Transexualidade refere-se à condição do indivíduo cuja identidade de gênero diverge do gênero ligado ao sexo físico biológico que lhe foi atribuído ao nascimento. Uma pessoa transexual pode realizar processos que melhorem seu bem-estar pessoal, através da forma como se apresenta e de intervenções no corpo com o intuito de alterar as características sexuais secundárias e fenótipos das características sexuais primárias.Transgender Terminology: Transsexual. 15 de janeiro de 2014.

O processo de transição de gênero pode envolver aspectos comportamentais, de vestimenta ou vestuário e biológicos anatômicos ligados ao dimorfismo sexual na espécie humana, como a administração de hormônios, cirurgias plásticas e/ou cirurgia de redesignação sexual, sendo o último menos acessível financeiramente.

A transexualidade atualmente é tida como uma variação esperada da diferenciação biológica entre os sexos.

Pessoas transexuais podem passar pela disforia de gênero, que apresenta-se não só como a aversão por características primárias e secundárias sexuais, mas também pelo desenvolvimento de apatia, ansiedade, depressão, e outros transtornos desenvolvidos pela angústia do indivíduo de viver em desacordo com sua identidade de gênero, sendo diferente do transtorno dismórfico corporal.

A França, onde a transexualidade deixou de ser considerada como transtorno mental em 2010, foi o primeiro país a tomar esta decisão. Em 2018, a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou a transexualidade da lista de transtornos mentais, porém, continua na Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID), mas em uma nova categoria, denominada "saúde sexual".

O gênero não-binário é comumente incluído dentro do termo guarda-chuva da transexualidade, havendo muitas pessoas não-binárias que são trans.

Definições esquerda|miniaturadaimagem|July Schultz, uma mulher trans, na França, em 2005, num evento pelos direitos das pessoas trans e Intersexo. Se entende como transexual o indivíduo que não apresenta a disforia de gênero em função de outro transtorno, tal como esquizofrenia, nem está associado a qualquer condição intersexual, genética ou do cromossomo sexual,Organização Mundial de Saúde. Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10: descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre: OMS; 1993. e quando há persistência do transtorno durante um longo período de tempo, que a OMS quantifica como no mínimo dois anos. Segundo a mesma, só pode ser considerado como transexual aquele que demonstra angústia e aversão ao seu sexo biológico, buscando tratamento médico para congruir seu corpo ao sexo pretendido.

Alguns consideram que as mudanças provocadas por tratamento hormonal, sem alterações cirúrgicas, são suficientes para qualificar o uso do termo transexual, ideia esta baseada em alterações físicas ligadas ao dimorfismo sexual. Outros, especialmente agentes de saúde, acreditam que existe um conjunto de procedimentos, que engloba psicoterapia, hormonoterapia e cirurgia que devem ser seguidos de acordo com cada caso e não de forma padronizada para todos.

O público em geral muitas vezes define "transexual” como alguém que fez ou planeja fazer uma cirurgia de "mudança de sexo". Uma definição mais simples, utilizada por alguns autores, considera como transexual alguém que se identifica com o gênero oposto. O termo corrente para definir mudanças de características sexuais é Cirurgia de Reatribuição Sexual - CRS (Sex Reassignment Surgery - SRS, em inglês), um termo que reflete a ideia de que as pessoas transexuais não estão “mudando de sexo”, mas corrigindo seus corpos. Entretanto, tem sido comumente aceito que o desejo de pertencer ao gênero oposto, ou a afirmação de que determinada pessoa é do gênero oposto ao gênero designado no nascimento, já é condição suficiente para alguém ser transexual. Em contraste, algumas pessoas transgêneros muitas vezes não se identificam como sendo ou querendo pertencer ao gênero oposto, mas como sendo ou querendo ser do gênero oposto. esquerda|miniaturadaimagem|Bandeira trans. esquerda|miniaturadaimagem|Símbolo trans. Transexualidade (também conhecida como neurodiscordância de gênero) é um termo entre os comportamentos ou estados que abrigam o termo transgênero. Transgênero é considerado um termo guarda-chuva para pessoas que fogem dos papéis sociais de gênero. Entretanto muitas pessoas da comunidade transexual não se identificam como transgênero. Alguns vêem transgênero como descaracterização e não reconhecimento de suas identidades porque, para estes, o termo significa uma "quebra de papéis sociais de gênero", quando de fato vêem a si mesmos como pertencendo ao sexo diferente do que lhes foi designado no nascimento.

Pessoas transexuais são muitas vezes definidas como pertencentes à comunidade LGBTQ+ ou queer e alguns se identificam dentro da comunidade; outros não, ou preferem não usar o termo. Deve ser ressaltado que a transexualidade não está associada ou é dependente da orientação sexual. Mulheres e homens transexuais exibem uma gama de orientações sexuais, da mesma forma que os cissexuais (não-transexuais). Eles sempre usam termos para sua orientação sexual que estejam relacionados com o gênero final. Por exemplo, alguém designado como do sexo masculino no nascimento, mas que se identifica a si como uma mulher e que é atraída tão somente por homens, irá identificar-se como heterossexual, não como gay; da mesma forma, alguém que foi designado como do sexo feminino no nascimento, se identifica como homem e prefere parceiros homens irá se identificar como gay, não como heterossexual.

Em outra abordagem, velhos textos médicos descrevem, com frequência, a transexualidade como uma variante da orientação sexual em relação ao sexo designado e não como uma variante do gênero ou da identidade; em outras palavras, referem-se a uma transexual MtF (de Homem para Mulher, do inglês Male-to-Female) que é atraída por homens como "um homossexual transexual masculino". Atualmente considera-se os termos MtF e FtM como cientificamente imprecisos e clinicamente insensíveis. Hoje tais pessoas seriam chamadas, e provavelmente se identificam, como uma mulher trans-heterossexual (para MtF) e vice-versa para FtM.

Um certo número de pessoas de fora da comunidade transexual mantém o uso de termos em referência a pessoas transexuais associado com seu sexo de nascimento (por exemplo, chamando uma mulher transexual como "ele"). Esse uso é considerado no mínimo uma insensibilidade. Mulheres transexuais, não confundir com travestis, palavra que vem de trans-vestir, que sequer almejam uma cirurgia de reatribuição de sexo, preferem ser chamadas como "elas" no convívio social.

Transexualidade não deve ser confundida com crossdressing ou com o comportamento drag queen, que podem ser descritos como transgêneros, mas não transexuais, também, o fetichismo da travestilidade normalmente não tem quase nada, ou nada, a ver com transexualidade, pois não apresenta o desejo real pela mudança de sexo. Nessa mesma linha também é necessário separar o fetichismo da travestibilidade das travestis que se identificam, de forma contumaz, com o sexo oposto ao do nascimento.

Terminologia miniaturadaimagem|Thomas Beatie, conhecido por ser um homem trans que deu à luz três bebês, no Stockholm Pride 2011. O gênero dos termos usados para descrever pessoas transexuais sempre se refere ao gênero-alvo. Por exemplo, um homem transexual é alguém que foi identificado como fêmea no nascimento em virtude de seus genitais, mas identifica-se como um homem que está em transição para um papel social de gênero masculino e um corpo reatribuído como masculino (um termo alternativo usado em inglês é transexual FtM - female-to-male transsexual - ou homem transexual).

Todos os que pesquisam o assunto precisam estar atentos para o fato de que alguns textos médicos antigos fazem referência ao sexo original da pessoa, em vez de ao sexo-alvo; em outras palavras, referindo-se a uma transexual MtF (Masculino para Feminino) como "um transexual masculino". Essa forma está fortemente em desuso e é considerada inadequada e ofensiva.

A utilização de "transexual" como substantivo, em vez de adjectivo (homem transexual, mulher transexual, pessoa transexual), também é considerada desumanizadora, e está a cair em desuso.

Certas pessoas preferem o termo transexuado sobre transexual, pois consideram que a palavra "sexual" encontrada em transexual é um erro. Outra justificativa feita para tal preferência é que sentem que esta está mais próxima do termo intersexo. Muitos grupos transexuais abriram espaço para intersexos porque sentem que ambos os grupos possuem muito em comum. Por algumas definições é possível ser tanto intersexuado como transexuado. Outras tentativas de evitar interpretações errôneas da junção com a base -sexual têm tornado aceitável o uso de "transgênero".

Aspectos históricos

Não existem referências disponíveis a respeito de pessoas transgênero antes do Império Romano.

Filo, filósofo judeu helenizado do e morador de Alexandria, segundo Hyde (1994)Hyde JC. Understanding human sexuality (5th ed.). New York: McGraw-Hill. e GREEN (1998),Green R. Mythological, historical and cross-cultural aspects of transsexualism. In: Denny D, editor. Current concepts in transgender identity. New York: Garland Publishing; 1998. p.3-14. descreve homens que se travestiam e viviam como mulheres, chegando até a se emascular e retirar o pênis. Seriam os chamados eunucos, termo que deriva da expressão grega para guardião ou zelador do leito. Aqueles que guardavam, sem riscos, os leitos das mulheres de seus senhores.Friedman DM. Uma mente própria Tradução de Ana Luiza Dantas Borges. Rio de Janeiro: Objetiva; 2002.

GREEN (1998) cita descrições e poemas feitos pelos romanos Manilo e Juvenal acerca desses indivíduos que viviam e se comportavam como mulheres e tinham vergonha e ódio de serem vistos como homens. Esses eunucos, em Roma, tinham os testículos extirpados, mas muitas vezes mantinham seus pênis, o que lhes possibilitava ereções. Alguns, todavia, tinham os testículos e pênis removidos.

thumb|Nero por ter remorsos de matar a esposa grávida transformou Esporo, um escravo, em mulher e se casou com este

Vários imperadores romanos são descritos por se travestirem (transexuais, travestis e transgêneros) ou apresentarem características afeminadas. Contudo, dois casos merecem destaque. O primeiro diz respeito a Nero que após chutar sua esposa grávida, Popeia Sabina, até a morte, arrependeu-se e, tomado de remorsos, buscou alguém parecido com ela. Encontrou em um escravo, Esporo, essa semelhança. Nero então ordenou a seus cirurgiões que o transformassem em mulher. Após a cirurgia os dois se casaram formalmente – inclusive com direito a véu de noiva e enxoval – e Esporo viveu como mulher a partir de então.Gregersen E. Práticas sexuais. Tradução de Antonia Alberto de Toledo Serra e Edison Ferreira. São Paulo: Rosa; 1983.

Já o imperador romano Heliogábalo casou-se formalmente com um poderoso escravo, adotou o papel de esposa e oferecia metade de seu império ao médico que o equipasse com uma genitália feminina. thumb|esquerda|A Papisa Joana que supostamente foi o Papa João VIII