O Templo de Eshmun () é um antigo local de culto religioso dedicado a Eshmun, o deus da cura fenício. Localiza-se próximo ao rio Awali, a dois quilômetros de Sidom, no sudoeste do Líbano. O sítio foi ocupado do ao , o que sugere uma relação integrada com a cidade vizinha. Embora tenha sido construído originalmente pelo rei sidônio , durante o período aquemênida (por volta de 529-) para comemorar a recuperação da antiga glória e riqueza da cidade, o complexo do templo foi expandido enormemente por Bodashtart, Yatanmilk e pelos monarcas que lhes sucederam. Devido aos trabalhos de reforma e expansão realizados ao longo dos séculos, e que abrangeram períodos que alternaram independência e hegemonia estrangeira, o santuário apresenta uma rica gama de estilos e influências arquitetônicas e decorativas.
O santuário consiste de uma esplanada e um grande pátio limitado por uma imensa muralha de calcário sob um pódio monumental, sobre o qual se encontrava o templo em si, em mármore, no estilo greco-persa. Conta com uma série de tanques para purificações rituais (abluções) que eram enchidos com água desviada do rio Asclépio (atual Awali) e da fonte sagrada de "Ydll"Os fenícios não grafavam vogais em seu idioma, ao menos até que os cartaginenses acrescentaram, de maneira engenhosa, um sistema de matres lectionis; por este motivo a inscrição fenícia "Ydll" costuma ser transcrita de diversas maneiras (Yidlal, Yadlol, etc.). Franz L. Benz (1982). Personal Names in the Phoenician and Punic Inscriptions. Pontificio Istituto Biblico. p.199, ISBN 887653427X, 9788876534270. estas instalações eram usadas para propósitos terapêuticos e purificatórios, característicos do culto de Eshmun. No sítio arqueológico do santuário foram encontrados diversos artefatos valiosos, especialmente aqueles que estão inscritos com textos fenícios e, assim, fornecem um panorama valioso da história tanto do sítio em si como da antiga Sidom.
O Templo de Eshmun entrou em declínio e foi esquecido quando o cristianismo substituiu o paganismo, e seus grandes blocos de calcário foram usados para construir outras estruturas na região. Suas ruínas foram redescobertas em 1900 por caçadores de tesouro locais, que despertaram a curiosidade de estudiosos ao redor do mundo. Maurice Dunand, um arqueólogo francês, escavou o sítio de 1963 até o início da Guerra Civil Libanesa, em 1975. Após a retirada voluntária das tropas de Israel do sul do Líbano, o sítio foi reexplorado e passou a integrar a lista de candidatos a Patrimônio Mundial da UNESCO.
Eshmun
Eshmun era o deus fenício da cura e da renovação da vida; era uma das divindades mais importantes do panteão fenício, e a principal divindade masculina de Sidom. Originalmente uma deidade da natureza, deus da vegetação da primavera, Eshmun se tornou equivalente à divindade babilônia Tamuz. Seu papel foi expandido, posteriormente, dentro do panteão fenício, e ele ganhou atributos celestiais e cósmicos.
O mito de Esmun foi narrado pelo filósofo neoplatônico sírio Damáscio e por Fócio, Patriarca Ecumênico de Constantinopla do Ambos narraram que Eshmun, um jovem natural de Beirute, estava caçando nos bosques da região quando Astarte o viu e ficou fascinada por sua beleza. Após se ver perseguido pelas investidas amorosas da deusa, ele acabou por emascular-se com um machado e morrendo. Em luto a deusa o reviveu e o transportou aos céus, onde a transformou num deus urânico.Damáscio, Vida de Isidoro e Fócio, Bibliotheca Codex 242
De uma perspectiva histórica, a primeira menção escrita feita a Eshmun data de , data da assinatura do tratado entre o rei assírio Assurnirari V e Mati'el, rei de Arpad; Eshmun aparece no texto como padroeiro do tratado. Eshmun foi identificado como Asclépio como resultado da influência helenística sobre a Fenícia; a evidência mais antiga desta equivalência é mostrada em moedas de Amrit e Acre do , e o fato é exemplificado pelos nomes helenizados do rio Awali (chamado de Asclépio Flúvio) e dos bosques em torno do templo, conhecidos como "bosques de Asclépio".
História Contexto histórico No , o rei assírio conquistou a cadeia de montanhas do Líbano e suas cidades litorâneas. Os novos soberanos então passaram a exigir de Sidom e das outras cidades fenícias o pagamento de tributos. Estes pagamentos estimularam a procura de Sidom por novos meios de arrecadação de fundos, e estimularam a migração e expansão fenícia, que atingiu seu auge no Quando o rei assírio morreu em , o rei sidônio Luli juntou forças com o Egito e o Reino de Judá numa rebelião malsucedida contra o domínio assírio, porém foi obrigado a fugir para Cítio (atual Lárnaca, no Chipre) com a chegada do exército assírio, comandado por Senaqueribe, filho e sucessor de Sargão II. Senaqueribe colocou Ittobaal no trono de Sidom e voltou a cobrar o tributo anual. Quando Abdi-Milkutti subiu ao trono, em 680, também se revoltou contra os assírios. Como resposta, o rei assírio Assaradão sitiou a cidade. Abdi-Milkutti foi capturado e decapitado em , após um cerco de três anos, enquanto a cidade foi destruída e renomeada Kar-Ashur-aha-iddina ("o porto de Assaradão"). Sidom perdeu seu território, que foi concedido a Baal I, rei da sua cidade rival, Tiro, cujos governantes eram vassalos leais de Assaradão. Baal I e Assaradão assinaram em 675 um tratado no qual o nome de Eshmun figura como uma das divindades invocadas como guardiãs do pacto.O nome de Eshmun é transcrito em acadiano como "Ia-su-mu-nu" no tratado de Assaradão.
Construção Sidom retornou ao seu nível anterior de prosperidade enquanto Tiro foi sitiada por 13 anos (586–) pelo rei caldeu Nabucodonosor II. Ainda assim, o rei sidônio ainda estava exilado na corte da Babilônia. Sidom conquistou sua antiga posição como principal cidade fenícia durante o período aquemênida (entre 529 e ). Durante este período, Xerxes I concedeu a planície de SaromTerritório ao sul de Sidom, do Monte Carmel a Jafa. ao rei , por ter utilizado a frota de Sidom durante as Guerras Greco-Persas. Esmunazar II mostrou sua nova riqueza construindo diversos templos às divindades sidônias. Inscrições encontradas no sarcófago do rei mostram que ele e sua mãe, Amashtarte, foram responsáveis diretos pela construção de diversos templos aos deuses de Sidom, incluindo o Templo de Eshmun, ao lado da "fonte de Ydll, próximo à cisterna".
Como atestam duas séries de inscrições encontradas nos alicerces da estrutura monumental, a construção do pódio do santuário não foi iniciada até o reinado do rei Bodashtart. O primeiro grupo de inscrições traz apenas o nome de Bodashtart, enquanto o segundo contém o seu nome e o do príncipe herdeiro Yatanmilk. Uma inscrição fenícia localizada a três quilômetros do tempo rio acima, e que data do 14.º ano do reinado de Bodashtart, alude a obras de adução de água partir do rio Awali (Asclépio) até a fonte "Ydll", que era utilizada para as abluções no templo.
Declínio O primeiro grande golpe a atingir o santuário de Eshmun foi um terremoto ocorrido no , que demoliu o templo de mármore existente sobre o pódio; esta estrutura nunca foi reconstruída, porém posteriormente diversas capelas e templos menores foram construídos, anexos às base deste mesmo pódio. O sítio do templo continuou a ser um ponto de peregrinação do mundo antigo até o advento do cristianismo, quando o culto de Eshmun foi banido e uma igreja cristã foi erguida sobre o local, ocupando o espaço que ia da rua romana até o pódio. Resquícios e pisos com mosaicos da igreja bizantina ainda podem ser vistos no local. Outro terremoto atingiu Sidom por volta de 570; Antonino de Placência, um peregrino cristão italiano, descreveu a cidade então como parcialmente em ruínas. Por anos após o desaparecimento do culto de Eshmun o local foi usado como pedreira, e o emir usou seus enormes blocos para construir uma ponte sobre o rio Awali, no . A partir de então, o sítio caiu em completo esquecimento.
Redescoberta moderna thumb|left|300px|Inscrição fenícia do rei Bodashtart descoberta no pódio do Templo de Eshmun. Bustam el-Xeique, Sidom,
Entre 1737 e 1742 Richard Pococke, um antropólogo inglês, excursionou o Oriente Médio e escreveu a respeito do que então acreditou serem muralhas defensivas construídas com blocos de pedra de 3,7 metros, próxima ao rio Awali. Quando o orientalista francês Ernest Renan visitou a região, em 1860, ele percebeu que os pontos de apoio da ponte sobre o Awali haviam sido construídos com blocos finamente rusticados, originários de uma estrutura maior. Também apontou, em seu relatório, Mission de Phénicie, que um caçador de tesouros local havia mencionado um grande edifício que existia perto da ponte.
Em 1900, saqueadores locais que escavavam a região do templo encontraram por acaso inscrições nas paredes do edifício. A descoberta despertou o interesse de Theodore Macridy, curator of the Museu de Constantinopla, que limparam os restos do templo entre 1901 e 1903. Wilhelm Von Landau também escavou o sítio entre 1903 e 1904. Em 1920 Gaston Contenau chefiou uma equipe de arqueólogos que estudou o complexo do templo. A primeira escavação arqueológica em grande escala que trouxe à luz os restos do Templo de Eshmun foi realizada por Maurice Dunand, entre 1963 e 1975. A evidência arqueológica mostra que o sítio foi ocupado do ao
Após 1975 Durante a Guerra Civil Libanesa e a ocupação israelense do sul do Líbano, o local ficou abandonado, e acabou sendo tomado pela vegetação; recuperou sua condição anterior apenas após a retirada das tropas de Israel. Atualmente o santuário de Eshmun pode ser visitado ao longo de todo o ano, com entrada livre, a partir de uma saída da principal rodovia que serve o sul do Líbano, próxima a saída mais ao norte de Sidom. O sítio tem uma importância arqueológica especial, na medida em que é o sítio fenício mais bem preservado de todo o Líbano; foi adicionado à lista de possíveis candidatos a Patrimônio Mundial da UNESCO em 1 de julho de 1996.
Local Diversos textos antigos mencionam o Templo de Eshmun e sua localização. As inscrições fenícias no sarcófago do rei sidônio Esmunazar IIDescobertas pelo cônsul-geral da França em Beirute, Aimé Pérétié, em 1855, na necrópole de Magharet Adloun, e atualmente em exposição no Louvre. comemoram a construção de uma "casa" para o "príncipe sagrado" Eshmun pelo rei e sua mãe, a rainha Amashtart, na "fonte de Ydll, perto da cisterna". Dionísio Periegeta, um antigo escritor de viagens grego, identificou o templo de Eshmun como estando ao lado do rio Bostreno, e Antonino de Placência, um peregrino italiano do , registrou como sendo localizado ao lado do Asclépio Flúvio. EstrabãoNa sua Geographica e outras fontes sidônias descrevem o santuário e as "florestas sagradas" de Asclépio que o cercavam.
Localizado a cerca de 40 quilômetros ao sul de Beirute e a dois quilômetros a nordeste de Sidom, o Templo de Eshmun se encontra na margem sul do atual rio Awali, conhecido antigamente como Bostreno ou Asclépio Flúvio. Bosques de frutas cítricas, conhecidos como Bustam el-Xeique (, "o bosque do xeque", ocupam o local das antigas "florestas sagradas" de Asclépio, e são hoje em dia um local muito utilizado pela população local para piqueniques.
Arquitetura e descrição thumb|esquerda|Flores próximas à base de uma coluna no estilo babilônio, em Bustam el-Xeique