thumb|Uma estante de biblioteca em Hong Kong organizada usando a classificação decimal de Dewey
A classificação bibliográfica é uma área de estudos da Biblioteconomia, relacionada à representação temática de documentos, abrangendo os sistemas utilizados em bibliotecas para organizar materiais, incluindo livros, gravações de áudio e vídeo, materiais eletrônicos etc., tanto nas estantes quanto em catálogos e índices.
As vantagens de tal atividade é proporcionar ao material uma identificação única e torná-lo mais fácil de ser encontrado em um acervo, além de tornar a recuperação mais acessível e rápida. O objetivo da classificação bibliográfica é a organização do conhecimento de modo que o mesmo seja dividido por áreas, para facilitar que o usuário encontre o documento que procura.
Cada item recebe normalmente um número de chamada, que identifica sua localização dentro do sistema. Os materiais podem ser organizados por muitos fatores diferentes, geralmente em uma estrutura hierárquica em árvore baseada no assunto ou utilizando um sistema de classificação facetada, que permite a atribuição de diversas classificações a um objeto, possibilitando que as classificações sejam ordenadas de diferentes maneiras.
Etimologia A origem da palavra "classificar" remonta ao termo em Latim "classis" (classes), usado para se referir as divisões sociais do povo romano. Segundo autores da área, "classificação" é a junção de classis e facere ("fazer" ou "formar", em latim), utilizados no sentido de agrupar conhecimentos a partir do fim do século XVIII.
Apesar de ter seu uso intensificado apenas a partir do século XIX, o termo "bibliografia" é atribuído aos franceses Gabriel Naudé (1627) e Louis Jacob (1643). Sua origem se dá no grego antigo, como uma junção das palavras (biblion, livro) e (gráphein, escrever). Deste modo, a classificação bibliográfica se refere a organização a partir da representação temática de documentos.
Descrição A classificação bibliográfica é um aspecto fundamental da biblioteconomia e ciência da informação. Ela se distingue da classificação científica por ter como objetivo proporcionar uma ordenação útil dos documentos, em vez de uma organização teórica do conhecimento. Embora tenha o propósito prático de criar uma ordenação física dos documentos, ela geralmente busca aderir ao conhecimento científico aceito. A classificação bibliográfica ajuda a acomodar toda a literatura recém-publicada em uma ordem de arranjo já criada em sequência filial. esquerda|miniaturadaimagem|Livros dispostos em estantes na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo
A classificação bibliográfica pode ser definida como a disposição de livros nas estantes, ou sua descrição, da maneira mais útil para os leitores, com o objetivo final de agrupar itens semelhantes. A classificação bibliográfica visa alcançar quatro propósitos: ordenar os campos do conhecimento de forma sistemática, reunir itens relacionados na sequência mais útil, proporcionar acesso ordenado nas estantes e fornecer uma localização para o item na estante.
A classificação bibliográfica distingue-se da aplicação de palavras-chave pelo fato de a classificação organizar o conhecimento em ordem sistemática, enquanto as palavras-chave fornecem acesso a materiais intelectuais por meio de termos de vocabulário que podem ou não estar organizados como um sistema de conhecimento.
As características que uma classificação bibliográfica exige para alcançar esses propósitos são: uma sequência útil de assuntos em todos os níveis, uma notação concisa e memorável, e um conjunto de técnicas e dispositivos de síntese numérica.
História As classificações bibliográficas foram precedidas pelas classificações sociais ou filosóficas. As tentativas de organização do conhecimento humano remontam à pré-história, em que as sociedades primitivas buscaram maneiras simples de classificar objetos conforme a sua necessidade. Muitos autores tratam a necessidade humana de separar em categorias como algo instintivo:
Classificações filosóficas Na Antiguidade, os filósofos clássicos buscaram meios de sistematizar o conhecimento humano, dada a preocupação com a origem das coisas e a ordem das ciências. Neste momento, o acesso aos documentos não estava ao alcance do público em geral e o ato de classificar podia ser visto como uma arte, não ainda como ciência.
A descoberta mais antiga de tabletes com informações bibliográficas físicas data de 1300 a.C., encontrada em escavações feitas em região habitada por hititas. Dentre as informações registradas nos tabletes, estavam um número de série e o título da obra. Na Biblioteca de Nínive (650 a.C.), a organização do acervo se dava de forma semelhante, dividindo o acervo em dois grupos intitulados Ciências da Terra e Ciências do Céu, conforme constatado em estudos arqueológicos do século XX.miniaturadaimagem|234x234px|Árvore de Porfírio Uma das primeiras tentativas de classificação do conhecimento documentadas foi a de Aristóteles, que contava com três critérios: ausência ou presença do homem nos seres investigados, imutabilidade e critério da modalidade prática. Seu sistema de classificação serviu de base para a criação de outros por cerca de 2000 anos. Os sistemas de organização do conhecimento humano criados por filósofos clássicos como ele e Platão ficaram conhecidos posteriormente como classificações filosóficas.
Ainda na Grécia Antiga, Porfírio desenvolveu um sistema de classificação com base na oposição, a partir de princípios estabelecidos por Platão e Aristóteles. Sua teoria marca o início da dicotomia na classificação e ficou conhecida como Árvore de Porfírio.
Na biblioteca mais famosa da Antiguidade, a Biblioteca de Alexandria, Calímaco elaborou um dos esquemas de classificação mais antigos por volta do século 250 a.C., o . Em sua classificação, constavam o número de linhas de cada obra e suas palavras iniciais, bem como dados bibliográficos sobre os autores. Mais tarde, a criação do conceito do autor como ponto de acesso a uma obra foi atribuído aos gregos.
Na Idade Média, a base dos estudos bibliográficos estava nos trabalhos de divisão e classificação de Martianus Capella (439 d.C.) e Cassiodoro, que aprimorou o trabalho de Capella um século mais tarde. Capella propôs uma divisão das artes liberais em sete grupos: Gramática, Dialética, Retórica, Geometria, Astronomia, Música e Aritmética. Cassiodoro utilizou a mesma divisão mas as reuniu em dois grandes grupos intitulados Trivium e Quatrivium.
Em 1545, na Suíça, Conrad Gessner baseou-se em Cassiodoro e publicou o Pandectarium sive partitionum universalis parte de sua obra Bibliotheca Universalis, onde classificou por assunto o acervo da biblioteca. A contribuição de Gessner marca o início da transição das classificações filosóficas para as classificações bibliográficas propriamente ditas, sendo o seu catálogo considerado o primeiro do tipo.
Para diferentes autores, a contribuição de Francis Bacon com a sua publicação Chart of learning em 1605 é a maior contribuição filosófica para os estudos modernos de classificação bibliográfica. Sua divisão da ciência segundo as faculdades intelectuais memória, imaginação e razão inspiraram muitos trabalhos posteriores, como enciclopédias do século XVIII, a classificação dos livros de Thomas Jefferson, a Classificação da Biblioteca do Congresso dos EUA e a classificação decimal de Dewey.
Posteriormente, Auguste Comte trouxe o conceito moderno da hierarquia da ciência, apontando "que cada nova ciência que surge depende da precedente". Também dividiu as ciências em abstratas (fundamentais) e concretas (derivadas). Além de Comte, destacam-se outros filósofos cujo trabalho não era primordialmente voltado para classificações bibliográficas, mas contribuíram indiretamente para a mesma, como Descartes (1596-1650), os ingleses Hobbes (1588-1679) e Locke (1632-1704) e o alemão Leibnitz (1646-1715).
Classificações bibliográficas Durante o período da renascentista e da Reforma Protestante, "as bibliotecas eram organizadas de acordo com os caprichos ou o conhecimento das pessoas responsáveis". Isso alterou o formato pelo qual os diversos materiais eram classificados. Algumas coleções podiam ser classificadas por idioma e outras pela forma como eram impressas. Após a revolução da imprensa no século XVI, o aumento dos materiais impressos disponíveis tornou essa classificação ampla inviável, e classificações mais detalhadas para materiais de biblioteca precisaram ser desenvolvidas no século XIX.
Em 1627, Gabriel Naudé publicou um livro intitulado Advis pour dresser une bibliothèque. Na época, trabalhava na biblioteca particular do Président à mortier Henri de Mesmes II. Mesmes possuía cerca de 8.000 livros impressos e muitos outros manuscritos gregos, latinos e franceses. Embora fosse uma biblioteca privada, estudiosos com referências podiam acessá-la. O propósito do livro era identificar regras para colecionadores particulares de livros organizarem suas coleções de forma mais ordenada, aumentando a utilidade e a beleza da coleção. Naudé desenvolveu um sistema de classificação baseado em sete classes diferentes: teologia, medicina, jurisprudência, história, filosofia, matemática e humanidades. Essas sete classes seriam posteriormente ampliadas para doze. O livro tratava de uma biblioteca particular, mas no mesmo texto, Naudé defendeu a ideia de bibliotecas públicas abertas a todas as pessoas, independentemente de sua capacidade de pagar pelo acesso à coleção. Uma das bibliotecas mais famosas que Naudé ajudou a melhorar foi a em Paris, onde passou dez anos como bibliotecário. Graças à forte crença de Naudé no acesso livre às bibliotecas, a Bibliothèque Mazarine tornou-se a primeira biblioteca pública da França por volta de 1644.
Na mesma época, registra-se o surgimento do "Sistema Francês" ou "sistema dos livreiros de Paris", utilizado por diferentes profissionais. Muitas alterações foram feitas ao sistema, com destaque para a classificação dos livreiros parisienses desenvolvida em 1842 por Jacques Charles Brunet, geralmente considerada a primeira das classificações modernas de livros. Brunet estabeleceu cinco classes principais: teologia, jurisprudência, ciências e artes, belas-letras e história. Apesar da contribuição francesa ser reconhecida mundialmente, outros países também tiveram avanços na classificação bibliográfica, ainda que locais, como é o caso da Alemanha e da Itália.
A partir do fim do século XIX
No fim do século XIX e o século XX, a classificação bibliográfica passa a tomar forma como ciência mais robusta, registrando as principais colaborações significativas para a atividade moderna. Em 1876, o bibliotecário estadunidense Melvil Dewey idealizou o primeiro sistema de classificação que utiliza números decimais e agrupa o conhecimento em dez classes principais, inspirado em diversos trabalhos anteriores. Seu sistema, a classificação decimal de Dewey (CDD), foi considerado de fácil memorização e ganhou força em bibliotecas de todo o mundo, sendo utilizado até hoje.
Uma das inovações de Dewey foi organizar os livros nas estantes em função de outros livros sobre temas semelhantes. Quando o sistema foi introduzido pela primeira vez, a maioria das bibliotecas nos Estados Unidos utilizava um sistema de posicionamento fixo: a cada livro era atribuída uma posição permanente na estante com base na altura do livro e na data de aquisição. As estantes das bibliotecas eram geralmente de acesso restrito, apenas aos usuários mais privilegiados, de modo que a consulta livre nas estantes não era considerada importante. O uso do sistema decimal Dewey aumentou no início do século XX, à medida que os bibliotecários se convenceram das vantagens do posicionamento relativo e do acesso livre às prateleiras para os usuários.