O Dia dos Namorados, também conhecido em diversos países como Dia de São Valentim, é uma celebração anual comemorada a 14 de fevereiro que assinala a união amorosa, o romance e o afeto entre casais. Com origens na Igreja Católica como uma festividade litúrgica dedicada ao martírio de São Valentim durante o Império Romano, a data começou a ser associada ao amor romântico por volta do século XIV, influenciada pela obra do poeta inglês Geoffrey Chaucer e por tradições populares posteriores. Ao longo do tempo, a efeméride evoluiu para uma importante celebração cultural, religiosa e comercial de natureza laica, estendendo-se em algumas regiões à demonstração de amizade e carinho partilhado. É tradicionalmente marcada pela troca de mensagens, cartões, flores (como rosas vermelhas) e presentes simbólicos, como chocolates e caixas de bombons. No Brasil, a celebração ocorre a 12 de junho, tendo sido instituída por motivos comerciais na véspera do Dia de Santo António, conhecido popularmente como o santo casamenteiro, em detrimento do tradicional São Valentim.

Os três santos de nome Valentim festejados a 14 de fevereiro

Pelo menos três santos diferentes chamados Valentim, todos eles mártires, são festejados a 14 de fevereiro.. A sua festividade foi fixada nesta data por decreto do Papa Gelásio I, em 495. Estes santos são mencionados nos primeiros martirológios:

Valentim de Roma, um presbítero que sofreu o martírio em Roma na segunda metade do século III e que foi sepultado na Via Flaminia;

Valentim de Terni, um monge ou bispo, martirizado na mesma época e decapitado no mesmo local;

Valentim da Récia, monge girovago e pregador do século V.

Segundo o Martirológio Romano de 1705, os dois primeiros Valentins seriam, na verdade, a mesma pessoa, apresentada sob as suas duas funções sucessivas. O seu culto propagou-se ao longo da Via Flaminia, de Terni a Roma e até à Récia (Baviera), região que recebeu as suas relíquias. Isto explica a razão pela qual se veneram três figuras diferentes sob o nome de São Valentim, embora os estudos hagiográficos apontem para a possibilidade de estes representarem apenas dois indivíduos distintos (caso se confirme a identidade comum dos dois primeiros)..

No Brasil O Dia dos Namorados foi criado pelo publicitário João Doria, que buscava uma data comemorativa para fomentar o comércio no mês de junho — considerado um mês com poucas vendas a época —,MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DO MATO GROSSO DO SUL CAMPUS DO PANTANAL BACHARELADO EM ADMINISTRAÇÃO repositorio.ufms.br - pdf sendo comemorada no dia 12 de junho por ser véspera do 13 de junho, Dia de Santo Antônio, santo português com tradição de casamenteiro.

Doria trouxe a ideia do exterior e apresentou-a aos comerciantes paulistas, iniciando em junho de 1949 uma campanha com o lema "não é só com beijos que se prova o amor". A ideia se expandiu pelo Brasil, amparada pela correlação com o Dia de São Valentim — que nos países do hemisfério norte, ocorre em 14 de fevereiro e é utilizada para incentivar a troca de presentes entre o casal apaixonado.

História Possíveis origens antigas

A "Festa" (, ) de São Valentim teve origem na Cristandade e tem sido assinalada pela Igreja Ocidental em honra de um dos mártires cristãos de nome Valentim, conforme registado no Sacramentário Gelasiano do século VIII. Na Roma Antiga, as Lupercais eram celebradas entre 13 e 15 de fevereiro em honra de Pan e Juno, deuses pagãos do amor, do casamento e da fertilidade. Tratava-se de um rito ligado à purificação e à saúde, tendo apenas uma ligeira ligação à fertilidade (como parte da saúde) e nenhuma ao amor. Não há conhecimento de que a celebração de São Valentim tivesse quaisquer conotações românticas até à poesia de Chaucer sobre o "Dia de São Valentim" no século XIV, cerca de setecentos anos após o período em que se crê que as Lupercais tenham deixado de ser celebradas.Alison Chapman. Patrons and Patron Saints in Early Modern English Literature. Routledge. pg. 122.

As Lupercais eram um festival local da cidade de Roma. O festival mais geral de Juno Februa, que significa "Juno, a purificadora" ou "a casta Juno", era celebrado a 13 e 14 de fevereiro. Embora o artigo sobre o Papa Gelásio I (492–496) na Catholic Encyclopedia afirme que este aboliu as Lupercais, o teólogo e pastor metodista Bruce Forbes escreveu que "nenhuma prova" foi demonstrada para interligar o Dia de São Valentim aos ritos do antigo festival romano de purificação das Lupercais, apesar das alegações em contrário de muitos autores.Por exemplo, uma fonte afirma incorretamente que "o Papa Gelásio I baralhou as coisas no século V ao combinar o Dia de São Valentim com as Lupercais para expulsar os rituais pagãos." Seipel, Arnie, The Dark Origins Of Valentine's Day , National Public Radio, 13 de fevereiro de 2011

Alguns investigadores teorizaram que Gelásio I substituiu as Lupercais pela celebração da Purificação da Bem-Aventurada Virgem Maria e alegam uma ligação às conotações de amor romântico do século XIV, mas não existe qualquer indício histórico de que o papa alguma vez tenha tido essa intenção.Ansgar, 1976, pp. 60–61. A substituição das Lupercais pela celebração de São Valentim foi sugerida pelos investigadores Kellog e Cox. Ansgar afirma: "É pouco credível, portanto, que o Papa Gelásio pudesse ter introduzido a festa da Purificação para contrariar as Lupercais e, de facto, os registos históricos do seu pontificado não dão qualquer pista de tal ação."Jack B. Oruch, "St. Valentine, Chaucer, and Spring in February" Speculum 56.3 (julho de 1981:534–565) Além disso, as datas não coincidem porque, na época de Gelásio I, a festa só era celebrada em Jerusalém, ocorrendo a 14 de fevereiro apenas porque Jerusalém fixava a Natividade de Jesus (o Natal) a 6 de janeiro.Ansgar, 1976, pp. 60–61. Esta festa é celebrada 40 dias após a Natividade. Em Jerusalém, a Natividade era celebrada a 6 de janeiro, e esta festa a 14 de fevereiro. Porém, no Ocidente e mesmo em locais do Oriente como Antioquia e Alexandria, a Natividade era celebrada a 25 de dezembro, e esta Purificação não era celebrada. Quando esta festa foi introduzida em Roma, foi colocada diretamente a 2 de fevereiro. Por essa altura, Jerusalém adotou a data da Natividade de 25 de dezembro e mudou a Purificação para 2 de fevereiro. Embora fosse designada como "Purificação da Bem-Aventurada Virgem Maria", também versava sobre a apresentação de Jesus no templo.Ansgar, 1976, pp. 60–61. A Purificação da Bem-Aventurada Virgem Maria de Jerusalém a 14 de fevereiro tornou-se a Apresentação de Jesus no Templo a 2 de fevereiro quando foi introduzida em Roma e noutros locais no século VI, já depois do tempo de Gelásio I.

Embora seja por vezes repetido de forma acrítica por fontes modernas que os homens ou rapazes tiravam nomes de mulheres ou raparigas de um jarro para formarem casais durante as Lupercais, não existem provas antigas de qualquer tipo de sistema de lotaria ou sorteio que unisse casais para fins sexuais. As primeiras descrições desta lotaria fictícia surgiram no século XV em relação ao Dia de São Valentim, tendo a ligação às Lupercais sido afirmada pela primeira vez em obras antiquárias do século XVIII, como as de Alban Butler (The Lives of the Fathers, Martyrs, and Other Principal Saints, 1756–1759) e de Francis Douce. Estas fontes modernas alegavam que as fictícias Lupercais estavam na origem da prática de enviar cartões de namorados (valentines).

A prática de enviar cartões de namorados teve origem na Idade Média, sem qualquer ligação às Lupercais, com os rapazes a sortearem o nome de raparigas de forma aleatória. Este costume foi combatido pelos sacerdotes, por exemplo por São Francisco de Sales por volta de 1600, aparentemente substituindo-o por um costume religioso em que as raparigas sorteavam nomes de apóstolos a partir do altar. Contudo, este costume religioso está registado logo no século XIII na vida de Santa Isabel da Hungria, pelo que poderá ter uma origem diferente.Ansgar, 1986, pp. 58–63

O Parliament of Fowls de Chaucer

A primeira associação registada do Dia de São Valentim ao amor romântico terá ocorrido, segundo se crê, na obra Parliament of Fowls (1382) de Geoffrey Chaucer, uma visão onírica que retrata um parlamento onde as aves se reúnem para escolher os seus pares.Oruch, Jack B., "St. Valentine, Chaucer, and Spring in February ", Speculum, 56 (1981): 534–65. O levantamento literário de Oruch não encontrou qualquer associação entre São Valentim e o romance antes de Chaucer. O autor conclui que Chaucer é, provavelmente, "o criador original do mito neste caso." Colfa.utsa.edu Em honra do primeiro aniversário do noivado do rei Ricardo II de Inglaterra, de quinze anos, com Ana da Boémia, também de quinze anos, Chaucer escreveu (em Inglês médio):

""The Complete Works of Chaucer, ed. F.N. Robinson, Oxford University Press, London, p. 366, linhas 309-315.The Riverside Chaucer, ed. Larry D. Benson, Oxford University Press, 1987, p. 389, linhas 309-315.

Em português moderno: "Pois isto foi no Dia de São Valentim,Quando todas as aves ali vêm para escolher o seu par,De todas as espécies que o homem possa imaginar;E começaram a fazer um clamor tão tremendoQue a terra, o ar, as árvores e todos os lagosFicaram tão cheios que mal havia espaçoPara eu me manter de pé — de tal modo o lugar estava repleto."

Os leitores têm assumido de forma acrítica que Chaucer se referia ao 14 de fevereiro como o Dia de São Valentim. Henry Ansgar Kelly observou que Chaucer poderia ter em mente o dia festivo de São Valentim de Génova, um dos primeiros bispos de Génova que morreu por volta de 307 d.C.; esta data era provavelmente celebrada a 3 de maio.Kelly, Henry Ansgar, Chaucer and the Cult of Saint Valentine (Brill Academic Publishers, 1997), . Capítulo 6 The Genoese St. Valentine, p. 80–83. O tratado que estipulava o casamento de Ricardo II e Ana, que serve de mote ao poema, foi assinado a 2 de maio de 1381., wsu.edu

Jack B. Oruch salienta que a data em que a primavera começa mudou desde a época de Chaucer devido à precessão axial e à introdução do Calendário gregoriano, que se deu apenas em 1582. No Calendário juliano, em uso no tempo de Chaucer, o 14 de fevereiro corresponderia à data que hoje chamamos 23 de fevereiro, uma altura em que algumas aves já começaram a acasalar e a fazer ninhos em Inglaterra.

O Parliament of Fowls de Chaucer faz referência a uma tradição supostamente estabelecida, mas não existe qualquer registo de tal tradição antes de Chaucer. A derivação especulativa de costumes sentimentais a partir de um passado distante começou com os antiquários do século XVIII, nomeadamente Alban Butler, autor de Butler's Lives of Saints, e tem sido perpetuada até por académicos modernos de renome. Mais especificamente, "a ideia de que as tradições do Dia de São Valentim perpetuaram as das Lupercais romanas foi aceite de forma acrítica e repetida, sob várias formas, até ao presente".Oruch 1981:539.

Existem outros três autores que compuseram poemas sobre o acasalamento de aves no Dia de São Valentim por volta dos mesmos anos: Oton de Grandson, da Saboia, John Gower, de Inglaterra, e um cavaleiro chamado Pardo, de Valência. Chaucer terá muito provavelmente precedido todos eles; porém, devido à dificuldade em datar obras medievais, ainda não se sabe qual dos quatro poderá ter influenciado os restantes.Ansgar, 1986, Capítulo 5, Grandson, Pardo and Gower, pp. 64–76

Corte do amor