados deverão ser separados do povo judeu, conforme o Gênesis:
De acordo com a Enciclopédia Judaica (artigo sobre a Circuncisão):
Circuncisão de Jesus
thumb| esquerda|180px|Circuncisão de Jesus.Peça de altar de 1480, Mengen, Brabante.
De acordo com o Evangelho segundo Lucas, Jesus foi circuncidado oito dias depois do seu nascimento, de acordo com a Lei Mosaica. Essa menção é considerada demasiado curta por estudiosos, particularmente quando comparada com a descrição muito mais completa dada por Paulo sobre a sua própria circuncisão no terceiro capítulo de sua Epístola aos Filipenses.
Este fato levou teólogos como Friedrich Schleiermacher e David Strauss a especular que o autor do Evangelho segundo Lucas pode ter assumido que a circuncisão seria um fato histórico ou pode estar relatando-o através das lembranças de um terceiro."O contraste, porém, entre a amplitude de detalhes com que este ponto está elaborado e detalhado na vida do Batista, e a esterilidade com que está relatado em relação a Jesus, é surpreendente e pode justificar uma concordância com a afirmação de Schleiermacher, que aqui, pelo menos, o autor do primeiro capítulo não é mais o originador da história." - Strauss, 217 Além do relato canônico no Evangelho segundo Lucas, o apócrifo Evangelho Árabe da Infância contém uma referência à sobrevivência do prepúcio cortado de Jesus."The Lost Books of the Bible," New York: Bell Publishing Company, 1979
Como tema, a "circuncisão de Cristo" era extremamente rara na arte cristã do primeiro milênio e parece não haver nenhum exemplo sobrevivente até muito próximo do fim do período, embora as fontes literárias transpareçam que ele era de fato por vezes representado.Schiller, 89 Uma das primeiras representações a sobreviver é uma miniatura num importante manuscrito bizantino de 979 - 984, o "Menológio de Basílio II", atualmente na Biblioteca Vaticana. Ele contém uma cena que mostra Maria e José segurando o menino Jesus do lado de fora de um edifício, provavelmente o Templo de Jerusalém, enquanto um sacerdote vem em direção deles com uma pequena faca nas mãos.Schiller, 88-89, and plate 225 Isto é típico das primeiras representações, que evitavam mostrar a operação em si. No tempo de Jesus, a prática real judaica era a de realizar a operação em casa, usualmente pelas mãos do pai da criança.Schiller, 89; Penny, 116
A circuncisão de Jesus foi tradicionalmente apontada como a primeira vez que o "sangue de Cristo" foi derramado, e, portanto, seria o início do processo de redenção da humanidade. A circunsição também significaria que Cristo era humano, e obediente à lei bíblica.Penny, 116-117 Teologos da Idade Média e da Renascença repetindo apontariam essa ocorrência, enxergando o sofrimento de Jesus durante a circunsição como um prenúncio da Paixão.Glick, 93-96
Controvérsia da circuncisão Disputas sobre a Lei Mosaica geraram intensa controvérsia durante o Cristianismo primitivo. Isto é particularmente notável no , quando a controvérsia da circuncisão veio à tona. Alister McGrath, um proponente da paleo-ortodoxia, alega que muitos dos judeu-cristãos eram judeus praticantes e religiosos, cuja única diferença era que acreditavam que Jesus era o Messias.: "De fato, eles [os judeo-cristãos] pareciam ter no cristianismo as confirmações de todos os aspectos do Judaísmo contemporâneo, com o acréscimo de uma crença extra — que Jesus era o Messias. A menos que os homens fossem circuncidados, não poderiam ser salvos." (Atos 15:1) Todos na comunidade cristã que insistiam que a lei bíblica, inclusive as referentes à circuncisão, continuavam a se aplicar aos cristãos eram pejorativamente chamados de judaizantes por seus adversários e criticados por serem elitistas e legalistas, além de outros pecados.<ref>: "De fato, eles [os judeo-cristãos] pareciam ter no cristianismo as confirmações de todos os aspectos do Judaísmo contemporâneo, com o acréscimo de uma crença extra — que Jesus era o Messias. A menos que os homens fossem circuncidados, não poderiam ser salvos." (Atos 15:1): "Paulo nota a emergência de um partido judaizante na região — ou seja, um grupo dentre da igreja que insistia que os crentes gentios deveriam obedecer a todos os aspectos da Lei de Moisés, incluindo a necessidade de ser circuncidado. De acordo com Paulo [cuja referência é feita em Gálatas, mas nenhum verso específico é dado], a grande força por trás deste grupo era Tiago... o irmão de Jesus..."
Concílio de Jerusalém
thumb|150px|Ícone de Tiago, o Justo, que emitiu o "Decreto Apostólico" no Concílio de Jerusalém, ca. 50
O Concílio de Jerusalém, citado em Atos 15, ocorreu por volta de 50 e foi o primeiro grande encontro da igreja antiga chamado para considerar sobre a aplicação de Lei Mosaica na nova comunidade. Especificamente, ele teve que considerar se os novos gentios convertidos ao Cristianismo deveriam ser obrigados a passar por uma circuncisão para que fossem completamente aceitos na comunidade cristã, ainda que estivesse perfeitamente cônscio de que o assunto tinha amplas implicações, uma vez que a circuncisão era o sinal duradouro da Aliança de Abraão. A cultura judaica ainda estava tentando encontrar seu espaço em meio à dominante cultura helenística, que considerava a circuncisão repulsiva.: "O contato com a vida grega, especialmente os jogos na arena [que envolviam nudez], fizeram com que a distinção ficasse óbvia para os helenistas, ou anti-nacionalistas; e a consequência foi a tentativa de parecer cada vez mais com os gregos por epispasmo ('cobrir a marca de sua circuncisão'); I Macc. i. 15; Josephus, "Ant." xii. 5, § 1; Assumptio Mosis, viii.; I Cor. vii. 18; , Tosef., Shab. xv. 9; Yeb. 72a, b; Yer. Peah i. 16b; Yeb. viii. 9a). E, acima de tudo, os judeus observantes desafiaram o édito de Antíoco IV Epifânio proibindo a circuncisão (I Macc. i. 48, 60; ii. 46); e as mulheres judias mostravam sua lealdade à Lei, mesmo sob risco de vida, circuncidando elas mesmas seus filhos.";
Naquele tempo, a comunidade cristã se considerava parte de uma comunidade judaica mais ampla, com a maior parte dos líderes da Igreja sendo judeus ou prosélitos judeus.
A decisão do Concílio veio a ser chamada de "Decreto Apostólico" e era que a maior parte da Lei Mosaica,A Lei judaica, ou Halakha, foi formalizada depois. Veja : "Jesus, porém, não parece ter levando em consideração o fato de que a Halakah estava ainda se cristalizando, e que muita variação existia ainda sobre a forma definitiva; as disputas de Bet Hillel e Bet Sammai estavam ocorrendo nesta mesma época de maturação." incluindo o requerimento de circuncisão dos meninos, não seria mais obrigatória para os convertidos gentios, possivelmente com o objetivo de tornar mais fácil para eles se unirem ao movimento. Porém, o Concílio de fato manteve as proibições alimentares contra Sangue, ou carne de animais que não foram mortos da maneira correta, ou contra a "fornicação" e a idolatria.O comentário sobre o cânon II do Concílio de Gangra de Karl Josef von Hefele relata que:"Podemos ainda ver que, na época do Concílio de Gangra, a regra do sínodo apostólico com respeito ao sangue e coisas estranguladas ainda valia. Com os gregos, de fato, ela continuou sempre valendo como as Euchologies deles ainda mostram. Balsamon também, o famoso comentarista de cânones da Idade Média, em seu comentário sobre o sexagésimo-terceiro cânone apostólico, expressamente acusa os latinos por eles terem cessado de observar este mandamento. Porém, o que a igreja latina pensava sobre este assunto em 400 é demonstrado por Santo Agostinho em sua obra Contra Faustum, onde ele afirma que os apóstolos foram ordenados a juntar todos os pagãos e judeus em uma mesma arca de Noé; mas então, quando a barreira entre judeus e convertidos gentios caiu, o mandamento sobre estrangulamento ou sangue perdeu seu sentido e foi apenas observado por uns poucos. Ainda assim, tão tarde quanto o , o Papa Gregório III 731 proibiu comer o sangue ou coisas estranguladas sob pena de quarenta dias. Ninguém pretenderá que os atos disciplinares de nenhum concílio, ainda que um Concílio Ecumênico sobre o qual não haja disputa, pode ser maior ou de força mais imutável que este decreto do primeiro concílio, realizado pelos santos apóstolos em Jerusalém, e o fato de que o seu decreto se tornou obsoleto por séculos no ocidente é prova de que mesmo os Concílios Ecumênicos podem ser de utilidade apenas temporária e que eles podem ser repelidos pelo desuso, como outras leis." Começando com Santo Agostinho,Contra Faust, 32.13 muitos viram uma conexão com as Leis de Noé, enquanto que alguns estudiosos modernosPor exemplo: rejeitam esta conexão e, ao invés disso, veem Levítico 17-18 como base. Veja também Levítico 18. Na realidade, porém, a Igreja de Jerusalém criou um duplo padrão: um para os judeo-cristãos e outros para os convertidos gentios.