thumb|right|250px|Piões 250px|thumb|Freestyle Pião (ou pinhão, como é chamado em algumas partes do Brasil, em corruptela de pião;CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro, Ediouro, Rio de Janeiro, 10ª ed., s/d, ISBN 8500800070 xindire, em Maputo; n'teco, em Nampula e mbila, no Niassa, em MoçambiqueBrinquedos Infantis - a boneca, o pião e o cavalo de pau , António Costa, ensaio, pesquisado em 21 de novembro de 2007, às 03:43) é o nome dado em português aos vários tipos de brinquedo que consistem, na brincadeira clássica e antiga, em puxar uma corda enrolada a um objecto afunilado, geralmente de madeira ou plástico e com uma ponta de ferro, colocando-o em rotação no solo, mantendo-se erguido. Atualmente, há novos materiais para piões e esses materiais permitem girá-los sem a utilização de uma corda. Nos piões mais antigos, a corda é o intermerdiário que transmite a força motriz dos braços, fazendo girar o pião em movimentos circulares em torno do próprio eixo que, em equílibro, gira (por causa da inércia) até perder sua força e parar.
Os piões mais simples são feitos de plástico ou de madeira e giram apenas com a força dos dedos (sem o auxílio e cordas ou molas), até pararem devido ao atrito com a superfície. Quanto mais rápido o pião estiver girando, mais equilibrado ele fica. Dependendo da superfície o pião pode não girar corretamente.
Ao longo da história, seu uso vem variando da mais simples brincadeira de criança até instrumento de adivinhação e xamanismo. De fato, acredita-se que esta brincadeira (jogo), de origem arcaica, está associada com rituais de adivinhação e interpretação de presságios em certas épocas do ano, utilizando-se o pião para recriar o movimento dos astros, dando possivelmente como fruto a perinola.Del Almendrón a La Perinol’: Cafres y Bonanzas Colombianos Vistos Desde El Filo Del Caos. Bernardo Pérez Salazar, Macoa, 1999.
Para as comunidades hispânicas (e também do Japão e anglófonas) existe uma ligeira variante do pião, chamada de trompo, na verdade o mesmo pião com um corpo mais bojudo, cuja nomenclatura pode variar segundo o lugar e a época.Beatriz Figueroa, Mariana Aillon y Gloria Sanzana Baila, Baila, Trompo de colores Universidad de Concepción, Marzo 2006. Existem também múltiplas denominações derivadas do termo "pião", consideradas incorretas em espanhol.http://www.tebytib.com/gest_web/proto_Seccion.pl?rfID=24&arefid=1040 Peonza, trompo, peón o piuca. Nos países lusófonos, entretanto, é adotado o termo pião para designar este brinquedo.
Foi um dos brinquedos mais populadores e difundidos na América Latina e no sul da Espanha, sendo substituído gradativamente por jogos/brinquedos das novas gerações. Sem dúvida, na tentativa de subsistir a tradição, os fabricantes de piões revolucionaram o conceito: atualmente encontram-se piões impulsionados por molas e métodos de fricção diferentes da corda. Novos modelos de piões, como o Beyblade e o Levitron, ainda possuem certa vigência no mercado e tem se desenvolvido uma estrutura em torno deles que vão das tradicionais brincadeiras até elaboradas competições freestyle (estilo livre).
História A origem do pião é incerta ainda que se tenha conhecimento de sua existência desde o ano 4000 a.C., já que foram encontrados alguns exemplares, elaborados com argila, nas margens do rio Eufrates. Há vestígios de piões em pinturas antigas e em alguns textos literários que citam o brinquedo/jogo. É citado também nos textos de Catão, o Velho, político e historiador romano. Além disso, o pião aparece nos escritos de Virgílio, destacando-se em sua obra Eneida (século I a.C.).. Da mesma forma, se tem encontrado piões pertencentes à civilização romana. No Museu Britânico, é conservado o pião mais antigo do mundo, encontrado em Tebas e datado de 1250 a.C..
A Platão o pião servia como metáfora do movimento e Aristófanes se confessava aficionado pelo objeto. O poeta romano Ovídio também menciona o pião em seus poemas. Aulo Pérsio Flaco (34 - 62), outro poeta romano, dizia que "em sua infância teve mais afeição ao pião do que aos estudos".Oreste Plath Antología: Origen y folklore de los juegos en Chile. Págs. 203-208. Durante umas escavações realizadas em Troia foram encontrados alguns piões feitos de barro e outros exemplares têm sido desenterrados em Pompeia. thumb|esquerda|200px|Um pião de origem japonesa Os romanos e os gregos tinham este elemento como brinquedo. No entanto, as culturas do Oriente - China e Japão - foram os responsáveis por sua introdução no Ocidente. No Japão, adultos e crianças brincam (jogam) com o pião convertendo este aspeto lúdico a uma verdadeira arte e desta forma executam numerosos espetáculos, dentre estes destaca-se aquele em que, juntamente depois de lançar o pião, utilizando um tipo de fita para fazê-lo bailar na palma das mãos ou em tábuas duplas passando de uma a outra.Antología: Origen y folklore de los juegos en Chile. Págs. 203-208.
Também há diversos exemplares de piões no México e na Argentina que são testemunhos de sua permanência no tempo. thumb|right|250px|"Criança com pião", pintura de Jean Siméon Chardin (óleo sobre tela, 1738) Alguns pintores têm utilizado piões como motivo em seus quadros, como o espanhol González Ruiz (1640 - 1706), que em sua obra Catedral de Toledo demonstra uma partida de piões. O pintor e gravador chileno, Pedro Lobos (1919 - 1968) utilizou em seus temas o pião. O alemão Manfred Bluth, em sua obra Quadro Familiar (1979), de óleo sobre lona#Lona como material artístico, incorpora em primeiro plano um pião musical
Poetas chilenos têm se inspirado neste brinquedo, como Homero Arce (1901 - 1977), Alejandro Galaz (1905 - 1938), que escreveu Romance de la infância ou trompo de 7 colores ("Romance da infância ou pião de sete cores", em português), Victoria Contreras Falcón (1908 - 1944) que escreveu Trompo dormido ("Pião adormecido", traduzido), ou ainda María Cristina Menares, com Danza del trompo multicolor ("Dança do pião multicolorido", traduzido), incluído em seu livro de poemas para crianças Lunita Nueva ("Luazinha nova", traduzido). Cita-se ainda, o peruano José Diez Canseo que escreveu em seus Estamapas Mulatas em 1951 o conto El Trompo, onde narra como Chupitos, um menino de dez anos, joga o pião com seus vizinhos no bairro de Rímac em Lima. 200px|thumb|Este objeto moderno representa o sistema natural em que os piões giram, sempre dependentes de um material que os una ao chão e que os permitam rodar Além disso, existem selos postais que representam este jogo no Brasil (1979), Argentina (1938), Suíça (1986), Espanha (1989) e Portugal (1989). O pião tem sido considerado como um dos brinquedos mais populares e conhecidos entre os adolescentes até o final da década de 1980. Na era moderna, como a maior parte dos jogos tradicionais, está desaparecendo. Graças ao aparecimento de outros tipos de piões como o beyblade e o levitron, ainda possui certa vigência na indústria de brinquedos. Além disso, têm sido incorporadas novidades em seu desenho visando facilitar seu uso, como os PowerStart, que em sua parte superior possuem um aparato no qual é inserido um dispositivo dotado de um sistema que, ao ser retirado, produz uma força de giro no pião deixando-o cair, evitando o desgaste de ter que recolocar (enrolar) o cordão inúmeras vezes.Turnertoys: "Toy throwing tops - precision molded plastic spinning tops for age 7 up".
Brasil e Portugal As tradições de jogo do pião e ainda mesmo em jogos de adivinhação, são bastante semelhantes nos dois países lusófonos, como demonstram os estudos dos portugueses Jaime Lopes Dias (Etnografia da Beira, VI, 166-167); Augusto César Pires de Lima (Jogos e Canções Infantis, 26-27) e Rocha-Mandahil que, na "Revista Lusitana" (vol. XXVI, Porto, 1927) registrou ter o Arcebispo de Braga e irmão bastardo de Dom João V, Dom Jorge (1703-1756) jogado de modo entusiasmado o pião; e do brasileiro Aluísio de Almeida (in: Revista do Arquivo Municipal, CVIII, São Paulo, 1946) – como regista o folclorista brasileiro Luís da Câmara Cascudo.
Interessante cantiga evoca o pião e sua capa (o barbante), cantada em Portugal: Para andar lhe pus a capa E tirei-lha para andar, Que ele sem capa não anda, Nem com ela pode andar, Com capa não dança, Sem capa não pode dançar; Para dançar se bota a capa, Tira-se a capa para dançar. Teófilo Braga, in "Eras Novas" ("As Adivinhas Portuguesas", p. 254)
Também no Brasil uma adivinhação brota do desafio entre dois cantadores, onde Zefinha de Chabocão argüi a Jerônimo de Junqueira: Gerome, tu pra cantar Fizeste pauta c’o Cão… Que é o passo que tem Nos altos do teu sertão, Que dança só enrolado E sorto não dança não. Dança uma dança firmada C’um pá sentado no chão?
Sobre o caso do Arcebispo Dom Jorge, registou José Reis (1742): «O pião, no qual se simboliza o ímpio e vingativo, é fabricado do coração do pau mais duro. Arma-se com ferro agudo enquanto o cingem: cingido com o cordel, parece um penitente. Com o ferrão para cima, mostra que se acautela de molestar com ele. Porém, tanto que o poder de algum braço lhe dá corda e impulso, vai como um raio, volta o ferro para terra, racha, fere e lastima, ficando tão satisfeito que, em giros, anda campeando; até que, nesta felicidade dormindo e ressonando, serenissimamente acaba a vida que, animada do impulso, lhe durava. Deste jogo, que é de Meninos, podem aprender os homens, especialmente sendo Príncipes, a não darem o seu poder para vinganças sem ofensas»
Terminologia Sobretudo entre as crianças e nas diversas regiões e países lusófonos, alguns termos servem para complementar as denominações do pião. Seu diminutivo é piorra ou pitorra FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993, 2ª edição - sendo que, em Portugal, a pitorra é um outro tipo de pião, que possui uma pequena haste, diferindo deste principalmente porque no pião o movimento só ocorre com um impulso, ao passo que na pitorra são dados diversos impulsos. No Brasil a pitorra lusa chama-se carapeta ou carrapeta. Em Portugal, há ainda a piasca,Diciopédia 2005 (Porto Editora). Piasca. que pode ser simplesmente um pião mais pequeno, usualmente para os jogos das meninas,Piasca, para meninas. ou um tipo diferente de pião, de tamanho reduzido e que se lança friccionando os dedos indicador e polegar, isto é, sem cordel (piasca pode ainda, no jogo do pião-das-nicas, referir-se ao pião que fica no centro do círculo, que vai ser "atacado" pelos outros piões).
A linha ou barbante de enrolamento chama-se, nalgumas partes, de fieira,Jogos Antigos , sítio especializado em atividades lúdicas, pesquisado em 20 de novembro de 2007, às 22:12 capa, cordel.
O pião, quando se move com tanta velocidade que parece estar parado, diz-se estar dormindo, no Brasil.
Estrutura do pião Corpo O pião é um corpo que pode girar sobre uma ponta que se situa no centro gravitatório de forma perpendicular ao eixo (ângulo) de giro, equilibrando-se sobre a ponta graças à velocidade angular, que permite o desenvolvimento do efeito giroscópico. Normalmente, como foi dito anteriormente, é utilizado como brinquedo e já foi usado como instrumento em jogos de azar e para realizar profecias e outros rituais.
O efeito giroscópico permite que se mantenha sobre sua ponta até que o vetor peso (massa · gravidade) termina por se inclinar em relação ao eixo, provocando uma variação na localização do centro de gravidade. Isto provoca uma variação na trajetória de giro, que começa a descrever círculos propiciando a queda do pião. Desta maneira, a queda é diretamente proporcional ao mencionado ângulo e ao vetor peso, e inversamente proporcional à velocidade de giro.
Sendo: g: Vetor gravidade. m: Massa. c.m.: Centro de massas. r: Vetor distância entre o centro de massas e o ponto de apoio. L: Vetor movimento angular da força. θ: Ângulo de inclinação do pião perpendicular ao solo.