Helena (nascida Jelena Petrović-Njegoš; Cetinje, 8 de janeiro de 1873; 27 de dezembro de 1872 no calendário juliano — Montpellier, 28 de novembro de 1952) foi a esposa do Rei Vítor Emanuel III e Rainha Consorte da Itália de 1900 até 1946. Além disso, ela foi Imperatriz Consorte da Etiópia, entre 1936 e 1941, e também Rainha Consorte da Albânia de 1939 até 1943. Após a abdicação do marido, assumiu o título de Condessa de Pollenzo. Com a abertura de seu processo de beatificação em 2001, ela recebeu o título de Serva de Deus.
Nascida princesa de Montenegro, filha do príncipe e posteriormente (a partir de 1910) rei Nicolau I, foi educada no Instituto Smolny, um internato feminino para damas nobres em São Petersburgo, na Rússia. Em razão de seu casamento com Vítor Emanuel da Itália, realizado em 24 de outubro de 1896, Helena converteu-se do cristianismo ortodoxo ao catolicismo. Tornou-se Rainha quando seu marido ascendeu ao trono em 1900, após o assassinato do rei Humberto I.
Como rainha, Helena destacou-se por seu forte engajamento humanitário. Em 28 de dezembro de 1908, a cidade de Messina foi atingida por um terremoto devastador, e Helena participou diretamente dos resgates, o que aumentou significativamente sua popularidade no país. Durante a Primeira Guerra Mundial, trabalhou como enfermeira da Cruz Vermelha e, com a ajuda da rainha-mãe Margarida da Itália, transformou o Palácio do Quirinal e a Villa Margherita em hospitais.
Seu reinado foi testemunha de mudanças radicais no cenário político mundial, como a ascensão do fascismo na Itália. Em 1936, após a conquista fascista da Etiópia, e novamente em 1939, com a ocupação da Albânia, Helena passou a usar brevemente os títulos de imperatriz da Etiópia e rainha da Albânia, abandonados em 1943, quando Vítor Emanuel III renunciou formalmente a eles.
Em 1939, poucos meses após a invasão da Polônia pela Alemanha Nazista e a consequente declaração de guerra da França e do Reino Unido, Helena escreveu uma carta às seis rainhas europeias ainda neutras, entre elas as rainhas da Dinamarca, dos Países Baixos, da Bélgica e da Bulgária, assim como a grã-duquesa de Luxemburgo e a rainha-mãe da Iugoslávia, na esperança de impedir a expansão do conflito que se tornaria a Segunda Guerra Mundial.
Em 1941, exerceu influência sobre o rei para pressionar o duce Benito Mussolini a favor da criação de um reino independente de Montenegro. Dois anos depois, em 1943, interveio diplomaticamente para obter a libertação de seu sobrinho, o príncipe Miguel, e de sua esposa, que haviam sido presos na Alemanha após o príncipe recusar-se a aceitar o trono montenegrino sob proteção italiana. No mesmo ano, em 25 de julho, Vítor Emanuel III ordenou a prisão de Mussolini. Após a rendição da Itália em setembro e a subsequente ocupação alemã, o rei deixou Roma e fugiu para Brindisi com o apoio dos Aliados, sendo acompanhado por Helena.
Com o fim da guerra, em maio de 1946, Vítor Emanuel III abdicou em favor de seu filho Humberto e partiu para o exílio no Egito ao lado de Helena. Ela e o marido assumiram o título de condes de Pollenzo. Em junho daquele ano, um referendo popular proclamou a república, encerrando oficialmente o reinado da Casa de Saboia na Itália. O casal foi recebido com honras pelo rei Faruque, mas permaneceu no exílio. Vítor Emanuel III faleceu em 1947, em Alexandria. Pouco depois, Helena deixou o Egito e mudou-se para a França, onde morreu em novembro de 1952, em Montpellier, em decorrência de um câncer.
Sessenta e cinco anos após sua morte, em 15 de dezembro de 2017, os restos mortais de Helena foram repatriados da França para o Santuário de Vicoforte, na Itália. Os restos mortais de Vítor Emanuel III foram transferidos dois dias depois do Egito e sepultados ao lado dos dela.
Início de vida Nascimento e família miniatura|esquerda|220px|Retrato de Helena em traje nacional de Montenegro, por Vlaho Bukovac, em 1888. Helena nasceu em Cetinje, a capital histórica do então Principado de Montenegro, em 8 de janeiro de 1873 (27 de dezembro de 1872 no calendário juliano), na já numerosa família do príncipe Nicolau, pertencente à dinastia de Petrović-Njegoš, e de sua esposa Milena Vukotić. Seu padrinho foi o Imperador russo Alexandre II. Sexta de doze filhos, Helena foi inicialmente confiada aos cuidados de uma governanta, Lilian Crown (cuja nacionalidade é incerta) e, depois, por volta de 1878, começou a receber uma educação "real" da governanta suíça Louise Neukomm.
Uma princesa montenegrina na corte imperial russa miniatura|O Instituto Smolny. De 1882 a 1890, ela frequentou, assim como suas irmãs mais velhas, Zorka, Milica e Anastásia, o Instituto Smolny, em São Petersburgo. Tratava-se de um internato feminino reservado às filhas da alta nobreza, mantido pela própria Imperatriz da Rússia, que supervisionava a educação das alunas e nomeava sua diretora. Durante seus anos de formação, Helena conciliou seus estudos artísticos e literários com a escrita de vários poemas sob o pseudônimo de "Borboleta Azul".
Após concluir seus estudos, a princesa retornou a Cetinje. Ela se dedicou à literatura e compôs versos, alguns dos quais foram publicados na revista literária russa Nedelja. Durante suas viagens ao exterior, as artes eram seu tema de observação predileto. Dotada de uma aptidão singular para o desenho a caneta e aquarela, ela promoveu a arte em Montenegro: ela mesma projetou o monumento ao príncipe Daniel. Também se dedicou com paixão à caça e à pesca, bem como a horticultura; sua flor favorita era o ciclame.
Casamento Pretendentes miniatura|esquerda|220px|A jovem Helena. Conhecida por sua beleza eslava, Helena foi descrita da seguinte forma: "seu rosto era belíssimo, de perfil nobre, e sua testa irradiava inteligência. Tinha grandes olhos negros, com um olhar ao mesmo tempo gentil e perspicaz. O nariz era delicado, assim como seus traços, e os cabelos, abundantes e sedosos."
Ela era a candidata favorita do imperador e da imperatriz da Rússia, ambos adeptos do pan-eslavismo, para se casar com o filho e herdeiro, o Czarevich Nicolau, futuro Imperador Nicolau II. No entanto, Nicolau não se interessou por Helena, pois estava apaixonado pela princesa Alice de Hesse, uma neta da rainha Vitória, com quem se casou em 1894, após ascender ao trono.
A princesa montenegrina também foi cortejada pelo príncipe Arsênio da Sérvia e pelo nobre Carl Gustaf Emil Mannerheim, futuro presidente da Finlândia e, à época, membro da Guarda Imperial Russa. Ambos chegaram, inclusive, a duelar pela mão de Helena.
Noivado e casamento Em 1894, o primeiro-ministro italiano Francesco Crispi, a convite da rainha Margarida, esposa de Humberto I, iniciou, por intermédio de seu embaixador em Cetinje, Fábio Sanminiatelli, negociações visando à possibilidade de um matrimônio entre o herdeiro do trono italiano, o Príncipe de Nápoles Vítor Emanuel, e uma princesa montenegrina.
Além da necessidade de assegurar com brevidade um descendente para a dinastia italiana, capaz de revitalizar a já desgastada dinastia de Saboia, na qual, ao longo de duas gerações, primos em primeiro grau haviam se casado, e um casamento com uma princesa montenegrina traria "sangue novo". Ademais, a eventual ligação com o pequeno Estado balcânico, sob a proteção da Rússia, abria à Itália uma perspectiva política relevante. Tal aproximação poderia ser explorada no âmbito da Tríplice Aliança, o pacto defensivo firmado em 1882 com a Alemanha e a Áustria-Hungria. Após a apresentação do relatório do representante diplomático acerca das duas princesas disponíveis, Ana e Helena, a escolha recaiu sobre esta última.
miniatura|220px|Helena e Vítor Emanuel. Seguindo um protocolo sigiloso, o primeiro encontro entre os dois futuros cônjuges foi organizado em abril de 1895, em Veneza. Em junho do ano seguinte, o rei Humberto I encarregou o embaixador italiano em Viena, Costantino Nigra, de contatar o pai de Helena, então em trânsito pela corte austríaca, com o objetivo de formalizar o noivado. Apesar do contexto político delicado e da resistência da mãe de Helena, contrária à renúncia da fé cristã ortodoxa pela filha em favor do catolicismo romano, uma condição exigida para o casamento, as negociações chegaram a um desfecho positivo. A Rússia também apoiou o acordo, interessada em dificultar uma aproximação entre a Itália e a Áustria-Hungria, cujas relações eram tradicionalmente tensas, inclusive no que se referia ao controle do Adriático. Em agosto de 1896, Vítor Emanuel partiu a bordo do iate Gajola para pedir oficialmente a mão da princesa.
A notícia, contudo, não foi recebida com entusiasmo por todos. A crítica mais conhecida da época partiu do jornalista Edoardo Scarfoglio, que em 27 de setembro de 1896 publicou no jornal Il Mattino di Napoli um artigo severo intitulado Le nozze coi fichi secchi. Nele, manifestou-se contra o casamento iminente, que, segundo sua avaliação, selaria a união entre um príncipe "cuja forma e estatura já não correspondiam ao ideal físico que o povo atribuía aos reis e uma princesa descrita como uma criatura graciosa, gentil e doce, mas que, em sua visão, não era uma Helena grega capaz de inflamar corações".
miniatura|esquerda|Helena e Vítor Emanuel. A diferença de altura entre o casal é visível. miniatura|220px|Casamento de Helena e Vítor Emanuel. Helena era uma mulher alta para os padrões de sua época, medindo cerca de 180 cm, o que contrastava de forma notável com a estatura de seu futuro marido, que tinha aproximadamente 152 cm.
Após a formalização do casamento, Helena deixou Montenegro definitivamente e embarcou no cruzador Savoia em 19 de outubro de 1896. Ela chegou à Itália já convertida ao catolicismo. O casamento foi celebrado em Roma no dia 24, na Basílica de Santa Maria dos Anjos e dos Mártires. O casal se estabeleceu primeiro em Florença, no Palazzo della Meridiana, e depois, após a transferência de Vítor Emanuel para o comando de um batalhão do exército em Nápoles, no Palácio Real de Capodimonte.
Rainha Ascensão e primeiros anos de reinado miniatura|esquerda|220px|Cartão-postal retratando a ascensão de Helena e Vítor Emanuel ao trono italiano. Quando Humberto I foi assassinado por Gaetano Bresci, em 29 de julho de 1900, os príncipes encontravam-se fora da Itália, em um cruzeiro com destino ao Pireu, regressando ao país apenas no dia 31. O reinado de Vítor Emanuel III e de Helena teve início sob o impacto da comoção causada pelo regicídio. No discurso de juramento ao Estatuto, proferido em 11 de agosto de 1900, o novo monarca rendeu homenagem à esposa, a "augusta consorte", oriunda de "uma raça valente" e dedicada à "sua pátria de adoção".
Poucos dias depois, o desastre ferroviário ocorrido em Castel Giubileo, na noite de 12 para 13 de agosto, envolvendo um trem especial que transportava passageiros que haviam participado das celebrações pela ascensão ao trono do casal principesco, deu início à construção do mito de Helena como a "rainha da Caridade". Ao lado do marido, ela dirigiu-se imediatamente ao local do acidente, onde se empenhou na organização dos primeiros socorros.
miniatura|220px|Cartão-postal retratando a família real italiana: rei Vítor Emanuel III, rainha Helena, Humberto, Iolanda, Mafalda e Joana. miniatura|220px|Rainha Helena com suas filhas Mafalda e Iolanda.