thumb|300px|A Assembléia Constituinte reunida em Eidsvoll (1814)

A história da Noruega independente diz respeito ao período da história nacional norueguesa que vai de 1905 até os dias atuais. Alguns autores, contudo, preferem considerar o ano de 1814, ano de promulgação da primeira Constituição nacional, como marco da independência norueguesa. Começando o século XX como uma nação majoritariamente agrária, a Noruega se industrializou rapidamente na primeira metade do século, se tornando modelo em matéria de direitos humanos e bem estar social. A história da Noruega independente também foi caracterizada por políticas progressistas de direitos civis, como o pioneirismo no sufrágio feminino , na união civil gay e nas leis anti-discriminatórias . O século XX norueguês é também um período de crescente perda de influência por parte da Igreja Nacional, o que faz da Noruega hoje um dos países mais seculares do mundo.

Construção do Estado Nacional

Até 1814, a Noruega permanecera parte do Reino dinamarquês. Em 1814, contudo, um grupo de "notáveis" noruegueses promoveu a instituição de uma Assembleia Constituinte na pequena cidade de Eidsvoll (ao norte de Oslo), na qual se reuniram representantes eleitos por proprietários rurais maiores de 30 anos. O estopim para a crise havia sido a participação do reino dano-norueguês nas guerras napoleônicas e a iminente entrega da Noruega à Suécia como recompensa pelo papel da Dinamarca como aliada do derrotado imperador francês.

Em pouco menos de um mês, a Assembléia Constituinte estabeleceu uma carta liberal, na qual se estabelecia um parlamento de representantes eleitos (Storting), a soberania do povo, a divisão dos poderes, a liberdade de imprensa, etc. Também se mantinha a instituição monárquica como representante máxima do poder executivo, para a qual a Assembleia designou como rei o príncipe herdeiro dinamarquês, Christian Frederik (que reinou com o nome de Cristiano VIII).

A separação da Noruega foi mal recebida pelas potências europeias e pela Suécia que, no entanto, tentando evitar um conflito militar, negociaram a substituição do príncipe dinamarquês eleito. O marechal João Batista Bernadotte, que, posteriormente, reinou com o nome de Carlos XIV João, convenceu a Noruega a aceitar o Tratado de Kiel como um mal menor, estabelecendo um compromisso entre os dois territórios. As Atas de União de 1815 deram ao país uma ampla autonomia. Desta forma, a Noruega passava a fazer parte do reino sueco, embora com considerável autonomia política: o rei da Suécia seria representante do Poder Executivo de ambos os países, mas a autonomia do Legislativo e do Judiciário estava garantida.. A mudança permitiu a manutenção da Constituição Norueguesa.

Embora a participação popular no processo de independência da Noruega tenha sido insignificante (os artífices da independência eram, em sua maioria, oficiais formados em Copenhague, clérigos, juristas, etc.), o ano de 1814 foi posteriormente reconhecido como marco nacional, e o dia 17 de maio (data da proclamação da nova Constituição) é guardado até hoje como Dia Nacional da Noruega.

1814 – 1905

No século XIX, a população norueguesa cresceu mais rapidamente que em qualquer outro período da história, e passou de 883 000 habitantes em 1801 para 2,24 milhões em 1900. Produziu-se também um importante movimento migratório do campo para as cidades, de forma que, no fim do século XIX, a população urbana representava 28% do total, contra 8,8% no início do século.

O século XIX norueguês foi marcado pela lenta instituição do princípio de liberdade religiosa, pela acelerada formação de associações políticas, pela emigração para a América e pelo debate acerca da autonomia política. Antes de 1814, o Estado Norueguês dispensava um tratamento duro aos religiosos dissidentes, como fez com Hans Nielsen Hauge, preso pelo regime dano-dinamarquês por criticar o clero oficial, vinculado ao Estado. Com o advento da nova ordem política, pouco a pouco foram surgindo novas associações religiosas dissidentes, sobretudo com a queda da legislação "contra conventículos" (1741) em 1842. Entre elas estavam as missões de evangelização, como a Sociedade Missionária Norueguesa (1845) e a Sociedade Norueguesa para Evangelização Nacional (1868). Também surgiram várias igrejas desvinculadas do Estado Norueguês, como as igrejas batistas e metodistas.

Os agricultores foram uma classe particularmente ativa durante esse período. Associados em organizações como os "Amigos do Agricultor" (1872), estes homens pressionavam intensamente o parlamento em busca de benefícios para sua categoria. É importante notar que, com a emigração acentuada para a América (cerca de 800 mil pessoas) e devido a uma legislação que facilitava a compra da terra, os pequenos agricultores se tornaram a categoria mais abrangente da sociedade norueguesa no século XIX.

A elite norueguesa era composta, sobretudo, por uma rica e influente camada de funcionários públicos. Apesar da oposição do monarca autocrático Carlos XIV, em 1821 o parlamento suprimiu os títulos nobiliárquicos criados pelos dinamarqueses. Os ricos comerciantes de minérios foram prejudicados prejudicados pelas guerras europeias do começo do século. Seu filho Oscar I aceitou muitas das reclamações norueguesas.

O movimento liberal e os sentimentos nacionalistas aumentaram depois das revoluções de 1848. Movimentos, como o "Movimento da Juventude Livre", de caráter nacionalista, e os Thranitanos, precursores dos trabalhistas, caracterizaram a história política e cultural da Noruega neste século.

O sufrágio masculino universal foi sancionado em 1898, no que a Noruega foi um país pioneiro.

Romantismo Norueguês

thumb|right| gravura neorromântica do artista norueguês Theodor Kittelsen

O ato fundador de 1814 foi seguido, sobretudo nas décadas de 1840 e 1850, por uma intensa atividade de artistas e políticos pela busca do "espírito" norueguês. A arte da época frequentemente representava temas do folclore escandinavo, como tróis e outros seres da mitologia nórdica. Representações da bucólica paisagem norueguesa e da vida cotidiana, leituras do mítico passado viquingue e dos ritmos populares eram recorrentes na produção artística da época, célebre por compositores como Edvard Grieg, dramaturgos como Henrik Ibsen e pintores como Hans Gude e Theodor Kittelsen.

1905: Independência

O fortalecimento do poder dos agricultores no parlamento forçou a aprovação das leis da representação municipal e das estradas (1827), que reduziam o poder da elite de funcionários públicos (e, por conseguinte, do rei sueco) sobre a administração das cidades. Entre 1850 e 1870 a pressão dos agricultores por mudanças constitucionais se intensificou: a categoria reivindicava a introdução de júri popular, a introdução de sessões parlamentares mais frequentes e longas (estas ocorriam durante três meses a cada três anos) e a presença dos ministros nas sessões parlamentares.

A disputa pela ampliação do princípio de representação era, na essência, uma disputa entre os agricultores de um lado, e a classe de oficiais noruegueses e a corte sueca, de outro. Logo surgiram dois proto-partidos, a "esquerda" (Venstre), ou Partido Liberal, e a "direita" (Høgre), ou o Partido Conservador. Enquanto o primeiro defendia que o parlamento deveria ter mais poderes, o segundo advocava a supremacia do rei e seus oficiais. Em 1860, a Suécia começou a propor a revisão das Atas de União para conceder poderes adicionais à Noruega, mas estes foram boicotados pelo grupo Venstre.

O ápice do confronto entre rei e parlamento se deu na disputa pela submissão dos ministros do governo ao parlamento, princípio defendido pelos liberais e seu eleitorado, os agricultores. Os parlamentares aprovaram quatro vezes uma emenda constitucional que obrigava os ministros apontados pelo rei a comparecerem às sessões do parlamento, mas o rei vetou todas as decisões. A extensão do poder de veto do rei, contudo, foi contestada pelos liberais. Obtendo a maioria nas eleições de 1882, o Partido Liberal instaurou um processo de julgamento constitucional no Supremo Tribunal, formado pelo Lagting, um quarto dos deputados que desempenhavam papel de juízes em julgamentos de constitucionalidade. O julgamento foi favorável aos oposicionistas, e o rei foi obrigado a nomear ministros aprovados pelo Parlamento, como o advogado oposicionista Johan Sverdrup (1816-1892), chefe da resistência nacionalista, que se tornou primeiro-ministro.

thumb|Cartão postal da época do plebiscito norueguês sobre a independência. Nele se diz, "sim, nós amamos este país"

Para agravar a crise, os interesses econômicos de noruegueses e suecos eram patentemente divergentes (a Noruega tinha interesse em abrir seus mercados para a importação de manufaturados, ao contrário da Suécia), e os Noruegueses haviam adquirido um sólido sentimento nacional durante o século XIX. O crescimento do Partido Liberal e, por conseguinte, do parlamentarismo, afastaram cada vez mais os dois países.

thumb|left|O primeiro-ministro norueguês Christian Michelsen recebe o recém-eleito rei da Noruega, Haakon VII, e seu filho, Olavo, após desembarcarem na Noruega em novembro de 1905

O conflito entre o parlamento norueguês e a Coroa sueca durou até junho de 1905, altura em que divergências entre o rei sueco Oscar II e o governo norueguês provocaram a separação dos dois países com a declaração de completa independência do parlamento da Noruega. Um plebiscito ratificou a decisão da assembleia norueguesa, que foi aceita também por Oscar II. Uma segunda consulta popular elegeu a forma monárquica de governo, e o príncipe Carlos da Dinamarca, neto de Cristiano IX da Dinamarca, ascendeu ao trono da Noruega com o nome de Haakon VII. Reinou durante 52 anos até morrer, em 1957.

A separação do reino sueco foi um processo tenso, porém intermediado pelas forças armadas e potências estrangeiras, que também asseguraram a continuidade da monarquia no novo país escandinavo ao estabelecer um príncipe dinamarquês como novo herdeiro da coroa.

1905 – 1914: "Nova Jornada de Trabalho"

thumb|Gunnar Knudsen e Johan Castberg

Rapidamente, o país tornou-se uma democracia. De 1905 a 1907 o governo norueguês foi dominado por uma coligação das alas mais moderadas dos partidos liberal e conservador, sob a égide do primeiro-ministro Christian Michelsen, baseado no chamado "Partido da Coligação" (Samlingspartiet). Seu plano de governo propunha reformas sociais, como a introdução do auxílio doença e da aposentadoria do Estado, visando diminuir a influência dos "socialistas" (Partido Trabalhista) e "semi-socialistas" (radicais do Partido Liberal) sobre o proletariado. Também se mantinha neutro a respeito de alguns dos principais debates da época: as variantes da língua norueguesa e a natureza da Igreja da Noruega. O Partido da Coligação absorveu o Partido Conservador antes das eleições, mas o Partido Liberal ficou dividido.

O resultado das eleições de 1906, contudo, foi desfavorável ao partido da coligação, que conseguiu apenas 33 cadeiras no parlamento. 77 cadeiras foram conquistadas pelo Partido Liberal e 10 pelos socialistas. O Partido Liberal, por sua vez, se dividira em três facções diferentes, uma inclinada à coligação, outra mais tradicional e uma terceira, mais radical, representada por Johan Castberg.

Após uma fracassada tentativa de aproximação com os trabalhistas, a ala radical de Castberg resolveu se aliar à ala mais moderada do partido liberal que, no entanto, não era governista. Esta ala era representada por Gunnar Knudsen. O Partido Liberal Consolidado, facção liberal não governista, defendia reformas sociais amplas e proteção dos recursos hídricos noruegueses contra o domínio do capital estrangeiro.