Ortígia (em italiano: Ortigia; em siciliano: L'Ortiggia; em grego antigo: Ὀρτυγία, transl.: Ortygía) é uma pequena ilha costeira e o centro histórico e coração monumental da cidade de Siracusa, na costa sudeste da Sicília, Itália. Com cerca de 1,5 km de extensão e 0,45 km² de área, a ilha é separada do continente siciliano por um estreito canal navegável atravessado por duas pontes principais (a Ponte Umbertino e a Ponte Santa Lucia), delimitando dois portos naturais: o Porto Grande (*Porto Grande*) a oeste e o Porto Pequeno (*Porto Piccolo* ou *Lakkios*) a leste.

Povoada desde a Idade do Bronze por tribos sículas, Ortígia foi o local de desembarque dos colonizadores gregos de Corinto liderados por Arquias em 734 ou 733 a.C., fundando a pólis de Siracusa, que viria a se tornar a mais poderosa metrópole da Magna Grécia. Ao longo de mais de 2.700 anos de história contínua, Ortígia acumulou camadas arquitetônicas gregas, romanas, bizantinas, árabes, normandas e catalano-góticas, culminando na monumental reconstrução em estilo Barroco siciliano após o terremoto de 1693. Em 2005, a ilha foi classificada como Patrimônio Mundial pela UNESCO como parte integrante do sítio "Siracusa e a Necrópole Rochosa de Pantalica".

O topônimo provém do grego antigo órtyx (ὄρτυξ), que significa "codorniz", ave migratória abundante na bacia do Mediterrâneo à qual a ilha estava associada em lendas religiosas.

Mitologia Na mitologia clássica, Ortígia possui forte carga sagrada: Nascimento de Ártemis: Segundo a tradição arcaica e os hinos homéricos, a deusa Leto (Latona), perseguida pela fúria de Hera, encontrou refúgio em Ortígia, onde deu à luz a deusa caçadora Ártemis (Diana); em seguida, Ártemis teria ajudado sua mãe na travessia até a ilha vizinha de Delos, onde nasceu seu irmão gêmeo Apolo. Por essa razão, a ilha permaneceu consagrada ao culto de Ártemis durante toda a Antiguidade clássica. A Fonte de Aretusa e Alfeu: A mais célebre lenda da ilha narra a história da ninfa Aretusa, donzela do séquito de Ártemis na região da Élida (Grécia continental). Perseguida com ardor pelo deus-rio Alfeu, Aretusa implorou pela proteção de Ártemis, que a envolveu em uma névoa densa e a transformou em uma vertente subterrânea de água doce. O riacho percorreu as profundezas por baixo do Mar Jônico e emergiu à superfície à beira-mar, na costa ocidental de Ortígia, formando a famosa Fonte de Aretusa. Apaixonado, Alfeu abriu passagem através das correntes marinhas e uniu suas águas às de Aretusa na Sicília. Astéria e Órion: Outra lenda associa o nome da ilha à titânide Astéria, irmã de Leto, que teria se transformado em uma codorniz (*ortyx*) para escapar de Zeus, caindo no mar e dando origem à ilha. O gigante caçador Órion também é citado por Homero na Odisseia como tendo sido levado pela deusa Eos para Ortígia, onde acabou abatido pelas flechas de Ártemis.

História

Antiguidade greco-romana Vestígios de cerâmica e fundações residenciais atestam que Ortígia já era habitada por povos indígenas sículos nos séculos XIV a IX a.C. Em 734 a.C., colonos gregos coríntios fundaram no local a cidade de Siracusa. Devido à sua posição estratégica defensiva e à presença de nascentes perenes de água doce, a ilha serviu como acrópole, núcleo urbano e cidadela militar fortificada da cidade-estado.

Sob os tiranos Gelão I, Hierão I e especialmente Dionísio I (século IV a.C.), Ortígia foi circundada por muralhas maciças de pedra calcária e transformada no quartel-general do governo tirânico e da marinha de guerra siracusana, abrigando palácios fortificados e arsenais para centenas de trirremes. Durante a Segunda Guerra Púnica, Siracusa aliou-se a Cartago, sendo sitiada pelas legiões da República Romana comandadas pelo cônsul Marco Cláudio Marcelo entre 214 e 212 a.C. A cidade resistiu graças aos engenhos bélicos e espelhos incendiários projetados pelo matemático e cientista Arquimedes, nascido e radicado na cidade; após a queda das defesas continentais por traição, Ortígia foi o último reduto a capitular, culminando no saque romano e no assassinato de Arquimedes por um legionário. Na era imperial romana, a ilha permaneceu como residência oficial dos pretores de Roma na Sicília, cenário descrito por Cícero em suas orações contra a corrupção do governador Verres.

Período bizantino, árabe e normando Durante a dominação bizantina, Ortígia atingiu importância geopolítica excepcional quando o imperador Constante II transferiu a capital de todo o Império Bizantino de Constantinopla para Siracusa entre 663 e 668 d.C., instalando sua corte imperial na ilha.

Em 878, após um sítio rigoroso de quase um ano, as tropas aglábidas muçulmanas conquistaram a cidade. O perímetro continental foi abandonado e toda a população remanescente refugiou-se exclusivamente no interior das muralhas de Ortígia, que permaneceu como cidade-fortaleza durante os dois séculos de domínio islâmico na Sicília. Em 1086, os Normandos liderados pelo conde Rogério I da Sicília tomaram a ilha. No século XIII, o imperador Frederico II do Sacro Império ordenou a construção do formidável Castelo Maniace no extremo sul da península para controlar a entrada das frotas marítimas.

Do terremoto de 1693 à era contemporânea Em 11 de janeiro de 1693, o violento sismo de Val di Noto devastou o sudeste siciliano, derrubando grande parte dos edifícios medievais de Ortígia. A reconstrução imediata ao longo do século XVIII adotou a exuberância decorativa da pedra calcária dourada local (*pietra giuggiulena*), convertendo as praças e ruelas da ilha em um dos mais destacados expoentes do Barroco siciliano.

No século XIX, as antigas muralhas espanholas que isolavam a ilha foram parcialmente desmanteladas para permitir a conexão moderna com a parte continental de Siracusa. No pós-Segunda Guerra Mundial, a ilha sofreu com a perda de habitantes para os novos bairros continentais, mas nas últimas décadas do século XX e início do século XXI passou por ampla reabilitação urbana e patrimonial, tornando-se o coração cultural, residencial e turístico de Siracusa.

Bairros históricos A malha urbana medieval e renascentista de Ortígia divide-se tradicionalmente em bairros ou distritos históricos (*rioni*): Graziella (Razziedda): Antigo bairro dos pescadores, situado no noroeste da ilha, com vielas estreitas e arquitetura residencial popular de influência árabe-mediterrânea. Giudecca (Jureca): Histórico bairro judaico de Siracusa, habitado por uma próspera comunidade judaica até o édito de expulsão de 1492 promulgado pelos Reis Católicos. Preserva o mais antigo micvê (banho ritual judaico) subterrâneo da Europa. Duomo: Centro cívico e religioso em torno da Piazza del Duomo, concentrando a catedral, palácios aristocráticos e edifícios governamentais. Mastrarua (Masciarrò): Bairro nobre e comercial que se estende ao longo da Via Maestranza, marcado por solares catalães e palacetes barrocos com varandas de ferro forjado. Spirduta e Bottari: Bairros centrais de feição artesanal e residencial tradicional. Castello: A ponta meridional extrema, dominada pelo complexo fortificado do Castelo Maniace.

Patrimônio arquitetônico e principais atrações

Edifícios religiosos Catedral de Siracusa (Duomo di Siracusa): Um monumento ímpar na história da arquitetura mundial. A catedral barroca incorpora em suas paredes e nave central o templo dórico grego de Atena, erguido no século V a.C. pelo tirano Gelão após a vitória sobre os cartagineses na Batalha de Hímera (480 a.C.). As gigantescas colunas gregas caneladas são visíveis tanto na fachada lateral externa quanto no interior da igreja cristã. A fachada principal barroca foi projetada pelo arquiteto Andrea Palma entre 1728 e 1753. Templo de Apolo: Localizado na entrada da ilha, na Piazza Pancali, data do início do século VI a.C. (c. 565 a.C.) e é o templo dórico períptero em pedra mais antigo de toda a Sicília e da Magna Grécia. Ao longo dos milênios, foi convertido sucessivamente em basílica bizantina, mesquita árabe, igreja normanda e quartel militar espanhol, antes de suas colunas serem redescobertas no século XX. Igreja de Santa Lucia alla Badia: Localizada no extremo sul da Piazza del Duomo, igreja barroca dedicada a Santa Luzia (padroeira de Siracusa, nascida na cidade), célebre por ter abrigado durante anos a monumental tela O Sepultamento de Santa Luzia (1608), obra-prima pintada pelo mestre barroco Caravaggio durante sua fuga na Sicília. Igreja de San Giovanni Battista (San Giovannello): Templo do século XIV com fachada e arcos góticos a céu aberto, situado no coração da Giudecca.

Edifícios militares e civis Castelo Maniace: Imponente fortaleza construída entre 1232 e 1240 pelo arquiteto militar Riccardo da Lentini por ordem do imperador Frederico II de Hohenstaufen. De planta quadrada perfeita com torres cilíndricas nos quatro vértices, possui um portal gótico de entrada com capitéis esculpidos e uma magnífica abóbada de cruzaria de ogivas em seu salão de armas. Leva o nome do general bizantino Jorge Maniaces, que reconquistou a ilha temporariamente aos árabes em 1038. Fonte de Aretusa: Bacia semicircular de água doce natural situada junto ao paredão do cais marítimo, circundada por vegetação espontânea de papiro (um dos raros locais na Europa onde o papiro cresce em estado selvagem). É o mais emblemático símbolo mitológico de Siracusa. Piazza Archimede e Fonte de Diana: Praça central de Ortígia cercada por edifícios renascentistas e ecléticos, abrigando no centro a monumental Fonte de Diana (escultura de 1907 de Giulio Moschetti), retratando a transformação mitológica de Aretusa em fonte pela deusa Ártemis. Palazzo Vermexio: Edifício construído entre 1629 e 1633 pelo arquiteto Giovanni Vermexio em estilo maneirista/barroco, atual sede da Prefeitura de Siracusa (*Palazzo del Municipio*). Sob o seu subsolo encontram-se as fundações de um templo jônico arcaico (*Artemision*). Palazzo Bellomo: Palácio de arquitetura gótico-catalã dos séculos XIII e XIV, atual sede da Galeria Regional de Belas Artes de Siracusa, abrigando coleções renascentistas e medievais com destaque para a pintura da Anunciação (1474), do pintor Antonello da Messina.

Galeria

Ver também Siracusa História da Sicília Magna Grécia Barroco siciliano Fonte de Aretusa Castelo Maniace Patrimônio Mundial na Itália

Referências

Ligações externas

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