O Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) é a infantaria naval da Marinha do Brasil. Seus componentes operacionais são a Força de Fuzileiros da Esquadra (FFE), subordinada ao Comando de Operações Navais, no estado do Rio de Janeiro, e os Batalhões de Operações Litorâneas e de Operações Ribeirinhas, subordinados aos Distritos Navais ao longo do litoral e das bacias amazônica e platina. A FFE é sua principal força de desembarque, com um núcleo de três batalhões de infantaria e sua própria artilharia, blindados terrestres e anfíbios, forças de operações especiais e outros elementos de apoio.

Traçando suas origens à Brigada Real de Marinha da Marinha Portuguesa, os fuzileiros navais brasileiros serviram no século XIX embarcados e desembarcados dos navios da Armada Imperial. No século seguinte, viram-se relegados a uma tropa de guarda, inspirada em grande parte no Exército Brasileiro. Nas lutas políticas, tinham tradição de legalismo. Só a partir de 1950 o CFN adquiriu uma verdadeira capacidade anfíbia, sob duradoura influência do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC).

A mobilidade do CFN depende da Esquadra e dos helicópteros da Aviação Naval. Sua capacidade anfíbia varia historicamente conforme a disponibilidade de navios e a atenção dada a outras prioridades, como a contrainsurgência, durante a ditadura militar, e as operações de garantia da lei e da ordem, no atual ordenamento político. A participação nas forças de manutenção da paz das Nações Unidas é frequente e a Estratégia Nacional de Defesa, publicada em 2008, estipulou que o CFN deve ser uma força expedicionária, de pronto emprego, para a projeção de poder da Marinha. No entorno estratégico brasileiro, isto exige capacidades para operações urbanas, da ajuda humanitária à guerra, em países em crise.

Como quadro de pessoal, o CFN é um dos componentes da Marinha com oficiais formados na Escola Naval, ao lado dos Corpos da Armada e da Intendência, e a nomenclatura de suas patentes é quase idêntica aos demais. Seus oficiais podem ascender até a patente mais alta em tempo de paz. Os fuzileiros navais são militares voluntários e profissionais, escolhidos em concurso público e sujeitos a um ciclo de exercícios militares com assaltos anfíbios (Operação Dragão) e emprego de munição real em terra (Operação Formosa). Eles se distinguem por um ethos próprio, ao mesmo tempo terrestre e marítimo, que pode ser comparado ao da infantaria das demais forças.

História Origens miniaturadaimagem|Desembarque na Caiena pela Brigada Real da Marinha em 1809. Óleo sobre tela de Álvaro Martins.|esquerda A história oficial do CFN começa em 7 de março de 1808, na chegada da corte portuguesa ao Brasil, tornando-o a infantaria naval mais antiga da América Latina. Refugiando-se da invasão francesa de seu país, a família real portuguesa, transplantada para sua colônia no Brasil, trouxe consigo a Brigada Real da Marinha. Este era um corpo de artilheiros marinheiros, fuzileiros marinheiros, artífices e lastreadores, fundado em 1797 e antecessor também do atual Corpo de Fuzileiros da Marinha Portuguesa. Os antecedentes históricos da infantaria naval e da guerra anfíbia no Brasil são mais profundos: em 1625 o Terço da Armada já realizava desembarques na reconquista da Bahia contra os ocupantes holandeses.

A conquista da Guiana Francesa em 1809 é considerada o batismo de fogo do CFN, com a ressalva de que seus participantes eram portugueses recém-chegados da Europa. Embarcados na esquadra proveniente do Rio de Janeiro, os fuzileiros marinheiros desembarcaram nas praias de Caiena, capital da colônia francesa, após a eliminação dos pequenos fortes no litoral. A Brigada Real da Marinha combateu em terra até a vitória portuguesa, retornando então ao Rio de Janeiro, onde foi instalada na Fortaleza de São José da Ilha das Cobras, sede até hoje do CFN. Acompanhando as esquadras, ela combateu nos anos seguintes na primeira Campanha da Cisplatina, a Guerra contra Artigas e a Revolução Pernambucana.

Quando D. João VI retornou a Lisboa, em 1821, deixou destacado no Rio de Janeiro um Batalhão de Fuzileiros-Marinheiros da Brigada Real de Marinha. A serviço do Príncipe Regente D. Pedro, esta unidade participou da Guerra de Independência do Brasil, empreendendo desembarques e bombardeios contras as forças leais a Portugal.

Brasil Império miniaturadaimagem|Uniformes entre 1808 e 1862 Logo após a Independência, em 1822, a unidade mudou de nome para Batalhão de Artilharia da Marinha do Rio de Janeiro. Nesta primeira fase, o CFN era uma artilharia de marinha, também denominada Imperial Brigada de Artilharia de Marinha (1826) e Corpo de Artilharia de Marinha (1827). Ele era um dos dois quadros de pessoal da Marinha de Guerra, ao lado do Corpo da Armada, e o único efetivamente militarizado. Seu comandante era um oficial do Exército, que exercia cumulativamente o comando da Fortaleza de São José. As campanhas militares eram em grande parte marítimas, pois o deslocamento terrestre era difícil. No turbulento período regencial (1831–1840), o Corpo de Artilharia de Marinha foi empregado contra revoltas internas e protagonizou ele mesmo uma delas, em 6 de outubro de 1831, culminando no bombardeio da Ilha das Cobras pela Armada e sua ocupação pelo Exército e Guarda Nacional.

A força foi renomeada Corpo de Fuzileiros Navais (1847) e Batalhão Naval (1852), tornando-se uma infantaria de marinha. O efetivo era composto do Corpo de Artilharia e oficiais do Corpo da Armada em comissão. Em 1852, serviam 64 oficiais e 1 216 praças organizados em oito companhias de fuzileiros e duas baterias de artilharia. Era um efetivo pequeno, comparado ao Exército.

miniaturadaimagem|Batalha do Riachuelo, em 1865. Os fuzileiros navais serviram embarcados nos navios da Armada|esquerda A estabilidade interna do reinado de Pedro II, após 1840, direcionou as operações militares ao conflito interestatal na bacia do Prata. Na Guerra contra Oribe e Rosas, Guerra do Uruguai e Guerra do Paraguai, os fuzileiros garantiram a disciplina a bordo, operaram os canhões dos navios, realizaram abordagens, desembarcaram com o Exército nas margens de rios, tomaram e guarneceram fortalezas e vigiaram os rios em pequenas embarcações. Na Batalha do Riachuelo (1865), lutaram corpo a corpo na defesa das suas embarcações. Em 1867, construíram uma estrada de ferro de cinco milhas no Chaco paraguaio. Os três batalhões de infantaria atuais são nomeados em homenagem às batalhas do período (Riachuelo, Humaitá e Paissandu), assim como o Batalhão de Operações Especiais (Tonelero).

361 fuzileiros morreram em combate no período. Após a Guerra do Paraguai, os anos 1870 e 1880 foram passados sem combate e o efetivo baixou a 900 militares. Os fuzileiros foram relegados à guarda de instalações navais e às operações de ordem interna, como nos protestos populares da "Revolta do Vintém" (1879–1880). Anteriormente, em 1864, eles já haviam reprimido uma greve dos trabalhadores portuários de Santos. Em 15 de novembro de 1889, 400 fuzileiros juntaram-se às forças do Exército na Proclamação da República.

Primeira República miniaturadaimagem|Metralhadora do Batalhão Naval em área destruída na revolta de 1910 A crise dos primeiros anos da República viu o Batalhão Naval alinhado ao restante da Marinha contra o governo de Floriano Peixoto. Sua derrota na segunda Revolta da Armada (1893–1895) destruiu a Fortaleza de São José no bombardeio legalista e dissolveu o batalhão. A anistia em 1895 permitiu sua reorganização. 216 praças de bom comportamento do antigo batalhão foram readmitidos, juntamente com 184 oriundos do Exército. A nova unidade era denominada Corpo de Infantaria de Marinha até 1908, quando retornou ao nome de Batalhão Naval. Conforme Os Fuzileiros Navais na história do Brasil (2008), uma história de teor institucional, nessa época "o Batalhão foi considerado, por consenso público, o mais correto e exercitado de todos os batalhões da guarnição do Rio de Janeiro".

Marinheiros e fuzileiros navais tinham funções totalmente distintas, e estes, em serviço de bordo, eventualmente reprimiriam aqueles. As origens sociais e os regulamentos disciplinares, por outro lado, equivaliam. Dias após a Revolta da Chibata dos marinheiros em 1910, espalhou-se entre os fuzileiros um boato de que a abolição dos castigos corporais, obtida pelos marinheiros, não se aplicaria a eles. Em 9 de dezembro, parte dos praças insurgiu-se e ocupou o quartel. A revolta isolada foi facilmente esmagada, ao saldo de 26 mortos, muitos fuzileiros expulsos e avarias graves na Fortaleza de São José. Segundo o fuzileiro Manoel Caetano Silva, foi a "extinção quase completa de mais uma geração de Fuzileiros Navais". Desde então, o CFN não homenageou nenhum rebelde, mas nunca mais usou a chibata na disciplina.

A tradição dos fuzileiros era de fidelidade aos chefes supremos. O governo Artur Bernardes, acossado por revoltas militares tenentistas, transformou o batalhão no Regimento Naval, expandindo seu efetivo de 600 para 1 500 homens. Os praças eram em sua maioria do Norte e Nordeste do país. Desde 1910 evitava-se a predominância dos cariocas, que a instituição culpava por deserções frequentes. O Nordeste, assolado pelas secas, era fonte de mão de obra para o Rio e outros estados do Sudeste. O uniforme, emprego, moradia e autoridade atraíam os voluntários, mas muitos pediam desistência ou baixa pela disciplina rigorosa e rotina exigente que encontravam.

miniaturadaimagem|3.ª Bateria de Artilharia do Regimento Naval em 1929|esquerda Não havia oficiais fuzileiros navais até então. O Batalhão Naval era comandado por oficiais do Corpo da Armada, formados na Escola Naval, e os serviços técnicos eram executados por suboficiais da Armada. A reforma de 1924 permitiu pela primeira vez a promoção de praças fuzileiros a postos de oficial. Sem terem cursado na Escola Naval e de posição social inferior, eram tidos como oficiais de segunda categoria pela Armada. O Regimento Naval em si era visto como tropa de guarda e não uma elite.

Na Revolução de 1930 os fuzileiros navais, integrados a destacamentos do Exército, foram novamente defensores do governo constituído — no momento, Washington Luís. Após sua derrubada num golpe militar na capital, os fuzileiros que haviam sido aprisionados em Santa Catarina fizeram o caminho de volta integrados aos revolucionários triunfantes. Na parada de 30 de outubro, o Regimento Naval desfilava no Rio de Janeiro leal ao novo governo.

Era Vargas miniaturadaimagem|Desfile no Rio de Janeiro durante a Revolução Constitucionalista Dentre as reformas militares do governo Getúlio Vargas, em 29 de fevereiro de 1932 o Regimento Naval recebeu a sua denominação atual de Corpo de Fuzileiros Navais, com efetivo autorizado de 2 524 homens. O aprimoramento profissional foi buscado na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO) e Escola de Sargentos de Infantaria (ESI) do Exército; o curso da EsAO seria obrigatório aos capitães-tenentes do CFN até 1990. Estes oficiais, a partir de 1937, ingressavam na carreira pela Escola Naval, assim como seus equivalentes no Corpo da Armada. Os praças só subiriam ao oficialato pelo Quadro Auxiliar de Fuzileiros Navais.

Defendendo o governo Vargas, fuzileiros navais combateram na Revolução Constitucionalista de 1932 e nas insurreições comunista (1935) e integralista (1938). Em 1932, desembarcaram em Parati para marchar ao flanco direito dos constitucionalistas, além de servir embarcados na frota que bloqueou os portos de São Paulo. Os fuzileiros ganhavam projeção política, estratégica e mesmo social. Embora vistos como uma tropa reservada e concentrada nas suas tarefas, sua banda marcial fez sucesso nas praças e rádios a partir dos anos 40. Em duas pinturas de Alberto da Veiga Guignard, Os noivos (1937) e A família do fuzileiro naval (1938), a farda e a condição de fuzileiro aparecem como símbolos de orgulho de famílias negras.