A geologia diluviana é uma tentativa pseudocientífica de interpretar a história geológica da Terra em termos do dilúvio universal descrito no Livro do Génesis. Visões semelhantes tiveram um papel no desenvolvimento inicial da geologia como ciência, mesmo depois da cronologia bíblica ter sido rejeitada por geólogos em favor de uma Terra antiga. Geólogos diluvianos modernos, quase sempre criacionistas da Terra Jovem, consideram a historicidade da Bíblia inimpugnável.
A geologia diluviana contradiz o consenso científico em geologia, física, química, genética molecular, biologia evolutiva, arqueologia e paleontologia, e a comunidade científica considera o tema como pseudociência.Por exemplo a existência da coluna geológica; , "Much geological evidence is incompatible with catastrophic plate tectonics."
História da geologia diluviana O dilúvio universal na história da geologia
Muitos cristãos (incluindo Tertúlio, Crisóstomo e Agostinho de Hipona) acreditavam que os fósseis provinham de organismos mortos e enterrados durante a breve duração do Dilúvio. Eusébio de Cesareia, ao compor sua cronologia, apresentou evidências paleontológicas do dilúvio: em sua época foram encontrados fósseis de peixes no alto do Monte Líbano.Eusébio de Cesareia, Crónica, 26, A Crónica Hebraica, Versão Samaritana A aceitação desta ideia foi aumentada pela peculiaridade geológica do norte da Europa onde a maior parte da superfície está coberta por camadas de "loam" e gravilha assim como blocos erráticos depositados a centenas de quilómetros dos seus locais de origem. Os primeiros geólogos interpretaram essas características como o resultado de cheias massivas (em meados do século XIX, os geólogos aceitaram que tinham sido formadas pelas glaciações da idade do gelo). O dilúvio universal era associado com perturbações geográficas enormes, com velhos continentes a submergirem e novos a erguerem-se, transformando assim leitos marinhos antigos em picos de montanhas.
Durante o Iluminismo, obras significativas foram compiladas sugerindo causas naturais para os milagres contados na Bíblia. Explicações naturalistas para uma cheia global foram propostas em obras como, An Essay Toward a Natural History of the Earth (1695) por John Woodward e New Theory of the Earth (1696) pelo aluno de Woodward William Whiston, Les époques de la nature (1778) por Buffon, La Genese (1869) por Allan Kardec.Allan Kardec (1868) La Genese, les Milagres et les predictions selon le espiritisme - Lacroax, Verboechoven 4th Ed.
A ciência moderna da geologia foi fundada na Europa no século XVIII.A mais antiga sociedade geológica profissional é a Geological Society of London, fundada em 1807; o termo "geologia" em si foi popularizado através do seu uso na Encyclopedie de 1751. Os seus praticantes procuravam perceber a história e formação da Terra através das evidências físicas encontradas nas rochas e minerais. Como muitos dos primeiros geólogos eram clérigos, naturalmente procuravam ligar a história geológica do mundo com o descrito na Bíblia. A teoria antiga de que os fósseis resultaram de "forças plásticas" dentro da crosta terrestre tinha sido abandonada por esta altura, com o reconhecimento de que eles representavam os vestígios de criaturas outrora vivas. Isto, no entanto, suscitava uma grande questão: como é que fósseis de criaturas marinhas acabavam em terra ou no topo de montanhas?
Por volta do início do século XIX, já se pensava que a idade da Terra era bem maior do que o sugerido pela interpretação literal da Bíblia (Benoît de Maillet tinha estimado uma idade de 2,4 mil milhões de anos em 1732 em contraponto aos 6 000 anos propostos pelo Arcebispo James Ussher na sua cronologiaOu, mais precisamente, no dia 23 de outubro do ano 4004 a.C. pelo calendário juliano proléptico. James Ussher, The Annals of the World iv (1658) [em linha]). Em 1823, o Reverendo William Buckland, primeiro professor de geologia na Universidade de Oxford, interpretou fenómenos geológicos como Reliquiae Diluvianae; relíquias da cheia atestando a acção de um Dilúvio Universal. O seu ponto de vista era apoiado por outros clérigos naturalistas ingleses da época incluindo o influente Adam Sedgwick, mas estas ideias eram disputadas por geólogos europeus continentais e, por volta de 1830, Sedgwick ficou convencido pelas suas próprias descobertas que as evidências apenas mostravam cheias locais.
A promoção feita por Charles Lyell do uniformitarianismo de James Hutton advogava o princípio que mudanças geológicas que ocorreram no passado podem ser percebidas ao estudar fenómenos da actualidade. Em comum com Newton, Hutton assumia que o sistema mundial era estável desde o dia da criação, mas ao contrário de Newton ele incluía nesta visão não só a noção do movimento de corpos celestiais e processos como mudanças químicas na Terra, mas também processos de mudança geológica. Christopher Kaiser escreve:
Em outras palavras, em comparação com o de Newton, o de Hutton era um conceito de ordem superior do sistema da natureza que incluía não só a estrutura do mundo presente, mas o processo (ou história natural) através da qual a estrutura presente entrou na existência e foi mantida. Como Newton, e em contraste com materialistas como Buffon e neomecanistas como Laplace, as origens do sistema estavam fora do âmbito da ciência para Hutton: na natureza não encontrou 'nenhum vestígio de um princípio - nenhuma perspectiva de um fim'. Mas Hutton chegou o mais perto possível de ser um neomecanista sem ter que mudar o enquadramento Newtoniano de Deus e natureza. Apenas a estipulação newtoniana de que Deus tinha pessoalmente desenvolvido o presente sistema da natureza se entrepunha entre a teologia natural e a retirada de Deus da ciência por completo… Tal como Derham e Cotes, Hutton acreditava que Deus tinha implantado princípios activos na natureza durante a criação em quantidade suficiente para dar conta de todas as funções naturais.
A ideia de que todas as camadas geológicas foram produzidas por uma única cheia foi rejeitada em 1837 por Buckland que escreveu:
Alguns tentaram atribuir a formação de todas as rochas estratificadas ao efeito do Dilúvio de Moisés; uma opinião que é irreconciliável com a enorme espessura e quase infinita subdivisão desses estratos, e com as sucessões numerosas e regulares que contêm os restos de animais e vegetais, diferindo cada vez mais de espécies existentes, à medida que os estratos são encontrados a cada vez maiores profundidades. O facto que uma grande proporção destes vestígios pertencerem a géneros extintos, e quase todos a espécies extintas, que viveram e se multiplicaram e morreram em ou perto de sítios onde foram agora encontrados, mostra que estes estratos nos quais eles ocorrem foram depositados lentamente e gradualmente, durante longos períodos de tempo, e em intervalos largamente distantes.
Durante um período, Buckland continuou a insistir que algumas camadas geológicas estavam relacionadas com o Dilúvio, mas começou a aceitar a ideia de que representavam múltiplas inundações que ocorreram bem antes dos humanos existirem. Foi convencido pelo geólogo suíço Louis Agassiz de que muitas das evidências nas quais ele se baseava eram de facto produto de idades do gelo antigas, e tornou-se um dos maiores defensores da teoria das glaciações de Agassiz. A corrente científica dominante abandonou a ideia da geologia diluviana que requeria desvios substanciais dos processos físicos actuais.
Reemergência da geologia diluviana A geologia diluviana foi desenvolvida como uma iniciativa criacionista no século XX por George McCready Price, um adventista do sétimo dia e geólogo amador que escreveu um livro em 1923 fornecendo uma perspectiva adventista do sétimo dia sobre a geologia. A obra de Price foi subsequentemente adaptada e actualizada por Henry M. Morris e John C. Whitcomb, Jr. no seu livro The Genesis Flood em 1961. Whitcomb ficou motivado depois de ler o livro The Christian View of Science and Scripture (1954) pelo teólogo Bernard Ramm. Ramm apoiava a perspectiva de que cientistas que eram cristãos poderiam chegar a interpretações alternativas à criação estrita em seis dias, tal como promovido por Price, que são tanto bíblicas como concordantes com as evidências científicas actuais. Morris e Whitcomb argumentavam que a Terra era geologicamente recente, que a Queda do Homem despoletou a segunda lei da termodinâmica, e que o Dilúvio depositou a maioria dos estratos geológicos em um ano.Este é o mesmo modelo que Buckland rejeitara 130 anos antes. Já as Testemunhas de Jeová acreditam que a criação ocorreu conforme descrito no livro de Gênesis, mas em 6 dias simbólicos, devido ao uso do termo "dia" se referir a diferentes períodos de tempo em outras passagens bíblicas, como em 2 Pedro 3:8. Devido a essa diferença, as Testemunhas de Jeová evitam dizer que são criacionistas.
O livro de Ramm apoiava a dissidência religiosa e científica da geologia diluviana. J. Laurence Kulp, um geólogo associado aos Irmãos de Plymouth, juntou-se a outros geólogos, arqueólogos, antropólogos e biólogos cristãos cujo trabalho estava relacionado com datação por radiocarbono, para persuadir a organização cristã, American Scientific Affiliation (ASA), a não apoiar ou endossar oficialmente a geologia diluviana mas permitir aos seus membros seguir as evidências científicas em lugar de uma interpretação literal da Bíblia. Kulp também escreveu uma crítica detalhada à geologia diluviana, intitulada Deluge Geology, publicada no Journal of the American Scientific Affiliation em 1950. Quando a ASA se recusou a alinhar-se com a geologia diluviana, uma nova geração de criacionistas da Terra Jovem foi fundada, muitos dos quais se organizaram à volta do Institute for Creation Research de Morris. Pesquisas subsequentes pela Creation Research Society observou e analisou formações geológicas, dentro da perspectiva da geologia diluviana, incluindo os poços de alcatrão de La Brea, a formação Tavrik (em russo: "Tavricheskaya formatsiya") na Península da Crimeia e Stone Mountain, na Geórgia, Estados Unidos. Em cada caso, os criacionistas reclamaram que a geologia diluviana tinha um poder explanatório maior do que a explicação uniformitarista. A Creation Research Society reclamava que o "uniformitarismo" é wishful thinking.
Base bíblica Geologia diluviana é baseada numa interpretação literal da narrativa do dilúvio presente no Livro do Génesis (Genesis 6–9). A narrativa começa com a decisão de Deus de provocar um dilúvio que exterminaria toda a vida na Terra excepto aqueles a serem salvos na Arca de Noé. No 600º ano de vida de Noé, Deus abre as "nascentes das profundezas" e as "janelas do Céu" e causa a queda de chuva na terra durante 40 dias e noites. A cheia sobe durante 150 dias e cobre "todas as montanhas altas abaixo do céu", a Arca nesse ponto ancora nas monthanhas. As águas retraem-se durante 150 dias, a terra seca e Noé e a sua família e os animais (incluindo aves) emergem para restabelecer a vida na Terra.Genesis 6-9 (Seeley sugere que os autores do Génesis, tal como outras pessoas do antigo Oriente Próximo, concebiam a Terra como um disco achatado e circular, flutuando como uma bolha numa superfície ilimitada de água, com um céu sólido (o firmamento) separando a terra seca habitada pelo homem das águas envolventes; quando Deus abre as "janelas do céu" e as "nascentes das profundezas", são estas águas que provocam as cheias no mundo.Para uma descrição de cosmologias do Próximo Oriente e outras cosmologias antigas, e conexões hipotéticas com a visão bíblica do Universo, veja e